As economistas Isadora Bousquat Árabe e Paula Carvalho Pereda analisaram 2.105 partidas de fim de semana do Campeonato Brasileiro entre 2015 e 2019 e cruzaram os resultados com boletins de ocorrência de violência doméstica em São Paulo e no Rio de Janeiro.
A pesquisa foi aceita para publicação na revista Economic Development and Cultural Change, da Universidade de Chicago.
Quando o time favorito perde um jogo que era esperado ganhar, os registros de violência doméstica sobem em média 6% nas seis horas seguintes ao apito final.
A derrota inesperada foi medida pelas odds do mercado de apostas. Não é qualquer derrota. É a que ninguém tinha contratado.
O que o dado não diz, e é o mais importante
O efeito não aparece antes do jogo. Não aparece durante. Não aparece depois das vitórias. Ele se concentra nas horas seguintes à frustração e depois se dissipa.
Isso afasta a leitura preguiçosa de que o futebol produz agressores. Não produz. O futebol não cria o agressor. Ele intensifica um ciclo de violência que já estava lá.
Quem já era violento encontra na derrota a desculpa que estava esperando.
Onde o grito some
A pesquisa encontrou uma diferença que diz muito sobre o Brasil.
Nos municípios que têm Delegacia de Defesa da Mulher, o choque da derrota aparece nos boletins de ocorrência. Onde não existe serviço especializado, ele aparece em outro canal: as ligações para o Ligue 180 sobem 28% no dia seguinte ao jogo.
A violência não é menor onde falta delegacia. Ela só não vira estatística.
E o corpo que mais atravessa esse intervalo entre o soco e o registro é o de mulher negra e periférica.
Ela mora, com mais frequência, exatamente nos municípios que não têm delegacia especializada. A invisibilidade é dupla: a do agressor que não é registrado e a da vítima que não é contada.
O que fazer com isso
A pesquisa não pede que ninguém pare de assistir futebol. Ela mostra uma janela de risco previsível, de poucas horas, com dia e horário conhecidos com antecedência.
Política pública trabalha com janela previsível. Reforço no Ligue 180 em rodada de clássico não é medida simbólica.
Sobre o mecanismo por trás desse número, e sobre a responsabilidade que a indústria do futebol não assume, escrevemos em A derrota do seu time não justifica a agressão que você faz em casa.
Fonte: Agência Pública, julho de 2026, sobre estudo de Isadora Bousquat Árabe e Paula Carvalho Pereda.