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Futebol, Copa e racismo no esporte com consciência africano-centrada

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Alison dos Santos correu em 45s80 e o recorde mundial dos 400 metros com barreiras virou brasileiro

Alison dos Santos comemora com a bandeira do Brasil nas costas
Alison dos Santos comemora após prova. Foto: Rodolfo Vilela, licença Creative Commons BY 3.0 Brasil.

Quarenta e cinco segundos e oitenta centésimos.

Foi o tempo que Alison dos Santos levou para cobrir os 400 metros com barreiras na etapa de Zurique da Diamond League, nesta quinta-feira, 27 de agosto de 2026, no estádio Letzigrund. Com ele, o recorde mundial da prova passou a ser brasileiro.

O que foi superado

A marca anterior era 45s94, do norueguês Karsten Warholm, cravada na final olímpica de Tóquio, em 2021. Aquela corrida entrou para a história como uma das provas mais rápidas já disputadas em qualquer distância, e o número parecia ter vindo para ficar.

Durou cinco anos. Alison tirou 14 centésimos dele.

Ele é o segundo homem da história a correr os 400 metros com barreiras abaixo de 46 segundos. E agora é o mais rápido de todos.

Quem é Alison

Alison dos Santos nasceu em 3 de junho de 2000, em São Joaquim da Barra, no interior de São Paulo. Tem 26 anos. No atletismo é conhecido como Piu.

O recorde não é um acidente numa carreira discreta. É o ponto mais alto de uma linha que já vinha subindo:

Ouro nos Jogos Pan-Americanos de Lima, em 2019. Bronze olímpico em Tóquio, em 2021, na mesma final em que Warholm fez o recorde que caiu agora. Ouro no Mundial de Eugene, em 2022, o primeiro ouro masculino do Brasil na história dos Mundiais de atletismo. Bronze olímpico de novo em Paris, em 2024. Prata no Mundial de Tóquio, em 2025.

Em Zurique ele também fechou mais um título de etapa da Diamond League em 2026.

O que muda a partir de agora

Até quarta-feira, Alison era um dos melhores do mundo numa prova cuja referência estava em outro lugar. Ele corria atrás de um número norueguês.

A partir desta quinta, a conta se inverte. Quem entrar numa pista de 400 metros com barreiras, em qualquer lugar do planeta, vai correr atrás do tempo de um brasileiro do interior paulista.

Recorde mundial não é só a soma de um treino bem feito. É uma marca que passa a organizar a prova inteira: define o que é considerado rápido, o que é considerado possível e quem serve de medida para todo mundo. Essa medida, hoje, tem nome brasileiro.

Vale registrar o que isso significa numa modalidade em que o Brasil raramente aparece no topo. Não é o país que mais investe em atletismo, não é o que mais forma velocistas, e ainda assim é de onde saiu o homem mais rápido da história nessa distância.

O tempo a ser batido, agora, é 45s80.

Fontes: cobertura da etapa de Zurique da Diamond League em 27 de agosto de 2026 por CNN Brasil, Gazeta Esportiva e O Tempo; ficha do atleta e histórico de resultados conferidos em base pública. Foto de Rodolfo Vilela, licença Creative Commons BY 3.0 Brasil.

O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre consciência, poder e o direito de contar a própria história.

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A NFL chega ao Maracanã em setembro. Até 2021, o exame que decidia a indenização de ex-jogador com demência tinha uma régua diferente para negros.

Capacete dos Dallas Cowboys apoiado numa prateleira de madeira
Capacete dos Dallas Cowboys, um dos times que jogam no Rio em setembro. Foto via Wikimedia Commons.

No domingo, 27 de setembro, às 17h25, Dallas Cowboys e Baltimore Ravens jogam no Maracanã. É a primeira partida da NFL no Rio de Janeiro, dentro de um compromisso de pelo menos três jogos de temporada regular na cidade em cinco anos.

Em 24 de agosto, a liga anunciou as parcerias comunitárias do evento. Uma delas é com o Instituto Gol de Letra. Luiz Martinez, diretor-geral da NFL Brasil, resumiu o plano: a liga quer levar a NFL para as favelas, com ações que sejam 100% na comunidade.

Não há nada de errado com isso. O que existe é uma parte da história da liga que não aparece no anúncio, e que quase ninguém conta por aqui.

Por que tanto jogador de futebol americano adoece

A concussão que tira o atleta de campo é a parte visível. O problema maior são os impactos repetidos na cabeça, temporada após temporada, incluindo os que ninguém registra porque o jogador levanta e continua jogando.

Esses impactos estão associados à encefalopatia traumática crônica, a CTE, uma doença degenerativa do cérebro que provoca perda de memória, alteração de humor e comprometimento do julgamento. A CTE só pode ser diagnosticada depois da morte.

O número que todo mundo cita, e a ressalva que quase ninguém repete

Em 2017, a equipe da neuropatologista Ann McKee, da Universidade de Boston, publicou na revista JAMA o exame de 202 cérebros doados de jogadores de futebol americano. Em 177 deles havia CTE. Entre os que chegaram a jogar na NFL, a doença apareceu em 110 de 111.

O número virou manchete no mundo inteiro, quase sempre sem a segunda metade da frase. Os cérebros não vieram de uma amostra aleatória de ex-jogadores: foram doados por famílias que já suspeitavam de alguma coisa. A própria McKee chama isso de enorme viés de seleção.

O estudo não diz que 99% dos jogadores da NFL desenvolvem CTE. Diz que, entre os que morreram com sintomas fortes o suficiente para a família doar o cérebro, quase todos tinham a doença. É uma diferença que muda tudo, e é exatamente o tipo de qualificador que se perde na tradução.

O acordo de US$ 1 bilhão

Milhares de aposentados processaram a liga por lesão cerebral, e o caso terminou num acordo judicial de US$ 1 bilhão. Ele não funciona como plano de saúde: funciona como pedido de indenização, um por um.

O ex-jogador que quer receber entra num programa do acordo e faz dois exames, um neurológico e um neuropsicológico, aplicados por um neurologista e um neuropsicólogo credenciados. Juntos, os exames levam de sete a dez horas.

A pontuação decide tudo. Se ela indicar comprometimento neurocognitivo de nível 1.5, que o acordo chama de demência inicial, o teto é de US$ 1,5 milhão. Nível 2, demência moderada, vai até US$ 3 milhões. Alzheimer e Parkinson chegam a US$ 3,5 milhões, morte com CTE a US$ 4 milhões, e esclerose lateral amiotrófica a US$ 5 milhões.

E aqui entra o race-norming

A pontuação desse exame partia de uma linha de base diferente conforme a raça do jogador. Para quem era negro, a base presumida era mais baixa.

Repare no que isso faz com a conta. O que o exame mede não é o desempenho absoluto, é a queda em relação ao ponto de partida presumido. Piso mais baixo significa queda medida menor, e queda menor não alcança o nível que paga. Dois homens com o mesmo cérebro adoecido, um branco e um negro, podiam sair do mesmo exame com resultados diferentes.

Isso não era cuidado com a saúde de ninguém. Era a régua que decidia quem recebia.

O funil

Mais de 3.300 ex-jogadores ou famílias pediram indenização por lesão cerebral. Mais de 2.000 desses pedidos são por demência moderada ou avançada. Do total de pedidos por demência, só 3 em cada 10 tinham sido pagos.

Em 2 de junho de 2021, depois de disputa judicial, a liga anunciou que pararia de usar o cálculo por raça e revisaria as pontuações anteriores em busca de viés racial.

Não é acusação, é registro. A prática está descrita no documento do acordo, e foi a própria liga que se comprometeu a encerrá-la. E ela não parou por consciência: parou porque foi levada à Justiça.

O que isso tem a ver com o Maracanã

Nada disso impede a festa em setembro. O jogo vai acontecer, o estádio vai encher, e as ações na comunidade provavelmente vão fazer bem para as crianças que participarem.

O que a história muda é o tamanho do crédito. Uma instituição que chega ao Brasil como convidada e como marca não chega sem passado, e o passado dela inclui uma régua que usava outro padrão para o cérebro de jogador negro até anteontem, em termos históricos.

A África e a diáspora aparecem no noticiário brasileiro quase sempre pelo que lhes falta. Quando a instituição é estrangeira, rica e simpática, costuma chegar só pelo que ela tem. Contar as duas metades não é implicância. É a diferença entre notícia e publicidade.

Fontes: ge.globo, 24 de agosto de 2026, sobre as parcerias comunitárias; MKT Esportivo, 24 de agosto de 2026, com a declaração de Luiz Martinez; Diário do Rio, para data, horário e o compromisso plurianual; NPR, 2 de junho de 2021, e NFL.com sobre o fim do race-norming e o balanço dos pedidos; Ann McKee e equipe, Universidade de Boston, publicado na JAMA em 2017, para os dados de CTE, com a ressalva de viés de seleção declarada pela própria autora; site oficial do acordo das concussões, para o funcionamento dos exames, os níveis de diagnóstico e os valores máximos. Foto via Wikimedia Commons.

Quando a régua que mede um povo é escrita por outro, o resultado já vem decidido. É disso que trata A Falsificação da Consciência Afrikana.

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A regra do visto inglês não fala em raça. Fala em liga. São 14 ligas na lista e nenhuma é africana.

Rofiat Imuran, do London City Lionesses, em campo
Rofiat Imuran, do London City Lionesses, uma das quatro africanas da primeira divisão inglesa. Foto: Katie Chan, via Wikimedia Commons.

A primeira divisão do futebol feminino da Inglaterra se chama Women's Super League e é apontada como uma das melhores do mundo. Ela recebeu neste ano Alexia Putellas, espanhola que já ganhou duas vezes a Bola de Ouro.

Africanas, a liga inteira tem quatro: Chiamaka Nnadozie e Aisha Masaka, no Brighton, Rofiat Imuran, no London City Lionesses, e Ines Belloumou, no West Ham. O Washington Spirit, um único clube dos Estados Unidos, tem seis.

A explicação mais confortável seria falta de talento. Não é. A régua que decide quem entra está escrita, é pública, e não menciona raça em nenhuma linha. Ela menciona ligas.

O aval que libera o visto

Depois da saída do Reino Unido da União Europeia, toda jogadora estrangeira precisa de visto de trabalho, e o clube só consegue pedir esse visto se a federação inglesa der um aval. O nome desse aval é Governing Body Endorsement.

É um sistema de pontos. Quem não entra pelo critério automático de jogos pela seleção precisa somar 24 pontos. Os critérios são públicos e estão no site da federação inglesa, na versão da temporada 2025/26.

As 14 ligas

A federação separa os campeonatos do mundo em três faixas.

A Faixa 1 tem oito: Inglaterra, França, Alemanha, Estados Unidos, Espanha, Suécia, Holanda e Itália. A Faixa 2 tem seis: Austrália, Brasil, Dinamarca, Japão, México e Noruega.

A Faixa 3 é o que sobra, e o documento a define exatamente assim: todas as ligas nacionais que não estão na Faixa 1 nem na Faixa 2. São 14 ligas nomeadas, e nenhuma é africana. É na terceira faixa que a África inteira está.

O mesmo trabalho, menos da metade dos pontos

Jogar de 90% a 100% dos minutos do próprio campeonato vale 12 pontos para quem está na Faixa 1, 10 pontos na Faixa 2 e 5 pontos na Faixa 3.

Mais embaixo a distância aumenta. Com 40% a 49% dos minutos, a jogadora da Faixa 1 leva 7 pontos e a da Faixa 3 leva zero.

A mesma temporada, o mesmo esforço, a mesma jogadora. O que muda é o carimbo do campeonato onde ela jogou.

A Libertadores vale 7. A Liga dos Campeões africana vale 2.

Os pontos por competição continental também vêm em faixas. A Liga dos Campeões da Europa e a Copa Libertadores feminina são Faixa 1: jogar quase todos os minutos vale 7 pontos.

Todas as outras competições continentais do planeta são Faixa 2, e ali o mesmo desempenho vale 2 pontos. A Liga dos Campeões africana está nesse grupo. Abaixo de 80% dos minutos, ela vale zero.

Não é falta de talento

Em 2024, Racheal Kundananji, da Zâmbia, virou a transferência mais cara da história do futebol feminino, e a compatriota dela Barbra Banda foi eleita a melhor jogadora do ano pela BBC. As duas jogam nos Estados Unidos.

Temwa Chawinga, do Malawi, ganhou artilharia e prêmio de melhor jogadora da liga americana nas duas primeiras temporadas dela.

E com os homens?

A mesma máquina, num documento separado. O jogador estrangeiro precisa de 15 pontos, e as ligas são separadas em seis faixas em vez de três.

Contando as ligas nomeadas nas cinco primeiras faixas, são 40, de Portugal à Coreia do Sul, da Croácia ao Chile. Nenhuma delas é africana, e ali também a Liga dos Campeões africana cai na última faixa continental.

Ou seja: não é uma régua feita contra mulheres. O mecanismo é o mesmo nos dois documentos. O que muda, e essa leitura é nossa, é o número de degraus que a lista reconhece no caminho até a Inglaterra.

O que esta matéria não afirma

A Faixa 3 não pega só a África. Ela pega também Portugal, Polônia, China e quase toda a Ásia. Esta matéria não diz que a regra foi feita para bloquear africanas, e não afirma que alguma das jogadoras citadas aqui tenha sido barrada por visto. Nenhuma fonte diz isso.

O que está nos documentos, com todas as letras, é que a África inteira ficou fora da lista de ligas reconhecidas, nos dois documentos, o de mulheres e o de homens.

Nenhuma regra precisa dizer a palavra raça

Basta ela medir o que só existe onde o dinheiro do futebol já está. O Campeonato Africano deste ano foi adiado 12 dias antes de começar e não teve transmissão ao vivo na primeira rodada no Reino Unido. Menos jogo na tela, menos minuto jogado, menos ponto na conta.

O futebol feminino está subindo e a África não pode ficar para trás. Chiamaka Nnadozie, à BBC

Fontes: BBC Sport, reportagem de Emma Sanders, 20 de agosto de 2026. The Football Association, Women's Players GBE Criteria 2025/26 e Men's Players GBE Criteria 2025/26, documentos oficiais da federação inglesa. Foto: Katie Chan, via Wikimedia Commons.

O Almanaque da África na Copa refaz a história das seleções africanas e dos jogadores que o futebol europeu só reconhece depois que eles provam duas vezes.

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Em 1998 disseram que ele não era francês de verdade. Em 2026 ele foi treinar o país onde nasceu.

Em 18 de agosto de 2026, a federação senegalesa anunciou Patrick Vieira como técnico da seleção de Senegal. Ele nasceu em Dakar, em 1976, e saiu de lá aos 8 anos.

Entre uma coisa e outra cabe a história inteira.

O que ele ganhou pela França

Vieira jogou 107 vezes pela seleção francesa. Foi campeão do mundo em 1998, campeão da Eurocopa em 2000 e capitão do Arsenal na temporada invicta.

Enquanto aquele time ganhava, Jean-Marie Le Pen, então líder da extrema-direita francesa, atacava publicamente a seleção por ter jogadores demais de origem estrangeira. A imprensa chamava aquele time de arco-íris. Ele chamava de artificial.

A nacionalidade que é negociável

Vieira nunca respondeu publicamente a esses ataques, e nada aqui é atribuído a ele. O que a biografia mostra é outra coisa: a nacionalidade de um jogador negro é negociável enquanto ele ganha.

Em 1998, com a taça na mão, a França inteira era campeã. Quando o time perdia, a origem dos jogadores voltava a ser assunto. O critério nunca esteve na mão de quem jogava.

O primeiro trabalho em seleção

Agora ele assume o país onde nasceu. É o primeiro trabalho de Vieira em seleção depois de dez anos dirigindo clubes: New York City FC, Nice, Crystal Palace, Strasbourg e Genoa.

Ele substitui Pape Thiaw, demitido depois da Copa do Mundo, em que Senegal caiu nas oitavas para a Bélgica por 3 a 2, na prorrogação. A federação chamou a escolha de estratégica, voltada a construir uma estrutura técnica de alto nível.

As eliminatórias da Copa Africana de Nações de 2027 começam em setembro. Senegal caiu no grupo J, com Moçambique, Sudão e Etiópia.

Ele não foi embora

A leitura fácil seria a do técnico que troca a Europa pela África depois de encerrar o ciclo lá fora. Não é isso. Ele não foi embora. Ele foi para casa.

Fontes: Africanews (18 de agosto de 2026), BBC Sport Africa (18 de agosto de 2026) e CAF.

O Almanaque da África na Copa refaz a história das seleções africanas e dos jogadores que a Europa só reconhece enquanto eles ganham.

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O Malawi estreou na WAFCON e chegou à final. As irmãs Chawinga fizeram os três gols.

O Malawi venceu a Argélia por 3 a 1 em Rabat e está na final da Copa Africana de Nações feminina. É a primeira participação do país no torneio.

Os três gols saíram dos pés de duas irmãs.

Tabitha e Temwa

Tabitha Chawinga abriu o placar aos 33 minutos, num lance acrobático de perna esquerda. A bola bateu no travessão, desceu e cruzou a linha.

Temwa Chawinga marcou nos acréscimos do primeiro tempo. Tabitha fez o terceiro e liquidou a partida.

Tabitha já foi a maior artilheira do Campeonato Italiano e hoje joga na França. Temwa atua nos Estados Unidos. As duas cresceram num país cuja seleção feminina nunca tinha disputado uma Copa Africana.

Domingo, a final

O adversário é Camarões, que eliminou o Marrocos, dono da casa, na outra semifinal. A decisão é no domingo, 16 de agosto, no Estádio Olímpico de Rabat. Em jogo, um prêmio de 2 milhões de dólares para o campeão, o maior da história do torneio.

O Malawi já tinha garantido a vaga na Copa do Mundo de 2027, disputada no Brasil, ao eliminar Gana nas quartas e chegar à semifinal.

Daqui a um ano, elas jogam aqui

Quando a imprensa brasileira descobrir as irmãs Chawinga, vai chamar de revelação. Elas já são artilheiras nas ligas onde jogam há anos.

Não é surgimento. É o momento em que a gente resolve olhar.

Fontes: ESPN, CAF e Flashscore, 12 de agosto de 2026.

O Almanaque da África na Copa refaz a história das seleções africanas que o noticiário trata como novidade.

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Estreou no torneio e vai para a Copa. A campeã ficou de fora.

As quartas de final da Copa Africana de Nações feminina terminaram no domingo, e as quatro semifinalistas estão classificadas para a Copa do Mundo de 2027, no Brasil.

São elas: Marrocos, Argélia, Camarões e Malawi.

O Malawi nunca tinha jogado esse torneio

Era a estreia do país na competição. Na primeira partida, venceram a Nigéria por 3 a 2. Depois bateram o Egito por 3 a 1 e terminaram o grupo C em primeiro lugar. Nas quartas, ganharam de Gana por 2 a 1.

São os primeiros estreantes a alcançar a semifinal desde o Zimbábue, em 2000. E vão disputar a primeira Copa do Mundo da história do país.

A campeã caiu

A Nigéria é nove vezes campeã africana e chegou ao torneio como atual campeã. Perdeu por 1 a 0 para Camarões e está fora da classificação direta.

A África do Sul, campeã em 2022, perdeu por 2 a 1 para o Marrocos, em Rabat. A Argélia venceu a Costa do Marfim por 2 a 1 e chegou à semifinal pela primeira vez na história.

Nigéria, África do Sul, Costa do Marfim e Gana ainda disputam, em 13 de agosto, duas vagas na repescagem intercontinental. A atual campeã da África vai ter que brigar por uma vaga que quatro seleções já garantiram.

Daqui a um ano elas desembarcam aqui

A Copa de 2027 é a primeira disputada na América do Sul.

Quando essas seleções chegarem ao Brasil, a imprensa vai apresentá-las como novidade. O Malawi está em campo desde 26 de julho, eliminou a maior potência do continente na estreia, e quase ninguém por aqui viu.

Fontes: CAF, Al Jazeera, beIN Sports e Olympics.com, agosto de 2026.

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Quatro jogos, quatro vagas no Brasil

Estádio Moulay Abdellah, em Rabat, com arquibancadas cheias
Estádio Moulay Abdellah, em Rabat, onde Marrocos e África do Sul se enfrentam. Foto: Reda Benkhadra / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

As quartas de final da Copa Africana de Nações feminina acontecem neste sábado e neste domingo, no Marrocos. E elas valem mais do que a vaga na semifinal.

Quem vencer está classificado para a Copa do Mundo de 2027, no Brasil. Não precisa chegar à final. Não precisa levantar a taça. Basta ganhar um jogo.

Os quatro confrontos

No sábado, Costa do Marfim e Argélia jogam às 14h de Brasília, no estádio Moulay Rachid, em Casablanca. Às 17h, Marrocos e África do Sul se enfrentam no Moulay El Hassan, em Rabat.

No domingo, Camarões e Nigéria jogam às 14h, em Casablanca. Malawi e Gana fecham a rodada às 17h, em Rabat.

Os quatro times eliminados ainda terão uma segunda chance. Em 13 de agosto, eles se enfrentam por duas vagas na repescagem intercontinental da FIFA.

O jogo grande é em Rabat

Marrocos e África do Sul é o confronto que resume o torneio. O Marrocos sedia a competição pela terceira edição seguida, o primeiro país a conseguir isso, e passou pela fase de grupos sem sofrer gol. Chegou à final nas duas edições anteriores, jogando em casa, e perdeu as duas.

Do outro lado está a África do Sul, campeã em 2022.

A Nigéria, atual campeã, passou como segunda colocada do grupo C, depois de perder a estreia para o Malawi. Encara Camarões num reencontro da final de 2016, que a Nigéria venceu por 1 a 0.

Por que isso importa aqui

A Copa do Mundo feminina de 2027 será disputada no Brasil. É a primeira vez que o torneio acontece na América do Sul.

As seleções que vão jogar aqui estão sendo definidas neste fim de semana, e quase ninguém no país está olhando.

Daqui a um ano, quando essas equipes desembarcarem em cidades brasileiras, a imprensa vai apresentá-las como novidade. Elas não são novidade. Elas estão em campo agora, e a decisão sobre quem vem passa por quatro jogos em dois dias.

Fontes: CAF, Premium Times Nigeria, Olympics.com e Al Jazeera, agosto de 2026.

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Oito gols, saldo positivo e fora da Copa: a regra que eliminou a Zâmbia

Barbra Banda com a camisa 11 da seleção da Zâmbia
Barbra Banda, capitã da Zâmbia. Foto: Steffen Prößdorf / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

A Zâmbia marcou oito gols e sofreu dois nos três jogos do grupo C da Copa Africana de Nações feminina. Saldo de mais seis, o melhor entre todas as seleções que caíram na primeira fase.

Está eliminada.

O empate triplo

Malawi, Nigéria e Zâmbia terminaram o grupo com seis pontos cada. Quando isso acontece, o artigo 71.2 do regulamento da CAF manda ignorar o saldo de gols da chave inteira.

No lugar dele entra um grupo menor, formado só pelos jogos entre as seleções empatadas. As três terminaram esse recorte com saldo zero. O critério seguinte foi o total de gols marcados nesses confrontos diretos.

Malawi marcou quatro. Nigéria, três. Zâmbia, dois.

Malawi e Nigéria foram para as quartas de final. As Copper Queens voltaram para casa.

Venceu na última rodada e caiu do mesmo jeito

O detalhe que torna a eliminação mais dura: a Zâmbia ainda bateu o Malawi por 2 a 1 no jogo final do grupo. Ganhou e caiu.

Barbra Banda, capitã da seleção, fez quatro gols sozinha na estreia, no 6 a 0 sobre o Egito. Deixou o torneio como maior goleadora da fase de grupos. O técnico da Zâmbia questionou publicamente o critério da CAF depois da eliminação.

A regra estava escrita antes da bola rolar

É verdade, e é o argumento que sempre aparece nessas horas. Ninguém mudou nada no meio do caminho.

Mas regra conhecida não é a mesma coisa que regra justa. Um critério que apaga oito gols marcados em três jogos decide também quem tem direito a ser lembrado. A Zâmbia fica de fora do Mundial de 2027 com a melhor campanha ofensiva entre as eliminadas, e a conversa sobre o torneio vai seguir sem ela.

Fontes: CAF, Pulse Sports Nigeria, GhanaSoccerNet e PM News Nigeria, agosto de 2026.

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É a melhor jogadora da África. Ninguém aqui sabe o nome dela.

Ghizlane Chebbak perfilada com a camisa da seleção do Marrocos
Ghizlane Chebbak na Copa Africana de 2022. Foto: Marouane Hamousse / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Em dezembro de 2025, a CAF elegeu Ghizlane Chebbak a melhor jogadora africana do ano. Nenhuma mulher do Marrocos tinha recebido esse prêmio antes dela.

No mesmo ano, ela virou a primeira marroquina a entrar na seleção mundial da FIFPRO, o time ideal votado por jogadoras e jogadores profissionais do mundo inteiro.

O que ela já fez

Chebbak foi artilheira da Copa Africana de 2022 e, no mesmo torneio, eleita a melhor em campo da competição. Em 2024 foi artilheira de novo, com cinco gols, e levou a Chuteira de Ouro pela segunda edição seguida.

Capitaneou o Marrocos na Copa do Mundo de 2023. Nasceu em agosto de 1990, tem 35 anos e joga hoje no Al Hilal, na Arábia Saudita. O pai, Larbi Chebbak, também defendeu a seleção marroquina e a incentivou a jogar.

Três vezes anfitriã, nenhuma taça

O Marrocos sedia a Copa Africana feminina pela terceira edição consecutiva, feito de nenhum outro país. Chegou à final nas duas anteriores, em casa, e perdeu as duas.

Neste sábado, Chebbak entra em campo em Rabat contra a África do Sul, valendo vaga na Copa do Mundo de 2027, no Brasil.

O que o silêncio ensina

Amos Wilson tratava a produção de imagem como instrumento de poder, e não como espelho neutro da realidade. Em A Falsificação da Consciência Afrikana, ele descreve como a ausência sistemática de representação constrói, em quem assiste, a noção de que aquilo não tem importância. Não é preciso dizer que algo não importa. Basta não mostrar.

Você provavelmente sabe o nome de dez jogadores europeus. O da melhor jogadora de um continente inteiro, não.

A conta não é sua. É de quem decide, todos os dias, o que vira notícia e o que fica de fora.

Fontes: CAF, FIFPRO, Olympics.com e Arab News, 2025 e 2026.

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A Europa derrubou o plano da FIFA em 48 horas. A África não foi consultada.

No sábado, 1º de agosto, a UEFA declarou publicamente ter perdido a confiança na liderança da FIFA.

O comunicado chamou a proposta de vender participações nas competições a investidores privados de "acordo vagabundo, de bastidor, opaco" e "tudo menos transparente".

A entidade europeia ameaçou boicotar competições da FIFA até que o plano fosse retirado. Três confederações rejeitaram a proposta. Na madrugada seguinte, Gianni Infantino anunciou que ela não seguiria adiante.

A frase que importa

O trecho mais duro do comunicado da UEFA é este:

Não podemos continuar assim, com esquemas secretos em prazos acelerados, cozinhados por indivíduos sem rosto e de benefício duvidoso para o jogo. Precisamos identificar os responsáveis e responsabilizá-los. UEFA, 1º de agosto de 2026

A UEFA parou antes de pedir a renúncia de Infantino. Mas deixou o cargo dele em xeque.

O que a velocidade revela

Repare no tempo de reação. A proposta veio a público, a Europa se posicionou, ameaçou boicote, e o plano caiu em cerca de 48 horas.

Enquanto isso, a Confederação Africana de Futebol não havia tomado partido.

Não é distração. A CAF depende do dinheiro que a FIFA distribui: programas de desenvolvimento, repasses para federações nacionais, infraestrutura de competição. Quem depende do repasse não ameaça boicote.

Quem tem o poder de dizer não

O continente que exporta jogadores para todas as ligas relevantes da Europa não teve papel na derrubada do plano.

Foi a Europa que barrou. Não porque a Europa esteja do lado certo por natureza, mas porque a Europa pode.

O plano caiu. A estrutura que decide quem fala e quem espera continua exatamente igual.

Fontes: UEFA, CNN, Al Jazeera e Bloomberg, 1º de agosto de 2026.

Almanaque da África na Copa, da Editora Poder Afrikano

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A FIFA queria vender pedaços da Copa. E a África ficou calada.

Composição tipográfica sobre o recuo da FIFA na venda de participações em suas competições
FIFA · agosto de 2026

Gianni Infantino abandonou o plano de vender participações nas principais competições da FIFA a fundos de investimento privados. O recuo veio depois de uma reação vinda de todos os cantos do futebol mundial.

A proposta era transformar parte do maior torneio esportivo do planeta em ativo negociável.

Federações, ligas e torcedores reagiram. Em poucos dias, o plano estava morto e o próprio Infantino passou a ser assunto: a imprensa esportiva já discute quem o substituiria.

O silêncio que chama atenção

Enquanto a oposição crescia, a Confederação Africana de Futebol não tinha tomado partido.

Não é difícil entender por quê. A CAF depende do dinheiro que a FIFA distribui. Programas de desenvolvimento, repasses para federações nacionais, infraestrutura de competição. Quem depende do repasse raramente é o primeiro a levantar a mão contra quem repassa.

Essa é a posição do futebol africano na estrutura: essencial em campo, dependente fora dele.

O continente que entrega e não decide

A África exporta jogadores para todas as ligas relevantes da Europa desde antes de a maioria dessas ligas virar produto global. Fornece talento, público e mercado.

No momento em que se discutiu vender fatias do torneio, quem entrega a matéria-prima não estava na mesa decidindo. Estava esperando para saber o resultado.

O plano caiu. A estrutura que o produziu continua de pé.

No mesmo fim de semana

Enquanto isso acontecia nos bastidores, Asisat Oshoala marcou o gol da vitória da Nigéria sobre a Zâmbia na WAFCON 2026 e reanimou a briga do país por uma vaga na Copa do Mundo Feminina de 2027.

Um dos dois assuntos ocupou a capa dos portais esportivos brasileiros. O outro, não.

Fontes: BBC Sport e Africanews, 31 de julho e 1º de agosto de 2026.

Almanaque da África na Copa, da Editora Poder Afrikano

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Dezesseis seleções, seis vagas para o Mundial, zero cobertura

Composição tipográfica sobre a WAFCON 2026 no Marrocos
WAFCON 2026 · Marrocos

A Copa Africana de Nações Feminina começou em 26 de julho, no Marrocos.

Dezesseis seleções em campo. Vagas para o Mundial em jogo. E, na imprensa esportiva brasileira, praticamente nada.

Você viu alguma cobertura? A gente também não.

Não é falta de espaço. Nas mesmas semanas, o noticiário esportivo cobriu pré-temporada europeia, rumores de transferência e treino de clube brasileiro em detalhe. Espaço existe. O que não existe é o entendimento de que futebol africano feminino é notícia.

O padrão se repete e é sempre o mesmo

Durante a Copa do Mundo masculina, o futebol africano ganhou páginas. Reportagem sobre torcida, sobre história, sobre jogadores. Quando o torneio acabou, o interesse acabou junto.

Enquanto a África serve de tempero para o evento europeu ou global, ela vira pauta. Quando o torneio é dela, organizado por ela, decidido entre seleções dela, o assunto some.

Com futebol feminino, a distância dobra. Duas exclusões somadas: a de gênero e a de origem.

Quem decide o que é notícia decide o que existe

Esse é o ponto que ultrapassa o esporte.

Amos Wilson tratava a produção de imagem e narrativa como instrumento de poder, não como reflexo neutro da realidade. Em A Falsificação da Consciência Afrikana, ele descreve como a ausência sistemática de representação constrói, em quem assiste, a ideia de que aquilo não é importante. Não é preciso dizer que não importa. Basta não mostrar.

Uma criança negra brasileira que nunca viu uma seleção africana feminina disputar um título continental aprende alguma coisa com esse silêncio. Aprende onde estão o centro e a margem.

Cobertura não é vitrine. É construção de repertório.

A WAFCON está em andamento agora. Os jogos existem, os resultados existem, as jogadoras existem. O que falta é alguém contando.

Fontes: BBC Sport Africa e Africanews, julho e agosto de 2026.

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A derrota do seu time não justifica a agressão que você faz em casa

Mulher negra ao celular na madrugada à luz de vela
Derrotas no futebol. Vitórias da violência.

Futebol não causa violência.

Mas expõe quem já é violento. E isso importa, porque a indústria do futebol adora usar a "emoção do jogo" como desculpa para normalizar o que acontece depois que a câmera apaga.

Os dados são claros: registros de violência doméstica aumentam após derrotas no futebol. Especialmente em famílias negras e pobres, onde a polícia já não entra de qualquer jeito.

Não é coincidência. É padrão.

O futebol funciona como válvula de emoções masculinas que nunca foram ensinadas a ter outro caminho. A raiva da derrota vai para onde vai a raiva de tudo: para dentro de casa. Para mulheres. Para crianças. Para quem é menor e mais vulnerável.

Amos Wilson analisou esse mecanismo em Violência Preta Contra Preto. O argumento dele é preciso: quando um povo é sistematicamente oprimido e não tem canais legítimos para expressar essa opressão contra quem a causa, a violência se volta para dentro da própria comunidade. Não é patologia individual. É consequência de uma estrutura que fecha as saídas e deixa a pressão acumular.

O futebol não cria o machismo. Mas ativa o que o machismo já construiu.

E a indústria lucra com o ciclo: vende emoção, vende raiva, vende pertencimento, e não se responsabiliza pelo que acontece quando o apito final soa e o homem vai para casa.

As federações não fazem campanha sobre isso. A TV não faz especial sobre isso. Os patrocinadores não tiram dinheiro por isso.

Porque falar nisso é admitir que o produto que vendem, a paixão masculina pelo futebol, a rivalidade, a honra de clube, tem efeito colateral com nome e endereço. Tem Ligue 180. Tem delegacia especializada. Tem mulher que não vai ao hospital porque sabe que a polícia não vai aparecer.

A violência doméstica não começa na derrota. A derrota só derruba a última barreira.

A pergunta que ninguém faz na transmissão: se você já prestou atenção se alguém próximo fica mais agressivo depois de jogo, você provavelmente já sabe a resposta. A questão é o que você faz com isso.

Denuncie. Ligue 180. Delegacias especializadas existem. E se você é o homem que faz isso: o futebol não é a causa. Você é a causa. E você pode mudar.

Fonte: Agência Pública, 25/07/2026.

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A identidade do futebol brasileiro foi inventada. E tem cor.

Capa da Gazeta Esportiva de 1947 sobre o futebol brasileiro
A Gazeta Esportiva, 7 de novembro de 1947 — quando o mito virou verdade.

Tem uma mentira que o Brasil acreditou por 90 anos.

A ideia de que o futebol brasileiro tem uma essência: improviso, ginga, jogo bonito, futebol-arte. Que isso é quem nós somos. Que é natural. Que veio do povo.

Não veio.

Nos anos 1930, intelectuais brancos do Rio de Janeiro inventaram essa identidade.

A Copa de 1930, perdemos. A de 1934, perdemos. Precisavam de uma explicação que não fosse "o Brasil não investe em estrutura". A explicação foi outra: "Somos improvisadores. Artistas. É a nossa essência." Derrota? É nossa natureza. Vitória? Prova da nossa genialidade natural.

O problema não é que o Brasil joga bem. O problema é o que essa narrativa escondia.

Enquanto a Europa investia em tática, metodologia, formação técnica e salários decentes, a narrativa brasileira dizia que jogador preto não precisava de nada disso. Ele era gênio nato. Nascia sabendo. A periferia formava por conta própria e a CBF colhia o produto pronto.

Não precisava investir em quem já nasce bom.

Amos Wilson chamou esse mecanismo de falsificação da consciência. Em A Falsificação da Consciência Afrikana, ele argumenta que o grupo dominante cria narrativas sobre o dominado que parecem elogios, mas que, no fundo, justificam a ausência de investimento, de estrutura, de poder. "Você é naturalmente criativo" é o elogio que dispensa a obrigação de criar condições.

O jogador preto brasileiro é gênio natural. Então não precisa de técnico bem pago, de planejamento tático sofisticado, de estabilidade profissional. É improviso. É arte.

Resultado: enquanto jovens europeus brancos entram em academias estruturadas aos 8 anos, jovens negros brasileiros driblam na areia até os 16, e aí são comprados. O produto pronto, formado pela própria comunidade.

O Brasil não investe em jogadores. Investe em negócio sobre jogadores.

A narrativa tem cor porque o jogador preto é o único que precisa dela. Ninguém diz que técnico europeu branco é gênio nato. Ele tem currículo, metodologia, salário alto. O jogador negro periférico tem "talento". E talento não tem contrato, não tem garantia, não tem direito.

Quando o Brasil perde, a culpa é do Neymar. Quando ganha, é da identidade brasileira. Em nenhum dos dois casos se pergunta: quem tomou a decisão tática? Quem escolheu o esquema? Quem definiu que esse jogador criativo, desestruturador, que não cabe em sistema fechado, ia jogar num esquema fechado?

A decepção não foi de Neymar. A decepção foi de quem o convocou para um projeto que não foi feito para ele funcionar.

Isso é a mesma coisa que acontece na sociedade: quando o negro criativo, diferente, que não cabe no molde europeu, não consegue contribuir num espaço desenhado para ele falhar, a culpa vira dele.

A identidade do futebol brasileiro foi inventada por quem não jogava. Sustentada por quem lucrava. E paga por quem jogava.

Quando a gente vai parar de chamar isso de essência?

Fonte: Idelber Avelar, Folha de S.Paulo, 22/07/2026.

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Você torceu como se fosse o Brasil. E era a África.

Jamiro Monteiro — Cabo Verde Salah — Egito Hakimi — Marrocos Vinícius Jr. — Brasil Mbappé Bukayo Saka

Você vibrou. Você sofreu. Você torceu como se fosse o Brasil. E era a África.

Não é exagero. É o que aconteceu nesta Copa do Mundo. Em botecos, em casas, em grupos de WhatsApp, o Brasil inteiro gritou junto com seleções que não têm nem um terço da nossa população, mas que tinham exatamente o nosso futebol.

Cabo Verde. 525 mil habitantes.

Pense no tamanho de Cabo Frio. Pense numa cidade do interior paulista. Agora imagine essa cidade mandando uma seleção para a Copa do Mundo e segurando os futuros campeões num empate histórico 0 a 0 na fase de grupos.

Foi isso que Cabo Verde fez. Uma estreia que vai entrar para o livro de história do futebol africano, não como curiosidade, mas como declaração. Eles não foram lá pra tirar foto. Foram lá pra jogar.

Nas oitavas de final, vieram contra a Argentina bicampeã. E aí o Brasil parou. Porque na prorrogação, Cabo Verde marcou. Um golaço. O grito veio de quem nem lembrava o nome do jogador, mas reconheceu o futebol, aquele futebol que a gente conhece, que sobe pelo corpo, que não tem explicação técnica.

O Egito e o VAR que virou raiva coletiva

O Egito estava vencendo a Argentina por 2 a 0. Dois a zero. Tinha gol anulado pelo VAR. Um gol que todo mundo viu entrar, que a torcida celebrou, que levou trinta segundos para ser roubado por um monitor de vídeo.

A Argentina virou: 3 a 2. E a raiva foi real. Foi muito real. Não era torcida neutra assistindo a tecnologia funcionar. Era gente que tinha lado, e o lado estava perdendo para algo que não estava em campo.

O VAR virou personagem desta Copa. E não por acaso, o personagem sempre pareceu aparecer nos momentos errados para as seleções africanas.

A maldição do minuto 86

Na mesma rodada: Senegal, República Democrática do Congo e Costa do Marfim. Todas vencendo seleções europeias. Todas eliminadas.

Senegal ganhando. Gol sofrido no finzinho. Fora.

RD Congo na frente. Virada nos acréscimos. Fora.

Costa do Marfim controlando o jogo. Gol no último minuto. Fora.

Três países. Três resultados. Uma mesma sensação: o futebol africano estava lá, mas alguma coisa, em algum momento entre o minuto 80 e o apito final, sempre encontrava um jeito de acabar com tudo.

Pode ser coincidência. Pode ser preparo físico. Pode ser gestão de resultado. Pode ser muita coisa. Mas quem assistiu sabe que a sensação não era de derrota justa. Era de algo roubado.

Por que o Brasil se importa

A gente torce pela África porque reconhece o futebol. Porque vê jogadores que cresceram em campos de areia, com bola de meia, improvisando o que os europeus constroem em academias multimilionárias, e chegando lá do mesmo jeito. Às vezes melhor.

Mas torcer não é o suficiente. Essas histórias precisam ser contadas. Os nomes precisam ser lembrados. Os gols precisam ser celebrados, não apenas no momento em que acontecem, mas depois, quando a poeira baixa e o mundo esquece.

Foi por isso que a Poder Afrikano criou o Almanaque África na Copa 2026. Para que cada seleção, cada jogador, cada gol improvável e cada eliminação injusta tenha o registro que merece. Para que a história do futebol africano não seja só uma nota de rodapé na história do futebol mundial.

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Os EUA não violam as regras. Eles definem quais regras valem — e para quem.

Trump e Infantino na Casa Branca
Donald Trump e Gianni Infantino na Casa Branca, 2026

Se você acha que este texto é sobre futebol, ainda não percebeu qual é o verdadeiro jogo.

A Copa do Mundo de 2026 acontece nos Estados Unidos, Canadá e México, mas principalmente nos EUA. E durante os últimos meses, o país anfitrião demonstrou com uma clareza raramente vista como funciona o poder real: não é quem viola as regras que perde. É quem não tem poder de defini-las.

Camada 1: recursos

Em janeiro de 2026, os EUA capturaram Nicolás Maduro sem mandado internacional, sem processo de extradição. A ONU classificou a operação como violação do direito internacional. Enquanto isso, em dezembro de 2025, a CITGO, ativo venezuelano avaliado em US$ 11 bilhões, havia sido vendida à força por ordem de um juiz americano por US$ 5,9 bilhões. Depois do terremoto que devastou parte da Venezuela em junho de 2026, os EUA enviaram US$ 150 milhões em ajuda humanitária.

Menos de 3% do que tomaram.

A lógica é simples: extrair é legítimo. Devolver é opcional.

Camada 2: justiça

Em 2022, a FIFA baniu a Rússia de todas as competições após a invasão da Ucrânia. A seleção russa não entrou nem nas eliminatórias da Copa de 2026. A punição foi rápida, unânime e apresentada como exemplo de que o futebol tem valores.

Em fevereiro de 2026, os EUA e Israel atacaram o Irã. Israel jogou todas as eliminatórias normalmente. A ONU concluiu que as ações de Israel em Gaza constituem genocídio, mais de 30 especialistas jurídicos internacionais pediram formalmente à FIFA a suspensão da seleção. A Casa Branca avisou que se oporia a qualquer banimento. A FIFA multou Israel em 150 mil francos suíços por irregularidades menores e seguiu em frente.

A conclusão não é difícil: quem define o que é "invasão", e o que é apenas "operação", também define quem é banido.

Camada 3: soberania

No mesmo torneio, a FIFA exigiu a remoção de uma ilustração da Batalha de Vertières da camisa oficial do Haiti. O motivo declarado foi "declaração política". Vertières é o confronto de 1803 que libertou o Haiti do domínio francês, o único país da história onde escravizados derrotaram um exército colonial e fundaram uma nação.

No mesmo torneio, a FIFA organizou uma cerimônia oficial do 4 de julho nos EUA: hino nacional americano, bandeiras, transmissão ao vivo de astronautas na Estação Espacial Internacional.

Não foi considerado político.

A lógica: soberania vale quando é a deles.

Camada 4: instituições

A FIFA tem uma regra contra manifestações políticas nas camisas e em campo. É uma regra que existe para ser aplicada seletivamente. No mesmo torneio em que censurou o Haiti, a entidade criou um prêmio do nada e o entregou ao presidente dos EUA dentro de uma cerimônia oficial do próprio evento.

Cinquenta parlamentares europeus pediram investigação. A UEFA chamou a reversão do cartão vermelho do atacante naturalizado Balogun, que os EUA obtiveram após ligação presidencial para o presidente da FIFA, Gianni Infantino, de "linha vermelha". A Federação Alemã exigiu esclarecimentos formais. A FIFA ficou em silêncio.

O mesmo Infantino realizou 27 voos em jato privado em 17 dias durante a Copa, enquanto a FIFA prega sustentabilidade ambiental nas suas comunicações oficiais.

O que o campo diz

Com tudo isso, os EUA mudaram as regras do jogo, conseguiram escalar Balogun com o cartão revertido por telefonema, e mesmo assim perderam de 4 a 1 para a Bélgica nas oitavas de final.

O técnico do Egito, Hossam Hassan, após classificar o time às oitavas, ergueu a bandeira da Palestina em campo no solo americano e declarou: "Meu coração e minha alma estão com eles." A FIFA abriu processo. Depois recuou, a bandeira palestina é permitida porque a Palestina é membro da FIFA. A mesma FIFA que censurou a independência do Haiti numa camisa.

Torcemos pelo Marrocos e pelo Egito porque sabemos o que significa um país africano chegar longe numa Copa controlada por quem controla tudo o mais. Dentro de campo, a África prova que compete de igual para igual. Fora dele, as regras nunca foram as mesmas.

Futebol é político. A questão é quem tem o poder de fingir que não é.

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Isso não é rivalidade. É racismo.

Torcida argentina na Copa 2026
Torcida argentina durante a Copa do Mundo 2026

Existe uma diferença entre rivalidade e racismo. Rivalidade é competição, é disputa, é a pressão que dois times se fazem dentro de campo. Racismo é a tentativa de usar a raça para diminuir, desumanizar, apagar. Os dois não se confundem.

O que a torcida argentina vem fazendo, e o que parte dos próprios jogadores já fizeram, é racismo. Não é provocação aceitável. Não é "cultura local". É um padrão histórico, documentado, que a Copa de 2026 voltou a tornar visível.

Miami, 2026

Durante a Copa, em Miami, a torcida argentina cantou em coro "Que te pasa, brazuca?", com o verso "Todo mundo na favela está chorando". No mesmo jogo, torcedores argentinos arremessaram garrafas contra a torcida de Cabo Verde. Uma seleção africana que construiu uma das histórias mais bonitas do torneio foi recebida com violência nas arquibancadas.

A FIFA registrou o incidente. Abriu processo. O resultado desse processo, até o momento da publicação deste texto, ainda não foi divulgado publicamente.

Do Catar à Copa América

Não foi a primeira vez. Em 2022, após a Argentina vencer a França na final da Copa do Catar, torcedores criaram o cântico racista "Eles jogam pela França, mas são de Angola", tendo Kylian Mbappé, filho de pai camaronês e mãe argelina, como alvo principal. O cântico viralizou globalmente.

Em 2024, na Copa América, não foram apenas torcedores: os próprios jogadores da seleção argentina repetiram a música num vídeo gravado no vestiário, após a conquista do título. O vídeo circulou nos principais portais esportivos do mundo. Houve pressão internacional. A Federação Argentina de Futebol emitiu uma nota. Os jogadores pediram desculpas após os patrocinadores reagirem.

Nenhum foi suspenso. A Copa América não foi invalidada.

O histórico

O mesmo padrão se repete no futebol de clubes há décadas. Contra o Corinthians. Contra o Grêmio. Contra o Ceará. Em diferentes países, em diferentes décadas, sempre com o mesmo gesto de imitar macacos direcionado a jogadores negros.

Chamar isso de "rivalidade" serve apenas para normalizar. Rivalidade não tem cor. Racismo tem um alvo específico: o corpo negro. Qualquer tentativa de equiparar os dois é, ela mesma, parte do problema.

O que a FIFA deveria fazer

A entidade tem regras. Tem precedentes de punição coletiva, a seleção brasileira foi punida por invasão de campo de torcedores em partida qualificatória. A punição existe quando a FIFA quer punir.

A questão não é técnica. É política. E enquanto a FIFA não tratar racismo nas arquibancadas com a mesma rigidez com que trata bandeiras de independência em camisas, o recado que ela envia é claro: algumas formas de violência são mais toleráveis do que outras.

Enquanto tentam apagar a força do talento africano dentro e fora de campo, nós continuamos celebrando. O talento não precisa de permissão para existir. O racismo é que precisa ser nomeado, e punido.

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O futebol mundial não seria o mesmo sem eles

Vinícius Jr. Hakimi Bukayo Saka Jamiro Monteiro Salah Nico Williams Mbappé

Hoje começa a Copa do Mundo de 2026. E antes que os holofotes se voltem para os favoritos de sempre, vale dizer uma coisa em voz alta: o futebol que o mundo inteiro ama não existiria sem a África.

O que seria o futebol sem o talento africano?

Pense nos jogadores que definiram o futebol das últimas décadas. Didier Drogba, que carregou Côte d'Ivoire nas costas e ganhou uma Champions League quase sozinho. Samuel Eto'o, o maior artilheiro da história da Copa Africana de Nações. Yaya Touré, que durante anos foi o melhor jogador do mundo na sua posição. Jay-Jay Okocha, cuja habilidade redefiniu o que era possível fazer com uma bola.

E hoje: Mohamed Salah, o melhor jogador do mundo por períodos consistentes, eleito pela segunda vez na última temporada. Sadio Mané, que construiu uma carreira entre os mais eficientes atacantes da história recente. Riyad Mahrez, Achraf Hakimi, André Onana, Victor Osimhen, Serhou Guirassy.

Retire esses jogadores da Premier League, da Champions League, das ligas europeias, e o produto que o mundo consome muda radicalmente. O futebol que enriquece clubes ingleses, espanhóis e alemães foi construído, em grande parte, sobre talento africano.

Mas as seleções africanas ainda são tratadas como zebra

E mesmo assim, toda vez que uma seleção africana avança numa Copa do Mundo, a narrativa é a mesma: surpresa. Zebra. Sensação. Como se o talento individual que o mundo celebra diariamente nos clubes europeus deixasse de existir quando esses jogadores vestem a camisa do país onde nasceram.

Camarões 1990 eliminou a Argentina de Maradona e chegou às quartas de final, foi tratado como milagre. Senegal 2002 eliminou a França campeã do mundo e chegou às quartas, foi tratado como milagre. Gana 2010 chegou às quartas e perdeu nos pênaltis para o Uruguai depois de uma defesa de mão criminosa de Luis Suárez dentro do gol, foi tratado como azarão que quase conseguiu. Marrocos 2022 chegou à semifinal, eliminou Espanha, Portugal e Bélgica, foi tratado como a maior surpresa da história do torneio.

Não é surpresa. É competência. É o mesmo talento que o mundo admira todos os fins de semana, só que agora jogando por eles mesmos.

Por que fizemos o Almanaque da África na Copa

O Almanaque da África na Copa nasceu dessa contradição. De um lado, um continente que exporta talentos que sustentam o futebol global. Do outro, seleções nacionais que são sistematicamente subestimadas, mal cobertas pela imprensa, tratadas como figurantes no torneio que elas ajudam a tornar possível.

O almanaque foi feito para contar as histórias que a cobertura tradicional não conta. As trajetórias das seleções africanas em 2026. Os jogadores que carregam gerações de esperança. As curiosidades e os dados que colocam em perspectiva o que essas equipes representam, para seus países, para o continente, para o futebol negro no mundo.

São 48 páginas, 80 figurinhas, análise pan-africanista. Não é um produto de fã de futebol genérico. É um produto de quem olha para o jogo sabendo de onde veio e o que está em jogo além dos 90 minutos.

A Copa começa hoje. As seleções africanas não são zebra. Nunca foram.

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