O filme existe. Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro, foi rodado, finalizado e registrado na Agência Nacional do Cinema (Ancine) em 7 de agosto: ficção, 1 hora e 40 minutos, título brasileiro O Azarão. O que não existe é data de estreia. Enquanto o lançamento não vem, o dinheiro que pagou a produção virou objeto de um relatório da Polícia Civil de São Paulo que fala em desvio de recursos de um contrato de R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo.
A estreia que nunca chega
Em abril, o ator Jim Caviezel, que faz Bolsonaro no filme, anunciou nas redes sociais que o lançamento seria em 11 de setembro. A data nunca foi confirmada para o mercado brasileiro. Em agosto, a Europa Filmes, que assumiu a distribuição, adiou o lançamento para depois das eleições. "Não seria estratégico colocar o filme em cartaz durante a campanha eleitoral", disse o diretor-geral da empresa, Wilson Feitosa, segundo o Papo de Cinema.
Depois disso, um cartaz anunciando pré-estreia em 30 de setembro circulou nas redes sociais. É falso. "Nunca demos data de lançamento", afirmou Feitosa ao UOL, acrescentando que o material "não foi produzido pela distribuidora" e que não existe possibilidade de venda antecipada de ingressos.
O filme tem direção de Cyrus Nowrasteh e argumento de Mario Frias, ex-secretário especial da Cultura no governo Bolsonaro, que também assina como produtor executivo. Caviezel é conhecido por ter interpretado Jesus em A Paixão de Cristo.
O contrato de R$ 108 milhões
O Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama, tem contrato com a Prefeitura de São Paulo pelo programa WiFi Livre SP, que leva internet gratuita a espaços públicos da cidade. O valor é de R$ 108 milhões, segundo o Poder360. Karina Gama também é sócia da Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse. É esse duplo papel que a investigação examina.
Os números da comparação estão no relatório, segundo o Poder360: o instituto cobrava R$ 1.800 por ponto de internet instalado. A Prodam, empresa pública de tecnologia da prefeitura, cobra R$ 230 pela instalação e R$ 306 por mês de manutenção.
O Jornal GGN, que acompanha o caso, descreve uma cadeia de subcontratações a partir do instituto: R$ 12 milhões para a Favela Conectada Serviço e Tecnologia, depois renomeada Urban Connect, R$ 8,55 milhões para a Ultra IP Tecnologia e R$ 6,17 milhões para a Academia Nacional de Cultura, além de contratos com as empresas Complexsys e Make One. O programa soma cerca de 3.200 pontos de wi-fi instalados.
O que diz o relatório
O documento da Polícia Civil de São Paulo foi tornado público pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, no dia 13 de setembro. Ele aponta "consistentes suspeitas" de "confusão patrimonial" e sustenta que "recursos públicos do programa WiFi Livre SP tenham sido desviados para custear as atividades de produção do referido filme". O relatório fala ainda em "subcontratações suspeitas com empresas parceiras para escoamento do dinheiro público".
As palavras desvio e lavagem, aqui, são do relatório policial, e não do Poder Afrikano. Nada foi julgado.
A perícia que recusou 27 aparelhos
Em 1º de junho, buscas em residências e empresas ligadas ao ICB e à Go Up apreenderam equipamentos. Vinte e sete deles, 13 pendrives, 9 notebooks e 5 celulares, foram recusados pelo Instituto de Criminalística de São Paulo por falha no lacre, segundo a Folhapress.
Em 2 de junho, quatro guias foram devolvidas porque os pacotes tinham "aberturas grandes o suficiente para permitir a retirada das peças". No dia 3, outros 13 lotes voltaram porque "o invólucro foi tracionado de forma inadequada na origem", criando um vão livre considerável. Em resumo: dava para chegar aos dados sem romper o selo.
A falha não travou a apuração. Depois que a Polícia Civil corrigiu o acondicionamento, os aparelhos foram reenviados ao Instituto de Criminalística e submetidos à extração de dados.
Os 49 mandados
Em 10 de setembro, a Polícia Federal cumpriu 49 mandados de busca e apreensão, sem prisões. Entre os alvos estavam Mario Frias e Karina Gama. A apuração trata de uso irregular de emendas parlamentares, contratos simulados e movimentações financeiras. Frias foi alvo de busca, e não de prisão.
O plano de negócios do filme previa investimento de US$ 24 milhões e bilheteria potencial de até US$ 100 milhões, segundo o Papo de Cinema. Documentos da Polícia Federal indicam ainda que Flávio Bolsonaro pediu R$ 131 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para a produção, e que R$ 60 milhões teriam sido pagos. São valores que aparecem em documentos citados pela imprensa, e não confirmados em juízo.
O outro lado
A defesa de Karina Gama nega qualquer ilícito, diz considerar positiva a transparência e afirma ter entregado voluntariamente mais de 20 mil páginas de documentação. "Investigação não é acusação, muito menos, condenação", diz a nota, que pede análise técnica sem contaminação por disputas políticas.
A Go Up afirma nunca ter recebido "um único centavo" de Daniel Vorcaro. Flávio Bolsonaro confirma que procurou o banqueiro e nega ligação com as acusações.
Análise: quem paga a versão decide o que será lembrado
Esta parte é análise do Poder Afrikano. Um filme é um documento sobre como um país escolhe se contar. O pensador Amos Wilson tratava a narrativa histórica como instrumento de poder, e não como registro neutro do passado: quem controla o relato controla a consciência que um povo tem de si.
Dark Horse é uma biografia encomendada, escrita a partir do texto de um ex-secretário do próprio governo retratado, com financiamento sob investigação. Nada nas fontes liga o filme a questões raciais, e esta análise não faz essa ligação. O ponto é o mecanismo: no Brasil, a mesma lógica escolheu por muito tempo quais heróis a escola ensinaria e deixou de fora os nomes negros. Por isso a pergunta sobre quem pagou, e com que dinheiro, não é secundária. É a pergunta principal.
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Fontes: Poder360; Papo de Cinema; Folhapress, via Estado de Minas; Jornal GGN.