Tupac Shakur foi alvejado na noite de 7 de setembro de 1996, em Las Vegas, e morreu seis dias depois, em 13 de setembro, aos 25 anos.
Passaram-se 27 anos até que alguém fosse acusado.
Quem estava no carro
No veículo de onde partiram os disparos estavam quatro homens. Duane Davis, conhecido como Keffe D, ia no banco do passageiro da frente. No banco de trás iam Orlando Anderson, sobrinho dele, e DeAndre Smith.
A investigação nunca estabeleceu qual dos dois disparou. Perguntado se Anderson havia atirado, Davis respondeu que ele fez o que tinha de fazer. Anderson negava qualquer participação, e um integrante da mesma facção testemunhou que o autor teria sido Smith.
Anderson foi morto em um tiroteio em 1998. Smith também já morreu. Restou um.
Por que ele
Davis não responde por ter atirado. A acusação sustenta que ele obteve o revólver e o passou para o banco de trás, e que fez as ligações que levaram ao ataque.
O caso permaneceu parado durante décadas. O que o reabriu foram as declarações públicas do próprio Davis, em entrevistas e em um livro de memórias em que narra o envolvimento. A polícia de Las Vegas afirmou que esses relatos forneceram material que a investigação não tinha.
Ele foi indiciado e preso em 2023, tornando-se a primeira pessoa acusada na história do caso. Declara-se inocente. A seleção do júri começou em 10 de agosto de 2026, no Tribunal do Condado de Clark, e o julgamento deve durar cerca de um mês.
Davis é, ao mesmo tempo, o réu e a principal testemunha, porque todos os outros ocupantes do carro morreram.
Seis meses depois, o outro
Em 9 de março de 1997, Christopher Wallace, o Notorious B.I.G., foi morto a tiros em Los Angeles, na saída de uma festa da indústria da música, diante de dezenas de testemunhas.
Ninguém jamais foi acusado. O FBI chegou a abrir uma investigação e a encerrou em 2005. São quase trinta anos.
A palavra que serve de prova
Nos Estados Unidos, letras de rap foram apresentadas como prova de culpa em processos criminais com tanta frequência que a Califórnia aprovou, em setembro de 2022, uma lei restringindo a prática. A AB 2799 passou por unanimidade nas duas casas legislativas. No mesmo ano foi apresentado no Congresso o projeto federal conhecido como RAP Act.
Pesquisas empíricas mostram que o próprio rótulo de rap aumenta o viés do júri, mesmo quando as palavras são idênticas às de uma canção de outro gênero.
Quando o artista negro é o réu, a palavra dele vira confissão. Quando ele é a vítima, vira ruído de fundo, e o caso espera 27 anos até que um suspeito publique a própria versão em livro.
Fontes: PBS NewsHour, CNN, NBC News, 8 News Now, Variety e Foundation for Individual Rights and Expression, 1996 a 2026.