Se você acha que este texto é sobre futebol, ainda não percebeu qual é o verdadeiro jogo.
A Copa do Mundo de 2026 acontece nos Estados Unidos, Canadá e México, mas principalmente nos EUA. E durante os últimos meses, o país anfitrião demonstrou com uma clareza raramente vista como funciona o poder real: não é quem viola as regras que perde. É quem não tem poder de defini-las.
Camada 1: recursos
Em janeiro de 2026, os EUA capturaram Nicolás Maduro sem mandado internacional, sem processo de extradição. A ONU classificou a operação como violação do direito internacional. Enquanto isso, em dezembro de 2025, a CITGO, ativo venezuelano avaliado em US$ 11 bilhões, havia sido vendida à força por ordem de um juiz americano por US$ 5,9 bilhões. Depois do terremoto que devastou parte da Venezuela em junho de 2026, os EUA enviaram US$ 150 milhões em ajuda humanitária.
Menos de 3% do que tomaram.
A lógica é simples: extrair é legítimo. Devolver é opcional.
Camada 2: justiça
Em 2022, a FIFA baniu a Rússia de todas as competições após a invasão da Ucrânia. A seleção russa não entrou nem nas eliminatórias da Copa de 2026. A punição foi rápida, unânime e apresentada como exemplo de que o futebol tem valores.
Em fevereiro de 2026, os EUA e Israel atacaram o Irã. Israel jogou todas as eliminatórias normalmente. A ONU concluiu que as ações de Israel em Gaza constituem genocídio, mais de 30 especialistas jurídicos internacionais pediram formalmente à FIFA a suspensão da seleção. A Casa Branca avisou que se oporia a qualquer banimento. A FIFA multou Israel em 150 mil francos suíços por irregularidades menores e seguiu em frente.
A conclusão não é difícil: quem define o que é "invasão", e o que é apenas "operação", também define quem é banido.
Camada 3: soberania
No mesmo torneio, a FIFA exigiu a remoção de uma ilustração da Batalha de Vertières da camisa oficial do Haiti. O motivo declarado foi "declaração política". Vertières é o confronto de 1803 que libertou o Haiti do domínio francês, o único país da história onde escravizados derrotaram um exército colonial e fundaram uma nação.
No mesmo torneio, a FIFA organizou uma cerimônia oficial do 4 de julho nos EUA: hino nacional americano, bandeiras, transmissão ao vivo de astronautas na Estação Espacial Internacional.
Não foi considerado político.
A lógica: soberania vale quando é a deles.
Camada 4: instituições
A FIFA tem uma regra contra manifestações políticas nas camisas e em campo. É uma regra que existe para ser aplicada seletivamente. No mesmo torneio em que censurou o Haiti, a entidade criou um prêmio do nada e o entregou ao presidente dos EUA dentro de uma cerimônia oficial do próprio evento.
Cinquenta parlamentares europeus pediram investigação. A UEFA chamou a reversão do cartão vermelho do atacante naturalizado Balogun, que os EUA obtiveram após ligação presidencial para o presidente da FIFA, Gianni Infantino, de "linha vermelha". A Federação Alemã exigiu esclarecimentos formais. A FIFA ficou em silêncio.
O mesmo Infantino realizou 27 voos em jato privado em 17 dias durante a Copa, enquanto a FIFA prega sustentabilidade ambiental nas suas comunicações oficiais.
O que o campo diz
Com tudo isso, os EUA mudaram as regras do jogo, conseguiram escalar Balogun com o cartão revertido por telefonema, e mesmo assim perderam de 4 a 1 para a Bélgica nas oitavas de final.
O técnico do Egito, Hossam Hassan, após classificar o time às oitavas, ergueu a bandeira da Palestina em campo no solo americano e declarou: "Meu coração e minha alma estão com eles." A FIFA abriu processo. Depois recuou, a bandeira palestina é permitida porque a Palestina é membro da FIFA. A mesma FIFA que censurou a independência do Haiti numa camisa.
Torcemos pelo Marrocos e pelo Egito porque sabemos o que significa um país africano chegar longe numa Copa controlada por quem controla tudo o mais. Dentro de campo, a África prova que compete de igual para igual. Fora dele, as regras nunca foram as mesmas.
Futebol é político. A questão é quem tem o poder de fingir que não é.