O linebacker Azeez Al-Shaair, do Houston Texans, foi multado pela NFL por entrar em campo com o nome de Hind Rajab escrito no adesivo que usa sob os olhos. A liga proíbe mensagem pessoal sem aprovação prévia. No dia seguinte, o jogador de basquete Kyrie Irving respondeu num post na rede social X que pagaria a conta.

A multa

Al-Shaair, de 29 anos, escreveu o nome de Hind Rajab no chamado eye black, o adesivo preto que os jogadores de futebol americano usam sob os olhos para reduzir o reflexo da luz. Foi na partida do Houston Texans contra o Buffalo Bills, no fim de semana passado.

A NFL aplicou a multa na quarta-feira, segundo a Al Jazeera. A ESPN e a Al Jazeera informam o valor de US$ 11.941. O Dallas Sports Journal, citando o repórter Aaron Wilson, da KPRC 2, publicou um valor diferente, de US$ 11.492.

A punição é procedimento padrão: as regras de uniforme e equipamento da liga proíbem que jogadores exibam mensagens pessoais sem aprovação prévia, segundo a ESPN. A multa saiu pela regra, e não pelo conteúdo da mensagem.

Quem era Hind Rajab

Hind Rajab tinha cinco anos. Foi morta em Gaza, em 2024, junto com seis parentes, depois que o carro em que a família estava foi alvejado por forças israelenses, segundo a ESPN e a Al Jazeera. No mês passado, o Exército israelense reconheceu pela primeira vez ter aberto fogo contra o veículo e disse ter instaurado uma investigação criminal.

Uma ligação telefônica registrada pelo Crescente Vermelho Palestino documentou os últimos momentos da menina. A gravação virou um docudrama indicado ao Oscar, segundo a Al Jazeera. O filme é “The Voice of Hind Rajab”, da diretora tunisiana Kaouther Ben Hania, escolhido pela Tunísia para concorrer ao Oscar de melhor filme internacional.

Não foi a primeira vez

Al-Shaair já tinha sido multado em janeiro, na temporada passada, por exibir a mensagem “Stop The Genocide”, parem o genocídio, numa fita que usava no rosto. A ESPN descreve a punição como relativa ao eye black; a Al Jazeera, à fita do nariz. Para a Al Jazeera, a frase não citava um conflito específico, mas foi amplamente entendida como referência a Gaza e ao Sudão.

Jogador negro, americano e muçulmano, segundo a Al Jazeera, Al-Shaair vem apoiando causas palestinas também pelo programa My Cause, My Cleats, da própria NFL, que autoriza chuteiras personalizadas. “Se a minha plataforma pode levar um pouco de esperança para famílias na Palestina, então é para isso que eu quero usá-la”, disse ele em comunicado na temporada passada, segundo a ESPN.

A resposta de Kyrie

Pouco depois de a multa ser divulgada por um repórter que cobre a NFL, Irving respondeu ao post: “Eu cuido da multa dele”. Nenhuma das fontes consultadas informa que o pagamento tenha sido feito, nem que Al-Shaair tenha aceitado a oferta.

Irving, nove vezes all-star da NBA, já vinha se posicionando. Em fevereiro, vestiu no Jogo das Estrelas uma camisa com a palavra “PRESS”, imprensa, em homenagem a jornalistas mortos em Gaza; segundo a Al Jazeera, a etiqueta da peça dizia ser dedicada aos jornalistas de Gaza que mostram a verdade ao mundo. Em abril, trocou a foto do perfil no Instagram pela imagem de uma criança palestina impedida por soldados israelenses de ir à escola na Cisjordânia ocupada. Em 2024, apareceu com uma corrente com a bandeira da Palestina. Em 2023, usou um keffiyeh.

A reação à punição

A NFL foi criticada nas redes. O estudioso muçulmano americano Omar Suleiman perguntou, num post no X, por que homenagear crianças palestinas assassinadas é “uma mensagem não autorizada”, e questionou se a punição teria sido a mesma caso a fita trouxesse o nome de Anne Frank.

O braço texano do Council on American-Islamic Relations saiu em defesa do jogador: “A mensagem de Al-Shaair estava enraizada na decência humana básica e na preocupação com vidas inocentes. Isso não deveria ser controverso, muito menos passível de multa”, diz a nota da entidade.

A Al Jazeera lembra que, em 15 de outubro de 2023, a NFL fez um minuto de silêncio por Israel num jogo entre Baltimore Ravens e Tennessee Titans, em Londres.

A conexão com o caso Ed Sheeran

A multa chega na mesma semana em que Robert Kraft, dono do New England Patriots, confirmou ter pressionado o cantor Ed Sheeran a tirar o rapper Macklemore da turnê americana. O Gillette Stadium, de propriedade de Kraft, era um dos palcos em que Macklemore abriria os shows. O Poder Afrikano tratou desse caso em outra matéria.

Análise: a regra que cobra pedágio

Esta parte é análise do Poder Afrikano. A NFL não proibiu o nome de Hind Rajab. Proibiu mensagem pessoal sem autorização, e cobrou por ela. É uma regra de forma, aplicada a um conteúdo, que converte posição política em despesa.

O efeito prático depende de quanto custa. Al-Shaair pagou duas vezes para escrever duas frases, e outro atleta se ofereceu para cobrir a terceira. Regra que transforma posição em conta a pagar não silencia quem tem dinheiro. Silencia quem não tem.

Fontes: ESPN, 16/09/2026; Al Jazeera, 17/09/2026; Dallas Sports Journal, 17/09/2026; The Hollywood Reporter sobre a indicação do filme.