Em novembro de 2015, um homem foi esfaqueado e teve o carro levado em Irajá, na zona norte do Rio.
A vítima ainda se recuperava no hospital quando agentes mostraram a ela a fotografia de Sílvio José da Silva Marques, o lutador conhecido como Sílvio Pantera. E disseram, falsamente, que ele já havia confessado o crime.
Nenhuma testemunha o reconheceu. Não havia outra prova. Em 2017 ele foi condenado a 16 anos de prisão.
2.174 dias
É quanto tempo Sílvio ficou preso por um crime que não cometeu. Quase seis anos.
O Superior Tribunal de Justiça considerou ilegal o reconhecimento fotográfico que sustentava a condenação, e ele deixou a prisão em 2021. Em 5 de agosto de 2026, a 7ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Rio reconheceu, por unanimidade, o direito dele a indenização do Estado.
Nesse intervalo, ele se separou da mulher e dos filhos e perdeu a carreira. Hoje trabalha como entregador e dá aula de boxe para crianças em comunidades da zona oeste.
Ele não é exceção. Ele é o padrão.
Um levantamento do Colégio Nacional dos Defensores Públicos Gerais, feito com a Defensoria Pública do Rio de Janeiro, mapeou as prisões injustas provocadas por reconhecimento fotográfico no país entre 2012 e 2020.
Foram 90 pessoas presas sem nenhuma prova além de uma foto no catálogo da delegacia. Ficaram, em média, nove meses atrás das grades. 73 dos 90 casos aconteceram no Rio de Janeiro.
E o dado que resume tudo: negros são 83% dos presos injustamente por esse método. O perfil se repete caso a caso, jovem, pobre e negro.
Sílvio ficou 2.174 dias. A média é de nove meses. Ele passou sete vezes mais tempo preso que a média de um erro que já é rotina.
Fontes: Geledés, Migalhas, Poder360, Condege e Defensoria Pública do Rio de Janeiro, 2024 a 2026.