Nos últimos meses, a Polícia Federal prendeu ou mirou em investigações um juiz federal, um delegado da própria corporação, o presidente da Assembleia Legislativa do Rio, um deputado estadual, um ex-secretário estadual, um ex-secretário da Polícia Civil e um ex-prefeito da Baixada Fluminense que se preparava para disputar o Senado. Somam-se a eles bicheiros, um pastor, empresários e policiais militares.
Para quem acompanha segurança pública no Rio, é uma lista rara. Pela primeira vez, facções, postos de gasolina, jogo do bicho, gabinetes e togas aparecem na mesma investigação.
E há um detalhe que diz mais que a lista: não foi trabalho da polícia do Rio. Foi da Polícia Federal.
O que cada prisão custa
Não se trata de dizer que essas prisões são ruins. Investigar poder é exatamente o que deveria acontecer, e todos os citados respondem a processos, sem condenação definitiva.
A questão é outra: quanto custa alcançar cada um.
Para prender Sílvio Pantera, um lutador da zona oeste, bastou uma fotografia mostrada a uma vítima em um leito de hospital, acompanhada de uma mentira. Seis anos de prisão saíram disso, sem nenhuma outra prova.
Para chegar a um juiz, a um deputado e a um delegado foi preciso uma operação federal, com meses de investigação, escutas e cooperação entre órgãos.
O caminho barato produz erro em escala. Entre 2012 e 2020, 90 pessoas foram presas injustamente no Brasil por reconhecimento fotográfico, 73 delas no Rio, e 83% eram negras.
A polícia que mata e a polícia que investiga
A polícia do Rio é a que mais mata no país. Não é ela, porém, que chega ao andar de cima.
Amos Wilson tratava a percepção social como instrumento de poder, e não como reflexo neutro da realidade. Em Violência Preta Contra Preto, ele descreve como uma sociedade decide de antemão quem merece suspeita e quem merece o benefício da investigação, muito antes de qualquer prova ser examinada.
A diferença entre os dois casos não é a gravidade do crime. É quanto esforço o Estado considera justo gastar antes de tirar alguém de casa.
Fontes: The Intercept Brasil, Condege e Defensoria Pública do Rio de Janeiro, agosto de 2026.