O balconista de farmácia que criou o movimento pelo fim da escala 6x1 vai virar deputado federal. Rick Azevedo (PSOL) foi eleito pelo Rio de Janeiro no domingo, 4 de outubro, com 191.371 votos, a segunda maior votação entre os 46 eleitos do estado.
Em São Paulo, Erika Hilton (PSOL), autora de uma das propostas que deram origem ao texto, foi reeleita com 1.596.472 votos. Nenhuma mulher tinha recebido tantos votos para a Câmara dos Deputados.
O resultado chega dois dias antes de uma data marcada. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, pautou para terça-feira, 6 de outubro, a votação em plenário da Proposta de Emenda à Constituição que acaba com a escala 6x1.
A data está marcada, o desfecho não. Quem vota na terça é o Senado atual. Os senadores eleitos no domingo só assumem em fevereiro de 2027, e não há garantia de que a pauta sobreviva à nova composição da Casa.
Do balcão para o Congresso
Rick Azevedo tem 32 anos e nasceu em Dianópolis, no Tocantins. Trabalhou como frentista, vendedor e balconista de farmácia. É o fundador do Movimento Vida Além do Trabalho, que tirou a escala 6x1 da conversa de fim de expediente e levou para dentro do Congresso.
Em 2024, foi eleito vereador do Rio com 29.364 votos. Dois anos depois, multiplicou essa votação por mais de seis.
"Essa vitória não me foi entregue. Eu reivindiquei", escreveu nas redes sociais depois do resultado. Na segunda-feira, voltou ao assunto: "A partir do ano que vem, um balconista de farmácia estará no Congresso e a briga vai ser grande."
Em maio, ele já tinha estado na Câmara, do outro lado da mesa: foi ouvido como representante de movimento social pela comissão especial que analisou a proposta. Em 1º de fevereiro de 2027, volta como deputado.
A mulher mais votada da história da Câmara
Erika Hilton recebeu 6,73% dos votos válidos de São Paulo, a segunda maior votação individual do estado. O recorde anterior entre mulheres era de Joice Hasselmann, eleita em 2018 com 1.078.666 votos.
Em 2022, na primeira eleição federal, Erika teve 256.903 votos. Em quatro anos, multiplicou esse número por seis.
Ela é a autora da proposta apresentada em 2025 que previa quatro dias de trabalho por três de descanso, com limite de 36 horas semanais.
Quem mais volta
A proposta mais antiga é de Reginaldo Lopes (PT-MG), que apresentou em 2019 um texto com jornada de 36 horas semanais. Ele foi reeleito com 215.192 votos, a quarta maior votação entre os 53 deputados eleitos por Minas Gerais.
O relator que juntou as duas propostas no texto aprovado, Leo Prates (Republicanos-BA), também foi reeleito, com 103.794 votos.
Os quatro nomes que carregaram a proposta na Câmara estarão na próxima legislatura. Vêm de três partidos diferentes, e um deles é o Republicanos, o mesmo do presidente da Câmara, Hugo Motta.
O que o texto garante
A Câmara aprovou a proposta em 27 de maio, em dois turnos. No primeiro, foram 472 votos a favor e 22 contra. No segundo, 461 a 19.
O texto reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, sem corte de salário, e garante duas folgas por semana, uma delas de preferência aos domingos.
A mudança é gradual. Sessenta dias depois da promulgação, a jornada cai para 42 horas. Doze meses depois disso, para 40.
Os entraves
No Senado, a proposta andou devagar. Segundo a Agência Brasil, a base do governo tentou pautar a análise depois que o texto chegou, mas Alcolumbre o manteve parado. Só em agosto ele foi enviado à Comissão de Constituição e Justiça.
Em 27 de agosto, o relator Omar Aziz deu parecer favorável e rejeitou as 12 emendas apresentadas, como contamos aqui.
Em 2 de setembro, a comissão aprovou o texto. Quatro senadores registraram voto contra: Rogério Marinho (PL-RN), Hamilton Mourão (Republicanos-RS), Tereza Cristina (PP-MS) e Jaime Bagattoli (PL-RO).
No mesmo dia, a votação em plenário não aconteceu. O plenário esvaziou e a base do governo, sem segurança sobre os votos, decidiu não arriscar. Uma emenda à Constituição precisa de 49 votos entre os 81 senadores, em dois turnos. O governo calculava ter 53 ou 54.
O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues, atribuiu o esvaziamento a uma "ação coordenada" da oposição, com participação direta de Marinho e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato a presidente. "A oposição ao nosso governo é contra o fim da escala 6x1. Ponto", disse.
Marinho, líder da oposição, apresentou uma proposta alternativa que mantém a escala 6x1 e a jornada de 44 horas, com pagamento calculado por hora trabalhada e negociação direta entre trabalhadores e empregadores.
Flávio Bolsonaro integra a comissão e estava ausente quando a proposta foi aprovada ali. Segundo a Agência Brasil, ele defendeu o pagamento por hora trabalhada e evitou dizer como votaria no fim da escala 6x1. A agência procurou os dois senadores. Marinho não tinha respondido até a publicação, e o espaço seguia aberto para Flávio.
No dia seguinte, Alcolumbre prometeu em plenário ao senador Paulo Paim, que cumpre o último mandato, que a votação viria depois das eleições. Em 2 de outubro, marcou a data.
O Congresso que saiu das urnas
A eleição que fortaleceu os autores da proposta também fortaleceu quem resistiu a ela. O PL, partido de Marinho e de Flávio Bolsonaro, elegeu 121 deputados, a maior bancada da Câmara. Em 2022 tinham sido 99.
No Senado, a mudança é maior. O PL terá 28 senadores a partir de 2027, 19 deles eleitos no domingo. Será a maior bancada da Casa, mais de três vezes a do PT, que fica com nove. O MDB terá oito.
Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, à frente de Lula, com 45,16%. O segundo turno é em 25 de outubro.
Pautado para terça, sem garantia depois
Nada disso muda quem vota em 6 de outubro. A sessão de terça é do Senado atual, o mesmo que aprovou o texto na comissão em setembro e o mesmo que deixou o plenário vazio no mesmo dia.
O que muda é o que acontece se a votação não se concluir agora. Uma emenda à Constituição precisa passar em dois turnos, e esta já foi adiada uma vez. Se o Senado aprovar o texto sem mudança de mérito, ele segue para promulgação. Se mudar, a proposta volta para a Câmara.
E se ficar para 2027, a decisão passa a depender de um plenário em que o partido de dois dos quatro senadores que votaram contra na comissão terá 28 cadeiras. Para barrar uma emenda à Constituição bastam 33 dos 81 senadores.
Ninguém sabe, hoje, se a pauta se mantém com o Senado que toma posse em fevereiro. É por isso que a data de terça pesa tanto.
A escala tem cor
Nas jornadas mais pesadas da construção civil, trabalhadores negros passam de 65%. E quem está na escala 6x1 ganha, em média, 58% a menos do que quem está na 5x2. Os números são do Dossiê Fim da Escala 6x1, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas, e de levantamentos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos.
É por isso que essa votação nos interessa. Tempo livre é uma forma de poder, e ele está mal distribuído.
Quem trabalha seis dias em cada sete conseguiu, no único domingo de folga, colocar um dos seus no Congresso. Na terça, o Senado mostra se ouviu.
Fontes: CNN Brasil, 5 de outubro de 2026, sobre a votação de Rick Azevedo, Erika Hilton, Reginaldo Lopes e Leo Prates e a bancada do PL. Gazeta do Cerrado, 5 de outubro de 2026, sobre a trajetória e as declarações de Rick Azevedo. Agência Brasil, 27 de maio, 2 de setembro e 2 de outubro de 2026, sobre a aprovação na Câmara, a sessão do Senado e a data da votação. Agência Câmara de Notícias, 27 de maio de 2026, sobre os placares e as propostas de origem. Rádio Senado, 4 de outubro de 2026, e Poder360, 5 de outubro de 2026, sobre a composição do Senado a partir de 2027. Tribunal Superior Eleitoral, sobre o resultado do primeiro turno. Dossiê Fim da Escala 6x1, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas, e Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, sobre composição racial e rendimento.