Antes de Elche x Real Madrid, pela sexta rodada do Campeonato Espanhol, na terça-feira, 15 de setembro, os jogadores dos dois times entraram em campo com uma camisa branca com a frase “Todos somos caballas”, gíria para quem é de Ceuta, cidade espanhola na costa do norte da África. Três jogadores do Real Madrid, Vinícius Júnior, Kylian Mbappé e Ibrahima Konaté, usaram a camisa enrolada até o peito, com a frase ilegível, e a tiraram antes do cumprimento aos adversários. Nenhum dos três explicou o gesto. O Real Madrid venceu por 3 a 2.

A crise de Ceuta

Ceuta é um dos dois territórios espanhóis na costa norte-africana, ao lado de Melilla, e está sob posse da Espanha desde 1580. Em julho, cerca de 80 mil pessoas, a maioria vinda do Marrocos, atravessaram a fronteira da cidade, segundo a agência AP. A Reuters fala em mais de 70 mil travessias irregulares. Cerca de 140 pessoas morreram tentando chegar pelo mar. A cidade ainda tenta dar conta dos milhares de imigrantes que permanecem lá.

A crise virou o principal tema político da Espanha. Segundo a AP, a extrema direita e a oposição conservadora esperam usá-la na eleição nacional do ano que vem contra o governo de esquerda, favorável à imigração legal.

Uma camisa que não era neutra

A camisa foi feita e distribuída por uma associação de empresários da região de Valência, e a LaLiga aprovou o gesto pelo procedimento padrão para homenagens antes das partidas. Nem todos aderiram: o Barcelona decidiu não usar a camisa contra o Levante, segundo a Reuters.

Na véspera, os jogadores de Villarreal e Betis vestiram a camisa. O atacante marroquino Ez Abde, do Betis, foi atacado por torcedores do Marrocos nas redes e respondeu que não pediria desculpas por uma camisa que, segundo ele, não tinha objetivo político nem desprezo pelo povo marroquino.

A reação

Nas redes e na imprensa espanhola, uns leram o gesto dos três como solidariedade aos imigrantes; outros acusaram os jogadores de não apoiar os moradores de Ceuta. O jornalista Jorge Calabrés, do jornal El Español, escreveu estar indignado com Mbappé, Vinícius e Konaté. Houve também quem culpasse os empresários por colocar os jogadores numa posição em que precisavam tomar lado.

Um dirigente do Real Madrid disse à Reuters que o clube aceitou o pedido do Elche para a homenagem, mas respeita opiniões diferentes e deu a cada jogador liberdade para decidir se vestiria a camisa.

Quem são os três

Vinícius Júnior está há anos no centro do debate sobre racismo no futebol espanhol, alvo recorrente de ofensas racistas de torcedores adversários. Mbappé nasceu em Paris, filho de um pai que migrou de Camarões para a França e de uma mãe de origem argelina. Em junho de 2024, antes das eleições legislativas francesas, ele disse que “os extremos estão batendo às portas do poder” e pediu aos jovens que votassem contra os extremos, quando o Reunião Nacional, partido de extrema direita, liderava as pesquisas. Jordan Bardella, líder do partido, respondeu que atletas multimilionários não deveriam dar lições a quem não consegue pagar as contas.

Fontes: AP; Reuters; EFE; CNN Brasil.