Benedito Ruy Barbosa morreu esta semana, aos 95 anos. Deixou 18 novelas e um retrato do Brasil rural que o país inteiro assistiu por décadas. Mas eu não vim falar do que ele contou. Eu vim falar de quem ele colocou no centro da cena, e quem ele deixou na beira.
O padrão que os dados mostram
Benedito foi o maior autor de novelas rurais da televisão brasileira. Suas obras mais ambiciosas, Os Imigrantes, Terra Nostra, O Rei do Gado, Renascer (1993), constroem épicas sobre o Brasil profundo, com elencos de dezenas de personagens e histórias que atravessam gerações.
O corpo negro aparece nessas obras. Mas quase sempre na margem. O empregado. O peão. O escravizado. O coadjuvante que dá cor ao cenário e profundidade à vida dos protagonistas, que são, sistematicamente, brancos. A camada de protagonismo, quem conduz a trama, quem o espectador acompanha semana a semana, quem vive os amores e os conflitos centrais, é branca.
Isso não é crítica ao talento de Benedito Ruy Barbosa como dramaturgo. É a constatação de um padrão que atravessa toda a televisão brasileira, e que nas mãos do autor mais influente do gênero ficou mais visível justamente porque sua obra é maior.
O caso mais violento: Sinhá Moça
Sinhá Moça, adaptada em 1986, é o caso mais revelador. Uma novela sobre a Abolição da escravatura no Brasil. Sobre o período mais diretamente ligado à experiência negra da história do país. E o protagonismo, o Barão, a Sinhá, o herói abolicionista branco que luta pela liberdade dos outros, é inteiramente branco. O negro entra como massa escravizada: presente como tema, ausente como sujeito.
A escravidão como pano de fundo para a história de amor de personagens brancos. Não é uma coincidência. É uma escolha narrativa que se repete.
Amos Wilson e a falsificação da consciência
O psicólogo e teórico pan-africanista Amos Wilson chamava isso de falsificação da consciência. A ideia é simples, e é brutal: quem controla a narrativa controla a autoimagem de um povo.
Quando o aparelho cultural mais poderoso de um país, e durante décadas, a novela foi o principal aparelho cultural do Brasil, te mostra repetidamente na posição de serviço, sempre atrás, sempre coadjuvante, ele não está entretendo. Ele está ensinando o seu lugar. Faz parecer destino o que é projeto.
A prova que foi projeto: Renascer 93 × Renascer 24
Existe uma prova de que o protagonismo branco nas novelas de Benedito nunca foi uma exigência das histórias. É o próprio Renascer.
Em 1993, Renascer estreou com José Inocêncio interpretado por Antônio Fagundes. Em 2024, a Globo fez o remake com o mesmo texto. Maria Santa é Duda Santos, mulher preta, protagonista. João Pedro é Juan Paiva, homem preto. Quase metade do elenco, negro.
A história não precisou mudar para o protagonismo negro ser possível. A branquitude de 1993 não era uma exigência da trama. Era uma escolha de quem escalava.
Representatividade não é referência
Mas aqui é preciso separar duas coisas que vivem confundidas. O pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, ensinava que representatividade e referência são categorias diferentes.
Representatividade é colocar um rosto preto dentro de uma estrutura que continua não sendo sua. A emissora te escala, te aprova e lucra. Você entra na casa do outro. Necessário? É. Suficiente? Nunca.
Referência é ter chão próprio. É produzir a sua narrativa a partir do seu mundo, sem pedir licença. Não é ser incluído na história do colonizador. É ser origem da sua própria.
Nêgo Bispo dizia: a referência não é Zumbi. É Palmares. Zumbi não existiria sem Palmares. Palmares existiria sem Zumbi. Isso é a diferença: Palmares era soberania de território e narrativa. Zumbi era o protagonista dentro dessa soberania, não uma concessão.
O Renascer de 2024 é representatividade. A Poder Afrikano é referência. Não porque uma é melhor que a outra. Mas porque confundir as duas é perder de vista o horizonte.