Em 1916, a administração colonial francesa confiscou em Abidjan um tambor de três metros de comprimento e 430 quilos. Ele foi enviado para a Europa e acabou no acervo do Museu do Quai Branly, em Paris.

Chama-se djidji ayôkwê. É um tambor falante do povo Atchan, e as mensagens rituais tocadas nele alcançavam mais de vinte quilômetros de distância.

Por que ele foi levado

Essa é a parte que costuma ficar de fora quando se fala em saque de arte africana.

O djidji ayôkwê avisava a população sobre as operações de trabalho forçado dos colonizadores e convocava combatentes. Não foi levado como peça de arte. Foi silenciado como meio de comunicação da resistência.

A volta, 110 anos depois

A Costa do Marfim pediu a devolução em 2018, junto com outras 148 peças levadas durante o período colonial. O parlamento francês aprovou por unanimidade uma lei permitindo a restituição.

O tambor desembarcou em Abidjan neste ano e será exposto no Museu das Civilizações da Costa do Marfim.

O que se leva junto com um objeto

Amos Wilson tratava a produção de narrativa histórica como instrumento de poder, e não como registro neutro do passado. Em A Falsificação da Consciência Afrikana, ele descreve o que acontece com um povo quando os próprios instrumentos de memória são retirados de circulação.

Saiu de Abidjan um objeto que servia para alertar uma população inteira. Voltou um objeto de museu. Entre uma coisa e outra passaram 110 anos, e o que se perdeu no caminho não foi a madeira.

Fontes: UNESCO, Africanews, Público e Istoé, 2026.