A cantora sul-africana Tyla retirou Lagos do calendário da sua turnê mundial APop, depois de uma campanha de boicote organizada por nigerianos nas redes sociais.

O motivo do boicote não foi nada que ela tenha feito. Foi a retomada dos relatos de ataques xenófobos contra estrangeiros na África do Sul, muitos deles nigerianos.

A artista pagou por uma política de Estado que não é dela.

A xenofobia é real. O alvo é que estava errado.

A revolta tem base. Os ataques na África do Sul existem, se repetem há anos e voltaram a crescer. Em julho de 2026, Graça Machel pediu publicamente que a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral quebrasse o silêncio diante dos ataques.

Quando uma das vozes mais respeitadas do continente precisa pedir que um bloco regional diga alguma coisa, o silêncio já durou tempo demais.

Mas a resposta que chegou primeiro não foi contra o Estado sul-africano, contra a polícia ou contra os políticos que fazem carreira apontando o imigrante como causa do desemprego. Foi contra uma cantora de 24 anos.

Quem ganha quando a briga é entre nós

O imigrante africano na África do Sul ocupa a mesma função que o imigrante africano na Europa: absorve a culpa por um desemprego que não criou e por serviços públicos que não desmontou.

A diferença é que na África do Sul quem aponta e quem é apontado são, quase sempre, pessoas negras e pobres.

Xenofobia não é sentimento espontâneo de pobre. É ferramenta de governo.

Ela funciona porque transforma um conflito vertical, entre quem tem e quem não tem, em conflito horizontal, entre quem não tem e quem também não tem.

Um show cancelado em Lagos não fecha um campo de refugiados, não muda uma lei migratória e não protege ninguém em Joanesburgo. Rende manchete e sensação de resposta.

A pergunta é sempre a mesma: quem estava desconfortável com esse boicote, e quem dormiu tranquilo?

Fontes: BBC e Vanguard via AllAfrica, 31 de julho de 2026; RFI África, 18 de julho de 2026.