Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, preso desde novembro de 2025 e alvo de acusações de fraude financeira, corrupção institucional e lavagem de ativos, tentou trocar informação por benefício penal. Em pelo menos três versões de uma proposta de colaboração premiada, ele afirmou que R$ 5 milhões doados às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022 não eram doação: eram propina, negociada com o presidente do PSD, Gilberto Kassab.
As três propostas foram rejeitadas pela Justiça. O motivo declarado é sempre o mesmo: falta de elementos inéditos de prova.
O que Vorcaro alega
Segundo o próprio Vorcaro, dos R$ 5 milhões doados em 2022, R$ 3 milhões foram para a campanha de reeleição de Bolsonaro à Presidência e R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio ao governo de São Paulo. Ele também afirma que outros cerca de R$ 10 milhões em dinheiro, não contabilizados, teriam sido planejados para campanhas do PSD.
A contrapartida, segundo essa versão, era a continuidade do Credcesta, produto de cartão consignado ligado ao grupo Master, dentro do governo paulista. O acesso ao programa remonta às gestões Doria e Rodrigo Garcia e exigia, segundo Vorcaro, garantia de continuidade em troca de 5% do lucro da operação mais o financiamento de campanha.
Quem é Kassab nessa história
Gilberto Kassab não é uma figura qualquer nesse tabuleiro. Foi secretário de Governo de São Paulo na gestão Tarcísio, preside o PSD e hoje é candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado. É o nome que a delação de Vorcaro tenta colocar no centro do suposto ajuste.
O que dizem os citados
Kassab classificou o relato de Vorcaro como "absolutamente fantasioso". Segundo ele, nunca tratou de doações com Vorcaro nem com Augusto Lima, nunca falou pessoalmente ou por telefone com o banqueiro, e não recebeu recursos de nenhuma das formas descritas.
Tarcísio de Freitas nega conhecer Vorcaro ou ter qualquer relação com ele. Sua campanha de 2022 informou ter tido mais de 600 doadores, seguido a legislação eleitoral e tido as contas aprovadas pela Justiça Eleitoral.
Bolsonaro não se pronunciou publicamente sobre a alegação até a publicação desta matéria.
Uma acusação sem prova ainda é uma acusação
Vale registrar o que esse episódio é e o que não é. Não é uma condenação, nem uma prova. É a palavra de um homem preso, sob forte pressão para negociar redução de pena, contra três políticos que negam tudo, e que a própria Justiça já recusou três vezes por falta de elementos novos.
Mas também não é nada, porque o mecanismo que Vorcaro descreve, dinheiro de campanha como contrapartida por continuidade de contrato público, é um mecanismo velho conhecido da política brasileira, provado ou não neste caso específico. A ausência de prova hoje não apaga a pergunta: por que um banco em situação tão frágil investia tanto em proximidade com quem manda no Estado?
Fontes: Brasil de Fato, 3 de setembro de 2026, para valores e detalhes do Credcesta; Jovem Pan (coluna de Beatriz Manfredini), para o histórico das três delações rejeitadas e as falas de Kassab e da campanha de Tarcísio; Revista Fórum, para o cargo atual de Kassab como candidato a vice na chapa de Ronaldo Caiado; BPMoney e Diário do Centro do Mundo, cobertura complementar de 3 de setembro de 2026. Imagem: reprodução do ICL Urgente.