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Política, cultura e história com consciência africano-centrada

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A rede chegou. A quadra nunca existiu.

Rede de vôlei montada em terreno de terra rachada diante de escola abandonada
Redes entregues a escolas sem quadra

A Controladoria-Geral da União apontou superfaturamento de R$ 1,3 milhão na execução do programa DNA do Brasil Talentos, que atendeu 63 municípios do Tocantins.

O programa foi lançado no governo Bolsonaro, com participação da então ministra Damares Alves. A promessa era identificar talentos esportivos entre estudantes da rede pública.

Entre os itens comprados com dinheiro público estavam redes de vôlei, de basquete e de futebol entregues a escolas que não tinham quadra.

Técnicos da CGU visitaram unidades de ensino e encontraram o material armazenado, sem uso. Não havia onde montar.

Não houve critério

A auditoria concluiu que não existiam critérios para definir quanto material cada município receberia. O caso dos apitos resume o método.

Em Colinas do Tocantins, três escolas participantes receberam dois apitos profissionais. Em Paranã, duas escolas receberam trinta.

O sobrepreço não ficou no material esportivo. A CGU identificou superfaturamento também em encomendas a gráficas, em produtos de papelaria e no serviço de desenvolvimento de um aplicativo de celular.

O uniforme prometido no projeto tinha camisa, calção, meiões, boné, garrafa e mochila-saco. Segundo a auditoria, nenhum aluno recebeu o conjunto completo.

O que sobra depois da foto

Programas assim rendem anúncio, corte de fita e imagem de governo que cuida da juventude pobre. O que chega na ponta é outra coisa.

A criança que ia ser descoberta pelo programa recebeu uma rede e nenhum lugar para pendurar.

O dinheiro desviado de um programa esportivo em escola pública não é um problema de esporte. É de que essa criança seguiu sem quadra, sem uniforme e sem aula, enquanto o valor cobrado pelo apito subia.

Fonte: The Intercept Brasil, 21 de julho de 2026, com base em auditoria da Controladoria-Geral da União.

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Sessenta mil pessoas atravessaram a fronteira de Ceuta

Nos últimos dias de julho de 2026, cerca de 60 mil pessoas atravessaram a fronteira entre o Marrocos e Ceuta, o enclave espanhol no norte da África.

Ceuta é território espanhol em solo africano. Quem chega ali não entrou na Europa por engano de geografia. Entrou porque a Europa está ali, cercada, do outro lado de uma linha desenhada no continente africano.

Até o sábado seguinte, a Espanha afirmava que praticamente todos já haviam retornado ao Marrocos.

A reação foi mais rápida que a travessia

A Itália suspendeu o acordo de livre circulação de Schengen com a Espanha. A França reforçou controles de fronteira. O prefeito de Ceuta declarou que a vida na cidade tinha sido perturbada.

O primeiro-ministro espanhol responsabilizou traficantes de pessoas pelo episódio, numa disputa diplomática delicada, já que Madri precisa equilibrar suas relações com Marrocos e Argélia.

Em poucos dias, a fronteira foi reforçada e dezenas de milhares de pessoas voltaram.

O vocabulário faz o trabalho

Repare nas palavras que circularam. Invasão. Fluxo. Influxo. Crise migratória. Todas descrevem um fenômeno da natureza, algo que acontece sozinho e precisa ser contido.

Nenhuma delas pergunta por que 60 mil pessoas decidem, no mesmo intervalo de dias, que atravessar um muro é a melhor opção disponível.

A pergunta que não entra na cobertura é o que essas pessoas estavam deixando para trás.

A Europa discute como fechar. Raramente discute o que fez, e continua fazendo, do outro lado da linha.

Fontes: BBC, 31 de julho de 2026; Africanews e Al Jazeera, 1º de agosto de 2026.

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Derrotas no futebol, vitórias da violência

Mulher negra segurando celular à luz de vela, com a tela do Ligue 180 aberta
Ligue 180 · Central de Atendimento à Mulher

As economistas Isadora Bousquat Árabe e Paula Carvalho Pereda analisaram 2.105 partidas de fim de semana do Campeonato Brasileiro entre 2015 e 2019 e cruzaram os resultados com boletins de ocorrência de violência doméstica em São Paulo e no Rio de Janeiro.

A pesquisa foi aceita para publicação na revista Economic Development and Cultural Change, da Universidade de Chicago.

Quando o time favorito perde um jogo que era esperado ganhar, os registros de violência doméstica sobem em média 6% nas seis horas seguintes ao apito final.

A derrota inesperada foi medida pelas odds do mercado de apostas. Não é qualquer derrota. É a que ninguém tinha contratado.

O que o dado não diz, e é o mais importante

O efeito não aparece antes do jogo. Não aparece durante. Não aparece depois das vitórias. Ele se concentra nas horas seguintes à frustração e depois se dissipa.

Isso afasta a leitura preguiçosa de que o futebol produz agressores. Não produz. O futebol não cria o agressor. Ele intensifica um ciclo de violência que já estava lá.

Quem já era violento encontra na derrota a desculpa que estava esperando.

Onde o grito some

A pesquisa encontrou uma diferença que diz muito sobre o Brasil.

Nos municípios que têm Delegacia de Defesa da Mulher, o choque da derrota aparece nos boletins de ocorrência. Onde não existe serviço especializado, ele aparece em outro canal: as ligações para o Ligue 180 sobem 28% no dia seguinte ao jogo.

A violência não é menor onde falta delegacia. Ela só não vira estatística.

E o corpo que mais atravessa esse intervalo entre o soco e o registro é o de mulher negra e periférica.

Ela mora, com mais frequência, exatamente nos municípios que não têm delegacia especializada. A invisibilidade é dupla: a do agressor que não é registrado e a da vítima que não é contada.

O que fazer com isso

A pesquisa não pede que ninguém pare de assistir futebol. Ela mostra uma janela de risco previsível, de poucas horas, com dia e horário conhecidos com antecedência.

Política pública trabalha com janela previsível. Reforço no Ligue 180 em rodada de clássico não é medida simbólica.

Sobre o mecanismo por trás desse número, e sobre a responsabilidade que a indústria do futebol não assume, escrevemos em A derrota do seu time não justifica a agressão que você faz em casa.

Fonte: Agência Pública, julho de 2026, sobre estudo de Isadora Bousquat Árabe e Paula Carvalho Pereda.

Questões de Masculinidade em Preto e Branco, de Amos Wilson

Fazer meu pedido
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Tyla tirou Lagos da turnê. A conta chegou para quem não fez a dívida.

A cantora sul-africana Tyla retirou Lagos do calendário da sua turnê mundial APop, depois de uma campanha de boicote organizada por nigerianos nas redes sociais.

O motivo do boicote não foi nada que ela tenha feito. Foi a retomada dos relatos de ataques xenófobos contra estrangeiros na África do Sul, muitos deles nigerianos.

A artista pagou por uma política de Estado que não é dela.

A xenofobia é real. O alvo é que estava errado.

A revolta tem base. Os ataques na África do Sul existem, se repetem há anos e voltaram a crescer. Em julho de 2026, Graça Machel pediu publicamente que a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral quebrasse o silêncio diante dos ataques.

Quando uma das vozes mais respeitadas do continente precisa pedir que um bloco regional diga alguma coisa, o silêncio já durou tempo demais.

Mas a resposta que chegou primeiro não foi contra o Estado sul-africano, contra a polícia ou contra os políticos que fazem carreira apontando o imigrante como causa do desemprego. Foi contra uma cantora de 24 anos.

Quem ganha quando a briga é entre nós

O imigrante africano na África do Sul ocupa a mesma função que o imigrante africano na Europa: absorve a culpa por um desemprego que não criou e por serviços públicos que não desmontou.

A diferença é que na África do Sul quem aponta e quem é apontado são, quase sempre, pessoas negras e pobres.

Xenofobia não é sentimento espontâneo de pobre. É ferramenta de governo.

Ela funciona porque transforma um conflito vertical, entre quem tem e quem não tem, em conflito horizontal, entre quem não tem e quem também não tem.

Um show cancelado em Lagos não fecha um campo de refugiados, não muda uma lei migratória e não protege ninguém em Joanesburgo. Rende manchete e sensação de resposta.

A pergunta é sempre a mesma: quem estava desconfortável com esse boicote, e quem dormiu tranquilo?

Fontes: BBC e Vanguard via AllAfrica, 31 de julho de 2026; RFI África, 18 de julho de 2026.

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O mapa estava todo errado. E era o slide que reparte o dinheiro.

Composição tipográfica sobre o mapa errado da África apresentado pelo Departamento de Estado
Departamento de Estado dos EUA, AIDS 2026, Rio de Janeiro

Em 26 de julho de 2026, na conferência AIDS 2026, no Rio de Janeiro, o Departamento de Estado dos Estados Unidos exibiu um mapa da África em que todos os países do continente apareciam no lugar errado.

A Nigéria foi parar no Saara, sem litoral, num país que tem mais de oitocentos quilômetros de costa atlântica. Moçambique, que fica no sudeste, foi deslocado para o Chifre da África. A Costa do Marfim, que fica no oeste, apareceu do outro lado do continente. Camarões entrou na lista de países e não recebeu território nenhum no mapa. Havia ainda um país sem nome.

O governo americano classificou o episódio como um erro infeliz, atribuído a um funcionário que alterou os slides às pressas.

O slide não era decorativo

O título da peça era Current APS Funding Opportunities. Não era ilustração de abertura: era o quadro que apresentava quanto dinheiro cada país receberia na segunda rodada de financiamento.

Ao lado do mapa, a lista de valores. Nigéria, até 200 milhões de dólares. Moçambique, até 180 milhões. Uganda, até 60 milhões. Costa do Marfim, até 50 milhões. Malawi, até 35 milhões por ano. Camarões, até 5,4 milhões, o menor valor da lista.

Camarões é justamente o país que aparecia na lista e não recebeu território nenhum no mapa. O país com a menor verba é o que sumiu do desenho.

A marca d'água

A agência Reuters encontrou no arquivo uma marca d'água indicando que o mapa foi provavelmente criado com ferramentas da OpenAI. A empresa afirmou estar apurando o caso.

Ou seja: a representação do continente africano, numa apresentação oficial de política de saúde, foi terceirizada para um gerador automático e ninguém conferiu o resultado antes de projetar na tela.

Por que um mapa errado não é um detalhe

Aquela apresentação não era de turismo. Era sobre HIV, numa conferência internacional, feita pelo aparato diplomático do país que por décadas foi o maior financiador de programas de saúde no continente africano.

Quem monta esse slide está, em algum grau, orientando decisões sobre onde o dinheiro entra e como.

E aconteceu no Brasil. O país com a maior população negra fora da África sediou a conferência em que o continente africano foi apresentado como um borrão de nomes trocados.

O continente como assunto genérico

O erro não é ignorância pontual de quem fez o arquivo. É o resultado de tratar um continente inteiro como um bloco só.

Ninguém entrega um mapa da Europa com Portugal no Báltico e a França sem costa. Não porque haja mais cuidado, mas porque alguém na sala perceberia na hora.

Quem não distingue os 54 países do continente também não distingue as pessoas que moram neles.

Amos Wilson chamava isso de falsificação

Em A Falsificação da Consciência Afrikana, Amos Wilson trata o apagamento como método, não como acidente.

Um povo sem geografia própria fica sem história própria. E quem não tem história própria recebe a que for oferecida.

Um mapa é a forma mais simples dessa operação. Ele diz o que existe, onde existe e o que não merece precisão.

Fontes: Reuters, Al Jazeera, NPR e BBC, 31 de julho de 2026. A foto do slide original é da Reuters e não é reproduzida aqui por não termos licença de uso.

A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson

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A independência que só faria sentido se libertasse o continente inteiro

Composição tipográfica sobre a independência de Gana em 1957
Gana, 6 de março de 1957

Em 6 de março de 1957, Gana se tornou o primeiro país da África subsaariana a conquistar a independência do domínio britânico.

Kwame Nkrumah subiu ao palco naquela noite e disse uma coisa que quase ninguém repete hoje: a independência de Gana não tinha sentido se não estivesse ligada à libertação total do continente africano.

Não era retórica de discurso. Era projeto político.

Nkrumah defendia uma África unificada. Não uma federação simbólica, não um bloco de cooperação. Um governo continental, com moeda própria e comando militar único. Ele entendia que dezenas de países pequenos, cada um negociando sozinho com as antigas metrópoles, continuariam colônias com outro nome.

O que aconteceu com o projeto

Em 1963 nasceu a Organização da Unidade Africana, com 32 países. Foi uma vitória e uma derrota ao mesmo tempo. Vitória porque a unidade africana virou instituição. Derrota porque venceu a corrente que queria cooperação entre Estados soberanos, não a que queria um Estado continental.

Nkrumah perdeu essa disputa. Em 1966, enquanto estava fora do país, um golpe militar o derrubou. Ele nunca voltou a governar.

Quase setenta anos depois, catorze países africanos ainda usam o franco CFA, moeda com paridade fixa ao euro e garantia do Tesouro francês. São duas zonas monetárias, a da África Ocidental e a da África Central, herdadas diretamente do período colonial.

Uma bandeira nova não muda quem controla a moeda.

Por que isso é uma questão psicológica, não só econômica

Amos Wilson dedicou boa parte de sua obra a mostrar que dominação não se sustenta apenas por força. Ela precisa que o dominado internalize a ordem como natural.

Em Consciência Afrikano-Centrada versus Nova Ordem Mundial, ele argumenta que a independência formal sem soberania econômica e sem soberania mental produz uma elite que administra a dependência em vez de rompê-la. O aparato colonial sai de cena, a estrutura permanece, e passa a ser operada por gente local.

Em A Falsificação da Consciência Afrikana, ele vai à raiz: apagar a memória de projetos africanos de autodeterminação não é efeito colateral do colonialismo. É ferramenta. Quem não sabe que existiu um projeto continental não sente falta dele.

É por isso que Nkrumah é lembrado no Brasil, quando é lembrado, como uma figura distante de manual escolar. Não como alguém que fez uma pergunta que continua sem resposta.

A pergunta é essa: independência de quem, exatamente?

Fontes: African Arguments e The Africa Report, julho e agosto de 2026.

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Terreiro não é museu. É universidade de resistência.

Mãos negras sobre mesa de ritual com búzios, velas e ervas
Julho das Pretas · 25/07/2026

Julho das Pretas não é só data de homenagem.

É reconhecimento político de que mulheres negras estão fazendo, ao mesmo tempo, o que o Estado não faz, o que a escola não ensina e o que a cultura dominante quer apagar.

Tem mulher negra à frente de terreiro em São Paulo que faz isso há décadas. Ensina o que a escola não ensina. Cura o que o sistema machuca. Organiza o que o Estado quer desmantelar. Transmite conhecimento que atravessou o Atlântico, sobreviveu à escravização, resistiu à perseguição religiosa sistemática e ainda está de pé.

E tem gente no Congresso votando para criminalizar isso enquanto você lê esse texto.

Não é exagero. É o projeto de lei que quer enquadrar religiões de matriz africana como charlatanismo. É o pastor com púlpito em horário nobre atacando candomblé. É o Estado que financia igrejas como "parceiras sociais" e ignora terreiros como "coisa de macumba".

O terreiro ensina o que a escola não ensina porque a escola foi construída para não ensinar isso. O currículo oficial é europeu. A história ensinada começa com a chegada do colonizador. O conhecimento africano não aparece, ou aparece como folclore, exotismo, curiosidade.

Amos Wilson dedicou boa parte de sua obra a essa questão. Em Despertando o Gênio Natural da Criança Preta, ele argumenta que a criança negra que não conhece sua herança cultural é uma criança psicologicamente colonizada. Não por falta de inteligência, mas por ausência de raiz. Sem referência própria, a criança aceita a referência do outro como universal.

Em A Falsificação da Consciência Afrikana, ele vai além: destruir a memória cultural africana não é consequência do colonialismo. É instrumento. A colonização precisou apagar para funcionar. E continua precisando.

Por isso o terreiro é ameaça. Não porque pratica algo errado. Porque pratica algo que funciona fora do controle do Estado, da igreja dominante e do mercado. Um lugar onde o saber não precisa de certificado europeu para ser legítimo. Onde cura não precisa de plano de saúde. Onde memória não precisa de museu.

Soberania epistêmica tem nome e endereço. E quem quer manter o controle sabe disso melhor do que a gente.

Você conhece a história dessas mulheres? Você está apoiando quem está mantendo viva a chama que querem apagar?

Leia a reportagem. Aprenda. Compartilhe. Isso é resistência que cola de verdade.

Fonte: Geledés, julho de 2026.

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O shopping foi condenado. Mas isso é reparação?

Jovens negros sendo barrados por segurança em shopping
Condenado por discriminação racial — Tribunal de Justiça de SP, 24/07/2026

Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo, foi condenado por discriminação racial. A pena: R$1 milhão para o Fundo Municipal de Direitos Difusos.

A decisão é real. A condenação é real.

Mas precisamos fazer a pergunta que ninguém quer fazer: isso é reparação ou é teatro?

O Shopping Pátio Higienópolis fatura centenas de milhões de reais por ano. Um milhão de reais não dói no caixa. Não muda a gestão. Não muda o treinamento dos seguranças. Não muda a cultura institucional que faz uma pessoa negra ser parada na entrada enquanto pessoa branca passa direto.

A vítima não queria R$1 milhão. Queria entrar sem ser vista como suspeita.

Queria ser cliente. Não réu.

O dinheiro vai para um fundo. Não para quem foi humilhado. Não reconstrói a dignidade de quem foi revistado na frente de outros. Não apaga o constrangimento. Não muda o próximo plantão de segurança que vai fazer a mesma coisa amanhã porque sabe que a multa, se vier, é suportável.

Amos Wilson argumenta, em A Falsificação da Consciência Afrikana, que vitórias simbólicas dentro de sistemas que não mudam sua estrutura de poder não são vitórias de fato. São válvulas de escape que aliviam pressão sem transformar nada. A justiça que pune sem reparar, que condena sem reformar, serve ao sistema, não às vítimas.

Quantos outros shoppings fazem a mesma coisa agora? Quantos calcularam que vale a pena arriscar porque, no pior dos casos, é só uma multa? A lógica é de gestão de risco, não de respeito.

Condenação sem mudança estrutural é o sistema se autovacinar. Toma uma dose pequena do antígeno, a denúncia, o processo, a pena simbólica, para ficar imune à dose que realmente mudaria algo.

Comemorar a condenação? Sim. É uma vitória. Mas saber o que ela não é? Também é necessário.

Reparação real tem outro tamanho. Inclui mudança de política interna, treinamento obrigatório, auditoria de discriminação e punição que afete o funcionamento do negócio, não uma quantia que cabe no orçamento de marketing.

Quando foi a última vez que você entrou num shopping sem ser visto como suspeito? Ou isso só acontece com a gente?

Fonte: Geledés, 25/07/2026.

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Cotas são injustiça. Roubo é erro administrativo.

Rede de vôlei instalada em pátio de escola sem quadra
A rede chegou. A quadra nunca existiu. R$1,3 mi superfaturado.

Deixa eu te mostrar como a lógica funciona.

Menino preto conseguir bolsa em universidade federal: injustiça. Roubo da vaga de quem merecia. Privilégio inaceitável. Precisa ser processado, investigado, revertido.

Programa bolsonarista superfaturar R$1,3 milhão em redes de vôlei entregues a escolas sem quadras: erro administrativo. Deslize burocrático. Coisa que acontece. Segue em frente.

A lógica não é contraditória. Ela é cristalina.

O sistema não tem dois pesos porque é desorganizado. Tem dois pesos porque foi desenhado assim.

As mesmas pessoas que votam contra cotas raciais com discurso de meritocracia são as mesmas que constroem estruturas de transferência de verba pública para empresas de aliados. A mesma galera que diz que cota é roubo de vaga desviou dinheiro de criança pobre para entregar item inútil a escola que não tem nem o básico para usá-lo.

Redes de vôlei. Para escolas sem quadras.

Não é incompetência. É desprezo. É a mensagem de que a educação de criança pobre é linha de orçamento, não compromisso.

Amos Wilson descreve esse mecanismo com precisão em A Falsificação da Consciência Afrikana: o sistema aplica pressão máxima sobre políticas de igualdade racial enquanto protege com linguagem suave os desvios que beneficiam quem está no poder. Igualdade para o negro é ameaça à ordem. Corrupção da elite é acidente de percurso.

Então quando você ouvir que cotas são injustiça, pergunte: injustiça comparada a quê? Comparada a um sistema onde o filho de quem tem contato entra, o filho de quem tem dinheiro entra, e o filho de quem tem mérito e é preto precisa provar o dobro e mesmo assim é questionado?

A cota não cria desigualdade. Ela responde a uma desigualdade que já existe e que ninguém chama pelo nome.

Enquanto desviam dinheiro de escola pública, debatem se cota é justo. A criança preta não tem quadra, não tem livro, não tem professor suficiente, e quando chega na porta da universidade com tudo isso contra ela, o debate é se ela merece entrar.

Quem define o que é mérito nessa história? Quem nunca precisou provar o dele.

Fontes: Geledés e The Intercept Brasil, 22/07/2026.

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A cor do protagonismo

Benedito Ruy Barbosa
Benedito Ruy Barbosa (1927–2026)

Benedito Ruy Barbosa morreu esta semana, aos 95 anos. Deixou 18 novelas e um retrato do Brasil rural que o país inteiro assistiu por décadas. Mas eu não vim falar do que ele contou. Eu vim falar de quem ele colocou no centro da cena, e quem ele deixou na beira.

O padrão que os dados mostram

Benedito foi o maior autor de novelas rurais da televisão brasileira. Suas obras mais ambiciosas, Os Imigrantes, Terra Nostra, O Rei do Gado, Renascer (1993), constroem épicas sobre o Brasil profundo, com elencos de dezenas de personagens e histórias que atravessam gerações.

O corpo negro aparece nessas obras. Mas quase sempre na margem. O empregado. O peão. O escravizado. O coadjuvante que dá cor ao cenário e profundidade à vida dos protagonistas, que são, sistematicamente, brancos. A camada de protagonismo, quem conduz a trama, quem o espectador acompanha semana a semana, quem vive os amores e os conflitos centrais, é branca.

Isso não é crítica ao talento de Benedito Ruy Barbosa como dramaturgo. É a constatação de um padrão que atravessa toda a televisão brasileira, e que nas mãos do autor mais influente do gênero ficou mais visível justamente porque sua obra é maior.

O caso mais violento: Sinhá Moça

Sinhá Moça, adaptada em 1986, é o caso mais revelador. Uma novela sobre a Abolição da escravatura no Brasil. Sobre o período mais diretamente ligado à experiência negra da história do país. E o protagonismo, o Barão, a Sinhá, o herói abolicionista branco que luta pela liberdade dos outros, é inteiramente branco. O negro entra como massa escravizada: presente como tema, ausente como sujeito.

A escravidão como pano de fundo para a história de amor de personagens brancos. Não é uma coincidência. É uma escolha narrativa que se repete.

Amos Wilson e a falsificação da consciência

O psicólogo e teórico pan-africanista Amos Wilson chamava isso de falsificação da consciência. A ideia é simples, e é brutal: quem controla a narrativa controla a autoimagem de um povo.

Quando o aparelho cultural mais poderoso de um país, e durante décadas, a novela foi o principal aparelho cultural do Brasil, te mostra repetidamente na posição de serviço, sempre atrás, sempre coadjuvante, ele não está entretendo. Ele está ensinando o seu lugar. Faz parecer destino o que é projeto.

A prova que foi projeto: Renascer 93 × Renascer 24

Existe uma prova de que o protagonismo branco nas novelas de Benedito nunca foi uma exigência das histórias. É o próprio Renascer.

Em 1993, Renascer estreou com José Inocêncio interpretado por Antônio Fagundes. Em 2024, a Globo fez o remake com o mesmo texto. Maria Santa é Duda Santos, mulher preta, protagonista. João Pedro é Juan Paiva, homem preto. Quase metade do elenco, negro.

A história não precisou mudar para o protagonismo negro ser possível. A branquitude de 1993 não era uma exigência da trama. Era uma escolha de quem escalava.

Representatividade não é referência

Mas aqui é preciso separar duas coisas que vivem confundidas. O pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, ensinava que representatividade e referência são categorias diferentes.

Representatividade é colocar um rosto preto dentro de uma estrutura que continua não sendo sua. A emissora te escala, te aprova e lucra. Você entra na casa do outro. Necessário? É. Suficiente? Nunca.

Referência é ter chão próprio. É produzir a sua narrativa a partir do seu mundo, sem pedir licença. Não é ser incluído na história do colonizador. É ser origem da sua própria.

Nêgo Bispo dizia: a referência não é Zumbi. É Palmares. Zumbi não existiria sem Palmares. Palmares existiria sem Zumbi. Isso é a diferença: Palmares era soberania de território e narrativa. Zumbi era o protagonista dentro dessa soberania, não uma concessão.

O Renascer de 2024 é representatividade. A Poder Afrikano é referência. Não porque uma é melhor que a outra. Mas porque confundir as duas é perder de vista o horizonte.

Masculinidade em Preto e Branco — o que a cultura nos ensina sobre ser homem negro

Pré-venda — R$70,00
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Patrice Lumumba, 101 anos

Patrice Lumumba em 1960
Patrice Lumumba, 27 de dezembro de 1960 — Nationaal Archief (domínio público)

Hoje, Patrice Lumumba faria 101 anos. O homem que a Bélgica e os Estados Unidos assassinaram por sonhar um Congo livre. Não é uma metáfora. É o registro histórico.

Lumumba nasceu em 2 de julho de 1925, na aldeia de Onalua, filho de camponeses da etnia Tetela. Cresceu sob o Estado Independente do Congo, um regime pessoal do rei belga Leopoldo II que havia matado entre 5 e 10 milhões de congoleses na exploração da borracha. O Congo que Lumumba herdou já era uma cicatriz.

O homem que organizou um povo

Funcionário dos correios, sindicalista, escritor de poesia, Lumumba percorreu o país inteiro numa época em que isso era extraordinário. Em 1958, fundou o Movimento Nacional Congolês, o primeiro partido político a unir o Congo para além das divisões étnicas que o próprio colonialismo havia fabricado para manter a população fragmentada e ingovernável.

Em junho de 1960, o Congo se tornava independente. Numa cerimônia oficial, diante do próprio rei Balduíno da Bélgica, Lumumba subiu ao microfone e fez algo que ninguém esperava: denunciou, sem pedir licença, a humilhação e o racismo estrutural do regime colonial. Chamou os congoleses de "escravos" e disse que a independência não era uma concessão da Bélgica, mas uma conquista do povo.

"Nós não somos mais seus macacos." — Patrice Lumumba, discurso da independência, 30 de junho de 1960

O mundo ocidental nunca lhe perdoou isso.

Soberania sobre os recursos

Lumumba governou por apenas 12 semanas. Sua proposta central era clara: a independência política sem soberania econômica não era independência. Era decoração. Ele queria que o Congo controlasse seus próprios recursos. E o Congo tinha o que o mundo queria: cobre, cobalto, urânio, diamantes, coltan.

Empresas estrangeiras já operavam ali havia décadas. A Lever Brothers, que desde 1911 controlava concessões de óleo de palma no Congo usando trabalho forçado, e que mais tarde se tornaria a Unilever, era apenas uma delas. A Union Minière du Haut-Katanga controlava as minas de cobre e urânio. O urânio congolês havia sido usado nas bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki.

Defender que o Congo gerenciasse esses recursos foi suficiente para transformar Lumumba num alvo.

A operação de eliminação

O que os documentos mostram
  • Em agosto de 1960, o presidente Eisenhower autorizou pessoalmente a eliminação de Lumumba em reunião do Conselho de Segurança Nacional.
  • A CIA enviou veneno ao Congo. O plano era envenenamento. Não chegou a ser executado porque Lumumba foi derrubado antes.
  • O governo belga financiou e coordenou a secessão de Katanga, a província mais rica em minerais, para enfraquecer Lumumba.
  • Mobutu Sese Seko, que recebeu apoio financeiro da CIA, liderou o golpe que derrubou Lumumba em setembro de 1960.

Capturado e entregue ao governo separatista de Katanga, Lumumba foi torturado por dias. Em 17 de janeiro de 1961, foi fuzilado por um pelotão sob supervisão de um oficial belga. Tinha 35 anos.

Para apagar os rastros, seus algozes dissolveram o corpo inteiro em ácido. Por décadas, tudo que restou à família foi um único dente de ouro. Em 2022, o governo belga devolveu formalmente esse dente à família Lumumba, acompanhado de um pedido de desculpas. Sem julgamento. Sem reparação. Sem responsabilização criminal.

O que veio depois

Mobutu tomou o poder prometendo "africanizar" o Congo. Na prática, concentrou a riqueza numa pequena elite e manteve o país aberto aos mesmos interesses estrangeiros que Lumumba havia tentado romper. Governou por 32 anos com apoio explícito dos Estados Unidos, que o usaram como aliado na Guerra Fria.

Décadas depois de Lumumba, a mesma lógica se repete: o leste do Congo segue em guerra, disputado por interesses internacionais atrás de cobalto e coltan, minerais essenciais para fabricar as baterias dos celulares e carros elétricos que o mundo rico consome. Ninguém, até hoje, foi responsabilizado penalmente pelo assassinato de Patrice Lumumba.

Ele governou por 12 semanas. Pagou com a vida por ter sonhado um Congo livre. E o Congo segue pagando por esse sonho até hoje.

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