Uma peruca de R$ 10 mil e mais de R$ 730 mil em hospedagem para Jim Caviezel e a equipe dele estão entre os gastos que a própria defesa da produtora do filme Dark Horse entregou à Polícia Federal. No sábado (12), o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, mandou paralisar as investigações do Banco Master, das quais os papéis de Dark Horse fazem parte, segundo a Revista Fórum.

O que os comprovantes mostram

Fachada do Hotel Unique, em São Paulo
Hotel Unique, em São Paulo. Foto: Mauro Cateb, via Wikimedia Commons.

Os documentos foram entregues à Polícia Federal em 4 de setembro pela defesa da produtora Go Up e de Karina Ferreira da Gama, em resposta a um ofício. Tornaram-se públicos nos últimos dias, quando caiu o sigilo de parte da investigação no Supremo.

Dark Horse tem direção de Cyrus Nowrasteh e retrata Jair Bolsonaro na campanha de 2018, incluindo a facada em Juiz de Fora. O roteiro nasce de um texto de Mario Frias, ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro, chamado "Capitão do Povo", segundo a Folha de S.Paulo e o Correio Braziliense.

A peruca aparece em um pagamento de R$ 10 mil feito em 5 de dezembro de 2025. No comprovante, a descrição é "Locação Peruca Jim", informou a Folha. A passagem de Caviezel custou R$ 54.332,46.

O filme ainda não estreou. Na sexta-feira (11), a distribuidora Europa Filmes suspendeu o lançamento, sem nova data. O diretor-geral da empresa, Wilson Feitosa, disse que "não seria responsável fazer o lançamento deste filme com todos estes acontecimentos", segundo o Poder360.

Hotel de luxo, figurino e carros

Pelas contas da Revista Fórum, a hospedagem soma R$ 1.426.897,51, dos quais R$ 733.913,20 foram atribuídos à estadia de Caviezel. A Folha descreve notas de hospedagem que incluem, além do ator, o agente Nathon Lewis, Richard Dobrich e o segurança Keith Billiot. O Estadão fala em R$ 732 mil, em oito transferências. Em todos os casos, são mais de R$ 730 mil para Caviezel e a equipe.

Um pagamento chama atenção à parte: R$ 298.350,49 ao Hotel Unique, em São Paulo, em 30 de dezembro de 2025, com a descrição "Hospedagem + gorjetas e massagens Jim". Segundo a Folha, o Correio Braziliense e o Estadão, não foi localizada nota fiscal desse pagamento.

O figurino custou R$ 518,5 mil, segundo a Fórum e o Times Brasil: R$ 210 mil para a equipe, R$ 157,5 mil em locação de peças, R$ 120 mil para transportar as peças e R$ 30,9 mil em costura, bordado e lavanderia. Com transporte foram 81 pagamentos, que somam R$ 375,9 mil. Outros R$ 402,7 mil, em quatro pagamentos, foram para a compra de veículos.

As despesas no Brasil chegam a R$ 20,9 milhões. Somada a etapa nos Estados Unidos, o custo declarado fica em cerca de R$ 75 milhões, segundo o Times Brasil. Um laudo contratado pela própria Go Up declarou custo de US$ 13,4 milhões, informou a Folha.

Nenhuma das fontes afirma que dinheiro público tenha pago a peruca, o hotel ou as demais despesas listadas. Em junho, a defesa da Go Up disse que o filme foi pago com recursos privados. Uma das perguntas da investigação é de onde veio esse dinheiro.

O dinheiro de Vorcaro

Segundo o Estadão, o filme recebeu "ao menos US$ 12,3 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro". Os valores foram pagos pela Entre Investimentos ao fundo Havengate, "controlado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro", nas palavras do jornal.

A Agência Brasil fala em repasses de R$ 62,8 milhões atribuídos a Vorcaro. Em reais, os valores divergem entre os veículos e ficam entre R$ 61 milhões e R$ 64 milhões, conforme a fonte.

O nome de Vorcaro já aparecia em outras frentes da política. Em 3 de setembro, o portal mostrou que Nikolas Ferreira disse à Folha que não lembrava de Vorcaro, que Vorcaro chamou um pastor para saber "de que lado" o deputado estava e que Vorcaro diz que a doação de R$ 5 milhões a Bolsonaro e Tarcísio era propina combinada com Kassab, embora a Justiça tenha rejeitado a delação três vezes seguidas.

Flávio Bolsonaro, investigado, e a briga pelo relator

A Agência Brasil informou na sexta-feira (11) que o ministro André Mendonça incluiu Flávio Bolsonaro como investigado em 22 de julho. A inclusão se deu em uma petição sigilosa, separada e vinculada ao inquérito 5026, descrita como "PET sigilosa em apartado, vinculada ao INQ 5026, para apurar a possível prática dos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção". Flávio é investigado, e não denunciado.

A defesa de Flávio tentou tirar do ministro Flávio Dino a Petição 16.070, que trata de emendas parlamentares, e levá-la para Mendonça. Segundo a Agência Brasil, foram quatro solicitações entre 3 e 29 de julho. O Estadão fala em "pelo menos três".

Nos pedidos, a defesa falou em "criar uma 'prevenção artificial' para definir a relatoria" e em "verdadeira manipulação das regras de competência". E argumentou: "dos seis processos autuados perante esse Supremo Tribunal Federal para requerer a instauração de investigações acerca do filme Dark Horse, apenas um deles, a Petição nº 16.070, não está sob a relatoria do Exmo. Min. André Mendonça".

No sábado (12), Flávio escreveu no X que Dino "sequestrou" o caso, segundo o Estadão e o Diário do Grande ABC.

A Operação Make Up e as emendas de Mario Frias

Na quinta-feira (10), foi deflagrada a Operação Make Up, autorizada por Dino, com a participação da Controladoria-Geral da União (CGU). Foram 49 mandados de busca, sem prisões, em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Entre os alvos estão Mario Frias e Karina Gama. A operação investiga "peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios".

Segundo o Poder360, Frias mandou R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina. As fontes não afirmam que esses recursos tenham pago despesas do filme. Frias chamou a operação de "cortina de fumaça".

Fachin assume o caso de Moraes e manda parar o Master

Na noite de sábado (12), por volta das 20h40, segundo o Poder360, Fachin assumiu a relatoria do caso que apura as conversas entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, que estava com Mendonça. Também paralisou as investigações do Banco Master e das fraudes do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e requisitou à Presidência do tribunal as íntegras dos processos.

Mendonça continua como relator formal dos casos Master e INSS, mas não pode adotar novas medidas até nova determinação. Fachin não se tornou relator dessas duas investigações. Como fundamento, foram citados a possibilidade de o julgamento levar ao impedimento de juiz, prevista no artigo 144, inciso IV, do Código de Processo Civil, e o artigo 13, inciso XV, do Regimento Interno do STF.

A paralisação atinge as investigações do Master, das quais os papéis de Dark Horse fazem parte, segundo a Revista Fórum.

Há duas datas marcadas no Supremo. Na terça-feira (15), uma sessão extraordinária discute o relatório das mensagens de Vorcaro. Em 23 de setembro, o tribunal analisa a petição contra Mendonça por suposto abuso de autoridade na condução da Polícia Federal.

Análise: quem conta a história decide como ela será lembrada

Esta parte é análise do Poder Afrikano. O pensador Amos Wilson tratava a narrativa histórica como instrumento de poder, e não como registro neutro do passado. Em A Falsificação da Consciência Afrikana, ele mostra como essa narrativa forma a consciência de um povo sobre si mesmo.

Dark Horse é um filme sobre um político, escrito a partir de "Capitão do Povo", texto de um ex-secretário do próprio governo Bolsonaro, com financiamento sob investigação. É um exemplo de quem conta a história decidindo como ela será lembrada, antes mesmo de chegar às salas.

Nada nas fontes liga o filme a questões raciais, e esta análise não faz essa ligação. O ponto é outro: no Brasil, a mesma lógica escolheu por muito tempo os heróis que a escola ensina e deixou nomes negros de fora. Por isso vale perguntar quem pagou para contar essa história, e com que dinheiro.

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Nikolas Ferreira disse à Folha que não lembrava de Vorcaro. Os áudios revelados nesta quarta mostram um pedido de até US$ 45 milhões.

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Fontes: Folha de S.Paulo, via Estado de Minas; Correio Braziliense; Revista Fórum; Estadão, via InfoMoney; Times Brasil; Agência Brasil (inclusão de Flávio Bolsonaro e disputa pela relatoria); Poder360 (adiamento da estreia e decisão de Fachin); Folhapress, via Estado de Minas; Metrópoles; Diário do Grande ABC.