Julho das Pretas não é só data de homenagem.
É reconhecimento político de que mulheres negras estão fazendo, ao mesmo tempo, o que o Estado não faz, o que a escola não ensina e o que a cultura dominante quer apagar.
Tem mulher negra à frente de terreiro em São Paulo que faz isso há décadas. Ensina o que a escola não ensina. Cura o que o sistema machuca. Organiza o que o Estado quer desmantelar. Transmite conhecimento que atravessou o Atlântico, sobreviveu à escravização, resistiu à perseguição religiosa sistemática e ainda está de pé.
E tem gente no Congresso votando para criminalizar isso enquanto você lê esse texto.
Não é exagero. É o projeto de lei que quer enquadrar religiões de matriz africana como charlatanismo. É o pastor com púlpito em horário nobre atacando candomblé. É o Estado que financia igrejas como "parceiras sociais" e ignora terreiros como "coisa de macumba".
O terreiro ensina o que a escola não ensina porque a escola foi construída para não ensinar isso. O currículo oficial é europeu. A história ensinada começa com a chegada do colonizador. O conhecimento africano não aparece, ou aparece como folclore, exotismo, curiosidade.
Amos Wilson dedicou boa parte de sua obra a essa questão. Em Despertando o Gênio Natural da Criança Preta, ele argumenta que a criança negra que não conhece sua herança cultural é uma criança psicologicamente colonizada. Não por falta de inteligência, mas por ausência de raiz. Sem referência própria, a criança aceita a referência do outro como universal.
Em A Falsificação da Consciência Afrikana, ele vai além: destruir a memória cultural africana não é consequência do colonialismo. É instrumento. A colonização precisou apagar para funcionar. E continua precisando.
Por isso o terreiro é ameaça. Não porque pratica algo errado. Porque pratica algo que funciona fora do controle do Estado, da igreja dominante e do mercado. Um lugar onde o saber não precisa de certificado europeu para ser legítimo. Onde cura não precisa de plano de saúde. Onde memória não precisa de museu.
Soberania epistêmica tem nome e endereço. E quem quer manter o controle sabe disso melhor do que a gente.
Você conhece a história dessas mulheres? Você está apoiando quem está mantendo viva a chama que querem apagar?
Leia a reportagem. Aprenda. Compartilhe. Isso é resistência que cola de verdade.
Fonte: Geledés, julho de 2026.