Ópera do Malandro é um musical de Chico Buarque de 1978, escrito sob a ditadura militar. Chico ambientou a trama na Lapa carioca dos anos 1940, entre contrabandistas, prostitutas e cafetões, e falou do Brasil de 1978 por dentro de outro Brasil. Era o que dava para fazer quando falar direto custava caro.
Max Overseas Navalha é o malandro que move o enredo inteiro: um contrabandista que se casa com a filha dos donos de um bordel para subir na vida, e detona uma engrenagem de corrupção, chantagem e traição.
A montagem
A direção é de Jorge Farjalla, com direção musical de Gui Leal. A leitura cruza o texto de Chico com A Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht, de onde a obra original já vinha, e acrescenta referências de umbanda e das entidades de rua.
No elenco, Totia Meireles é Vitória Régia, Carol Costa é Teresinha, Amaury Lorenzo é o delegado Chaves, Edgar Bustamante é Duran e Valéria Barcellos vive Geni. A produção é da Palco 7 Produções e da Solo Entretenimento, com produção geral de Griesi.
Max é dividido em alternância entre José Loreto e Tiago Barbosa. Tiago é o ator que o Brasil conheceu como Milton Nascimento em Clube da Esquina: Os Sonhos Não Envelhecem. Ele morava na Espanha e voltou para este texto.
Conversamos com ele no Rio. A entrevista sai na íntegra, com as respostas como ele as deu.
1. O que te prendeu no Max Navalha? Tem alguma coisa nele que você precisou entender antes de conseguir interpretá-lo de verdade?
Primeiro, foi para mim uma delícia o convite, quando o Griesi [produção geral] me chamou para poder fazer parte desse espetáculo, protagonizar ao lado do Loreto.
A primeira coisa foi mergulhar um pouco nessa obra, nas músicas, para poder entender um pouco o contexto. Eu já conhecia bastante coisa do próprio espetáculo, mas, ao mesmo tempo, entender como eu poderia fazer essa obra dentro dessa tessitura vocal, que é uma tessitura vocal um pouco mais grave que a minha, para ir encontrando também esse malandro através dessa tessitura.
E logo, com a direção do Farjalla, ele deixou a gente muito aberto e muito livre para sermos dois malandros distintos. Cada um tem uma vivência distinta.
Eu venho da Baixada Fluminense, de uma favela, e eu queria também levar essa favela para esse cenário. Esse Max diferente, esse Max que é do samba, mas ele também é do funk, que tem esse carioquês muito predominante da favela, com alguns signos da comunidade.
Eu queria muito levar essas características para dentro desse Max. Ainda que essa obra seja uma obra de 78, ela segue sendo muito atual. E, como homem negro, eu também queria trazer essas características e aquilo que me toca como cidadão preto dentro do mundo.
2. Você e José Loreto interpretam o mesmo papel. Como vocês lidam com isso: constroem de forma independente ou se influenciam?
Eu e o Loreto conversávamos muito sobre as formas. Ele tinha uma forma, ele tem o Max, ele tem o malandro dele, eu tenho o meu malandro.
E eu acho que quem vai para o espetáculo assistir ao show consegue se deliciar, duas vezes com os dois malandros distintos.
3. Geni salva a cidade e é expulsa logo depois. O espetáculo encena isso como tragédia ou como crítica, ou os dois ao mesmo tempo?
Bem, o espetáculo é uma crítica social, como sempre foi.
E é muito bonito ter uma atriz trans dentro desse lugar, com essa propriedade de fala. Todos os dias que Valéria entra ao palco para poder fazer esse personagem, sempre é icônico, porque ela também leva muito da verdade dela para o cenário.
É uma crítica social, está estampada dentro da nossa sociedade. Existe um momento que algumas pessoas dão aquele riso sem graça, aquele riso do constrangimento em muitos momentos do espetáculo, porque, claro, se veem deparadas com o que é a realidade social.
4. O Chico escreveu isso nos anos 70, em plena ditadura. O que o texto diz sobre o Brasil de 2026?
Eu acho que essa é a nossa responsabilidade também como artista.
Eu acho que, infelizmente, em muitas coisas ainda vivemos um retrocesso. Em outras, estamos a passos largos, mas aquele Brasil ainda continua tendo muitos fragmentos do Brasil agora, ainda em 2026.
E essa ideia: trazer essa crítica social para falar sobre as classes, para falar sobre as diferenças, trazer esse recorte.
E isso é muito importante. Eu acho que por isso também é um sucesso, porque não está longe da realidade que vivemos.
5. Qual é o momento do espetáculo que mais te afeta toda vez? Pode ser seu ou do elenco.
Existe um momento no final onde o melhor amigo de Max está com a arma apontada para a cabeça dele.
E tivemos uma conversa muito gostosa, eu e o Amauri, falando sobre esses dois homens pretos, um com a arma na cabeça do outro para poder tirar a vida, porque existe um, vamos dizer, um bico de sinuca. Jogo de interesse, jogo de poder. Ou ele mata ou ele morre.
Só que é o melhor amigo dele e é um homem preto.
Socialmente falando, o povo preto, a cada uma hora, nós temos um percentual de [cerca de 4] pessoas negras que morrem no Brasil. E esse desespero é um momento que eu vou com muito respeito, porque é real.
É real essa imagem do homem com a mão para cima, rendido. É real.
E tem muita gente, quando chega no final do espetáculo, que me fala sobre esse momento.
O momento da Geni é um momento icônico no espetáculo, com “Geni e o Zepelim”.
Eu acho que existem alguns recortes dentro do show que trazem uma realidade brasileira muito forte e, por isso, é um grande sucesso.
Nota da redação: o número entre colchetes é intervenção nossa. O Atlas da Violência 2026, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou 32.820 homicídios de pessoas negras em 2024, o equivalente a 77% de todas as vítimas de assassinato do país. São 89,9 por dia, uma morte a cada 16 minutos, e uma taxa 2,7 vezes maior que a das demais pessoas.
6. O que você quer que o público sinta quando sai do teatro?
Bem, como ator, eu sempre vou querer que meu público abrace o Max, (risos) que ele sinta a verdade no Max.
Nesse show não existe o bonzinho e o vilão. Todo mundo é tudo ali dentro.
Quero que o público se divirta, quero que o público entenda a informação, saia reflexivo, saia feliz, se emocione e veja um grande espetáculo com grandes artistas.
7. O teatro exige o que a câmera não exige. O que você perderia se parasse de fazer palco?
Eu acho que o teatro me trouxe essa disciplina.
O jogo nunca está ganho. Não é como na teledramaturgia onde rola um “para, ai gravamos, para, descansa”. Não. O teatro é vivo, então você precisa ter uma disciplina para poder estar no palco. Senão não existe, você não consegue, senão não funciona.
Então eu acho que, se eu não estivesse no palco, eu deveria ter outro tipo de disciplina. Acho que essa disciplina que o palco me trouxe, essa disciplina.
8. O malandro brasileiro é resistência ou adaptação ao sistema, ou não dá pra separar?
Eu acho que essa malandragem vem desses dois recortes.
Ela é resistência porque eu acho que o sistema tenta, muitas das vezes, dominar, emudecer, depreciar, e a malandragem é o que faz a gente resistir.
Mas, ao mesmo tempo, também a gente não consegue viver fora de algumas condições da padronização do sistema.
9. Você estava na Espanha. O que foi que te trouxe de volta? Foi o papel, foi o momento, foi o texto?
Eu acho que foi um conjunto de coisas que me trouxe de volta ao Brasil.
A primeira já era a vontade de fazer um texto brasileiro, passados tantos anos fazendo texto gringo. A vontade de voltar a fazer teatro brasileiro. E não somente vir para fazer teatro no Brasil: um texto brasileiro.
Isso me chamou muita atenção e roubou muito meu coração.
Além disso, a minha história está aqui, a minha família está aqui, meu sobrinho está aqui. E eu sentia muita saudade de casa, muita saudade do meu idioma, muita saudade das pessoas que me conhecem desde o primeiro texto.
Para mim, é muito importante estar no teatro e saber que essa vitória tem uma vitória distinta, porque as pessoas que vão me assistir são pessoas que estão torcendo por mim desde a época que eu falava sobre o meu primeiro sonho de ser artista.
Essa semana eu tive na plateia uma amiga da quinta série. E isso, para mim, é dizer: “Eu venci”. Desfrutar e compartilhar com essas pessoas que estiveram desde o momento zero.
E, lógico, eu tinha muita vontade de trabalhar com Griesi, com essa produção do Palco 7. Eu tinha muita vontade de trabalhar com o Farjalla, porque é um diretor que eu já acompanho há um tempo. Admiro a maneira dele dirigir, a maneira dele ver teatro, como ele respira a arte e como ele respeita a arte que trabalhamos.
10. Como é pisar no Brasil em 2026? O país que você encontrou é o mesmo que você deixou?
Eu deixei o país em 2015. Não, ele não é o mesmo país que eu deixei aqui.
Eu lembro que, quando eu regressei ao Brasil pela primeira vez, depois de tanto tempo, fui para fazer Clube da Esquina: Os Sonhos Não Envelhecem. E eu fiquei chocado, na época, quando eu vi tantos jovens negros com seu black power caminhando pela rua com tanto poderio, com tanta força. Ligar a televisão e sentir que a representatividade era maciça.
E, em 2015, a gente tinha que ficar quase que buscando quem eram os negros que estavam falando sobre moda, quem eram os negros que tinham o privilégio, na época, de fazer um advogado, ser um galã na televisão.
Hoje você liga a televisão e você sente que faz parte daquilo ali, que você está inserido naquilo ali, que já não é uma briga, já não é um orgulho em ser: “Eu fui o primeiro príncipe negro”. Não. Já tem vários.
Somos muitos, povoamos, temos uma palavra de ordem também.
Então, é um país muito distinto daquilo que eu deixei há anos atrás.
11. O que vem depois dessa temporada? Você fica ou volta?
Eu vou embora para a Espanha, organizar a vida na Espanha, e logo vou protagonizar um espetáculo na França, em Paris, que é o meu novo país.
Estou muito orgulhoso de mim mesmo por abraçar e me sentir desafiado, ser testado numa nova língua, língua a qual eu estou aprendendo, cultura a qual eu estou aprendendo, com aulas de francês. Todo um processo dessa mudança para Paris, que em breve eu vou poder dizer qual é o nome do espetáculo.
E não, não é nenhum espetáculo que eu já fiz até aqui.
12. Aqui na redação e na editora desenvolvemos um trabalho que busca autonomia de consciência na perspectiva de poder para o povo preto. Você é uma referência preta em vários sentidos, não só pela sua ascensão depois de O Rei Leão, mas principalmente pela maneira como conduz a carreira. Te incomoda a ausência de produtores e diretores negros na cena brasileira em pleno 2026? E por que, na sua opinião, é tão difícil a ascensão desses profissionais no mercado brasileiro?
Eu acho que o sistema embate, ele não permite. Quando vê um produtor negro, eu acho que ele dificulta muito o caminho. Por isso não existem tantos. É muito difícil.
E é uma luta que não é uma luta a solo, não. É uma luta coletiva. E quando o coletivo não se importa com a presença desse corpo negro sendo produtor, a gente volta a repetir padrões.
E seria tão legal ver um produto negro sendo dirigido, produzido por gente preta. Como a gente vê as mulheres, fazendo, dirigindo e administrando suas próprias produções. Eu acho isso tão, tão legal. Tão legal.
Mas ainda não funciona dessa maneira. E eu adoraria que fosse de uma forma diferente.
13. Deixe um recado para as novas gerações de artistas pretos que estão dando os primeiros passos na carreira.
Não se esqueçam das pessoas que cavaram esse caminho para que vocês pudessem hoje caminhar livremente. Não se esqueçam.
Eu acho que um dos grandes males dessa época é a gente apagar os nossos. É a gente não aplaudir o que as outras pessoas fizeram para a gente poder caminhar. E existe um caminho que foi feito.
Não digo tão somente por mim, porque eu sempre, quando posso, falo muito sobre Maurício Xavier, que foi um cara que, para mim, foi inspiração na época, quando foi o primeiro preto a sair do Brasil para ir para a Alemanha para poder fazer O Rei Leão na Alemanha, em alemão.
Eu sei que eu abri uma porta no mercado europeu, na Espanha, para muitos que hoje já estão trabalhando na Espanha, e como muitas coisas que eu já cheguei a fazer aqui no Brasil.
Mas não apaguem a nossa. Não sejam as pessoas que vão apagar a nossa própria história.
Vamos construir, vamos nos abraçar. Eu acho que ser coletivo, fazer coletivo, endossar a nossa causa é muito melhor. Você não vai vencer sozinho. Você vai precisar de pessoas ao seu lado para poder te abraçar e chegar lá juntos.
Onde ver
Ópera do Malandro está no Teatro Multiplan, no VillageMall, na Avenida das Américas 3900, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. A temporada carioca começou em 6 de agosto e vai até 30 de agosto de 2026, com sessões de quinta a domingo.
São 120 minutos, classificação 14 anos, e os ingressos saem a partir de 25 reais pela Sympla.
A montagem não estreia agora: passou antes por São Paulo, no Teatro Renault, entre janeiro e março deste ano.
Como Max é dividido em alternância, quem for duas vezes vê dois espetáculos diferentes. Vale conferir a escalação do dia antes de comprar.
Geni foi escrita em 1978 para dizer o que a cidade faz com quem ela precisa mas não quer assumir. Quase cinquenta anos depois, o texto não precisou ser atualizado.
Entrevista concedida ao Poder Afrikano em agosto de 2026, publicada na íntegra. As perguntas foram reescritas apenas na pontuação; as respostas estão como Tiago as deu, na transcrição revisada por ele. Ficha do espetáculo conferida no Teatro Multiplan e na Palco 7 Produções.