Horas depois do resultado do primeiro turno, o economista e colunista Rodrigo Constantino, aliado da campanha de Flávio Bolsonaro, publicou um vídeo nas redes chamando Salvador de "lixo" e os baianos, "com todas as boas exceções", de "uma vergonha para o Brasil", associando o ataque ao desempenho do PT no estado.

O que ele disse

"A Bahia é o câncer do Brasil." "Salvador é um lixo!" "Baianos, com todas as boas exceções, em geral, vocês são uma vergonha para o Brasil." Constantino completou citando "dois senadores petistas" e "um governador petista" como prova do que chamou de "papelão", e se adiantou à crítica que esperava receber: "Vai vir a turma da Globo falar que é xenofobia, estou pouco me lixando para isso."

O gatilho: a vitória do PT na Bahia

Jerônimo Rodrigues (PT) foi reeleito governador da Bahia no primeiro turno, com 55,80% dos votos. Rui Costa e Jaques Wagner, ambos do PT, venceram as duas vagas ao Senado. Na disputa presidencial no estado, Lula superou Flávio Bolsonaro por 66,17% a 28,54% dos votos válidos, uma margem de quase 38 pontos, segundo apuração do TSE.

Quem é Rodrigo Constantino

Economista e colunista, hoje na Gazeta do Povo, já passou por Veja, O Globo, Jovem Pan e Record. Preside o Instituto Liberal e cofundou o Instituto Millennium. Foi demitido da Record em 2020 por comentários sobre o caso Mariana Ferrer, e deixou a Jovem Pan em 2023. É apoiador declarado da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência.

A reação

O governador reeleito Jerônimo Rodrigues respondeu: "Essas coisas não cabem mais na civilidade humana. Isso ele ataca no coração do brasileiro e dos baianos." E anunciou que vai buscar medidas na Justiça contra as declarações. "Nós vamos tomar uma providência", disse. Até a publicação desta matéria, não houve retratação do próprio Constantino. A cobertura segue concentrada na imprensa baiana (Bahia Notícias, BNews, Correio24Horas, Aratu On, Jornal Massa) e em veículos como a Revista Fórum, sem repercussão, até agora, nos grandes veículos nacionais.

Transformar divergência eleitoral em ataque a uma população inteira não é novidade. É o manual de sempre: inferiorizar simbolicamente quem não vota como "deveria". A Bahia é o estado com a maior proporção de pessoas pretas do país, segundo o Censo 2022 do IBGE; chamá-la de "câncer" e sua gente de "vergonha" por ter rejeitado maciçamente o candidato de Constantino não é desacordo político, é a velha hierarquia racial falando a língua do resultado eleitoral.

É interessante notar nessa displicência a total falta de preocupação em relação ao preconceito escancarado que as declarações carregam e como a certeza da impunidade motiva e reforça as considerações que reiteramos nessa matéria. Pois a impressão que passa é que, se o baiano não está servindo exatamente como a branquitude espera que ele sirva, ele merece ser tratado como uma doença. Doença grave, essa, que coloca em risco de morte a narrativa de uma sociedade brasileira que ainda vive sob as expectativas de uma sociedade colonial, que só recicla as estratégias para que a manutenção do poder e o acesso aos direitos sigam restritos a uma única parcela da sociedade. E sabemos bem de que parcela estamos falando.

A pergunta que fica é: por que esse tipo de jornalista se sente no dever de nos alertar dessa forma? Por que tamanha indiferença?

Para quem quer entender como esse tipo de discurso virou ferramenta política no Brasil, recomendamos "A Falsificação da Consciência Africana", da Editora Poder Afrikano.

Fontes: Revista Fórum (05/10/2026); Bahia Notícias (05/10/2026); BNews (05/10/2026); Correio24Horas (05/10/2026); Aratu On (05/10/2026); Jornal Massa (05/10/2026); CN1 (governador, 05/10/2026); Exame e Portal do Cerrado (resultado eleitoral, 05/10/2026). Foto: Democracia na Teia/Wikimedia Commons (CC BY 3.0).