Ópera do Malandro é um musical de Chico Buarque de 1978, ambientado na Lapa carioca dos anos 1940, entre contrabandistas, prostitutas e cafetões. Geni é a travesti da trama, destratada por todos e alçada por um momento à condição de salvadora.
A canção Geni e o Zepelim é a mais emblemática do espetáculo, e a personagem é apontada como uma das primeiras representações trans da dramaturgia feita no Brasil.
Por quase cinco décadas, o papel foi de atores homens
Nas inúmeras versões de Ópera do Malandro, Geni foi vivida por homens. Entre eles, Emiliano Queiroz, Sandro Christopher, Eduardo Landim e Kleber Montanheiro, todos atores cisgênero.
O levantamento é do crítico Dirceu Alves Jr., publicado no Infoteatro em fevereiro deste ano.
Valéria Barcellos vive Geni agora
Atriz e cantora gaúcha, mulher trans e negra, ela já passou por Titanique e por A Palavra Que Resta, e viveu Luana na novela Terra e Paixão. Agora, na montagem dirigida por Jorge Farjalla, é ela quem vive Geni.
E ela não foi convidada. Segundo a própria atriz, foi ela quem procurou o diretor, se apresentando como alguém que se preparou a vida inteira para viver a personagem.
Não houve convite. Houve disputa.
O que muda quando a atriz é trans
A Mundo Negro resume assim: nesta montagem, pela primeira vez, não se veria um transfake, nome dado à prática de escalar uma pessoa cisgênero para viver uma personagem trans.
O crítico do Infoteatro escreve que a leitura de Jorge Farjalla amplia o peso das figuras femininas da peça, que hoje o público estranharia ver uma Geni de outro gênero em cena, e que a plateia se levanta para aplaudir por longos minutos a cena da canção, apresentação após apresentação.
Onde ver
Ópera do Malandro está em cartaz no Teatro Multiplan, no VillageMall, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. A temporada vai até 30 de agosto de 2026, com ingressos de 25 a 350 reais.
A montagem não estreia agora: ela passou antes por São Paulo, no Teatro Renault, no começo deste ano. O que acaba em 30 de agosto é a temporada carioca.
A personagem esperou 48 anos
Chico Buarque escreveu Geni em 1978. A atriz que a vive hoje diz que se preparou a vida inteira para o papel, e mesmo assim teve que bater na porta do diretor para conseguir disputá-lo.
O papel sempre existiu. A porta é que estava fechada.
Fontes: Mundo Negro, 20 de agosto de 2026, e crítica de Dirceu Alves Jr. no Infoteatro, 5 de fevereiro de 2026. Foto: Globo / João Miguel Júnior.