Numa reunião gravada em 23 de maio de 2026, o empresário e cantor gospel Samuel Modesto propôs que a ONG Jesus Cristo Por Um Mundo Melhor, da zona norte de São Paulo, recebesse uma emenda parlamentar da deputada estadual Edna Macedo, do Republicanos, e contratasse a empresa de eventos dele com o dinheiro. O áudio foi obtido com exclusividade pelo Intercept Brasil e publicado em 16 de setembro. A proposta foi recusada pela presidente da organização.

“A verba é muito alta. É muito alta mesmo”

A frase é de Samuel Modesto, na reunião. Ele descreve assim o que teria combinado: “Ela [Edna Macedo] vai me dar a verba e a gente vai distribuir essa verba dentro daquilo que a gente achar legal, onde a gente vai colocar. Pelo que entendi, pelo que eu conversei com o rapaz [assessor da Edna], a verba não é pequena. A verba é muito alta. É muito alta mesmo”.

Na conversa, ele não chega a detalhar como gastaria o dinheiro. Especula possibilidades: comprar roupa para ajudar pobres, montar um consultório odontológico, fazer shows na comunidade.

Por que a empresa dele não podia receber direto

A legislação paulista só autoriza que emendas cheguem a entidades privadas que sejam organizações da sociedade civil sem fins lucrativos. A empresa de eventos gospel de Modesto, a SGM, não cabe nesse perfil; a ONG cabe. Daí o desenho da proposta: a entidade receberia o recurso e subcontrataria a empresa dele.

Cada deputado estadual de São Paulo pode indicar hoje cerca de R$ 12 milhões em emendas, uma fatia do orçamento do estado que o parlamentar decide para onde mandar. A verba discutida nessa reunião passava de R$ 2 milhões.

A justificativa era uma dívida de gratidão

Segundo o próprio Modesto, o repasse seria retribuição por ele ter ajudado um familiar da deputada. Ao dizer pela primeira vez na reunião de quem estava falando, ele se gaba: “É uma deputada muito grande, muito forte. (...) Ela é irmã do bispo Macedo. Só isso”.

Modesto circula no meio gospel e na própria Igreja Universal. Já foi diretor do Troféu Talento, concurso tradicional de músicos cristãos, e cantou no Gospel Day, evento da Universal patrocinado por emendas de deputados do Republicanos.

A ONG recusou, e o vice-presidente foi destituído

Quem levou Modesto até a entidade foi um amigo guitarrista, Edson Lopes Queiroz, então vice-presidente da organização. Cinco dias antes da reunião, ele mandou um áudio à tesoureira pressionando pela aceitação: “Essa verba passa de R$ 2 milhões. É muito dinheiro. É a oportunidade de a ONG ganhar dinheiro, entendeu? (...) Precisa da ONG só para constar o nome para liberar a verba, entendeu?”.

Na reunião, os demais líderes da entidade reagiram com cautela e alertaram para o risco de envolvimento em corrupção. A proposta esbarrou na presidente, Eliete de Almeida Lima Delmutti Ramos da Silva, que a recusou mesmo com o vice-presidente a favor. A organização informou ao Intercept que nenhuma proposta de Modesto foi aceita e que Queiroz foi destituído do cargo depois do encontro.

“Desvio de finalidade no uso do recurso”

Para Caio César de Medeiros Costa, doutor em administração pública e governo e professor do Departamento de Administração da Universidade de Brasília, o acordo fere o princípio da impessoalidade, a regra de que toda escolha na administração pública se baseia no interesse da sociedade e não em vantagem pessoal. “Tem um desvio de finalidade no uso do recurso, que ao invés de atender ao interesse público atende ao privado, que nesse caso seria pagar a dívida de gratidão da parlamentar”, disse ele à reportagem, acrescentando que o princípio vale mesmo quando o repasse não chega a acontecer.

Marcelo Marchesini, doutor em administração pública e professor do Insper, vai na mesma direção: “Os processos estão sendo deturpados para gerar um benefício privado claro e está sendo usado um subterfúgio de enviar para a OSC para se ocultar os verdadeiros beneficiários”.

R$ 16,8 milhões em emendas para eventos da Universal desde 2023

O caminho do dinheiro público até a estrutura da igreja não começa nessa reunião. Reportagem do Intercept publicada em agosto mostrou que Edna Macedo destinou R$ 2,2 milhões em emendas a eventos da igreja do irmão. Somando todos os parlamentares, são pelo menos R$ 16,8 milhões enviados a eventos da Universal desde 2023, repassados por meio do Instituto Paulo Kobayashi, entidade que organiza vários desses eventos.

Vale separar uma coisa da outra: a ONG Jesus Cristo Por Um Mundo Melhor não é a Igreja Universal, e nada na reportagem liga a entidade a esse histórico. O que a aproxima da história é ter sido escolhida como destinatária possível de uma emenda, e ter dito não.

No meio da conversa, o caso do Dark Horse

Para argumentar que não queria se meter em ilegalidade, Modesto citou como mau exemplo uma conhecida dos tempos da Igreja Renascer: “Ela está envolvida até os dentes, ela foi pega agora com R$ 108 milhões”. A mulher é Karina Ferreira da Gama, produtora do filme sobre Jair Bolsonaro e investigada pela Polícia Civil de São Paulo por suspeita de desvios num contrato de R$ 108 milhões de pontos de wi-fi com a Prefeitura de São Paulo. O Portal Poder Afrikano contou esse caso nesta matéria.

O que esta matéria não afirma

Proposta gravada não é crime provado. Não há decisão judicial sobre o caso e a manobra não se concretizou: o dinheiro não saiu, a ONG recusou.

A frase em que Modesto fala em devolver R$ 400 mil de R$ 2 milhões é uma hipótese que ele levanta sobre o que poderiam vir a pedir a ele, não um pedido que alguém lhe fez. “Eu não sei se tem repasse, não falaram nada disso para mim”, diz ele na gravação.

E Edir Macedo não aparece no áudio nem é parte da proposta. A emenda seria da irmã dele. O nome dele entra na história porque é assim que Modesto apresenta a deputada na reunião.

Quem respondeu e quem não respondeu

A ONG respondeu, negando ter aceitado qualquer proposta. Edson Lopes Queiroz respondeu por telefone: confirmou que Modesto propôs direcionar uma emenda de Edna Macedo para a entidade, disse que o dinheiro financiaria eventos de música gospel, com compra de equipamento de som, e alegou que as negociações não passaram de “só conversa”. O Intercept atualizou o texto às 18h12 do mesmo dia para incluir a posição dele. Samuel Modesto e Edna Macedo foram procurados e não responderam.

Fonte: The Intercept Brasil, reportagem de Thalys Alcântara, 16 de setembro de 2026, atualizada às 18h12 do mesmo dia. A reportagem não informa a cor ou a raça de nenhuma das pessoas citadas, e esta matéria não a afirma.

Quem está na base dessa estrutura

Os evangélicos são 26,9% da população brasileira, e 61,1% deles são pretos e pardos: 49,1% pardos e 12% pretos, no Censo 2022 do IBGE. O recorte é do conjunto dos evangélicos do país, não de uma igreja específica, e não diz nada sobre como esse público vota, porque esse cruzamento não existe publicado. Diz outra coisa, e já basta: quando orçamento público entra na estrutura que organiza a fé de um país, quem está na base dessa estrutura é, em maioria, preto e pardo.