Editora Poder Afrikano

Esportes

Futebol, Copa e racismo no esporte com consciência africano-centrada

Leia os artigos completos

A FIFA queria vender pedaços da Copa. E a África ficou calada.

Composição tipográfica sobre o recuo da FIFA na venda de participações em suas competições
FIFA · agosto de 2026

Gianni Infantino abandonou o plano de vender participações nas principais competições da FIFA a fundos de investimento privados. O recuo veio depois de uma reação vinda de todos os cantos do futebol mundial.

A proposta era transformar parte do maior torneio esportivo do planeta em ativo negociável.

Federações, ligas e torcedores reagiram. Em poucos dias, o plano estava morto e o próprio Infantino passou a ser assunto: a imprensa esportiva já discute quem o substituiria.

O silêncio que chama atenção

Enquanto a oposição crescia, a Confederação Africana de Futebol não tinha tomado partido.

Não é difícil entender por quê. A CAF depende do dinheiro que a FIFA distribui. Programas de desenvolvimento, repasses para federações nacionais, infraestrutura de competição. Quem depende do repasse raramente é o primeiro a levantar a mão contra quem repassa.

Essa é a posição do futebol africano na estrutura: essencial em campo, dependente fora dele.

O continente que entrega e não decide

A África exporta jogadores para todas as ligas relevantes da Europa desde antes de a maioria dessas ligas virar produto global. Fornece talento, público e mercado.

No momento em que se discutiu vender fatias do torneio, quem entrega a matéria-prima não estava na mesa decidindo. Estava esperando para saber o resultado.

O plano caiu. A estrutura que o produziu continua de pé.

No mesmo fim de semana

Enquanto isso acontecia nos bastidores, Asisat Oshoala marcou o gol da vitória da Nigéria sobre a Zâmbia na WAFCON 2026 e reanimou a briga do país por uma vaga na Copa do Mundo Feminina de 2027.

Um dos dois assuntos ocupou a capa dos portais esportivos brasileiros. O outro, não.

Fontes: BBC Sport e Africanews, 31 de julho e 1º de agosto de 2026.

Almanaque da África na Copa, da Editora Poder Afrikano

Fazer meu pedido
Voltar ao topo

Dezesseis seleções, seis vagas para o Mundial, zero cobertura

Composição tipográfica sobre a WAFCON 2026 no Marrocos
WAFCON 2026 · Marrocos

A Copa Africana de Nações Feminina começou em 26 de julho, no Marrocos.

Dezesseis seleções em campo. Vagas para o Mundial em jogo. E, na imprensa esportiva brasileira, praticamente nada.

Você viu alguma cobertura? A gente também não.

Não é falta de espaço. Nas mesmas semanas, o noticiário esportivo cobriu pré-temporada europeia, rumores de transferência e treino de clube brasileiro em detalhe. Espaço existe. O que não existe é o entendimento de que futebol africano feminino é notícia.

O padrão se repete e é sempre o mesmo

Durante a Copa do Mundo masculina, o futebol africano ganhou páginas. Reportagem sobre torcida, sobre história, sobre jogadores. Quando o torneio acabou, o interesse acabou junto.

Enquanto a África serve de tempero para o evento europeu ou global, ela vira pauta. Quando o torneio é dela, organizado por ela, decidido entre seleções dela, o assunto some.

Com futebol feminino, a distância dobra. Duas exclusões somadas: a de gênero e a de origem.

Quem decide o que é notícia decide o que existe

Esse é o ponto que ultrapassa o esporte.

Amos Wilson tratava a produção de imagem e narrativa como instrumento de poder, não como reflexo neutro da realidade. Em A Falsificação da Consciência Afrikana, ele descreve como a ausência sistemática de representação constrói, em quem assiste, a ideia de que aquilo não é importante. Não é preciso dizer que não importa. Basta não mostrar.

Uma criança negra brasileira que nunca viu uma seleção africana feminina disputar um título continental aprende alguma coisa com esse silêncio. Aprende onde estão o centro e a margem.

Cobertura não é vitrine. É construção de repertório.

A WAFCON está em andamento agora. Os jogos existem, os resultados existem, as jogadoras existem. O que falta é alguém contando.

Fontes: BBC Sport Africa e Africanews, julho e agosto de 2026.

Almanaque da África na Copa, histórias e curiosidades do futebol africano em 80 figurinhas

Garantir por R$39,90
Voltar ao topo

A derrota do seu time não justifica a agressão que você faz em casa

Mulher negra ao celular na madrugada à luz de vela
Derrotas no futebol. Vitórias da violência.

Futebol não causa violência.

Mas expõe quem já é violento. E isso importa, porque a indústria do futebol adora usar a "emoção do jogo" como desculpa para normalizar o que acontece depois que a câmera apaga.

Os dados são claros: registros de violência doméstica aumentam após derrotas no futebol. Especialmente em famílias negras e pobres, onde a polícia já não entra de qualquer jeito.

Não é coincidência. É padrão.

O futebol funciona como válvula de emoções masculinas que nunca foram ensinadas a ter outro caminho. A raiva da derrota vai para onde vai a raiva de tudo: para dentro de casa. Para mulheres. Para crianças. Para quem é menor e mais vulnerável.

Amos Wilson analisou esse mecanismo em Violência Preta Contra Preto. O argumento dele é preciso: quando um povo é sistematicamente oprimido e não tem canais legítimos para expressar essa opressão contra quem a causa, a violência se volta para dentro da própria comunidade. Não é patologia individual. É consequência de uma estrutura que fecha as saídas e deixa a pressão acumular.

O futebol não cria o machismo. Mas ativa o que o machismo já construiu.

E a indústria lucra com o ciclo: vende emoção, vende raiva, vende pertencimento, e não se responsabiliza pelo que acontece quando o apito final soa e o homem vai para casa.

As federações não fazem campanha sobre isso. A TV não faz especial sobre isso. Os patrocinadores não tiram dinheiro por isso.

Porque falar nisso é admitir que o produto que vendem, a paixão masculina pelo futebol, a rivalidade, a honra de clube, tem efeito colateral com nome e endereço. Tem Ligue 180. Tem delegacia especializada. Tem mulher que não vai ao hospital porque sabe que a polícia não vai aparecer.

A violência doméstica não começa na derrota. A derrota só derruba a última barreira.

A pergunta que ninguém faz na transmissão: se você já prestou atenção se alguém próximo fica mais agressivo depois de jogo, você provavelmente já sabe a resposta. A questão é o que você faz com isso.

Denuncie. Ligue 180. Delegacias especializadas existem. E se você é o homem que faz isso: o futebol não é a causa. Você é a causa. E você pode mudar.

Fonte: Agência Pública, 25/07/2026.

Questões de Masculinidade em Preto e Branco — o que a cultura nos ensina sobre ser homem negro

Pré-venda — R$70,00
Voltar ao topo

A identidade do futebol brasileiro foi inventada. E tem cor.

Capa da Gazeta Esportiva de 1947 sobre o futebol brasileiro
A Gazeta Esportiva, 7 de novembro de 1947 — quando o mito virou verdade.

Tem uma mentira que o Brasil acreditou por 90 anos.

A ideia de que o futebol brasileiro tem uma essência: improviso, ginga, jogo bonito, futebol-arte. Que isso é quem nós somos. Que é natural. Que veio do povo.

Não veio.

Nos anos 1930, intelectuais brancos do Rio de Janeiro inventaram essa identidade.

A Copa de 1930, perdemos. A de 1934, perdemos. Precisavam de uma explicação que não fosse "o Brasil não investe em estrutura". A explicação foi outra: "Somos improvisadores. Artistas. É a nossa essência." Derrota? É nossa natureza. Vitória? Prova da nossa genialidade natural.

O problema não é que o Brasil joga bem. O problema é o que essa narrativa escondia.

Enquanto a Europa investia em tática, metodologia, formação técnica e salários decentes, a narrativa brasileira dizia que jogador preto não precisava de nada disso. Ele era gênio nato. Nascia sabendo. A periferia formava por conta própria e a CBF colhia o produto pronto.

Não precisava investir em quem já nasce bom.

Amos Wilson chamou esse mecanismo de falsificação da consciência. Em A Falsificação da Consciência Afrikana, ele argumenta que o grupo dominante cria narrativas sobre o dominado que parecem elogios, mas que, no fundo, justificam a ausência de investimento, de estrutura, de poder. "Você é naturalmente criativo" é o elogio que dispensa a obrigação de criar condições.

O jogador preto brasileiro é gênio natural. Então não precisa de técnico bem pago, de planejamento tático sofisticado, de estabilidade profissional. É improviso. É arte.

Resultado: enquanto jovens europeus brancos entram em academias estruturadas aos 8 anos, jovens negros brasileiros driblam na areia até os 16, e aí são comprados. O produto pronto, formado pela própria comunidade.

O Brasil não investe em jogadores. Investe em negócio sobre jogadores.

A narrativa tem cor porque o jogador preto é o único que precisa dela. Ninguém diz que técnico europeu branco é gênio nato. Ele tem currículo, metodologia, salário alto. O jogador negro periférico tem "talento". E talento não tem contrato, não tem garantia, não tem direito.

Quando o Brasil perde, a culpa é do Neymar. Quando ganha, é da identidade brasileira. Em nenhum dos dois casos se pergunta: quem tomou a decisão tática? Quem escolheu o esquema? Quem definiu que esse jogador criativo, desestruturador, que não cabe em sistema fechado, ia jogar num esquema fechado?

A decepção não foi de Neymar. A decepção foi de quem o convocou para um projeto que não foi feito para ele funcionar.

Isso é a mesma coisa que acontece na sociedade: quando o negro criativo, diferente, que não cabe no molde europeu, não consegue contribuir num espaço desenhado para ele falhar, a culpa vira dele.

A identidade do futebol brasileiro foi inventada por quem não jogava. Sustentada por quem lucrava. E paga por quem jogava.

Quando a gente vai parar de chamar isso de essência?

Fonte: Idelber Avelar, Folha de S.Paulo, 22/07/2026.

Almanaque África na Copa 2026, histórias, curiosidades e a Copa vista de outro ângulo

Garantir por R$39,90
Voltar ao topo

Você torceu como se fosse o Brasil. E era a África.

Jamiro Monteiro — Cabo Verde Salah — Egito Hakimi — Marrocos Vinícius Jr. — Brasil Mbappé Bukayo Saka

Você vibrou. Você sofreu. Você torceu como se fosse o Brasil. E era a África.

Não é exagero. É o que aconteceu nesta Copa do Mundo. Em botecos, em casas, em grupos de WhatsApp, o Brasil inteiro gritou junto com seleções que não têm nem um terço da nossa população, mas que tinham exatamente o nosso futebol.

Cabo Verde. 525 mil habitantes.

Pense no tamanho de Cabo Frio. Pense numa cidade do interior paulista. Agora imagine essa cidade mandando uma seleção para a Copa do Mundo e segurando os futuros campeões num empate histórico 0 a 0 na fase de grupos.

Foi isso que Cabo Verde fez. Uma estreia que vai entrar para o livro de história do futebol africano, não como curiosidade, mas como declaração. Eles não foram lá pra tirar foto. Foram lá pra jogar.

Nas oitavas de final, vieram contra a Argentina bicampeã. E aí o Brasil parou. Porque na prorrogação, Cabo Verde marcou. Um golaço. O grito veio de quem nem lembrava o nome do jogador, mas reconheceu o futebol, aquele futebol que a gente conhece, que sobe pelo corpo, que não tem explicação técnica.

O Egito e o VAR que virou raiva coletiva

O Egito estava vencendo a Argentina por 2 a 0. Dois a zero. Tinha gol anulado pelo VAR. Um gol que todo mundo viu entrar, que a torcida celebrou, que levou trinta segundos para ser roubado por um monitor de vídeo.

A Argentina virou: 3 a 2. E a raiva foi real. Foi muito real. Não era torcida neutra assistindo a tecnologia funcionar. Era gente que tinha lado, e o lado estava perdendo para algo que não estava em campo.

O VAR virou personagem desta Copa. E não por acaso, o personagem sempre pareceu aparecer nos momentos errados para as seleções africanas.

A maldição do minuto 86

Na mesma rodada: Senegal, República Democrática do Congo e Costa do Marfim. Todas vencendo seleções europeias. Todas eliminadas.

Senegal ganhando. Gol sofrido no finzinho. Fora.

RD Congo na frente. Virada nos acréscimos. Fora.

Costa do Marfim controlando o jogo. Gol no último minuto. Fora.

Três países. Três resultados. Uma mesma sensação: o futebol africano estava lá, mas alguma coisa, em algum momento entre o minuto 80 e o apito final, sempre encontrava um jeito de acabar com tudo.

Pode ser coincidência. Pode ser preparo físico. Pode ser gestão de resultado. Pode ser muita coisa. Mas quem assistiu sabe que a sensação não era de derrota justa. Era de algo roubado.

Por que o Brasil se importa

A gente torce pela África porque reconhece o futebol. Porque vê jogadores que cresceram em campos de areia, com bola de meia, improvisando o que os europeus constroem em academias multimilionárias, e chegando lá do mesmo jeito. Às vezes melhor.

Mas torcer não é o suficiente. Essas histórias precisam ser contadas. Os nomes precisam ser lembrados. Os gols precisam ser celebrados, não apenas no momento em que acontecem, mas depois, quando a poeira baixa e o mundo esquece.

Foi por isso que a Poder Afrikano criou o Almanaque África na Copa 2026. Para que cada seleção, cada jogador, cada gol improvável e cada eliminação injusta tenha o registro que merece. Para que a história do futebol africano não seja só uma nota de rodapé na história do futebol mundial.

Almanaque África na Copa 2026, histórias, curiosidades e a Copa vista de outro ângulo

Garantir por R$39,90 — últimas unidades
Voltar ao topo

Os EUA não violam as regras. Eles definem quais regras valem — e para quem.

Trump e Infantino na Casa Branca
Donald Trump e Gianni Infantino na Casa Branca, 2026

Se você acha que este texto é sobre futebol, ainda não percebeu qual é o verdadeiro jogo.

A Copa do Mundo de 2026 acontece nos Estados Unidos, Canadá e México, mas principalmente nos EUA. E durante os últimos meses, o país anfitrião demonstrou com uma clareza raramente vista como funciona o poder real: não é quem viola as regras que perde. É quem não tem poder de defini-las.

Camada 1: recursos

Em janeiro de 2026, os EUA capturaram Nicolás Maduro sem mandado internacional, sem processo de extradição. A ONU classificou a operação como violação do direito internacional. Enquanto isso, em dezembro de 2025, a CITGO, ativo venezuelano avaliado em US$ 11 bilhões, havia sido vendida à força por ordem de um juiz americano por US$ 5,9 bilhões. Depois do terremoto que devastou parte da Venezuela em junho de 2026, os EUA enviaram US$ 150 milhões em ajuda humanitária.

Menos de 3% do que tomaram.

A lógica é simples: extrair é legítimo. Devolver é opcional.

Camada 2: justiça

Em 2022, a FIFA baniu a Rússia de todas as competições após a invasão da Ucrânia. A seleção russa não entrou nem nas eliminatórias da Copa de 2026. A punição foi rápida, unânime e apresentada como exemplo de que o futebol tem valores.

Em fevereiro de 2026, os EUA e Israel atacaram o Irã. Israel jogou todas as eliminatórias normalmente. A ONU concluiu que as ações de Israel em Gaza constituem genocídio, mais de 30 especialistas jurídicos internacionais pediram formalmente à FIFA a suspensão da seleção. A Casa Branca avisou que se oporia a qualquer banimento. A FIFA multou Israel em 150 mil francos suíços por irregularidades menores e seguiu em frente.

A conclusão não é difícil: quem define o que é "invasão", e o que é apenas "operação", também define quem é banido.

Camada 3: soberania

No mesmo torneio, a FIFA exigiu a remoção de uma ilustração da Batalha de Vertières da camisa oficial do Haiti. O motivo declarado foi "declaração política". Vertières é o confronto de 1803 que libertou o Haiti do domínio francês, o único país da história onde escravizados derrotaram um exército colonial e fundaram uma nação.

No mesmo torneio, a FIFA organizou uma cerimônia oficial do 4 de julho nos EUA: hino nacional americano, bandeiras, transmissão ao vivo de astronautas na Estação Espacial Internacional.

Não foi considerado político.

A lógica: soberania vale quando é a deles.

Camada 4: instituições

A FIFA tem uma regra contra manifestações políticas nas camisas e em campo. É uma regra que existe para ser aplicada seletivamente. No mesmo torneio em que censurou o Haiti, a entidade criou um prêmio do nada e o entregou ao presidente dos EUA dentro de uma cerimônia oficial do próprio evento.

Cinquenta parlamentares europeus pediram investigação. A UEFA chamou a reversão do cartão vermelho do atacante naturalizado Balogun, que os EUA obtiveram após ligação presidencial para o presidente da FIFA, Gianni Infantino, de "linha vermelha". A Federação Alemã exigiu esclarecimentos formais. A FIFA ficou em silêncio.

O mesmo Infantino realizou 27 voos em jato privado em 17 dias durante a Copa, enquanto a FIFA prega sustentabilidade ambiental nas suas comunicações oficiais.

O que o campo diz

Com tudo isso, os EUA mudaram as regras do jogo, conseguiram escalar Balogun com o cartão revertido por telefonema, e mesmo assim perderam de 4 a 1 para a Bélgica nas oitavas de final.

O técnico do Egito, Hossam Hassan, após classificar o time às oitavas, ergueu a bandeira da Palestina em campo no solo americano e declarou: "Meu coração e minha alma estão com eles." A FIFA abriu processo. Depois recuou, a bandeira palestina é permitida porque a Palestina é membro da FIFA. A mesma FIFA que censurou a independência do Haiti numa camisa.

Torcemos pelo Marrocos e pelo Egito porque sabemos o que significa um país africano chegar longe numa Copa controlada por quem controla tudo o mais. Dentro de campo, a África prova que compete de igual para igual. Fora dele, as regras nunca foram as mesmas.

Futebol é político. A questão é quem tem o poder de fingir que não é.

Almanaque da África na Copa — a Copa de 2026 lida a partir de nós

Garanta o seu — R$39,90
Voltar ao topo

Isso não é rivalidade. É racismo.

Torcida argentina na Copa 2026
Torcida argentina durante a Copa do Mundo 2026

Existe uma diferença entre rivalidade e racismo. Rivalidade é competição, é disputa, é a pressão que dois times se fazem dentro de campo. Racismo é a tentativa de usar a raça para diminuir, desumanizar, apagar. Os dois não se confundem.

O que a torcida argentina vem fazendo, e o que parte dos próprios jogadores já fizeram, é racismo. Não é provocação aceitável. Não é "cultura local". É um padrão histórico, documentado, que a Copa de 2026 voltou a tornar visível.

Miami, 2026

Durante a Copa, em Miami, a torcida argentina cantou em coro "Que te pasa, brazuca?", com o verso "Todo mundo na favela está chorando". No mesmo jogo, torcedores argentinos arremessaram garrafas contra a torcida de Cabo Verde. Uma seleção africana que construiu uma das histórias mais bonitas do torneio foi recebida com violência nas arquibancadas.

A FIFA registrou o incidente. Abriu processo. O resultado desse processo, até o momento da publicação deste texto, ainda não foi divulgado publicamente.

Do Catar à Copa América

Não foi a primeira vez. Em 2022, após a Argentina vencer a França na final da Copa do Catar, torcedores criaram o cântico racista "Eles jogam pela França, mas são de Angola", tendo Kylian Mbappé, filho de pai camaronês e mãe argelina, como alvo principal. O cântico viralizou globalmente.

Em 2024, na Copa América, não foram apenas torcedores: os próprios jogadores da seleção argentina repetiram a música num vídeo gravado no vestiário, após a conquista do título. O vídeo circulou nos principais portais esportivos do mundo. Houve pressão internacional. A Federação Argentina de Futebol emitiu uma nota. Os jogadores pediram desculpas após os patrocinadores reagirem.

Nenhum foi suspenso. A Copa América não foi invalidada.

O histórico

O mesmo padrão se repete no futebol de clubes há décadas. Contra o Corinthians. Contra o Grêmio. Contra o Ceará. Em diferentes países, em diferentes décadas, sempre com o mesmo gesto de imitar macacos direcionado a jogadores negros.

Chamar isso de "rivalidade" serve apenas para normalizar. Rivalidade não tem cor. Racismo tem um alvo específico: o corpo negro. Qualquer tentativa de equiparar os dois é, ela mesma, parte do problema.

O que a FIFA deveria fazer

A entidade tem regras. Tem precedentes de punição coletiva, a seleção brasileira foi punida por invasão de campo de torcedores em partida qualificatória. A punição existe quando a FIFA quer punir.

A questão não é técnica. É política. E enquanto a FIFA não tratar racismo nas arquibancadas com a mesma rigidez com que trata bandeiras de independência em camisas, o recado que ela envia é claro: algumas formas de violência são mais toleráveis do que outras.

Enquanto tentam apagar a força do talento africano dentro e fora de campo, nós continuamos celebrando. O talento não precisa de permissão para existir. O racismo é que precisa ser nomeado, e punido.

Almanaque da África na Copa — celebre quem está fazendo história

Garanta o seu — R$39,90
Voltar ao topo

O futebol mundial não seria o mesmo sem eles

Vinícius Jr. Hakimi Bukayo Saka Jamiro Monteiro Salah Nico Williams Mbappé

Hoje começa a Copa do Mundo de 2026. E antes que os holofotes se voltem para os favoritos de sempre, vale dizer uma coisa em voz alta: o futebol que o mundo inteiro ama não existiria sem a África.

O que seria o futebol sem o talento africano?

Pense nos jogadores que definiram o futebol das últimas décadas. Didier Drogba, que carregou Côte d'Ivoire nas costas e ganhou uma Champions League quase sozinho. Samuel Eto'o, o maior artilheiro da história da Copa Africana de Nações. Yaya Touré, que durante anos foi o melhor jogador do mundo na sua posição. Jay-Jay Okocha, cuja habilidade redefiniu o que era possível fazer com uma bola.

E hoje: Mohamed Salah, o melhor jogador do mundo por períodos consistentes, eleito pela segunda vez na última temporada. Sadio Mané, que construiu uma carreira entre os mais eficientes atacantes da história recente. Riyad Mahrez, Achraf Hakimi, André Onana, Victor Osimhen, Serhou Guirassy.

Retire esses jogadores da Premier League, da Champions League, das ligas europeias, e o produto que o mundo consome muda radicalmente. O futebol que enriquece clubes ingleses, espanhóis e alemães foi construído, em grande parte, sobre talento africano.

Mas as seleções africanas ainda são tratadas como zebra

E mesmo assim, toda vez que uma seleção africana avança numa Copa do Mundo, a narrativa é a mesma: surpresa. Zebra. Sensação. Como se o talento individual que o mundo celebra diariamente nos clubes europeus deixasse de existir quando esses jogadores vestem a camisa do país onde nasceram.

Camarões 1990 eliminou a Argentina de Maradona e chegou às quartas de final, foi tratado como milagre. Senegal 2002 eliminou a França campeã do mundo e chegou às quartas, foi tratado como milagre. Gana 2010 chegou às quartas e perdeu nos pênaltis para o Uruguai depois de uma defesa de mão criminosa de Luis Suárez dentro do gol, foi tratado como azarão que quase conseguiu. Marrocos 2022 chegou à semifinal, eliminou Espanha, Portugal e Bélgica, foi tratado como a maior surpresa da história do torneio.

Não é surpresa. É competência. É o mesmo talento que o mundo admira todos os fins de semana, só que agora jogando por eles mesmos.

Por que fizemos o Almanaque da África na Copa

O Almanaque da África na Copa nasceu dessa contradição. De um lado, um continente que exporta talentos que sustentam o futebol global. Do outro, seleções nacionais que são sistematicamente subestimadas, mal cobertas pela imprensa, tratadas como figurantes no torneio que elas ajudam a tornar possível.

O almanaque foi feito para contar as histórias que a cobertura tradicional não conta. As trajetórias das seleções africanas em 2026. Os jogadores que carregam gerações de esperança. As curiosidades e os dados que colocam em perspectiva o que essas equipes representam, para seus países, para o continente, para o futebol negro no mundo.

São 48 páginas, 80 figurinhas, análise pan-africanista. Não é um produto de fã de futebol genérico. É um produto de quem olha para o jogo sabendo de onde veio e o que está em jogo além dos 90 minutos.

A Copa começa hoje. As seleções africanas não são zebra. Nunca foram.

Almanaque da África na Copa — 48 páginas, 80 figurinhas

Garanta o seu — R$39,90
Voltar ao topo