Jovem negro de 20 anos é morto com 27 tiros por PMs em Moema; policiais dizem ter confundido o celular dele com uma arma
Gustavo Munis de Santana, 20 anos. Reprodução/TV Globo.
Gustavo Munis de Santana, de 20 anos, foi morto na madrugada deste sábado (10) em Moema, na zona sul de São Paulo, depois de ser atingido por 27 tiros disparados por quatro policiais militares. Segundo o boletim de ocorrência, os PMs confundiram com uma arma o objeto que ele segurava. Era um celular.
A versão dos policiais
A PM foi chamada pelo Copom às 2h35 para atender uma ocorrência. Pelo relato dos próprios policiais, registrado no boletim, ao chegar à Avenida Moreira Guimarães eles viram Gustavo levar a mão à cintura, o que interpretaram como ameaça. Ele correu por uma passarela até a Alameda dos Guaramomis.
Ali, por volta das 2h45, segundo os PMs, Gustavo saiu de uma área escura e estendeu os braços na direção da equipe com um objeto escuro na mão. Os quatro atiraram com pistolas calibre .40. O objeto era um celular.
Tudo o que se sabe sobre o que aconteceu antes dos tiros vem dessa versão. Até a publicação desta matéria, as reportagens sobre o caso não trazem relato de testemunha nem imagem da abordagem.
45 disparos, 27 ferimentos
Foram 45 disparos no total: 14 de um policial, 13 de outro, 12 de um terceiro e 6 de um quarto. A perícia contou 27 ferimentos no corpo de Gustavo, na cabeça, no tórax, no abdômen, nos braços e nas pernas.
No local havia 44 cápsulas, fragmentos de projétil, pedaços do tecido de um colete à prova de balas e cerca de 10 marcas de impacto na fachada de um imóvel em frente. O corpo só foi liberado para o IML às 11h04, com a família acompanhando no local.
Quem era Gustavo
A família contou à polícia que Gustavo morava com a mãe e as irmãs e fazia tratamento com antidepressivos. A Polícia Civil informou que ele não tinha antecedentes criminais.
A investigação
A Secretaria da Segurança Pública diz que as polícias Civil e Militar investigam o caso, registrado no Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) como resistência e morte decorrente de intervenção policial. A conduta dos agentes será analisada num Inquérito Policial Militar. As armas, o celular de Gustavo e as imagens das câmeras corporais dos policiais foram apreendidos e vão passar por perícia.
São essas imagens que podem confirmar ou desmentir a versão do boletim. Até a perícia, a única narrativa sobre os segundos que antecederam 45 tiros é a de quem atirou.
O engano tem cor
Em 2025, as polícias brasileiras mataram 6.602 pessoas, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Entre pessoas negras, a taxa foi de 3,5 mortes por 100 mil habitantes; entre pessoas brancas, de 1,0. Numa ação policial no Brasil, uma pessoa negra corre 3,5 vezes mais risco de morrer.
Confundiram o celular com uma arma. A cor da pele, não confundiram.
Fontes: g1 (via Terra), Mídia Ninja, Correio e A Tarde, 10/10/2026, com base no boletim de ocorrência; Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 23/07/2026). Foto: Reprodução/TV Globo.
"Tropa do Flávio": canal oficial do PL usa estética de culto à personalidade pra divulgar candidato no segundo turno
Arte publicada pelo canal oficial do Partido Liberal no Telegram (22 mil seguidores, conta verificada), com chamada para repost no Instagram. Reprodução/Telegram.
O canal oficial do Partido Liberal no Telegram, com 22 mil seguidores e selo de verificação, publicou uma peça de divulgação de Flávio Bolsonaro com o rosto do candidato ampliado em alto contraste preto e branco sobre um fundo inteiramente preenchido pela repetição do slogan "TROPA DO FLÁVIO". O post trazia link para um reel no Instagram e, até a consulta desta reportagem, somava 176 reações e 172 compartilhamentos no próprio Telegram.
A estética
Não há meio-tom na peça: o rosto ocupa o centro do quadro em escala bem maior que qualquer outro elemento, tratado em preto e branco de alto contraste, como um recorte gravado. Atrás dele, a mesma frase se repete dezenas de vezes, enfileirada, até virar textura: o fundo inteiro é feito de nome e slogan, sem nenhuma outra informação.
Rosto em escala monumental, repetição do nome até a exaustão e ausência de nuance tonal formam um vocabulário gráfico específico: é o mesmo princípio visual (líder como ícone, nome como mantra, grandeza como argumento) que organizou os cartazes de culto à personalidade do século 20, de Mussolini a outros regimes de líder único. Isso não significa que alguém copiou um cartaz específico; significa que o partido escolheu, consciente ou não, o mesmo manual.
O momento
A peça foi ao ar na reta final do segundo turno, com Flávio Bolsonaro enfrentando Lula nas urnas e o PL reforçando a mobilização digital da candidatura. É um momento em que cada escolha de comunicação do partido (cor, enquadramento, slogan) carrega peso redobrado, porque é isso que vai circular nos grupos de WhatsApp e Telegram até o dia da votação.
Até a publicação desta matéria, não havia resposta pública do PL sobre a peça, nem indicação de quem a produziu.
Estética não é acidente. Quando um partido decide que a forma de apresentar seu candidato é repetir o nome dele como palavra de ordem atrás de um rosto ampliado e sem nuance, ele está fazendo uma escolha sobre que tipo de relação quer construir com quem vê: não convencimento por argumento, mas adesão por repetição. É o oposto do debate: é o culto.
Fonte: canal oficial do Partido Liberal no Telegram (22 mil seguidores, conta verificada), post desta semana com chamada para repost no Instagram. Imagem: Reprodução/Telegram.
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Perfil com crianças de Uganda divulga criptomoeda que dá tokens a quem compartilha conteúdo pelo voto em Flávio Bolsonaro
Cena de vídeo publicado no Instagram pelo perfil que arrecada dinheiro para crianças em Uganda. Os rostos foram borrados pelo Poder Afrikano. Foto: Reprodução/Instagram.
Um site de criptomoedas lançou na terça-feira, 6 de outubro, um programa que distribui tokens a quem compartilhar nas redes sociais conteúdos que incentivam o voto no 22, número de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. A iniciativa, chamada Brasil 22 Token, ou B22, foi revelada pela Folha de S.Paulo, em reportagem de Patrícia Campos Mello.
O projeto é divulgado no Instagram por um perfil com 12,9 milhões de seguidores que arrecada dinheiro para construir casas para crianças em Uganda, e que aparece como parceiro no site do B22. Em um dos vídeos, crianças e jovens com camisetas do "B22 token" cantam pedindo voto no 22. Segundo a Folha, esse vídeo passou de 1,2 milhão de visualizações.
Como funciona
Para receber os tokens, a pessoa precisa ter B22, compartilhar o projeto numa rede social, enviar o link da publicação e informar uma carteira digital. No mercado de criptomoedas, isso se chama airdrop: a distribuição de moedas para quem cumpre tarefas de divulgação.
O site apresenta o B22 como "um movimento que une apoio ao voto 22 e a proposta de ajudar as HypersKids a concluir sua casa em Kampala", a capital de Uganda. Diz também que a distribuição é "independente de voto" e que o projeto não é oficial nem tem vínculo com nenhum político. Segundo a Folha, quem aparece divulgando a iniciativa nas redes é Kevim Flores, que não se apresenta como dono.
Num post em inglês, o próprio perfil das crianças escreveu que recebeu 120 milhões de tokens B22 com a parceria. Convidou os seguidores a comprar a moeda, compartilhar o vídeo e conhecer o site para ganhar tokens "inspirando outros a votar 22". No mesmo texto, diz apoiar a visão de Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro e Pablo Marçal.
Vídeo publicado pelo mesmo perfil em junho, para o aniversário da Havan. Os rostos foram borrados pelo Poder Afrikano. Foto: Reprodução/Instagram.
Não é a primeira vez que o perfil aparece ligado a nomes da direita brasileira. Em junho, publicou um vídeo convidando o Brasil para o aniversário da Havan, marcando o empresário Luciano Hang. Na camiseta da criança no centro da cena, ao lado da marca da loja, está escrito "O Brasil que queremos só depende de nós".
O que diz a lei
A legislação eleitoral proíbe dar vantagem econômica a pessoas para que veiculem propaganda eleitoral na internet, e proíbe doações de empresas a campanhas, inclusive em criptomoedas. Três especialistas ouvidos pela Folha apontaram indícios de violação.
Para o advogado eleitoral Hélio Silveira, o modelo repete os campeonatos de cortes do então candidato Pablo Marçal: "Oferece incentivos financeiros para as pessoas divulgarem a campanha". Marçal foi condenado por abuso de poder econômico por causa dessa prática. A pesquisadora Nina Santos, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital, descreveu uma "operação complexa que envolve uso de cripto, trabalho humanitário, visibilidade em redes sociais e campanha eleitoral" e lembrou que "uma pessoa jurídica não pode fazer campanha eleitoral".
A campanha de Flávio Bolsonaro disse à Folha que responderia aos questionamentos, mas não havia se manifestado até a publicação da reportagem.
Crianças como cenário
As crianças dos vídeos não votam no Brasil. A causa que o perfil diz defender, casas para crianças em Uganda, virou vitrine de uma moeda que recompensa quem faz propaganda eleitoral para um candidato brasileiro. Quem ganha com a imagem delas é a pergunta que o projeto ainda não respondeu.
Fontes: Folha de S.Paulo, reportagem de Patrícia Campos Mello, 8 de outubro de 2026 (Folhapress). Revista Fórum e BPMoney, 8 de outubro de 2026. Publicações do perfil no Instagram.
O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre consciência, poder e as estruturas que organizam a vida do povo preto.
Michelle Bolsonaro foi a mais votada para o Senado na seção eleitoral da Papuda; para presidente, Lula venceu Flávio por 74 a 70
Complexo Penitenciário da Papuda, no Distrito Federal, em 2020. Foto: Agência Brasília, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0).
Na seção eleitoral instalada no Complexo Penitenciário da Papuda, no Distrito Federal, Michelle Bolsonaro (PL) foi a candidata mais votada para o Senado no primeiro turno, em 4 de outubro. Teve 68 votos, segundo o boletim de urna da seção 420 da 18ª Zona Eleitoral, divulgado pelo Correio Braziliense e pelo site Amado Mundo.
A seção tinha 185 eleitores aptos, e 162 votaram. Ali votam presos provisórios, que ainda não têm condenação definitiva. Pela Constituição, só a condenação criminal transitada em julgado suspende os direitos políticos.
Os números
Para o Senado, Michelle Bolsonaro (PL) ficou à frente de Erika Kokay (PT), com 62 votos, Leila do Vôlei (PDT), com 58, e Bia Kicis (PL), com 54. Para o governo do Distrito Federal, Celina Leão (PP) venceu com 65 votos, contra 32 de Leandro Grass (PT). Para deputado federal, o PL foi o partido mais votado, com 23 votos, seguido do MDB, com 21.
Para presidente, o resultado foi outro. Lula (PT) teve 74 votos e Flávio Bolsonaro (PL), 70. Ronaldo Caiado (PSD) recebeu 6, Renan Santos (Missão), 4, e Augusto Cury (Avante), 2. Houve 3 votos brancos e 3 nulos.
A ironia
No dia da eleição, circulou entre bolsonaristas, no WhatsApp e nas redes sociais, a mensagem: "Espero que as comemorações de hoje seja nos lares brasileiros e não nos presídios!". A frase sugeria que uma vitória da esquerda seria festejada nas cadeias.
Michelle Bolsonaro em 2019. Foto: Palácio do Planalto, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0).
Na Papuda, na disputa pelo Senado, pelo governo do Distrito Federal e pela Câmara, quem teve o que comemorar foi o PL e seus aliados.
Votaram na mesma seção Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS", e Alessandro Stefanutto, ex-presidente do INSS, segundo o Correio Braziliense. O voto é secreto, e não é possível saber em quem cada um votou.
Fontes: boletim de urna da seção 420 da 18ª Zona Eleitoral do Distrito Federal, divulgado pelo Correio Braziliense (6 de outubro de 2026) e pelo Amado Mundo (7 de outubro de 2026). Constituição Federal, artigo 15.
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Júlia Zanatta comemora a reeleição com um chicote na mão, e o objeto carrega a história da escravidão no Brasil
Júlia Zanatta na comemoração da reeleição, na noite de 4 de outubro. Foto: Reprodução/Instagram @juliazanattasc.
A deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC) foi a candidata mais votada de Santa Catarina no domingo, 4 de outubro: 560.223 votos, 13,15% dos válidos, segundo o resultado oficial do Tribunal Superior Eleitoral. Em 2022, na primeira eleição, ela tinha recebido 111.588 votos. A segunda colocada no estado, Ana Paula Lima (PT), teve 201.377.
Na noite da apuração, Zanatta foi às ruas de Santa Catarina com um relho, o chicote de couro trançado, e publicou o vídeo no Instagram. Nas imagens, ela bate o chicote no chão diante de apoiadores e grita "É dado de relho!". Segundo o ND+, o vídeo passou de 900 mil visualizações.
O que ela diz
Ao Poder360, a deputada explicou por escrito: "Em Santa Catarina, usamos a expressão 'foi de relho' para falar de uma vitória expressiva. Foi uma brincadeira com essa expressão: apareci com o relho [chicote] na mão para comemorar o grande número de votos que recebemos. É uma referência à nossa linguagem regional e à força do resultado nas urnas".
Ao Estadão, em fala reproduzida pelo ND+, foi além: "Foi uma brincadeira, simbólica, mas como sempre já desvirtuaram tudo e ficam inventando narrativas, assim como fizeram com a minha tiara". A referência é à tiara de flores que ela usa no plenário da Câmara, que já tinha virado polêmica antes.
A expressão é regional. O objeto, não
No campo, o relho conduz o gado. Na história do Brasil, o chicote foi o instrumento do castigo de pessoas escravizadas, muitas vezes aplicado em praça pública, à vista de todos. O pintor Johann Moritz Rugendas, que percorreu o Brasil nos anos 1820, registrou uma dessas cenas na Praça de Santana, no Rio de Janeiro.
"Castigo público na Praça de Santana", de Johann Moritz Rugendas, século 19. Domínio público, via Wikimedia Commons.
A Revista Afirmativa, veículo de jornalismo negro, lembrou que o chicote de couro trançado é "símbolo histórico de tortura e violência contra as pessoas negras escravizadas no Brasil".
Nas reportagens publicadas até 6 de outubro, as críticas ao vídeo vieram de usuários das redes sociais. Nenhuma delas registra representação contra a deputada no Ministério Público ou no Conselho de Ética da Câmara.
Brincadeira para quem?
Zanatta escolheu o objeto e a palavra. A expressão pode ser regional, mas o chicote não pertence a uma região: ele está na memória de um país em que 55,5% da população se declara preta ou parda, segundo o Censo de 2022. Uma vitória nas urnas comemorada com o instrumento que marcou o corpo de gente escravizada diz muito sobre para quem a festa foi feita.
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral, resultado oficial da eleição para deputado federal em Santa Catarina, 4 de outubro de 2026. Poder360, 5 de outubro de 2026. ND+, 6 de outubro de 2026, com informações do Estadão. Revista Afirmativa, 6 de outubro de 2026. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Censo 2022.
O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre consciência, poder e as estruturas que organizam a vida do povo preto.
O Carnaval virou alvo da política evangélica: do projeto que multa escola de samba à ação de Flávio no TSE
Galo da Madrugada no Carnaval do Recife, em 2018. Foto: Acácio Pinheiro/Ministério da Cultura, licença Creative Commons BY 2.0.
Em 18 de setembro, o corregedor-geral eleitoral, ministro Antonio Carlos Ferreira, aceitou a ação de investigação judicial eleitoral apresentada por Flávio Bolsonaro (PL) contra Lula e Geraldo Alckmin por causa de um desfile de escola de samba. A ação acusa abuso de poder político e econômico nos repasses públicos ao desfile da Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente no Carnaval de 2026. Também são investigados Janja, Marcelo Freixo e o prefeito de Niterói, Rodrigo Neves.
A três semanas do segundo turno, o Carnaval está dentro da disputa presidencial. E não é a primeira vez que a maior festa popular do país vira alvo de quem governa em nome da fé.
Uma festa do tamanho de uma economia
O Ministério do Turismo estimou para o Carnaval de 2026 mais de 65 milhões de foliões e R$ 18,6 bilhões movimentados no país. Só São Paulo esperava 16,5 milhões de pessoas; Rio de Janeiro e Salvador, 8 milhões cada; Recife e Olinda, 7,6 milhões. A Confederação Nacional do Comércio projetou 39,2 mil vagas temporárias só no turismo.
E a festa é renda para quem trabalha na rua. A Prefeitura de São Paulo credenciou 15 mil ambulantes para o Carnaval de rua de 2026. Em Belo Horizonte, a Belotur, empresa de turismo da prefeitura, ouviu 3.326 ambulantes: 76,7% se declararam pretos ou pardos, 17,1% estavam desempregados, e o lucro médio estimado foi de R$ 4,8 mil.
Pipoqueiro trabalha no bloco Quintal Carnavalesco, no Cruzeiro (DF), em 2023. Foto: Joel Rodrigues/Agência Brasília, licença Creative Commons BY 2.0.
É também uma festa de matriz negra. Em 2007, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional registrou as matrizes do samba do Rio de Janeiro, partido-alto, samba de terreiro e samba-enredo, como patrimônio cultural do Brasil. Em Salvador, o Ilê Aiyê, fundado em 1974 no Curuzu, precisou de escolta policial nos primeiros desfiles por causa do preconceito.
O peso evangélico no poder
No Censo de 2022, os evangélicos são 26,9% da população, contra 21,6% em 2010, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Entre as pessoas que se declaram pretas, são 30%. No Congresso, a Frente Parlamentar Evangélica reúne 212 dos 513 deputados e 26 senadores.
Na Câmara, o Projeto de Lei 830/2025, do deputado Pastor Gil (PL-MA), apresentado em março de 2025, proíbe "imagens sacras, símbolos sagrados e representações desrespeitosas à fé cristã, católica ou evangélica" em desfiles de escolas de samba e eventos carnavalescos. Prevê advertência, multa de 300 salários mínimos na reincidência e suspensão da escola por até 36 meses. O texto define até o que seriam "imagens satânicas". Está na Comissão de Cultura, aguardando parecer.
Na justificativa, o autor escreve: "O Carnaval, que deveria ser um momento de celebração e união, tem se tornado palco para a afronta a valores sagrados". A pergunta que o projeto não responde é quem decide o que é afronta.
Crivella: "O carnaval é apenas uma festa"
No Rio, o prefeito Marcelo Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal, propôs em 2017 cortar pela metade a verba das escolas de samba, de R$ 24 milhões para R$ 12 milhões. "Se vamos usar esses recursos para uma festa de três dias (Carnaval) ou ao longo de 365 dias ao ano", disse. Em 2018, resumiu: "O carnaval é apenas uma festa". Para 2020, a prefeitura zerou a subvenção às escolas do Grupo Especial.
Niterói e o TSE
Em fevereiro de 2026, uma ala da Acadêmicos de Niterói levou à Sapucaí conservadores e evangélicos dentro de latas com o rótulo "família". O presidente da Frente Parlamentar Evangélica, Gilberto Nascimento (PSD-SP), reagiu: "O que me preocupa é o deboche criminoso, o escárnio contra a fé cristã".
Flávio escreveu nas redes que "o Carnaval é cultura, é tradição e merece respeito", mas criticou o uso de dinheiro público "para atacar a fé de milhões de brasileiros enquanto políticos aplaudem de camarote". Depois, foi ao Tribunal Superior Eleitoral.
O que é a ação no TSE
É uma ação de investigação judicial eleitoral, o instrumento da Justiça Eleitoral para apurar abuso de poder em campanha. Os autores são Flávio Bolsonaro e o candidato a vice na chapa dele, Alfredo Gaspar. Os investigados são Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin, a primeira-dama Janja Lula da Silva, Marcelo Freixo, candidato do PT a deputado federal, e o prefeito de Niterói, Rodrigo Neves.
A acusação é de abuso de poder político e econômico e de uso indevido dos meios de comunicação. Segundo a ação, a Prefeitura de Niterói, a Prefeitura do Rio, o governo do estado do Rio de Janeiro e a Embratur repassaram R$ 9,6 milhões à escola depois do anúncio do enredo, em julho de 2025. O enredo contava a vida de Lula, da infância em Pernambuco à Presidência.
Em 18 de setembro, o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Antonio Carlos Ferreira, aceitou a ação e deu até cinco dias para a defesa. Aceitar não é condenar: a decisão abre a investigação, e o mérito ainda será julgado.
Não é a primeira vez que ele mexe com a festa. Em 2017, como deputado estadual, assinou com Bruno Dauaire e Milton Rangel o Projeto de Decreto Legislativo 52/2017, que obrigava blocos de rua a voltar a pedir autorização às Polícias Civil e Militar e ao Corpo de Bombeiros. O projeto nunca foi aprovado.
Festa negra e popular não é caso de polícia nem de pecado. É cultura, é trabalho e é a renda de milhares de famílias que vendem na rua. Quem trata o Carnaval como ameaça à fé está decidindo, também, quem pode ganhar a vida com ele.
Fontes: Correio da Manhã, 19 de setembro de 2026, sobre a ação no TSE. InfoMoney, 17 de fevereiro de 2026, sobre a publicação de Flávio Bolsonaro. Jornal de Brasília (Folhapress), 16 de fevereiro de 2026, sobre o desfile e a reação da Frente Parlamentar Evangélica. IstoÉ Dinheiro, 18 de fevereiro de 2026, sobre as estimativas do Ministério do Turismo. Mercado&Consumo, 21 de janeiro de 2026, sobre a projeção da Confederação Nacional do Comércio. Prefeitura de São Paulo, 28 de janeiro de 2026. Diário do Comércio, 27 de janeiro de 2026, sobre a pesquisa da Belotur. Diário de Pernambuco, 6 de junho de 2025, sobre o Censo 2022. Câmara dos Deputados, ficha do Projeto de Lei 830/2025 e da Frente Parlamentar Evangélica. Monitor Mercantil e IstoÉ Dinheiro, junho de 2017, Tribuna PR, 9 de fevereiro de 2018, e IstoÉ, 30 de agosto de 2019, sobre Marcelo Crivella. Gazeta do Povo, 10 de outubro de 2007, sobre o registro do Iphan. CNN Brasil, 2 de novembro de 2024, sobre o Ilê Aiyê. Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, ficha do Projeto de Decreto Legislativo 52/2017.
O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre consciência, poder e as estruturas que organizam a vida do povo preto.
Estes são os 10 deputados federais pretos de esquerda mais votados de 2026
Erika Hilton na tribuna da Câmara dos Deputados, em abril de 2024. Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados, licença Creative Commons BY 3.0.
Dos 513 deputados federais eleitos no domingo, 4 de outubro, 29 se autodeclararam pretos no registro de candidatura. Desses, 19 são de partidos de esquerda: PT, PSOL e PCdoB. Entre os eleitos de PSB, PDT, Rede e PV, nenhum se declarou preto.
A lista abaixo é apuração própria da Poder Afrikano nos arquivos de candidaturas e de votação nominal do Tribunal Superior Eleitoral, e mostra os 10 mais votados entre esses 19.
Os 10
1. Erika Hilton (PSOL-SP): 1.596.472 votos 2. Ana Elisa (PT-MG): 524.219 3. Jones Manoel (PSOL-PE): 249.077 4. Dilvanda Faro (PT-PA): 192.372 5. Rick Azevedo (PSOL-RJ): 191.371 6. Anielle Franco (PT-RJ): 149.726 7. Valmir Assunção (PT-BA): 148.941 8. Rosa Amorim (PT-PE): 144.101 9. Jack Rocha (PT-ES): 142.187 10. Dr. Francisco (PT-PI): 124.515
Quem são alguns deles
Erika Hilton teve a maior votação de uma mulher na história da Câmara dos Deputados. Em 2022, na primeira eleição federal, tinha recebido 256.903 votos.
Ana Elisa, de Divinópolis, tem 21 anos e foi a segunda mais votada da lista, com mais de meio milhão de votos em Minas Gerais.
Rick Azevedo, ex-balconista de farmácia, criou o Movimento Vida Além do Trabalho, que levou a luta pelo fim da escala 6x1 para dentro do Congresso.
Rick Azevedo na comissão especial da Câmara sobre o fim da escala 6x1, em 26 de maio de 2026. Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados, licença Creative Commons BY 3.0.
Anielle Franco deixou o Ministério da Igualdade Racial em abril para disputar a eleição pelo Rio de Janeiro.
O critério, e o que fica de fora
A lista é de quem se declarou preto ao Tribunal Superior Eleitoral. Quem se declarou pardo não entra nela.
O filtro de partido deixa de fora três deputados eleitos que também se declararam pretos: Pastor Sargento Isidório (Avante), com 248.147 votos, Antonio Brito (PSD), com 205.815, e Sandro Filho (PP), com 167.394.
Logo depois do 10º vem Olívia Santana (PCdoB-BA), com 123.359 votos, apenas 1.156 a menos que Dr. Francisco. Os números são os dos arquivos do Tribunal Superior Eleitoral de 5 de outubro e podem mudar se houver retotalização.
Representação se conta voto por voto. São 19 entre 513, menos de 4% da Câmara, num país em que pretos e pardos somam a maioria da população. Saber quem são, e de onde vieram, é o primeiro passo para cobrar o que fazem com o mandato.
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral, Dados Abertos, arquivos de candidaturas (cor ou raça autodeclarada) e de votação nominal por candidato das eleições de 2026, versão de 5 de outubro. Câmara dos Deputados, Dados Abertos. g1.
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Anitta voltou a mirar Flávio Bolsonaro depois do 1º turno
Anitta no Planeta Atlântida, em Xangri-Lá (RS), em 30 de janeiro de 2026. Foto: Mauricio Tonetto/Secom-RS, licença Creative Commons BY-SA 4.0.
Um dia depois do primeiro turno, Anitta usou os stories do Instagram para mirar Flávio Bolsonaro (PL). Na segunda-feira, 5 de outubro, a cantora republicou vídeos de outros perfis com críticas ao candidato: falta de propostas, intolerância religiosa e avanço do conservadorismo.
Ela não citou nenhum candidato pelo nome e não declarou voto. Mas falou para 61 milhões de seguidores, no começo de uma campanha de segundo turno apertada: Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Os dois voltam às urnas em 25 de outubro.
As bets, a escala 6x1 e o "tutorial"
Não foi a primeira vez na semana. Na sexta-feira, 2 de outubro, Anitta republicou um vídeo da Mídia Ninja e do 342artes em que diz: "Eu sou a favor do fim das bets, eu acho que tá acabando com as famílias, com as pessoas, com a saúde mental". No mesmo vídeo, defendeu o fim da escala 6x1 e mais mulheres na política.
Também sem citar nomes. Lula comentou que o voto é secreto, mas que a cantora tinha dado um "tutorial".
Uma relação que vem de 2018
Em setembro de 2018, Flávio postou um vídeo defendendo Anitta. A resposta dela veio rápida: "Dispenso qualquer mensagem de apoio de candidatos ou afiliados". E completou: "Eu não voto em candidato machista, homofóbico, racista e por aí vai".
Flávio Bolsonaro na tribuna do Senado, em 1º de setembro de 2026. Foto: Carlos Moura/Agência Senado, licença Creative Commons BY-SA 4.0.
Em julho de 2022, ela declarou voto em Lula pela primeira vez: "A partir deste momento eu sou Lulalá primeiro turno".
Em 2026, até agora, não há declaração de voto. Há repostagens, e elas apontam numa direção só.
Jão foi direto
No mesmo dia dos stories, o cantor Jão não deixou espaço para leitura: "se ainda resta alguma dúvida, dia 25 somos Lula 13", escreveu no X.
Num segundo turno decidido por menos de dois pontos, quem fala com dezenas de milhões de pessoas não precisa dizer um nome para ser entendido. A pergunta das próximas três semanas é quantos artistas vão sair da repostagem para a declaração.
Fontes: Papel Pop, 5 de outubro de 2026, e Poder360, 5 de outubro de 2026, sobre os stories de Anitta. Poder360, 2 de outubro de 2026, sobre o vídeo das bets e o comentário de Lula. Metrópoles, 20 de setembro de 2018, sobre a resposta a Flávio Bolsonaro. Correio Braziliense, 11 de julho de 2022, sobre a declaração de voto. Publicação de Jão no X, 5 de outubro de 2026. CartaCapital, 5 de outubro de 2026, sobre o resultado do primeiro turno.
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"Comer o braço do irmãozinho": deputada mais votada de SP vira alvo de Sônia Guajajara e Sofia Favero no Ministério Público
Eduarda Campopiano em passeata a favor da candidatura de Flávio Bolsonaro, na campanha de 2026. Foto: Bruno Marcos Pio dos Reis, domínio público (CC0).
A deputada estadual mais votada de São Paulo em 2026 chega à Assembleia Legislativa com duas frentes abertas no Ministério Público antes mesmo da posse. Eduarda Campopiano (PL), de 23 anos, vereadora de Praia Grande, recebeu 1.956.238 votos no domingo, 4 de outubro, a segunda maior votação da história do estado para a Assembleia.
Uma frente é sobre o que ela disse dos povos indígenas. A outra, sobre o que ela escreveu para Erika Hilton depois do resultado.
A fala sobre os indígenas
Meses antes da eleição, num debate do RedCast, Campopiano disse: "Glória a Deus que colonizaram, glória a Deus que catequizaram as índias". E continuou: "Glória a Deus que a extrema direita chegou e falou para os índios: 'Galera, fazer sacrifício e comer o braço do irmãozinho não é legal, enterrar criança viva...'".
A rapper e liderança indígena Katú Mirim registrou boletim de ocorrência por preconceito de raça ou cor.
Depois da eleição, a fala voltou a circular. Sônia Guajajara (PSOL-SP), reeleita deputada federal, divulgou nota na segunda-feira, 5 de outubro, e anunciou que registra nesta terça-feira, 6, uma notícia-crime no Ministério Público Federal. "Associar indiscriminadamente os povos indígenas ao canibalismo e à violência contra crianças é uma forma de desumanização", diz a nota.
Sônia Guajajara na posse como ministra dos Povos Indígenas, em janeiro de 2023. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil, domínio público (CC0).
O recado para Erika Hilton
No mesmo domingo, Erika Hilton (PSOL) foi reeleita deputada federal com 1.596.472 votos, a maior votação de uma mulher na história da Câmara dos Deputados. Depois do resultado, Campopiano escreveu no X: "Oi Erika Hilton. Como é saber que um homem biológico nunca vai ocupar o espaço da mulher mais votada de São Paulo? Rs".
Sofia Favero (PSOL), eleita com 407.773 votos, a terceira maior votação para a Assembleia de São Paulo, acionou o Ministério Público de São Paulo na segunda-feira, 5, por transfobia e violência política de gênero contra Erika.
São duas ações separadas, de duas parlamentares, sobre dois episódios diferentes. Nenhuma delas é, ainda, investigação aberta: há uma representação e uma notícia-crime, e cabe ao Ministério Público decidir o que fazer com elas.
Não são falas isoladas
Num debate, Campopiano disse: "Eu não acho que feminicídio seja algo que exista". Na Câmara Municipal de Praia Grande, ao falar contra as cotas raciais, afirmou: "Nenhum negro nessa sala foi escravizado".
Procurada pelo g1, Campopiano não respondeu.
Quase dois milhões de votos não transformam desumanização em opinião. A partir de fevereiro, quem disse que a catequese foi uma bênção para os indígenas e que nenhum negro na sala foi escravizado vai votar as leis de São Paulo. É por isso que importa o que o Ministério Público fará com as duas denúncias.
Fontes: g1, 4 e 5 de outubro de 2026, sobre o perfil de Eduarda Campopiano, as falas no RedCast, a nota de Sônia Guajajara, a publicação no X e a representação de Sofia Favero. Folha de S.Paulo, coluna de Mônica Bergamo, 5 de outubro de 2026. Terra, 5 de outubro de 2026, sobre a fala a respeito de feminicídio. ND Mais e Portal Paulo Mathias, sobre a fala na Câmara de Praia Grande. Tribunal Superior Eleitoral, dados de votação do primeiro turno.
O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre consciência, poder e as estruturas que organizam a vida do povo preto.
Rick Azevedo é eleito, Erika Hilton bate recorde de votos e o Senado vota o fim da escala 6x1 em 6 de outubro
Rick Azevedo na comissão especial da Câmara que analisou o fim da escala 6x1, em 26 de maio de 2026, quando foi ouvido como fundador do Movimento Vida Além do Trabalho. Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados, licença Creative Commons BY 3.0.
O balconista de farmácia que criou o movimento pelo fim da escala 6x1 vai virar deputado federal. Rick Azevedo (PSOL) foi eleito pelo Rio de Janeiro no domingo, 4 de outubro, com 191.371 votos, a segunda maior votação entre os 46 eleitos do estado.
Em São Paulo, Erika Hilton (PSOL), autora de uma das propostas que deram origem ao texto, foi reeleita com 1.596.472 votos. Nenhuma mulher tinha recebido tantos votos para a Câmara dos Deputados.
O resultado chega dois dias antes de uma data marcada. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, pautou para terça-feira, 6 de outubro, a votação em plenário da Proposta de Emenda à Constituição que acaba com a escala 6x1.
A data está marcada, o desfecho não. Quem vota na terça é o Senado atual. Os senadores eleitos no domingo só assumem em fevereiro de 2027, e não há garantia de que a pauta sobreviva à nova composição da Casa.
Do balcão para o Congresso
Rick Azevedo tem 32 anos e nasceu em Dianópolis, no Tocantins. Trabalhou como frentista, vendedor e balconista de farmácia. É o fundador do Movimento Vida Além do Trabalho, que tirou a escala 6x1 da conversa de fim de expediente e levou para dentro do Congresso.
Em 2024, foi eleito vereador do Rio com 29.364 votos. Dois anos depois, multiplicou essa votação por mais de seis.
"Essa vitória não me foi entregue. Eu reivindiquei", escreveu nas redes sociais depois do resultado. Na segunda-feira, voltou ao assunto: "A partir do ano que vem, um balconista de farmácia estará no Congresso e a briga vai ser grande."
Em maio, ele já tinha estado na Câmara, do outro lado da mesa: foi ouvido como representante de movimento social pela comissão especial que analisou a proposta. Em 1º de fevereiro de 2027, volta como deputado.
A mulher mais votada da história da Câmara
Erika Hilton recebeu 6,73% dos votos válidos de São Paulo, a segunda maior votação individual do estado. O recorde anterior entre mulheres era de Joice Hasselmann, eleita em 2018 com 1.078.666 votos.
Em 2022, na primeira eleição federal, Erika teve 256.903 votos. Em quatro anos, multiplicou esse número por seis.
Ela é a autora da proposta apresentada em 2025 que previa quatro dias de trabalho por três de descanso, com limite de 36 horas semanais.
Daiana Santos (PCdoB-RS), à esquerda, e Erika Hilton (PSOL-SP) na comissão especial, em 26 de maio de 2026. Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados, licença Creative Commons BY 3.0.
Quem mais volta
A proposta mais antiga é de Reginaldo Lopes (PT-MG), que apresentou em 2019 um texto com jornada de 36 horas semanais. Ele foi reeleito com 215.192 votos, a quarta maior votação entre os 53 deputados eleitos por Minas Gerais.
O relator que juntou as duas propostas no texto aprovado, Leo Prates (Republicanos-BA), também foi reeleito, com 103.794 votos.
Os quatro nomes que carregaram a proposta na Câmara estarão na próxima legislatura. Vêm de três partidos diferentes, e um deles é o Republicanos, o mesmo do presidente da Câmara, Hugo Motta.
O que o texto garante
A Câmara aprovou a proposta em 27 de maio, em dois turnos. No primeiro, foram 472 votos a favor e 22 contra. No segundo, 461 a 19.
O texto reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, sem corte de salário, e garante duas folgas por semana, uma delas de preferência aos domingos.
A mudança é gradual. Sessenta dias depois da promulgação, a jornada cai para 42 horas. Doze meses depois disso, para 40.
Os entraves
No Senado, a proposta andou devagar. Segundo a Agência Brasil, a base do governo tentou pautar a análise depois que o texto chegou, mas Alcolumbre o manteve parado. Só em agosto ele foi enviado à Comissão de Constituição e Justiça.
Em 27 de agosto, o relator Omar Aziz deu parecer favorável e rejeitou as 12 emendas apresentadas, como contamos aqui.
Em 2 de setembro, a comissão aprovou o texto. Quatro senadores registraram voto contra: Rogério Marinho (PL-RN), Hamilton Mourão (Republicanos-RS), Tereza Cristina (PP-MS) e Jaime Bagattoli (PL-RO).
No mesmo dia, a votação em plenário não aconteceu. O plenário esvaziou e a base do governo, sem segurança sobre os votos, decidiu não arriscar. Uma emenda à Constituição precisa de 49 votos entre os 81 senadores, em dois turnos. O governo calculava ter 53 ou 54.
O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues, atribuiu o esvaziamento a uma "ação coordenada" da oposição, com participação direta de Marinho e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato a presidente. "A oposição ao nosso governo é contra o fim da escala 6x1. Ponto", disse.
Marinho, líder da oposição, apresentou uma proposta alternativa que mantém a escala 6x1 e a jornada de 44 horas, com pagamento calculado por hora trabalhada e negociação direta entre trabalhadores e empregadores.
Flávio Bolsonaro integra a comissão e estava ausente quando a proposta foi aprovada ali. Segundo a Agência Brasil, ele defendeu o pagamento por hora trabalhada e evitou dizer como votaria no fim da escala 6x1. A agência procurou os dois senadores. Marinho não tinha respondido até a publicação, e o espaço seguia aberto para Flávio.
No dia seguinte, Alcolumbre prometeu em plenário ao senador Paulo Paim, que cumpre o último mandato, que a votação viria depois das eleições. Em 2 de outubro, marcou a data.
O Congresso que saiu das urnas
A eleição que fortaleceu os autores da proposta também fortaleceu quem resistiu a ela. O PL, partido de Marinho e de Flávio Bolsonaro, elegeu 121 deputados, a maior bancada da Câmara. Em 2022 tinham sido 99.
No Senado, a mudança é maior. O PL terá 28 senadores a partir de 2027, 19 deles eleitos no domingo. Será a maior bancada da Casa, mais de três vezes a do PT, que fica com nove. O MDB terá oito.
Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, à frente de Lula, com 45,16%. O segundo turno é em 25 de outubro.
Pautado para terça, sem garantia depois
Nada disso muda quem vota em 6 de outubro. A sessão de terça é do Senado atual, o mesmo que aprovou o texto na comissão em setembro e o mesmo que deixou o plenário vazio no mesmo dia.
O que muda é o que acontece se a votação não se concluir agora. Uma emenda à Constituição precisa passar em dois turnos, e esta já foi adiada uma vez. Se o Senado aprovar o texto sem mudança de mérito, ele segue para promulgação. Se mudar, a proposta volta para a Câmara.
E se ficar para 2027, a decisão passa a depender de um plenário em que o partido de dois dos quatro senadores que votaram contra na comissão terá 28 cadeiras. Para barrar uma emenda à Constituição bastam 33 dos 81 senadores.
Ninguém sabe, hoje, se a pauta se mantém com o Senado que toma posse em fevereiro. É por isso que a data de terça pesa tanto.
A escala tem cor
Nas jornadas mais pesadas da construção civil, trabalhadores negros passam de 65%. E quem está na escala 6x1 ganha, em média, 58% a menos do que quem está na 5x2. Os números são do Dossiê Fim da Escala 6x1, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas, e de levantamentos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos.
É por isso que essa votação nos interessa. Tempo livre é uma forma de poder, e ele está mal distribuído.
Quem trabalha seis dias em cada sete conseguiu, no único domingo de folga, colocar um dos seus no Congresso. Na terça, o Senado mostra se ouviu.
Fontes: CNN Brasil, 5 de outubro de 2026, sobre a votação de Rick Azevedo, Erika Hilton, Reginaldo Lopes e Leo Prates e a bancada do PL. Gazeta do Cerrado, 5 de outubro de 2026, sobre a trajetória e as declarações de Rick Azevedo. Agência Brasil, 27 de maio, 2 de setembro e 2 de outubro de 2026, sobre a aprovação na Câmara, a sessão do Senado e a data da votação. Agência Câmara de Notícias, 27 de maio de 2026, sobre os placares e as propostas de origem. Rádio Senado, 4 de outubro de 2026, e Poder360, 5 de outubro de 2026, sobre a composição do Senado a partir de 2027. Tribunal Superior Eleitoral, sobre o resultado do primeiro turno. Dossiê Fim da Escala 6x1, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas, e Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, sobre composição racial e rendimento.
O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre consciência, poder e as estruturas que organizam a vida do povo preto.
"A Bahia é o câncer do Brasil": Rodrigo Constantino ataca baianos após vitória do PT no estado
Rodrigo Constantino no podcast Democracia na Teia, em 2020. Foto: Democracia na Teia/Wikimedia Commons (CC BY 3.0).
Horas depois do resultado do primeiro turno, o economista e colunista Rodrigo Constantino, aliado da campanha de Flávio Bolsonaro, publicou um vídeo nas redes chamando Salvador de "lixo" e os baianos, "com todas as boas exceções", de "uma vergonha para o Brasil", associando o ataque ao desempenho do PT no estado.
O que ele disse
"A Bahia é o câncer do Brasil." "Salvador é um lixo!" "Baianos, com todas as boas exceções, em geral, vocês são uma vergonha para o Brasil." Constantino completou citando "dois senadores petistas" e "um governador petista" como prova do que chamou de "papelão", e se adiantou à crítica que esperava receber: "Vai vir a turma da Globo falar que é xenofobia, estou pouco me lixando para isso."
O gatilho: a vitória do PT na Bahia
Jerônimo Rodrigues (PT) foi reeleito governador da Bahia no primeiro turno, com 55,80% dos votos. Rui Costa e Jaques Wagner, ambos do PT, venceram as duas vagas ao Senado. Na disputa presidencial no estado, Lula superou Flávio Bolsonaro por 66,17% a 28,54% dos votos válidos, uma margem de quase 38 pontos, segundo apuração do TSE.
Quem é Rodrigo Constantino
Economista e colunista, hoje na Gazeta do Povo, já passou por Veja, O Globo, Jovem Pan e Record. Preside o Instituto Liberal e cofundou o Instituto Millennium. Foi demitido da Record em 2020 por comentários sobre o caso Mariana Ferrer, e deixou a Jovem Pan em 2023. É apoiador declarado da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência.
A reação
O governador reeleito Jerônimo Rodrigues respondeu: "Essas coisas não cabem mais na civilidade humana. Isso ele ataca no coração do brasileiro e dos baianos." E anunciou que vai buscar medidas na Justiça contra as declarações. "Nós vamos tomar uma providência", disse. Até a publicação desta matéria, não houve retratação do próprio Constantino. A cobertura segue concentrada na imprensa baiana (Bahia Notícias, BNews, Correio24Horas, Aratu On, Jornal Massa) e em veículos como a Revista Fórum, sem repercussão, até agora, nos grandes veículos nacionais.
Transformar divergência eleitoral em ataque a uma população inteira não é novidade. É o manual de sempre: inferiorizar simbolicamente quem não vota como "deveria". A Bahia é o estado com a maior proporção de pessoas pretas do país, segundo o Censo 2022 do IBGE; chamá-la de "câncer" e sua gente de "vergonha" por ter rejeitado maciçamente o candidato de Constantino não é desacordo político, é a velha hierarquia racial falando a língua do resultado eleitoral.
É interessante notar nessa displicência a total falta de preocupação em relação ao preconceito escancarado que as declarações carregam e como a certeza da impunidade motiva e reforça as considerações que reiteramos nessa matéria. Pois a impressão que passa é que, se o baiano não está servindo exatamente como a branquitude espera que ele sirva, ele merece ser tratado como uma doença. Doença grave, essa, que coloca em risco de morte a narrativa de uma sociedade brasileira que ainda vive sob as expectativas de uma sociedade colonial, que só recicla as estratégias para que a manutenção do poder e o acesso aos direitos sigam restritos a uma única parcela da sociedade. E sabemos bem de que parcela estamos falando.
A pergunta que fica é: por que esse tipo de jornalista se sente no dever de nos alertar dessa forma? Por que tamanha indiferença?
Fontes: Revista Fórum (05/10/2026); Bahia Notícias (05/10/2026); BNews (05/10/2026); Correio24Horas (05/10/2026); Aratu On (05/10/2026); Jornal Massa (05/10/2026); CN1 (governador, 05/10/2026); Exame e Portal do Cerrado (resultado eleitoral, 05/10/2026). Foto: Democracia na Teia/Wikimedia Commons (CC BY 3.0).
04 de outubro de 2026PolíticaEleições 2026
Médica de maternidade pública de Goiânia é denunciada por mandar não dar alta a pacientes porque "a maioria é petista"
Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial. Não retrata a médica envolvida no caso, cuja identidade a reportagem não confirmou.
Uma médica do Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara, em Goiânia, é alvo de denúncia ao Ministério Público Federal (MPF) depois que mensagens enviadas a um grupo de trabalho pediram para não dar alta a pacientes no fim de semana da eleição "porque a maioria é petista". A reportagem é do Jornal Opção.
"Não dar alta pra ninguém"
Segundo o Jornal Opção, a médica escreveu na noite de quinta-feira, 1º de outubro, num grupo de WhatsApp da equipe: "Boa sexta a todos. Quem estiver na enfermaria sábado e domingo, não dar alta pra ninguém, a maioria é petista". O sábado e o domingo citados são 3 e 4 de outubro — data em que o Brasil vota no primeiro turno da eleição geral de 2026.
Uma segunda mensagem, aos estagiários
Mais Goiás e Farol da Bahia apontam uma segunda mensagem, enviada na tarde de sexta-feira, 2 de outubro, dessa vez voltada a estudantes de medicina em rodízio na unidade: "Domingo, quem colocar 22 finaliza o rodízio com nota 10" — número de urna do candidato Jair Bolsonaro. O Farol da Bahia diz que a mensagem veio acompanhada de uma figurinha do ex-presidente.
A defesa: "era brincadeira"
Procurada pelo Jornal Opção, a médica disse que a mensagem "era brincadeira" feita num grupo privado, e afirmou que jamais tomaria decisão clínica ou de avaliação com base no voto de alguém, até porque o voto é secreto. Não há, até agora, declaração pública dela fora dessa resposta ao jornal.
Como veio à tona
Segundo Portal 6 e Mais Goiás, uma estagiária subordinada à médica viu as mensagens no grupo e levou o print ao advogado Alan Henrique Marques, que formalizou denúncia ao MPF por suspeita de crime eleitoral e abuso de autoridade — a unidade é pública, ligada à Prefeitura de Goiânia. Em paralelo, o vereador Fabrício Rosa (PT-GO) deu publicidade às mesmas mensagens e apresentou denúncia própria ao MPF, à Justiça Eleitoral e à Prefeitura.
O que dizem hospital e conselho
O Jornal Opção publicou nota da instituição afirmando que o hospital não toma posição política, que a fala reflete opinião pessoal da profissional e que decisões clínicas seguem exclusivamente critério médico, além de abertura de apuração interna — nota que Portal 6, Mais Goiás e Farol da Bahia, até suas publicações, diziam não ter obtido. O CREMEGO (Conselho Regional de Medicina de Goiás) confirmou a Portal 6 que pediu esclarecimentos à profissional e que toda denúncia é apurada em sigilo.
Até a publicação desta matéria, a história seguia restrita à imprensa de Goiás — sem repercussão nos grandes veículos nacionais.
Uma médica de hospital público escreve, por escrito, num grupo de trabalho, que o critério para manter alguém internado é o partido em que a pessoa provavelmente vota. Se a frase foi “brincadeira”, alguém explica à paciente que passar o fim de semana internada sem necessidade também foi.
Fontes: Jornal Opção (02-03/10/2026, publicação original); Portal 6 (03/10/2026); Mais Goiás (03/10/2026); BNews (03/10/2026); Farol da Bahia (03/10/2026); Brasil em Folhas (03/10/2026). Imagem: ilustrativa, gerada por inteligência artificial.
03 de outubro de 2026PolíticaEleições 2026
Nikolas desafiou Lula a encher a rua. No dia seguinte, Janja respondeu: "Toma aí, piá"
Nikolas Ferreira na Câmara, em 2024, e Janja Lula da Silva na posse de 2023. Fotos: Mário Agra/Câmara dos Deputados e Pablo Valadares/Câmara dos Deputados.
Na quinta, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) levou apoiadores ao centro de Belo Horizonte e desafiou o presidente Lula a botar mais gente na rua. Na sexta, no ato de Lula na mesma cidade, a primeira-dama Janja respondeu a ele pelo apelido que ela mesma tinha criado: "piá de bosta".
Quinta, 1º de outubro: o desafio
O ato de Nikolas terminou na Praça Sete, no centro da capital mineira. Do palanque, o deputado provocou: "Amanhã eu quero ver se o Lula vai botar mais gente na rua que o piá de bosta aqui", segundo a rádio Itatiaia. No mesmo discurso, avisou: "Vocês mexeram com o piá errado".
Sexta, 2 de outubro: a resposta
No dia seguinte, o ato de Lula saiu da Praça da Liberdade. Janja falou duas vezes à multidão, segundo O Tempo. Na versão registrada em vídeo pelo Metrópoles, ela disse: "Um salve para todo mundo de Minas Gerais, menos pro piá de bosta". E fechou: "Toma aí para você, piá. Aqui é Lula e aqui é Patrus".
De onde veio o "piá"
A expressão apareceu na terça, 29 de setembro, num ato em Salvador, segundo o Poder360. Janja, que é do Paraná, explicou que lá "piá" quer dizer menino, e "piá de bosta" é o menino que faz coisa errada. Ela reagia a um vídeo em que Nikolas distorceu uma fala de Lula. A coligação do presidente foi ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra as publicações.
No mesmo dia, Lula chamou o deputado de "canalha". Nikolas respondeu que o xingamento de Janja era um elogio. Dois dias depois, no ato de Belo Horizonte, ele usou a expressão sobre si mesmo.
E quem levou mais gente?
Ninguém sabe. As reportagens falam em "milhares" no ato de Nikolas e em "multidão" no de Lula. Nenhuma delas traz número da Polícia Militar ou dos organizadores, e sem esse número não dá para dizer quem venceu o desafio.
A contagem que vale é outra. No domingo, 4 de outubro, Minas Gerais e o resto do país vão às urnas.
Fontes: Metrópoles (02/10/2026, com vídeo); O Tempo (02/10/2026); Itatiaia (01/10/2026); Estado de Minas (01/10/2026); Poder360 (29/09/2026). Fotos: Mário Agra/Câmara dos Deputados e Pablo Valadares/Câmara dos Deputados.
03 de outubro de 2026CulturaInternacional
Pediram a Spike Lee uma selfie xingando a Palestina no Yankee Stadium. Ele não deixou
Spike Lee no tapete vermelho do Festival de Cannes, em 2025. Foto: Gabriel Hutchinson/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
O cineasta Spike Lee, 69, foi contido pela equipe do Yankee Stadium, em Nova York, depois que um torcedor se aproximou da mesa dele. Segundo pessoas sentadas perto, ouvidas pelo New York Post, o homem pediu uma selfie e pediu que Lee dissesse "F*** Palestine".
O que aconteceu
Foi na quarta, 30 de setembro, horas antes do Jogo 2 da série de wild card entre New York Yankees e Boston Red Sox. Lee comia no Legends Suite e posava para fotos com quem pedia.
Há duas versões sobre o pedido. A do New York Post, com base no relato de testemunhas, é a da selfie com o xingamento à Palestina. A do jornalista Andy Slater, que postou o vídeo no X, é que o torcedor filmava Lee comendo e perguntou o que ele achava da Palestina.
Lee se levantou e foi chamar a segurança. No vídeo que viralizou, ele aparece sendo segurado pela equipe do estádio e grita: "Why'd you come over to me?" ("Por que você veio até mim?"). O vídeo mostra Lee sendo contido. Não há relato de agressão.
O homem foi expulso do estádio, segundo o Post. Ele não foi identificado, e não há relato de prisão. Lee ficou para o jogo e viu os Yankees vencerem por 9 a 2 e eliminarem o Red Sox.
Não é a primeira vez
Em fevereiro, no All-Star da NBA, Lee foi de suéter e bolsa com estampa de keffiyeh, o lenço que virou símbolo da causa palestina, e bandeiras palestinas na alça. Criticado, escreveu no Instagram que as roupas eram "símbolos da minha preocupação com as crianças e os civis palestinos", e não um gesto de hostilidade ao povo judeu (tradução nossa).
Nem Lee nem os Yankees responderam aos pedidos de comentário do New York Post.
Fontes: New York Post, via Yahoo Sports (30/09/2026); The Big Lead, via Yahoo (02/10/2026); Complex; The Source (01/10/2026); Boston Globe (placar, 30/09/2026); Middle East Eye (All-Star, fevereiro de 2026). Foto: Gabriel Hutchinson/Wikimedia Commons.
03 de outubro de 2026PolíticaEleições 2026Religião
A carta de Malafaia pedindo voto tinha o endereço da associação dele
Silas Malafaia em abril de 2019. Foto: Marcos Corrêa/PR.
Cartas com santinhos de Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Marco Feliciano e outros candidatos de São Paulo e de Minas Gerais chegaram pelo correio com a foto do pastor Silas Malafaia e a frase "O pastor Silas Malafaia indica". O endereço do remetente é o da sede da associação do pastor, revelou o Intercept Brasil.
O remetente
O envelope traz como remetente a Estrada do Guerengue, 1851, na Taquara, no Rio de Janeiro. É a sede da Associação Vitória em Cristo, embora o nome da associação não apareça no envelope. Só o panfleto de São Paulo teve 300 mil exemplares, segundo o Intercept.
O que o endereço prova é o remetente, não quem pagou. O nome de Malafaia não aparece nas prestações de contas dos candidatos à Justiça Eleitoral.
O que dizem os especialistas
Para Fernando Neisser, da Fundação Getulio Vargas (FGV), se o envio partiu da associação, é ilegal: associação não pode mandar propaganda eleitoral, e a multa vai de R$ 5 mil a R$ 20 mil. Bruno Andrade, da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), lembra que entidade religiosa não pode ceder o cadastro de fiéis a candidatos.
"Querem me calar"
Num dos panfletos, Malafaia escreve: "Querem me calar com calúnias, difamações e atingir a nossa igreja".
O pastor é réu no Supremo Tribunal Federal (STF) desde abril de 2026 por injúria contra generais do Alto Comando do Exército. A ação penal foi aberta em agosto e não tem sentença. No inquérito da coação, ele segue investigado, sem denúncia: a Procuradoria-Geral da República denunciou Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo.
O dinheiro
São três entidades diferentes, e não se misturam. A Associação Vitória em Cristo é a do endereço das cartas. A igreja é a Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que devia R$ 46,4 mil à União em agosto de 2025. A editora do pastor, a Central Gospel, devia R$ 16,98 milhões, segundo a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), no mesmo levantamento.
As igrejas, em geral, já têm imunidade de impostos e ganharam em 2021 o perdão da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), estimado pelo governo em R$ 1,4 bilhão em quatro anos. Não há prova de que a igreja de Malafaia tenha usado esse benefício.
O outro lado
Tarcísio de Freitas diz que não produziu nem custeou o material. Marco Feliciano diz que não consegue identificá-lo. A associação e Malafaia não responderam ao Intercept.
Fontes: The Intercept Brasil (02/10/2026); STF (28/04/2026); A Tarde (18/08/2026); STF (agosto de 2025, inquérito da coação); Metrópoles via BNews (dívidas na PGFN, 23/08/2025); Correio Braziliense, no clipping do Senado (18/03/2021). Foto: Marcos Corrêa/PR.
02 de outubro de 2026PolíticaEleições 2026Corrupção
De todos os partidos com mais envolvidos em corrupção, por que o PT sempre levou essa fama?
Plenário do Supremo Tribunal Federal no julgamento do Mensalão, em 2007. Foto: José Cruz/Agência Brasil.
Por que o Mensalão virou sinônimo de ódio e o escândalo do Banco Master não? O Mensalão marcou o PT como o rosto da corrupção no Brasil. Mas quando se contam, nome por nome, os deputados e senadores investigados nos três grandes escândalos com lista oficial de parlamentares, o partido que mais aparece não é o PT. É o PP. E ele aparece em todos os governos.
Antes de tudo, a regra que vale para cada número desta matéria: investigação não é condenação. Muitos dos nomes contados aqui foram absolvidos, tiveram o caso arquivado ou foram considerados sem provas pela CPMI. A contagem mede quem foi apontado, não quem foi condenado.
Banco Master, Petrolão, Mensalão: o Mensalão não foi o maior
Em 2005, no primeiro governo Lula, deputados recebiam dinheiro para votar com o governo, segundo o Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento da Ação Penal 470. O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu foi preso em 2013. Segundo o STF, o esquema desviou R$ 76,7 milhões do Banco do Brasil: R$ 73,8 milhões do fundo Visanet e R$ 2,9 milhões em bônus de volume.
É muito dinheiro, mas é pouco perto dos outros. O caso do Banco Master deixou um rombo de R$ 52 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos, segundo o Poder360. No balanço de 2014, a Petrobras reconheceu R$ 6,2 bilhões em perdas com propina. O Mensalão, com R$ 76,7 milhões, é o menor dos três. O peso dele veio do símbolo, não do valor.
Somando os três escândalos, o PP lidera
Juntamos as três listas oficiais de parlamentares investigados, sempre pelo partido da época do escândalo:
Mensalão (2005): 19 deputados apontados pelas CPMIs. PT 7, PL 4, PP 4, PTB 2. Sanguessugas (2006): 57 parlamentares investigados na fraude na compra de ambulâncias, segundo a lista do Senado de 18 de julho de 2006. PP 13, PTB 13, PL 10, PMDB 5. O esquema veio à tona em 2006, no governo Lula, mas as fraudes vinham de anos anteriores. Lava Jato (2015): 34 congressistas com inquérito aberto no STF. PP 21, PMDB 6, PT 5.
São 110 ocorrências e 106 pessoas diferentes: quatro nomes aparecem em dois escândalos e foram contados uma vez só. No total, o PP tem 36 investigados. Depois vêm PTB (16), PL (13), PMDB (12) e PT (11).
Outros recortes contam histórias diferentes, e por isso não entram na soma. Na lista da delação da Odebrecht, de 2017, que não é uma lista oficial do Congresso, o PT lidera com 15 nomes, à frente de PMDB e PSDB (10 cada) e do PP (7). Nos casos novos de corrupção entre 2024 e 2026, quem lidera é o PL, com 5 de 11.
Mudam os presidentes, o partido continua lá
O que chama a atenção no PP não é só o tamanho, é a constância. No governo Lula, teve 4 deputados no Mensalão e 13 parlamentares nos Sanguessugas. No governo Dilma, tinha 21 dos 34 alvos da Lava Jato no STF. No governo Bolsonaro, foi o partido que mais indicou emendas do orçamento secreto, segundo os documentos que o Senado entregou ao STF em maio de 2022.
Esses documentos são uma base parcial: cerca de R$ 11 bilhões, de 2020 e 2021, perto de um terço do total. Nela, o PP aparece com R$ 2 bilhões indicados, seguido de PL, PSD e União Brasil (R$ 1,6 bilhão cada) e Republicanos (R$ 1,4 bilhão), segundo levantamento da Agência O Globo e do Congresso em Foco.
O orçamento secreto
As emendas de relator, conhecidas como orçamento secreto, somaram cerca de R$ 53 bilhões entre 2020 e 2022 (R$ 20,1 bilhões, R$ 16,9 bilhões e R$ 16,5 bilhões), sem que o nome de quem indicava o dinheiro aparecesse. Em dezembro de 2022, o STF declarou o mecanismo inconstitucional, por 6 votos a 5, por falta de transparência, e mandou divulgar os gastos.
Os casos que vieram à tona mostram para onde parte do dinheiro foi. Em 2021, o jornal O Estado de S. Paulo revelou a compra de trator por R$ 359 mil, 259% acima do preço de referência, no que ficou conhecido como tratoraço. A Controladoria-Geral da União (CGU) apontou sobrepreço, e o governo suspendeu e renegociou contratos. Em Pedreiras, no Maranhão, uma cidade de 39 mil habitantes registrou mais de 540 mil extrações dentárias em 2021, cerca de 14 por morador, para elevar os repasses do SUS, segundo a Polícia Federal e a CGU. A maior parte do dinheiro veio de emendas do orçamento secreto.
Mudou o governo, não o método. O Mensalão pagava para garantir voto. O orçamento secreto, segundo os críticos, distribuía emenda em troca de apoio.
Então por que o PT virou símbolo de corrupção e, mesmo com a direita fazendo muito pior, não está acontecendo o mesmo?
Porque o Mensalão teve rosto. Foi o primeiro escândalo a levar a cúpula de um governo à prisão, num julgamento transmitido ao vivo na TV. O orçamento secreto não tinha nem o nome de quem indicava o dinheiro. E quem negocia apoio com todo governo nunca vira o rosto do escândalo. Escândalo sem rosto não vira símbolo.
E o governo eleito com o discurso contra a corrupção foi justamente o do orçamento secreto. Em 2021, Jair Bolsonaro se filiou ao PL de Valdemar Costa Neto, condenado no Mensalão. Em março de 2026, a Primeira Turma do STF condenou por corrupção passiva três deputados do PL, Josimar Maranhãozinho e Pastor Gil, do Maranhão, e Bosco Costa, de Sergipe, por cobrar propina sobre emendas destinadas a São José de Ribamar (MA). A perda do mandato cabe à Câmara depois que o processo terminar.
O PT, por muito menos, foi execrado. O PP passa batido. E a direita continua com o mesmo discurso. Por que o Brasil não acorda? No domingo, 4 de outubro, você escolhe também quem ocupa as cadeiras do Congresso.
Método
A base reúne as listas oficiais de cada escândalo, com o partido de cada parlamentar na época. Partidos mudaram de nome: o PL de 2005 virou PR e depois PL de novo, o PMDB virou MDB, o PFL virou DEM e depois União Brasil. O desfecho de cada caso (condenação, absolvição, arquivamento) está registrado pessoa por pessoa, e os nomes não foram somados de um escândalo para outro.
Fontes: Câmara dos Deputados (os 19 deputados do Mensalão; lista da Lava Jato de 2015); Senado Federal (os 57 investigados dos Sanguessugas, 18/07/2006); STF, Ação Penal 470, via Conjur; Petrobras, balanço de 2014; Poder360 (Banco Master); Correio Braziliense (valores do orçamento secreto por ano, 11/05/2022); Conjur e Migalhas (julgamento do STF, 19/12/2022); Agência O Globo via CartaCapital e Congresso em Foco (indicações por partido, maio de 2022); O Estado de S. Paulo via O Povo (tratoraço, 10/05/2021); Estado de Minas (CGU, 14/09/2021); Agência Brasil via Folha de Pernambuco (Pedreiras, 02/03/2023); Diário de Pernambuco e IstoÉ Dinheiro (condenação no STF, março de 2026); Poder360 (lista da Odebrecht); Congresso em Foco (casos recentes). Foto: José Cruz/Agência Brasil.
02 de outubro de 2026CulturaReligiãoCandomblé
A prefeitura cobrou IPTU de um terreiro porque o terreno não tinha prédio, e a Justiça suspendeu a cobrança
Imagem ilustrativa: terreiro de candomblé no Recôncavo Baiano, não o Nzo Gongobila. Foto: Paul R. Burley/Wikimedia Commons.
A prefeitura de Embu-Guaçu, na Grande São Paulo, cobrou IPTU do terreiro de candomblé Nzo Gongobila com um argumento: no terreno ainda não havia construção. Em 30 de setembro, a Justiça suspendeu a cobrança.
O caso
A organização religiosa Nzo Gongobila usa o imóvel por contrato de comodato, para erguer ali o seu espaço de culto. A prefeitura negou ao terreiro a imunidade tributária garantida aos templos, sob o argumento de que o terreno ainda não tinha prédio.
A Constituição proíbe cobrar imposto de templos de qualquer culto. Mesmo assim, o terreiro precisou ir à Justiça para ter esse direito reconhecido.
O que a Justiça decidiu
A decisão é da Vara Única da comarca de Embu-Guaçu. Para o juízo, a falta temporária de construção não afasta a proteção tributária. O registro regular da organização religiosa, o contrato de comodato e o alvará municipal mostram que o terreno é destinado às atividades religiosas.
Enquanto o caso corre, a prefeitura não pode fazer novos lançamentos de IPTU, protestar a dívida, inscrevê-la na dívida ativa, abrir execução fiscal nem bloquear bens do terreiro.
A ação foi movida pelo Núcleo Especializado de Promoção da Igualdade Racial e de Defesa dos Povos e Comunidades Tradicionais (Nupir). O processo vai seguir o Protocolo para Julgamento com Perspectiva Racial.
Ainda não acabou
A decisão é provisória. A imunidade tributária do terreiro ainda vai ser analisada de forma definitiva, depois que o município se manifestar no processo.
A notícia não informa o nome da liderança do terreiro, o valor cobrado nem o número do processo.
Fonte: Karina Pereira, Mundo Negro (30 de setembro de 2026). Foto ilustrativa: Paul R. Burley/Wikimedia Commons.
02 de outubro de 2026PolíticaEleições 2026Senado
Domingo você escolhe dois senadores, que ficam no cargo até 2035: por que o voto de revolta não elege ninguém
Plenário do Senado Federal. Foto: Boaventuravinicius/Wikimedia Commons.
No domingo, 4 de outubro, cada eleitor vota em dois senadores. São 54 das 81 cadeiras do Senado em jogo, e quem for eleito agora fica no cargo até 2035, atravessando dois mandatos presidenciais.
Por que o Senado importa
Toda lei passa pelo Senado. É ele que aprova a indicação de ministro do Supremo Tribunal Federal e de procurador-geral da República, e é ele que julga o presidente da República em processo de impeachment.
Como funciona o voto
Cada estado e o Distrito Federal têm três senadores. Neste ano, dois de cada um serão eleitos, com mandato de oito anos: tomam posse em 2027 e ficam até 2035.
A eleição é pela maioria simples. Não tem segundo turno: os dois candidatos mais votados no estado levam as vagas. Os dois votos precisam ir para candidatos diferentes. Quem vota duas vezes no mesmo nome tem um voto válido e o outro anulado. Não existe voto só na legenda para o Senado, e cada candidato concorre com dois suplentes, que aparecem na urna.
Branco e nulo não anulam a eleição
Voto branco e voto nulo não entram na conta dos votos válidos. Eles não vão para o candidato que está na frente, e também não cancelam a eleição, por mais numerosos que sejam. O boato de que mais de 50% de nulos anula a votação confunde o voto nulo do eleitor com o voto anulado pela Justiça Eleitoral, por fraude ou cassação, que é o único caso em que o Código Eleitoral prevê nova eleição.
Onde o voto de revolta pesa
Em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e na Bahia, as pesquisas mostram pelo menos uma vaga em aberto:
São Paulo: Marina Silva (Rede), Simone Tebet (PSB), André do Prado (PL) e Guilherme Derrite (PP) aparecem embolados no Datafolha de 28 a 30 de setembro. Rio de Janeiro: Benedita da Silva (PT), Carlos Jordy (PL) e Carlos Portinho (PL) aparecem empatados nas pesquisas mais recentes, da Quaest e da Real Time Big Data. Minas Gerais: Domingos Sávio (PL), Marília Campos (PT), Carlos Viana (PSD) e Aécio Neves (PSDB) estão dentro da margem de erro na Quaest de 25 a 28 de setembro. Bahia: Rui Costa (PT) aparece à frente na AtlasIntel e na Real Time Big Data, e Jaques Wagner (PT), João Roma (PL) e Angelo Coronel (Republicanos) disputam a outra vaga.
As pesquisas variam entre institutos, e por isso esta matéria mostra só a posição relativa dos candidatos, sem porcentagens. Os nomes entram como dado de pesquisa, não como indicação de voto.
É nesses estados que o voto de revolta pesa. Branco, nulo ou dado a um candidato sem chance, ele não elege ninguém e deixa a vaga para quem os outros eleitores escolheram. O voto em candidato sem chance é válido e conta para ele, só não elege.
Voto útil, aqui, é outra coisa
Voto útil não é votar em quem está na frente. É, entre os candidatos com quem você concorda, dar os dois votos a quem tem chance real de ocupar a cadeira.
Anote os dois números antes de sair de casa: a cola em papel é permitida na cabine de votação.
Fontes: Agência Senado, Senado Verifica (28/09/2026); Tribunal Superior Eleitoral (votos brancos e nulos, Código Eleitoral, art. 224); Datafolha SP, 28 a 30/09 (SP-01367/2026); Quaest RJ, 25 a 28/09 (RJ-04419/2026); Real Time Big Data RJ, 25 a 29/09 (RJ-08712/2026); Quaest MG, 25 a 28/09 (MG-02019/2026); AtlasIntel BA, 24 a 28/09 (BA-02425/2026); Real Time Big Data BA, 23 a 26/09 (BA-01777/2026). Foto: Boaventuravinicius/Wikimedia Commons.
02 de outubro de 2026PolíticaEleições 2026Debate
Gilmar Mendes garante vaga de Renan Santos no debate da Globo, Flávio Bolsonaro desiste na hora, e a emissora cancela tudo
Flávio Bolsonaro em registro de agosto de 2016, durante outro debate (eleição municipal do Rio, pela Band). Nenhuma foto é do episódio de outubro de 2026. Foto: reprodução.
O debate presidencial da Globo, marcado para a noite de quinta-feira (1º), a três dias do primeiro turno, foi cancelado horas antes de ir ao ar. O estopim: o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), derrubou uma decisão do TSE e garantiu a participação de Renan Santos (Missão) no debate. Em seguida, a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) anunciou que ele não iria mais, classificando a decisão judicial como "censura". Lula (PT) também já tinha avisado que faltaria. Com os dois favoritos fora, a Globo cancelou o debate inteiro, mesmo com quatro candidatos confirmados e prontos para ir ao ar.
Como Renan Santos entrou no debate
O presidente do TSE, Kássio Nunes Marques, havia barrado a participação de Renan Santos, candidato do Missão, sob o argumento de que o partido não atinge o mínimo de cinco parlamentares na Câmara exigido para presença automática em debates. Uma ação no STF contra essa decisão foi rejeitada sem análise de mérito pela ministra Cármen Lúcia. Horas depois, Gilmar Mendes reverteu o entendimento e determinou que a Globo incluísse Renan Santos imediatamente. Separadamente, a ministra Estela Aranha havia proibido a emissora de exibir uma cadeira vazia no lugar de Lula e de permitir perguntas direcionadas ao presidente em sua ausência.
A desistência de Flávio
Depois da decisão de Gilmar Mendes, a campanha de Flávio Bolsonaro anunciou que ele não participaria mais. Segundo aliados do candidato, ele "não se submeteria a um encontro com regras alteradas por decisões do Poder Judiciário", e classificaram a interferência como censura. Dias antes, Flávio vinha criticando publicamente Lula por cogitar faltar ao debate, e ele próprio tinha confirmado presença.
Lula também não foi
Lula avisou a Globo previamente que não compareceria: tinha um compromisso já agendado no Flow Podcast na mesma noite. Diferentemente de Flávio, a ausência de Lula não foi anunciada como protesto a uma decisão judicial. Mas a proibição de exibir sua cadeira vazia, decidida por Estela Aranha, mostra que a ausência dele também gerou disputa nos bastidores sobre as regras do debate.
A Globo cancelou com quatro candidatos prontos
Com Lula e Flávio fora, restavam confirmados Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante), Romeu Zema (Novo) e o próprio Renan Santos, justamente o candidato cuja inclusão, decidida horas antes, precedeu a desistência de Flávio. Em vez de seguir com os quatro, a Globo cancelou o debate inteiro. Em nota, a emissora atribuiu a decisão à "insegurança jurídica" criada por decisões de última hora, que teriam alterado regras já combinadas poucas horas antes de o programa ir ao ar, e classificou o episódio como interferência indevida na organização de um debate jornalístico.
A decisão de cancelar tudo, em vez de manter o debate com quem estava pronto para participar, tirou da tevê aberta justamente a estreia de Renan Santos num debate presidencial: o mesmo candidato que a Justiça Eleitoral tinha acabado de barrar e o STF acabado de autorizar.
Uma emissora aborta uma transmissão ao vivo horas antes de ir ao ar, bem no momento em que só restava desagradar o candidato que já tinha ameaçado sair por causa de uma decisão judicial. A Globo diz que foi "insegurança jurídica". Coincidência? Cada um tira sua conclusão.
Fontes: Money Times (1º de outubro de 2026); Maurílio Júnior, "Gilmar autoriza Renan em debate da Globo e Flávio Bolsonaro desiste de participar" e "TV Globo cancela debate presidencial após decisões de Gilmar Mendes e TSE" (1º de outubro de 2026); O Hoje, "Globo cancela debate presidencial após desistência de Flávio Bolsonaro" (1º de outubro de 2026); Terra (1º de outubro de 2026); Poa24Horas e NC News (1º de outubro de 2026). Foto: reprodução.
01 de outubro de 2026PolíticaEleições 2026Trabalho escravo
Flávio Bolsonaro fica fora da carta contra o trabalho escravo, e Michelle recebe R$ 100 mil de empregador que passou pela Lista Suja
Flávio Bolsonaro (PL), candidato a presidente, fala à imprensa no Senado. Foto: Agência Senado.
Lula (PT), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante) assinaram a Carta-Compromisso contra o Trabalho Escravo, proposta aos candidatos a presidente pela Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae). Flávio Bolsonaro (PL) foi convidado e não assinou até o prazo, que terminou na segunda (28). No mesmo dia em que a adesão foi divulgada, a Repórter Brasil mostrou que Michelle Bolsonaro, candidata do PL ao Senado pelo Distrito Federal, recebeu R$ 100 mil de um empresário que passou pela Lista Suja do trabalho escravo.
A carta
A Conatrae reúne, desde 2003, organizações da sociedade civil e do Estado, e colhe adesões de candidatos a cada eleição desde 2006. Entre os compromissos da carta, segundo a Repórter Brasil, estão tratar o combate ao trabalho escravo e ao tráfico de pessoas como prioridade do mandato, "não promover empresas que tenham utilizado mão de obra escrava ou infantil", dar atendimento jurídico e social a trabalhadores migrantes, apoiar uma política de atendimento aos resgatados e exonerar quem, em cargo público de confiança, se beneficiar desse tipo de mão de obra.
Flávio Bolsonaro, Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) estão no grupo de candidatos que, segundo a Repórter Brasil, "declinaram ou não responderam até a data-limite". A reportagem não separa quem recusou de quem não respondeu, e nenhuma das matérias sobre a carta traz resposta da campanha de Flávio.
A doação a Michelle
A prestação de contas de Michelle Bolsonaro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registra uma doação de R$ 100 mil de Simão Sarkis Simão, feita em 3 de setembro. É a primeira disputa eleitoral da ex-primeira-dama. Até a entrega parcial de 13 de setembro, a campanha tinha recebido R$ 3,548 milhões, quase tudo da direção nacional do PL.
Sarkis é dono da Fazenda Santo Aurélio, em Paracatu, no noroeste de Minas Gerais. Segundo a Repórter Brasil, uma fiscalização na fazenda de gado resgatou dez trabalhadores, que dormiam sobre pedaços de espuma, tomavam banho numa barragem usada também pelo gado e bebiam água de uma cisterna sem proteção. Na Justiça do Trabalho, o Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais manteve uma indenização de R$ 390 mil por dano moral coletivo e elevou de R$ 30 mil para R$ 40 mil a indenização devida a cada trabalhador.
A passagem de Sarkis pela Lista Suja, o cadastro do Ministério do Trabalho e Emprego com os empregadores responsabilizados por submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão, remonta a junho de 2013, segundo a reportagem. O nome dele não aparece no cadastro atual, atualizado em 28 de setembro.
A doação é legal
Ter passado pela lista não torna a doação ilegal, e a própria Repórter Brasil registra isso. Procurados pela reportagem, Michelle, o PL e Sarkis não responderam.
O caso dela não é isolado. Cruzando as prestações de contas entregues até 16 de setembro com mais de duas décadas da Lista Suja, a Repórter Brasil encontrou 13 empregadores que passaram pelo cadastro e doaram ao menos R$ 837,4 mil a 15 candidatos de nove partidos.
Fontes: Repórter Brasil, "Lula, Caiado e Augusto Cury assinam compromisso contra o trabalho escravo" e "Michelle Bolsonaro e mais 14 receberam doação de pessoas da Lista Suja" (30 de setembro de 2026); TSE, DivulgaCandContas; Ministério do Trabalho e Emprego, Cadastro de Empregadores (atualizado em 28 de setembro de 2026); TRT da 3ª Região. Foto: Agência Senado.
01 de outubro de 2026PolíticaEleições 2026Trabalho
Quem defende o trabalhador? O que Lula, Flávio, Caiado e Cury fizeram ou disseram sobre 6x1, Imposto de Renda, salário mínimo, aposentadoria e CLT
Lula, Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado. Fotos: Ricardo Stuckert/PR; Agência Senado; Bianca Kida.
Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Augusto Cury (Avante) e Ronaldo Caiado (PSD) são os quatro primeiros colocados na pesquisa Quaest divulgada na segunda (28), e os mesmos quatro nomes aparecem à frente no Datafolha e na Futura/100% Cidades. A poucos dias do primeiro turno, o Poder Afrikano reuniu o que cada um votou, assinou ou disse sobre cinco pautas de quem vive de salário: a escala 6x1, a isenção do Imposto de Renda, o salário mínimo, a aposentadoria e a CLT.
1. O fim da escala 6x1
A proposta de emenda à Constituição reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, com duas folgas por semana e sem corte de salário. Passou na Câmara e foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado em 2 de setembro; a votação no plenário do Senado ficou para depois do primeiro turno. Segundo o Senado, a mudança alcança mais de 37 milhões de trabalhadores.
Flávio critica a PEC: diz que ela "vai gerar desemprego em massa" e defende o pagamento por hora trabalhada. Lula é a favor do fim da 6x1. Caiado chegou a chamar a proposta de "eleitoreira" e, três dias depois, disse "Sim, sou a favor". Cury se diz a favor da escala 5x2.
2. Imposto de Renda zero até R$ 5 mil
Desde janeiro, quem ganha até R$ 5 mil por mês não paga Imposto de Renda. Para compensar, a lei criou uma cobrança mínima sobre quem ganha mais de R$ 50 mil por mês. O relator fala em perto de 25 milhões de beneficiados.
Lula sancionou a lei e promete ampliar a isenção. No Senado, onde o projeto passou por unanimidade e sem registro nominal de votos, Flávio apoiou a isenção, mas pediu mudanças no texto e chamou de "confisco" a cobrança sobre profissionais liberais. Em junho, defendeu manter a isenção. De Caiado e de Cury, não encontramos posição pública sobre o tema.
3. Salário mínimo
O salário mínimo é de R$ 1.621. Uma lei aprovada no fim de 2024 limitou o ganho acima da inflação a 2,5% ao ano e mudou regras do Benefício de Prestação Continuada (BPC). Segundo o Dieese, 61,9 milhões de pessoas têm renda ligada ao mínimo.
Flávio votou Não ao projeto que criou esse teto. Lula sancionou o limite, e o programa dele promete valorização do mínimo. Caiado disse que não pretende mexer no salário mínimo. Cury promete reajuste pela inflação mais 1% ao ano.
4. Aposentadoria e BPC
Hoje nenhuma aposentadoria do INSS e nenhum BPC pode ser menor que o salário mínimo. O mercado financeiro pressiona para que os benefícios sejam desligados do mínimo.
Segundo a Reuters, a campanha de Flávio promete um drástico ajuste nas contas públicas, sem dizer o que vai cortar. Pressionada sobre a desvinculação, a campanha disse em 25 de setembro que vai manter as aposentadorias ligadas ao mínimo. Sobre o BPC, não disse nada. Lula afirmou em 2024 que o mínimo "não será mexido" e, segundo o InfoMoney, descartou desligar dele pensões e BPC. Caiado não detalhou planos para a idade mínima. Cury descarta uma nova reforma da Previdência.
5. A CLT
O programa de Flávio registrado no TSE defende o "negociado sobre o legislado", em que o acordo entre empresa e trabalhador pode valer mais que a CLT. O de Lula prevê combate à pejotização fraudulenta. O de Caiado fala em "modernização" do mercado de trabalho, sem detalhar. De Cury, não encontramos posição pública.
Quem fica com o que o trabalhador produz
Jornada, salário, imposto e aposentadoria decidem quanto do que o trabalhador produz fica com ele. Em Consciência Afrikano-Centrada versus Nova Ordem Mundial, Amos Wilson retoma de Marcus Garvey uma ideia: um povo só tem poder econômico quando é dono do que produz, e não quando apenas trabalha e consome.
Fontes: Quaest via Metrópoles (28 de setembro de 2026); Datafolha; Futura/100% Cidades; Agência Senado; Agência Câmara; Senado Federal, votação nominal do PL 4.614/2024; Reuters via UOL (25 de setembro de 2026); InfoMoney; CNN Brasil; Metrópoles; Poder360; Estadão via Terra; Dieese, Nota Técnica 289; programas de governo registrados no TSE. Fotos: Ricardo Stuckert/PR; Agência Senado; Bianca Kida.
30 de setembro de 2026PolíticaEleições 2026Violência policial
Flávio Bolsonaro assinou recurso para tirar do júri o PM acusado de matar Ana Clara, de 5 anos, em Niterói
Camila Pitanga no episódio "O julgamento que nunca aconteceu", da série Revelando. Imagem: Reprodução/Revelando.
O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato a presidente, atuou como advogado do cabo da Polícia Militar Bruno Delaroli, acusado de matar Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, em Niterói (RJ), em 2021. Segundo o ICL Notícias, em 2024 ele assinou um recurso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para que o caso não fosse a júri popular. O STJ negou. Mais de cinco anos depois da morte da menina, o júri não aconteceu. O caso voltou a circular nesta quarta (30) com um vídeo da atriz Camila Pitanga na série Revelando.
O caso
Em 2 de fevereiro de 2021, Ana Clara brincava na porta de casa, no bairro de Pendotiba, em Niterói, quando foi atingida por tiros de fuzil. Delaroli foi preso em flagrante e denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) por homicídio com dolo eventual: segundo a acusação, ele atirou "assumindo o risco de matar". A prisão preventiva foi revogada em novembro de 2021 e trocada por medidas cautelares.
O que a investigação reuniu
De acordo com o ICL Notícias, a perícia recolheu na cena estojos de munição iguais aos usados pelo cabo. Testemunhas negaram que tenha havido troca de tiros e afirmaram que não havia tráfico de drogas no local; moradores gritavam "é morador, é morador" para que os disparos parassem. A viatura não apresentava sinal de confronto. No vídeo da Revelando, o delegado da Polícia Civil que foi ao local diz não ter dúvida de quem atirou.
O recurso
O processo estava perto do júri quando Flávio Bolsonaro passou a integrar a defesa do policial. O recurso que ele assinou pedia ao STJ que revertesse a decisão do Tribunal de Justiça do Rio de mandar o caso a júri popular. A Corte negou. Com isso, Delaroli aguarda julgamento pelo tribunal do júri, ainda sem data. A reportagem não informa o número do recurso nem a data da decisão do STJ.
O vídeo
O episódio "O julgamento que nunca aconteceu", terceiro da série Revelando, foi publicado nesta quarta. Nele, Camila Pitanga narra o caso e faz a pergunta que abre o vídeo e volta no meio dele: "Por que será que um senador decidiria perder o seu tempo defendendo um cabo acusado de assassinato?". A mãe de Ana Clara, Cristiane Gomes da Silva, aparece no episódio: "Eu só quero que a justiça seja feita".
O que não se sabe
Todo acusado tem direito a defesa, e nenhuma das reportagens aponta ilegalidade na atuação de Flávio como advogado. Também não está claro se ele ainda integra a defesa do cabo. Procurado pelo ICL Notícias, o senador não respondeu.
Fontes: ICL Notícias (31 de março de 2026, atualizada); Estado de Minas (30 de setembro de 2026); série Revelando, episódio "O julgamento que nunca aconteceu" (30 de setembro de 2026). Imagem: Reprodução/Revelando.
30 de setembro de 2026PolíticaBanco MasterTV Globo
Mensagens da PF mostram dois anos de amizade, favores e negócios entre Luciano Huck e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master
Luciano Huck em abril de 2019. Foto: Romério Cunha/Wikimedia Commons.
Mensagens encontradas pela Polícia Federal (PF) no celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, mostram uma relação de amizade, troca de favores e negócios com o apresentador Luciano Huck, da TV Globo, entre novembro de 2023 e a noite da prisão do banqueiro, em novembro de 2025. A reportagem é de Robson Bonin, na VEJA, publicada nesta quarta (30). A revista registra que não há ilegalidades nas mensagens.
O jato
A primeira mensagem citada é de 5 de novembro de 2023, depois de um encontro pessoal. Em fevereiro de 2024, Huck agradece um favor e faz uma proposta: "Nosso avião já volta na segunda. Sigo esperando poder retribuir as gentilezas. Estou buscando um sócio para o G550. Se te interessar, bora falar". O G550 é um jato executivo da Gulfstream. "Vamos conversar", respondeu Vorcaro. Segundo a VEJA, os dois passam depois a falar de uma sociedade na aeronave.
O patrocínio ao Domingão
O negócio maior foi o patrocínio do Will Bank, de Vorcaro, ao Domingão com Huck. As conversas começam em abril de 2024. "Vai dar samba. Vamos fazer muito barulho", escreveu o apresentador. Em outra mensagem, ele aconselha o banqueiro a ser transparente com a Globo, inclusive com a área de compliance, para o negócio sair.
O acordo foi fechado em 29 de outubro de 2024, depois de um jantar, e o contrato foi assinado em dezembro. Segundo o próprio Huck detalha nas mensagens, a parceria rendeu R$ 83 milhões em mídia para a emissora e R$ 26 milhões a ele, num "contrato pessoal".
Os favores
Vorcaro emprestou um avião para Huck ir a Canoas, durante a enchente que devastou o Rio Grande do Sul em 2024, e outro para levá-lo a Varsóvia, na Polônia, quando o apresentador foi entrevistar o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. Pelo empréstimo, Huck propôs uma troca de horas de voo no G550.
Do outro lado, Huck usou seus contatos para conseguir atendimento VIP, passeios e reservas em restaurantes de Orlando para a família do banqueiro na Disney, e agiu para apresentá-lo a nomes da emissora. Também o aconselhou a assumir o controle da própria imagem nas redes e na imprensa. Em dezembro de 2024, escreveu: "Hoje testei mais uma vez seu nome em alto escalão".
Huck ainda convidou Vorcaro para uma pizza em casa com o ex-jogador Ronaldo Nazário, para tratar da candidatura do atacante à presidência da CBF, que não foi adiante. Segundo a VEJA, o banqueiro ignorou a mensagem.
"Estou com você em qualquer frente"
Ao longo de 2025, com o Master sob pressão, Huck procurou o banqueiro mais de uma vez para saber como ele estava. Numa das mensagens: "E, só pra reforçar, estou com você em qualquer frente".
A VEJA afirma que, nesse mesmo período, Vorcaro tramava espionar a jornalista Malu Gaspar e um possível ato de violência contra Lauro Jardim, os dois do Grupo Globo. Segundo a revista, a insatisfação dele com os jornalistas não é explorada a fundo nas conversas com o apresentador.
A última mensagem
Em 17 de novembro de 2025, Vorcaro anunciou uma suposta venda do banco a investidores dos Emirados Árabes Unidos. Às 21h47, Huck escreveu: "Vi a boa notícia da compra do Master agora no JN. Muito bom. Congrats. Você merece sair inteiro desta turbulência toda". Por volta das 22h, Vorcaro foi preso pela PF no Aeroporto de Guarulhos, quando tentava deixar o país. A VEJA descreve o caso do Master como a maior fraude financeira da história do país.
O que a reportagem não diz
As mensagens não mostram crime de Huck, e a VEJA escreve isso com todas as letras: "Não há ilegalidades nas mensagens". O apresentador não é apontado como investigado, e a reportagem não diz que ele sabia das fraudes. A revista procurou Huck e informou que registraria a posição dele. Até a atualização das 11h55 desta quarta, não havia resposta.
Fonte: VEJA, reportagem de Robson Bonin (30 de setembro de 2026, atualizada às 11h55). Foto: Romério Cunha/Wikimedia Commons.
30 de setembro de 2026PolíticaTerra YanomamiTrama golpista
Foragido, Ramagem viveu três meses em Miami no apartamento de um condenado por garimpo na Terra Yanomami
Alexandre Ramagem na Câmara dos Deputados, antes da condenação. Foto: Câmara dos Deputados/Wikimedia Commons.
Mensagens de WhatsApp, fotos e notas recuperadas do celular de Priscila Freitas de Melo mostram como a família do empresário Rodrigo Martins de Mello, o Rodrigo Cataratas, recebeu Alexandre Ramagem na Flórida logo depois da fuga do Brasil. Cataratas, então marido de Priscila, foi condenado em fevereiro a 16 anos e 7 meses de prisão por liderar o garimpo ilegal de ouro e cassiterita na Terra Indígena Yanomami. A reportagem é da Agência Pública, publicada nesta terça (29), com apoio do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ).
A fuga
Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) no governo Bolsonaro, saiu do Brasil por Bonfim, em Roraima, rumo a Lethem, na Guiana, em 9 de setembro de 2025. Estava proibido de deixar o país desde junho daquele ano, por medida cautelar do ministro Alexandre de Moraes, que também mandou recolher os passaportes dele. Da Guiana, seguiu de avião para os Estados Unidos, onde teria chegado no dia 11, segundo a Polícia Federal (PF).
Nesse mesmo 11 de setembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) o condenou a 16 anos de prisão pela tentativa de golpe de Estado. Ramagem perdeu o mandato de deputado federal (PL-RR) e o cargo na PF. A prisão preventiva foi decretada em 21 de novembro, e ele segue foragido.
"Como se tivesse alugado o quarto"
Em 15 de setembro de 2025, Celso Rodrigo de Mello, filho de Cataratas, escreveu a Priscila pedindo uma conta do apartamento no nome do pai: "Vamos tentar tirar a driver license do Alexandre amanhã no DMV". Em seguida: "Fiz o contrato aqui também para ele levar como se tivesse alugado o quarto". DMV é o departamento de trânsito da Flórida, e driver license é a carteira de motorista.
Para a PF, Cataratas, Priscila e Celso tiveram "papel de protagonismo na manutenção clandestina de Alexandre Ramagem em Miami", viabilizando a moradia e ajudando o foragido "a ludibriar as autoridades americanas com documentos falsos" para conseguir a carteira.
Três meses no Sole Mia
Ramagem ficou três meses no Sole Mia, condomínio de luxo no norte de Miami onde a família de Cataratas tem um apartamento de 96 metros quadrados, com dois quartos e varanda para um lago artificial. Segundo a Pública, o aluguel de um apartamento assim começa em cerca de R$ 20 mil por mês. A reportagem não diz quanto, ou se, Ramagem pagou.
Em 17 de setembro, Priscila pediu à administração do condomínio um novo cartão de acesso ao estacionamento e autorizou "um amigo nosso, Alexandre Rodrigues Ramagem" a retirá-lo. Em 17 de novembro, a mulher de Ramagem, Rebeca, e as filhas chegaram a Miami e também ficaram no apartamento. Rebeca Ramagem é hoje candidata a deputada federal pelo PL no Rio de Janeiro.
A carta de novembro
Em 19 de novembro, Ramagem e Rebeca foram fotografados caminhando no condomínio. Dois dias depois, uma nota no celular de Priscila registra uma carta, assinada por Rodrigo Martins de Mello, pedindo ao condomínio que notificasse Ramagem a deixar o imóvel: "eu descobri através da imprensa que este indivíduo não tem permissão de deixar o Brasil". Para a PF, o texto foi escrito como precaução, depois que a imprensa ligou o apartamento à fuga. A família de Ramagem saiu do Sole Mia no fim de novembro.
A foto na Guiana
Depois da prisão de Celso, em Manaus, em 15 de dezembro de 2025, Ramagem disse num vídeo que o rapaz "só me conheceu quando eu já estava nos EUA". Uma foto que, segundo os investigadores, estava no celular de Priscila mostra Ramagem sorridente num prédio público da Guiana em 10 de setembro de 2025, na véspera do voo. Segundo a PF, quem tirou a foto foi Rodrigo Cataratas.
Cataratas e Ramagem já tinham aparecido juntos em público: em 31 de março de 2025, o empresário postou uma foto do encontro em Boa Vista. Em novembro, Cataratas negou ter ajudado na fuga e escreveu que, quando Ramagem esteve com ele, "não tinha qualquer condenação ou impedimento legal que o proibisse de sair do Brasil". A proibição de deixar o país valia desde junho de 2025.
Quem é Rodrigo Cataratas
Cataratas foi condenado por liderar uma organização criminosa de mineração ilegal dentro da Terra Indígena Yanomami, com uma frota de helicópteros adulterados que levava gente, combustível e minério. Celso foi condenado a 8 anos por atuar na gestão financeira e na logística do grupo. Os dois recorrem em liberdade. Celso usa tornozeleira eletrônica. Cataratas, Celso e Priscila também são investigados no STF pela ajuda à fuga, e o tribunal diz que o caso está sob sigilo.
"O garimpo geralmente é uma organização criminosa que, em regra, trabalha com os familiares", disse à Pública o procurador Alisson Marugal, do Ministério Público Federal em Roraima. O MPF investiga um possível genocídio do povo Yanomami ligado à invasão do território pelo garimpo entre 2021 e 2022.
O que há de novo
A ligação entre o apartamento e a fuga já tinha aparecido na imprensa no fim de 2025. O que a Pública traz agora são as mensagens do celular de Priscila, a foto na Guiana e a nota com a carta de novembro. A reportagem não encontrou Ramagem, Cataratas nem Celso para comentar.
Fonte: Agência Pública, com apoio do ICIJ (29 de setembro de 2026). Foto: Câmara dos Deputados/Wikimedia Commons.
30 de setembro de 2026JustiçaInteligência artificialSanta Catarina
Despacho de juiz de Blumenau sai com o prompt da IA colado: "estilo similar ao do Juiz Clayton Cesar Wandscheer"
Trecho da primeira página do despacho, com o destaque nosso. Reprodução/TJ-SC.
Um despacho da 2ª Vara Cível de Blumenau (SC), assinado eletronicamente pelo juiz Clayton Cesar Wandscheer em 26 de setembro, foi publicado com as instruções dadas a uma ferramenta de inteligência artificial (IA) no começo do texto. Entre elas: "O estilo de escrita deverá ser similar ao do Juiz Clayton Cesar Wandscheer". O caso foi revelado pelo Migalhas nesta terça (29).
O que estava no documento
Antes da decisão, o despacho traz um roteiro inteiro para a máquina: analisar só as peças anexadas, não acrescentar informação externa, usar "linguagem jurídica técnica, precisa e especializada", evitar listas e parágrafos curtos, citar a jurisprudência do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJ-SC) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ). No fim das instruções, o comando pede de novo consistência "com o estilo do Juiz Clayton Cesar Wandscheer".
Logo depois aparece a expressão "Copilot said", marca do assistente de IA da Microsoft, e começa o texto que decidiu o caso.
A ordem para não inventar
Uma das instruções diz: "Cite apenas jurisprudências verdadeiras (sem inventá-las, caso não localize)". E segue: "É estritamente proibido inventar ou manipular entendimentos jurisprudenciais". Quem escreve isso conhece o risco de a ferramenta criar decisões judiciais que nunca existiram.
O caso
O processo é uma cobrança de dívida de condomínio e não corre em segredo de justiça. Na execução, foram bloqueados R$ 693,03 da conta da devedora, que informou receber pouco mais de R$ 2 mil por mês. Parte do dinheiro vinha de uma faxina e de um empréstimo de R$ 400 feito pela filha dela. O despacho considerou os valores protegidos pelas regras de impenhorabilidade do Código de Processo Civil, por serem verba de sustento, e mandou devolver o valor integral. A cobrança continua, e o condomínio pode buscar outros bens.
Usar IA não é proibido
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) regulamenta o uso de IA no Judiciário pela Resolução 615, de 2025. A norma admite a ferramenta como apoio e diz que o magistrado "permanecerá integralmente responsável pelas decisões tomadas e pelas informações nelas contidas". O documento não informa quem operou a ferramenta no gabinete.
Segundo o Migalhas, às 11h20 de terça (29) o despacho ainda estava disponível no sistema do tribunal, sem substituição. Até a noite de terça, não havia manifestação pública do TJ-SC, da Corregedoria, do CNJ ou do juiz sobre o caso.
Fontes: Migalhas (29 de setembro de 2026); despacho do processo 5035160-94.2024.8.24.0008, 2ª Vara Cível de Blumenau, TJ-SC (evento 109); Resolução 615/2025 do CNJ. Imagem: Reprodução/TJ-SC.
30 de setembro de 2026Eleições 2026Apuração própria
Testamos o Tem Meu Voto, o "Tinder eleitoral" divulgado por Huck: para deputado estadual, só 2% dos candidatos responderam
Luciano Huck. Foto: Web Summit Rio/Wikimedia Commons.
O Tem Meu Voto, apresentado por Luciano Huck no Domingão, na TV Globo, no domingo (27), compara as respostas do eleitor a 8 perguntas com as dos candidatos a deputado e senador. Nas redes, eleitores de esquerda disseram que o site só indicava candidatos de direita. O Poder Afrikano refez o teste e conferiu os números que o próprio site publica. O que os dados mostram primeiro é a falta de respostas.
O teste na Bahia
Respondemos às 8 perguntas como imaginamos um eleitor de esquerda e pedimos candidatos a deputado estadual na Bahia. O site mostrou Avante (69% de afinidade), PSD (58%) e Cidadania (50%). Não é escolha do algoritmo: são os únicos três dos 643 candidatos a deputado estadual da Bahia que têm alguma posição no site. Os outros 640 aparecem numa lista sorteada, sem posição. Qualquer eleitor baiano, de qualquer perfil, recebe os mesmos três.
2% no país
Pela metodologia do site, candidato a deputado estadual ou distrital que não respondeu fica sem posição. Segundo a página "Quem já respondeu", do próprio site, só 237 das 11.726 candidaturas a deputado estadual e distrital registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) responderam: 227 de 11.293 estaduais e 10 de 433 distritais, 2% do total. Em 19 estados são 5 ou menos. No Piauí e em Rondônia, nenhuma.
Onde mais candidatos responderam, como em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, os resultados tendem a acompanhar o perfil do eleitor. A conta pode até funcionar. Onde quase ninguém respondeu, não há o que comparar.
Quem responde
Somando todos os cargos, 494 candidaturas responderam. O NOVO é o partido com mais respostas: 123, uma em cada quatro, para um partido que tem 6% das candidaturas. Parte das respostas chegou "via coalizão", por um formulário da RenovaBR aplicado de 25 a 28 de setembro, segundo os dados do próprio site. Das 146 respostas coletadas assim, 52 são do NOVO. Quem responde entra na lista; quem não responde fica de fora.
As 8 perguntas
As perguntas tratam de privilégios de políticos, investigação de corrupção, impostos, regras para empresas, penas, leis trabalhistas, apostas on-line e clima. Nenhuma pergunta sobre moradia, educação, saúde ou racismo. Com tão poucas respostas e essa pauta, a plataforma não tem perguntas nem respostas suficientes para ser totalmente isenta de posição.
Quem divulga
Luciano Huck levou a plataforma ao horário nobre a uma semana do primeiro turno. Em 2018, ele apoiou publicamente a RenovaBR, uma das organizações da coalizão que mantém o site. Quem apresenta uma ferramenta de voto para milhões de pessoas não deveria mostrar também os limites dela? A deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS) pediu à Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) que investigue a divulgação.
Como fizemos: refizemos no site o teste da Bahia, do Piauí e de Rondônia na madrugada de 30 de setembro e usamos os números da página "Quem já respondeu", conferidos contra os arquivos públicos do site. O perfil "de esquerda" das respostas é construção nossa. Os dados do site mudam à medida que novos candidatos respondem.
Fontes: página "Quem já respondeu", dados públicos e metodologia do Tem Meu Voto (temmeuvoto.org.br), consultados em 30 de setembro de 2026; Estado de Minas (28 de setembro de 2026); SP Diário; Gazeta do Povo; Poder360. Foto: Web Summit Rio/Wikimedia Commons.
29 de setembro de 2026Eleições 2026Rio de JaneiroMilícia
Cinco notícias que ligam Flávio Bolsonaro à milícia: a medalha, a moção, o discurso, o gabinete e a emenda
Flávio Bolsonaro em entrevista a jornalistas. Foto: Agência Senado/Wikimedia Commons.
Ao longo de quase duas décadas, o nome de Flávio Bolsonaro apareceu ao lado de nomes ligados às milícias do Rio de Janeiro em cinco episódios documentados pela imprensa e por registros oficiais: uma medalha, uma moção de louvor, um discurso na Assembleia Legislativa, duas contratações no gabinete e uma emenda parlamentar. Flávio não é réu nem foi condenado em nenhum desses casos, e tem uma explicação para cada um.
1. A medalha a Adriano da Nóbrega
Em 2005, como deputado estadual, Flávio concedeu a Medalha Tiradentes, honraria da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), ao policial militar Adriano da Nóbrega, que naquele momento estava preso. Adriano foi absolvido naquele caso. Anos depois, o Ministério Público do Rio de Janeiro o apontou como líder do Escritório do Crime. Foragido, ele morreu em 2020, num confronto com a polícia na Bahia, sem ter sido condenado por milícia.
Flávio diz que homenageou Adriano quando ele "não tinha feito absolutamente nada de errado".
2. A moção ao major Ronald
Em 2004, Flávio apresentou uma moção de louvor ao major Ronald Paulo Alves Pereira. Em 2021, Ronald foi condenado por comandar a milícia de Rio das Pedras e da Muzema. Em fevereiro de 2026, o Supremo Tribunal Federal (STF) o condenou a 56 anos de prisão pelas mortes da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.
Flávio diz que já concedeu centenas de homenagens a agentes de segurança.
3. O discurso de 2007
Em 7 de fevereiro de 2007, na tribuna da Alerj, Flávio disse que a milícia buscava "expurgar do seio da comunidade o que há de pior: os criminosos". A frase está no registro taquigráfico da sessão. Em 2019, ele disse ser contra as milícias e afirmou que a fala foi tirada de contexto.
4. O gabinete
A mãe e a ex-mulher de Adriano da Nóbrega trabalharam como assessoras de Flávio na Alerj até novembro de 2018. Ele diz que as duas foram indicadas por Fabrício Queiroz, seu ex-assessor. A denúncia do caso das rachadinhas, que envolvia o gabinete, foi rejeitada pelo Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio em maio de 2022, depois que as provas foram anuladas.
5. A emenda do Peixe
Segundo mensagens obtidas pela Polícia Federal e reveladas em 22 de setembro, uma assessora do gabinete de Flávio no Senado negociou em 2023 uma emenda de R$ 199 mil para um projeto esportivo na Taquara, em Jacarepaguá, com Robson Calixto, o Peixe. Peixe foi depois condenado pelo STF por organização criminosa no processo do caso Marielle. A emenda foi destinada via Ministério do Esporte. A defesa diz que ela seguiu a lei e que a execução cabe à entidade que recebeu o recurso.
Nenhum dos cinco episódios, sozinho, levou Flávio ao banco dos réus. Juntos, eles mostram uma proximidade que se repete por quase vinte anos: de um lado, homenagens a Adriano e a Ronald; do outro, um negócio de gabinete com Peixe. Ronald e Peixe acabaram condenados pelo STF no processo do caso Marielle. É esse histórico que o eleitor tem diante de si.
Fontes: Metrópoles (20 de fevereiro de 2020); Terra/Estadão (24 de janeiro de 2019 e 28 de agosto de 2026); CNN Brasil (25 de fevereiro e 22 de setembro de 2026); Migalhas (25 de fevereiro e 14 de julho de 2026); Exame (22 de janeiro de 2019); Congresso em Foco (22 de janeiro de 2019); Agência Brasil (16 de maio de 2022); Poder360 (22 de setembro de 2026); Alerj, registro taquigráfico da sessão de 7 de fevereiro de 2007. Foto: Agência Senado/Wikimedia Commons.
29 de setembro de 2026MúsicaRio de JaneiroMemória
Tim Maia completaria 84 anos: de Tião Marmiteiro na Tijuca ao Síndico do soul em português
Tim Maia ao violão, em 1972. Foto: Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã.
Tim Maia completaria 84 anos nesta segunda-feira (28). Antes de virar o Síndico e de levar o soul cantado em português para as rádios do país, ele era Tião Marmiteiro, o menino que entregava as marmitas da pensão da família na Tijuca, zona norte do Rio.
A Tijuca
Sebastião Rodrigues Maia nasceu em 1942, na Tijuca. Era o penúltimo de 19 filhos. A família tinha uma pensão, e cabia a ele levar as marmitas aos clientes. Daí veio o primeiro apelido: Tião Marmiteiro.
Os Estados Unidos
Em 1959, Tim foi sozinho para os Estados Unidos. Na região de Nova York, viveu de trabalhos temporários, cantou com o grupo vocal The Ideals e passou a ser chamado de Jim. Em 1964, depois de uma prisão por porte de maconha, foi deportado para o Brasil. Na volta, Tião virou Tim.
O disco e o Black Rio
O primeiro LP saiu em 1970, com "Azul da Cor do Mar" e "Coroné Antônio Bento". Nos anos 1970, Tim foi nome central do Black Rio, o movimento dos bailes de soul do Rio, e ajudou a levar o soul cantado em português para o rádio.
O Síndico
O apelido pelo qual ficou conhecido veio de Jorge Ben Jor, na música "W/Brasil (Chama o Síndico)", do começo dos anos 1990.
O fim e a estátua
Tim passou mal durante a gravação de um show no Teatro Municipal de Niterói, em 8 de março de 1998, e morreu uma semana depois, em 15 de março, aos 55 anos. Hoje ele tem uma estátua na Praça Afonso Pena, na Tijuca, o bairro onde tudo começou.
Fontes: Mundo Negro (28 de setembro de 2026); Wikipédia, verbete Tim Maia; Rio Memórias; Arquivo Nacional. Fotos: Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã; Sonia D'Almeida/Wikimedia Commons.
29 de setembro de 2026CinemaBahiaReligiões de matriz africana
"Feitiço", clipe de Spartakus Santiago sobre Obaluaê filmado em Itabuna, ganha prêmio de melhor curta musical em Londres
O diretor Spartakus Santiago no TEDxSaoPaulo, em 2020. Foto: TEDxSaoPaulo/Wikimedia Commons.
"Feitiço", videoclipe dirigido pelo artista baiano Spartakus Santiago, levou o prêmio de Best Music Short (melhor curta musical) no New Renaissance Film Festival London, festival independente de cinema que chegou à 11ª edição. A cerimônia de premiação foi neste domingo (27), em Londres.
Na lista oficial de vencedores do festival, o clipe aparece com o título em inglês, "Spell", dirigido por Spartakus Santiago.
A história de Obaluaê
O clipe conta a história de Obaluaê, orixá das curas e das doenças, e usa as feridas dele como metáfora para as feridas internas causadas pela rejeição que pessoas negras e LGBTQIA+ enfrentam na infância.
Feito em Itabuna
"Feitiço" foi filmado em Itabuna, no sul da Bahia, cidade natal do diretor, com profissionais e artistas da região. O ator mirim, Sol Benedito, é de Itabuna. O manto de Obaluaê foi confeccionado por Junior Camini e finalizado por dona Lourdes, avó de Spartakus.
O clipe faz parte do EP "Livre Com Fiança", que tem outros vídeos inspirados em orixás, como Exu, Oxóssi e Iemanjá.
O que diz o diretor
Nas palavras de Spartakus, citadas pelo Bahia Notícias: "Gratidão, Obaluaê, por me dar o que eu tanto a pedi, o colo e acolhimento depois de tanta rejeição, a transformação das feridas em brilho."
Fontes: Mundo Negro (28 de setembro de 2026); Bahia Notícias (28 de setembro de 2026); Farol da Bahia (28 de setembro de 2026); New Renaissance Film Festival, lista de vencedores e programação de Londres 2026. Foto: TEDxSaoPaulo/Wikimedia Commons.
28 de setembro de 2026Eleições 2026SalvadorRacismo
Presidente do Missão pede "chacina" em bairro negro de Salvador, ao lado do candidato Renan Santos, que endossa a fala
Davi Pirajá discursa no ato de Renan Santos, na reitoria da Ufba, em Salvador. Foto: reprodução de vídeo do ato.
Em um ato de campanha do candidato à Presidência Renan Santos (Missão), neste domingo (27), na escadaria da reitoria da Universidade Federal da Bahia (Ufba), no bairro do Canela, em Salvador, o presidente estadual do partido, Davi Pirajá, defendeu publicamente que seja feita uma chacina em dois bairros periféricos da cidade — um deles chamado por ele de "Planeta dos Macacos". Renan Santos, ao lado dele no palco, endossou a fala em seguida.
O que ele disse
Discursando sobre segurança pública, Pirajá afirmou, segundo registros do ato compartilhados nas redes e reproduzidos por veículos baianos: "tem que ter uma chacina no Bairro da Paz! Tem que ter! Tem que ter uma chacina no Planeta dos Macacos." O Bairro da Paz é uma comunidade periférica de Salvador. "Planeta dos Macacos" é como Pirajá nomeou uma segunda área da cidade — associada por moradores e entidades à zona do São Cristóvão —, numa expressão que remete à comparação racista de pessoas negras a macacos.
A resposta de Renan Santos
Renan Santos não se distanciou da fala do aliado. Pelo contrário: endossou-a no palco, argumentando que a declaração mirava integrantes do crime organizado, e não os moradores das comunidades citadas. Segundo o candidato, o crime organizado impõe às pessoas que vivem ali uma rotina opressiva, chegando a ditar até que roupas podem ou não ser usadas.
Quem são Pirajá e o Missão
Davi Pirajá preside o Missão na Bahia, partido pelo qual Renan Santos concorre à Presidência da República na eleição deste ano. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro.
Reação
O Conselho de Moradores do Bairro da Paz classificou as declarações como criminosas e covardes, e disse que defender o extermínio de moradores de uma comunidade não pode ser tratado como liberdade de expressão ou debate político legítimo. A entidade pediu apuração ao Ministério Público da Bahia, à Secretaria de Segurança Pública e à Polícia Civil, além de cobrar responsabilização dos organizadores do ato. A Agência de Notícias da Favela e o Jornal Comunitário Bairro da Paz também repudiaram a fala, classificando-a como incitação à violência que viola a Constituição e tratados internacionais de direitos humanos.
A vereadora de Salvador Marta Rodrigues (PT) acionou a Justiça para que a conduta dos envolvidos no ato seja investigada. Para ela, "discurso de ódio não é política pública" — segurança, argumenta a vereadora, se faz com inteligência, prevenção e ação do Estado dentro da lei, e não com apologia a chacinas.
O lado jurídico
O procurador de Justiça Rômulo de Andrade Moreira protocolou uma notícia de fato na Procuradoria-Geral de Justiça da Bahia (PGJ-BA) pedindo a abertura de um procedimento de investigação criminal e o encaminhamento do caso à Justiça Eleitoral. A conduta de Pirajá pode se enquadrar no artigo 287 do Código Penal, que prevê o crime de apologia ao crime, com pena de três a seis meses de detenção ou multa.
A nove dias do primeiro turno, um dirigente partidário pediu publicamente uma chacina em bairros negros e periféricos de Salvador, valendo-se de um apelido racista para nomear um deles — e o candidato ao seu lado no palco endossou a fala em vez de repudiá-la. O episódio agora está nas mãos da Justiça.
Fontes: BNews (três matérias, 27 e 28 de setembro de 2026); Farol da Bahia (27 de setembro de 2026); Portal Salvador FM (27 de setembro de 2026); bahia.ba (28 de setembro de 2026); Notícias da Bahia (27 de setembro de 2026); Política ao Vivo (28 de setembro de 2026). Foto: reprodução de vídeo do ato.
28 de setembro de 2026Eleições 2026GoiâniaFlávio Bolsonaro
Jogaram ovos na carreata de Flávio Bolsonaro em Goiânia. Ninguém foi atingido, e ele falou em tentativa de homicídio
Flávio Bolsonaro em entrevista no Senado. Nenhuma foto é da carreata de Goiânia. Foto: Senado Federal, via Wikimedia Commons.
Ovos foram jogados da varanda de um prédio contra a carreata de Flávio Bolsonaro (PL) na tarde de domingo (27), em Goiânia. Ninguém foi atingido. Mesmo assim, no vídeo que circulou nas redes, o candidato a presidente chamou o arremesso de tentativa de homicídio.
O que aconteceu
Flávio fazia carreata ao lado de Wilder Morais (PL), candidato do partido ao governo de Goiás. A concentração foi às 14h30, perto do Estádio Serra Dourada, e o trajeto terminou nos arredores do Parque Flamboyant, onde Flávio discursou.
Segundo o Metrópoles, os ovos foram jogados quando o comboio passava pela Rua 15, no Jardim Goiás. O jornal O Hoje, de Goiânia, conta que o grupo seguia em carros e motocicletas. Flávio e as pessoas que estavam com ele não foram atingidos.
O que ele disse
Ao perceber os ovos, Flávio ironizou, segundo o O Hoje: "Joga picanha. Não tem dinheiro, né? Só tem ovo em casa". O O Hoje é o único veículo que registra essa frase.
Na sequência, pediu ajuda para encontrar quem jogou. A fala, transcrita pelo Metrópoles a partir do vídeo, foi esta: "Se alguém souber qual o apartamento desse meliante, passa para polícia. Ele tá colocando a vida de pessoas em risco aqui, se isso pega na cabeça de alguém, isso mata, isso é tentativa de homicídio".
O que a polícia fez
A Polícia Militar foi acionada a pedido do candidato, segundo o Diário da Manhã e o Diário Goianiense. Até a noite de domingo, ninguém tinha sido identificado nem preso. Nenhum dos veículos que noticiaram o caso informou registro de boletim de ocorrência ou nota da polícia.
Um ovo e uma acusação
Nenhum ovo atingiu o candidato nem a comitiva. Na fala de Flávio, o episódio virou tentativa de homicídio. A carreata aconteceu a uma semana do primeiro turno, marcado para 4 de outubro.
Fontes: Metrópoles, O Hoje (Goiânia), A Tarde, BNews, Revista Fórum, Diário da Manhã e Diário Goianiense, todos de 27 de setembro de 2026. Foto: Senado Federal, via Wikimedia Commons.
28 de setembro de 2026EsportesNFLRio de Janeiro
72 mil pessoas no Maracanã viram Lamar Jackson levar o Ravens à vitória sobre o Cowboys no último segundo
Lamar Jackson em jogo do Ravens em 2021. Ainda não há foto livre do jogo no Maracanã. Foto: All-Pro Reels, via Wikimedia Commons.
O Baltimore Ravens venceu o Dallas Cowboys por 34 a 31 no domingo (27), no Maracanã, com um chute de 56 jardas no último segundo. Foi o primeiro jogo da NFL no Rio de Janeiro, diante de um público anunciado de 72.792 pessoas.
Um jogo inédito no Rio
A liga de futebol americano joga no Brasil desde 2024, mas os dois jogos anteriores foram em São Paulo, na Neo Química Arena. O do Maracanã foi o terceiro no país e o primeiro no Rio, segundo a Associated Press.
Os últimos 90 segundos
Com 1min30 no relógio, Lamar Jackson lançou 2 jardas para o tight end calouro Matt Hibner e pôs o Ravens na frente, 31 a 28. O Cowboys respondeu e empatou em 31 com um field goal de 23 jardas de Brandon Aubrey, faltando 7 segundos.
Com a bola na própria linha de 35 jardas, Lamar achou Zay Flowers para um ganho de 27 jardas e pediu tempo com 1 segundo no relógio. Tyler Loop entrou, chutou de 56 jardas, a bola passou entre as traves e o tempo acabou na jogada. Não houve prorrogação.
Pelo NFL.com, foi a terceira vitória decidida no último lance na história dos jogos internacionais da liga, e o chute mais longo das três.
Os números
Segundo a ESPN, Lamar completou 15 de 20 passes, para 186 jardas e 2 touchdowns, sem interceptação, e correu mais 50 jardas. No último quarto, acertou 6 de 7 passes. O outro touchdown de passe foi para Chris Moore, no terceiro quarto.
Derrick Henry correu 89 jardas e marcou 2 touchdowns. Com uma corrida no segundo quarto, passou Eric Dickerson e virou o nono maior corredor da história da NFL, segundo a AP. Pelo Cowboys, Dak Prescott lançou para 267 jardas e 1 touchdown. Com o resultado, o Ravens chegou a 2 vitórias e 1 derrota na temporada, e o Cowboys ficou com 1 vitória e 2 derrotas.
O que Lamar disse
"Todo mundo estava no mesmo tempo", disse Lamar à Associated Press sobre a última campanha. Ele elogiou a proteção da linha e a rota de Zay Flowers, e disse que só precisava entregar a bola.
Quem estava no Maracanã
Segundo a ESPN Brasil, passaram pelo estádio Neymar, Cafu, José Aldo, Guga, Caio Bonfim e Pedro Scooby. Os hinos foram cantados por Kandace Lindsey, dos Estados Unidos, e por Péricles. O show do intervalo ficou com Pedro Sampaio e Ricky Martin.
Fontes: NFL.com, ESPN, ESPN Brasil, Associated Press, Lance! e Baltimore Ravens, 27 de setembro de 2026. Foto: All-Pro Reels, via Wikimedia Commons.
27 de setembro de 2026CulturaSalvadorSolidariedade
Corrida Dikebrada troca a inscrição por um brinquedo no Subúrbio Ferroviário de Salvador neste domingo
O trem do Subúrbio no bairro de Escada, onde fica a sede do Instituto EUMELANINA, em Salvador. Foto: Paul R. Burley, via Wikimedia Commons.
Uma corrida em Salvador troca a inscrição por um brinquedo. É a Corrida Dikebrada, treinão beneficente que o Instituto EUMELANINA faz neste domingo (27) no Subúrbio Ferroviário da capital baiana.
Como vai ser
A concentração é às 6h30 e a largada, às 7h, na sede do instituto, na Rua Almeida Brandão, no 1º andar da Biblioteca Paulo Freire, no bairro de Escada. Pelo formulário oficial de inscrição, o percurso vai da sede até a antiga Fábrica São Braz, em Plataforma.
A participação é gratuita e aberta ao público. A inscrição pode ser feita pelo formulário on-line, no link da bio do perfil @institutoeumelanina, ou na hora, antes da largada.
O brinquedo
Em troca da vaga, cada participante leva um brinquedo infantil. Segundo a Alma Preta, as doações vão para as atividades do Dia das Crianças que o instituto promove em 12 de outubro.
Setembro Amarelo
A corrida também fecha as ações do instituto no Setembro Amarelo, o mês de prevenção ao suicídio, com uma ação de saúde mental. O pedido da divulgação é um só: "Vem de amarelo!".
Quem organiza
O Instituto EUMELANINA é um Ponto de Cultura de Salvador, fundado em 2016, que se apresenta como Casa das Mulheres no Hip-Hop e trabalha com jovens da periferia. No site, o instituto diz que a missão é "combater o genocídio da população negra".
A última confirmação da corrida publicada pelo instituto é de 20 de setembro. Até a noite de sábado (26), não havia aviso de adiamento nem de cancelamento, e o formulário de inscrição seguia aberto.
Fontes: Instituto EUMELANINA (Instagram, 20 de setembro de 2026; formulário oficial de inscrição; site do instituto); Alma Preta (26 de setembro de 2026). Foto: Paul R. Burley, via Wikimedia Commons.
27 de setembro de 2026CulturaTeatroSão Paulo
Casa do Norte, peça dirigida por Naruna Costa, estreia no Sesc Consolação e celebra os 20 anos do Grupo Clariô
Integrantes e amigos do Grupo Clariô de Teatro com a faixa "#SALVE CLARIÔ" no Prêmio APCA 2024, em São Paulo. Foto: amigosdaarte, via Wikimedia Commons.
Casa do Norte, a nova peça de Naruna Costa, está em cartaz em São Paulo. A comédia estreou na sexta-feira (25) no Teatro Anchieta do Sesc Consolação e fica até 1º de novembro.
A história
Tudo parte do sumiço da caixa de correio comunitária de uma casa do norte. O texto de Jhonny Salaberg conta histórias de migrantes nordestinos na periferia paulistana.
Naruna Costa dirige e também está em cena, como uma cantora de brega de botecos da quebrada. "É uma comédia, que trata de inúmeros assuntos relevantes para as nossas comunidades periféricas, com humor e beleza", disse ela ao Notícia Preta.
Vinte anos de Clariô
A peça celebra os 20 anos do Grupo Clariô de Teatro, de Taboão da Serra. "Casa do Norte é muito especial para mim. É a celebração dos 20 anos do Grupo Clariô, que ajudei a fundar e onde, até hoje, faço minhas principais pesquisas teatrais", disse Naruna ao Notícia Preta.
Segundo o Sesc, o grupo levou em 2024 o Prêmio APCA de melhor dramaturgia e o Prêmio Shell de música por Boi Mansinho e a Santa Cruz do Deserto. Casa do Norte chega ao Consolação depois de passar pelo MIRADA, Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, em Santos.
A direção musical é de Naloana Lima. No elenco estão ainda Alexandre Souza, Cleydson Catarina, Martinha Soares, Naloana Lima, Rager Luan e Washington Gabriel.
Serviço
Neste domingo (27), a sessão é às 18h, e a venda on-line para ela vai até as 16h. A temporada segue até 1º de novembro, de quinta a sábado às 20h e aos domingos às 18h, sem sessões em 1º, 4 e 25 de outubro. Em 23 de outubro há sessão com tradução em Libras, a Língua Brasileira de Sinais.
O espetáculo tem 130 minutos e classificação indicativa de 16 anos. Os ingressos custam R$ 70 (inteira), R$ 35 (meia) e R$ 21 (credencial plena), no site e no aplicativo do Sesc e nas bilheterias.
Fontes: Sesc São Paulo (página da temporada e Editorial de 16 de setembro de 2026); Notícia Preta (25 de setembro de 2026); Africas. Foto: amigosdaarte, via Wikimedia Commons.
27 de setembro de 2026CulturaMemóriaSão Paulo
Nzo reúne 40 acervos de memória negra de todo o país no Museu Afro Brasil, no Ibirapuera
Fachada do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Foto: Slyronit, via Wikimedia Commons.
Quarenta acervos de memória negra de todo o país estão juntos no Ibirapuera. Abriu no sábado (26), no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, em São Paulo, a exposição Nzo: Memórias Afro-brasileiras, a primeira mostra da Rede de Acervos Afro-brasileiros.
A curadoria é compartilhada pelas próprias iniciativas que formam a rede. A abertura fechou o 3º Encontro da Rede de Acervos Afro-brasileiros, nos dias 25 e 26, com o tema "Memória e territórios: estratégias para construir o futuro em Rede".
O que está lá
O Memorial Mãe Menininha do Gantois, de Salvador, é apresentado como o primeiro espaço museal do país dedicado à trajetória de uma personalidade religiosa afro-brasileira. O acervo reúne mais de 500 peças.
O ZUMVÍ Acervo Afro Fotográfico foi idealizado em 1990 por Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro, "três jovens negros das periferias de Salvador", e guarda cerca de 30 mil negativos sobre a cultura afro-baiana.
O Quilombo São Pedro, em Eldorado, no Vale do Ribeira (SP), foi fundado em 1825 por Bernardo Furquim e Roza Machado, "pessoas negras libertas". A Casa de Memória do quilombo reúne pilões, ferros de passar, cadernos de música e fotografias.
O Ilê Asé Odé Ibualamo, de Carapicuíba (SP), liderado por Mãe Zana, perdeu mais de 90% do acervo material em dezembro de 2022, quando o espaço foi demolido durante obras de canalização e os assentamentos sagrados foram soterrados.
Também estão na rede a Casa de Oxumarê, terreiro de Salvador tombado como patrimônio nacional em 2014; o Ipeafro, que guarda o acervo de Abdias Nascimento; a Casa Sueli Carneiro, com mais de 4 mil documentos, livros e registros; e a Cafua das Mercês, em São Luís, prédio que funcionou como depósito e espaço de comércio de pessoas escravizadas.
Memória com gente dentro
"Quando falamos em preservar a memória afro-brasileira, falamos também das histórias, dos territórios e das pessoas que dão sentido a esses patrimônios", disse Jandaraci Araújo, diretora-executiva da Associação Museu Afro Brasil, à Alma Preta.
Serviço
A mostra fica até 28 de fevereiro de 2027. O museu abre de terça a domingo, das 10h às 17h, com permanência até as 18h. A entrada custa R$ 15 (meia de R$ 7,50) e é gratuita às quartas-feiras.
Fontes: Museu Afro Brasil (página da exposição, "Planeje sua visita" e apresentação das iniciativas participantes); Alma Preta (25 de setembro de 2026); Africas. Foto: Slyronit, via Wikimedia Commons.
27 de setembro de 2026PolíticaEleições 2026Fundo Eleitoral
A lei manda 30% do dinheiro público de campanha para candidatos negros. Até agora, o PL deu 21,9%
Sede do Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília. Foto: O Tribunal da Democracia, via Wikimedia Commons.
A Constituição obriga os partidos a aplicar 30% do dinheiro público de campanha em candidaturas de pessoas pretas e pardas. Nos relatórios entregues ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até 25 de setembro, o Partido Liberal (PL), o que mais recebeu, repassou 21,9% a candidatos negros.
A regra
Desde a Emenda Constitucional 133, de 2024, o artigo 17 da Constituição diz que "os partidos políticos devem, obrigatoriamente, aplicar 30% (trinta por cento) em candidaturas de pessoas pretas e pardas, nas circunscrições que melhor atendam aos interesses e às estratégias partidárias". A regra vale para o Fundo Eleitoral e para o Fundo Partidário.
O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) validou a regra na sessão virtual encerrada em 26 de junho de 2026. "A EC 133 é um ponto de partida, mas nada impede que os partidos possam elevar a destinação de recursos para viabilizar essas candidaturas", escreveu o relator, ministro Cristiano Zanin.
Na conta geral, a regra passa
Nos dados abertos do TSE, os partidos já repassaram R$ 5,07 bilhões dos dois fundos aos candidatos. Na soma de todos os partidos, 33,9% foi para candidatos negros, que são 49,6% das candidaturas, segundo o TSE.
Mas não em todos os partidos
Cinco estão abaixo de 30% até agora: Novo (21,0%), Partido Liberal (21,9%), Partido Social Democrático (28,3%), Movimento Democrático Brasileiro (28,4%) e Partido Verde (28,6%).
O PL
O PL recebeu R$ 926 milhões e deu R$ 203 milhões a candidatos negros. Faltam R$ 74,7 milhões para chegar a 30%.
Os 12 candidatos do partido que mais receberam se autodeclaram brancos ao TSE, a começar por Flávio Bolsonaro, candidato a presidente, com R$ 49,4 milhões. Nas campanhas a governador, o PL deu 7,4% a candidatos negros. Nas do Senado, 16,1%. Sem contar a campanha presidencial, o partido fica em 23,2%, ainda abaixo da regra.
O dado é parcial
A regra se confere na prestação de contas final, e a campanha não acabou. Nenhum partido pode ser dado como descumpridor com os números de agora. Mas o retrato de agora mostra para quem o dinheiro público está indo.
Como fizemos a conta
Somamos o Fundo Eleitoral e o Fundo Partidário que os partidos repassaram aos candidatos, nos arquivos de prestação de contas e de candidaturas do Portal de Dados Abertos do TSE gerados em 26 de setembro, com relatórios entregues até 25 de setembro. Repasses entre candidatos ficam fora, para o mesmo dinheiro não ser contado duas vezes. A raça é a autodeclarada ao TSE, e o percentual é sobre o total nacional de cada partido, como a emenda prevê.
Conferimos 55 candidatos no DivulgaCandContas, o sistema de consulta do TSE: 51 batem ao centavo, e nos outros quatro a diferença vem só de repasses de outros candidatos. Contando esses repasses no destino final, o PL vai a 22,0%, e os cinco partidos seguem abaixo de 30%. Os números mudam a cada novo relatório entregue.
Fontes: TSE, Portal de Dados Abertos (arquivos de prestação de contas e de candidaturas de 2026, gerados em 26 de setembro de 2026), DivulgaCandContas e notícia de 21 de agosto de 2026 sobre o perfil das candidaturas; Emenda Constitucional 133/2024 (Planalto); STF (8 de julho de 2026). Apuração própria. Foto: O Tribunal da Democracia, via Wikimedia Commons.
27 de setembro de 2026CulturaMúsicaRap
Zudizilla lança Quintessência, com Vitor Ramil, Renato Borghetti e Catto: rap, jazz e o Sul no mesmo disco
O rapper Zudizilla. Foto: Divulgação.
Zudizilla, rapper nascido em Pelotas (RS), lançou na quinta-feira (24) Quintessência, o quinto álbum de estúdio. São 16 faixas que misturam rap, jazz, soul, samba e ritmos tradicionais do Rio Grande do Sul.
Quem está no disco
A gaita de Renato Borghetti abre o álbum, em Quintana, e volta em Leva um Bom Tempo Pra Se Acostumar. Vitor Ramil está em Aristocrata, Catto em Sorte, Febem em Barracuda, e Luciana Mello fecha o disco em Contrato com Deus. Aori, Bruna Mendez, Cristal, Gabriel Gaiardo e o Maestro Ubiratan Marques completam as participações.
O disco foi gravado no Movido Estúdio, em São Paulo, e saiu sem nenhum single antes, segundo a EmergeMag.
O jazz como fio
"O jazz nasce de uma forma muito marginal, ele nasce na rua como algo proibido. A galera preta tinha que se esconder para tocar o jazz", disse Zudizilla à Alma Preta. Para ele, o gênero "é uma possibilidade da gente, que é preto, buscar essa sofisticação, sem necessariamente precisar se elitizar".
O que ele carrega
Na mesma entrevista, falou do que leva para as músicas: "Eu sou uma pessoa preta retinta. Todos os dias que eu saio de casa eu enfrento preconceito." Mas avisou que nem sempre vai tratar disso de forma direta. Aprendeu, disse, que "existem outras formas de falar também das questões étnicas, sociais, que não sejam panfletárias e taxativas".
O Sul que permanece
Zudizilla foi criado no bairro Guabiroba, na periferia de Pelotas, segundo o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Vive há sete anos em São Paulo e, em 2025, subiu pela primeira vez ao palco do Lollapalooza. "São Paulo interfere, mas o Rio Grande do Sul permanece", resumiu à EmergeMag.
Fontes: Alma Preta (25 de setembro de 2026, entrevista de Mariane Barbosa); EmergeMag (25 de setembro de 2026); Mídia NINJA (25 de setembro de 2026); Deezer e Apple Music (créditos das faixas); Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Foto: Divulgação.
26 de setembro de 2026PolíticaReligiãoEleições 2026
O pastor que tentou restringir o título da padroeira negra do Brasil foi assessor de Jair Bolsonaro e hoje apoia Flávio
A imagem de Nossa Senhora Aparecida no Santuário Nacional, em Aparecida (SP). Foto: Jaqueline Moia, via Wikimedia Commons.
A padroeira do Brasil é negra. O projeto que tentou restringir esse título na lei não é novo: é de 2007, e o autor é um pastor que foi assessor de Jair Bolsonaro na Presidência e hoje apoia a candidatura de Flávio Bolsonaro.
O projeto
A Lei 6.802, de 1980, declarou feriado nacional o 12 de outubro, "para culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil". Em 12 de dezembro de 2007, o deputado Professor Victório Galli (PMDB-MT), pastor evangélico, apresentou o Projeto de Lei 2.623/2007 para alterar essa lei.
O projeto não apagava o título. Trocava "padroeira do Brasil" por "padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos". A justificativa era a laicidade do Estado. Em 9 de julho de 2008, a Comissão de Educação e Cultura da Câmara rejeitou a proposta por unanimidade, e ela foi arquivada em agosto daquele ano.
Quem propôs
Em 2018, Galli disputou a reeleição para a Câmara pelo PSL, o mesmo partido pelo qual Jair Bolsonaro concorreu à Presidência, e declarou apoio a ele. Em fevereiro de 2019, no primeiro mês do governo, foi nomeado assessor especial da Presidência da República, na secretaria que cuidava da relação com a Câmara. A exoneração saiu no Diário Oficial em 10 de junho de 2019.
Hoje, Galli apoia publicamente a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência e já esteve com o senador numa agenda de campanha em Sinop (MT), segundo o Estado de Minas. Flávio não assina o projeto de 2007 e diz que não existe proposta dele para mudar o título.
Por que a santa é negra
O próprio Santuário Nacional responde. A imagem é de barro, e segundo o santuário ficou por longos anos nas águas do rio, "o que acabou escurecendo a sua cor". Depois, passou 28 anos perto da chama das velas, "assumindo a cor que tem hoje, uma cor de canela escura". É essa a imagem que milhões de brasileiros reconhecem como a santa negra.
O mesmo autor, anos depois
Em 2015, Galli apresentou o Projeto de Lei 468/2015, que isentava igrejas e templos de qualquer culto dos impostos cobrados nas contas de água, luz e telefone e sobre combustíveis. A Comissão de Finanças e Tributação rejeitou a proposta em 2018, por falta de estimativa do impacto nas contas públicas.
O Estado laico serviu de argumento para restringir o título de uma santa. Não apareceu quando o assunto foi isentar templos de imposto.
E não é só ele
Em 3 de dezembro de 2025, a Comissão de Educação da Câmara aprovou o projeto do deputado licenciado Milton Vieira (SP) que autoriza as bibliotecas de escolas públicas e de instituições públicas de ensino superior a terem um exemplar da Bíblia. A justificativa afirma que se trata de uma obra de "relevância literária, cultural e histórica, sem qualquer conotação religiosa". O texto ainda não é lei: passa pela Comissão de Constituição e Justiça e precisa ser aprovado pela Câmara e pelo Senado.
A pergunta
O projeto que tentou mexer no título da padroeira do Brasil invocou o Estado laico. A padroeira é uma santa negra. Foi mesmo só pelo Estado laico?
Fontes: Câmara dos Deputados (ficha do PL 2.623/2007 e notícias da Agência Câmara sobre o PL 468/2015 e o projeto da Bíblia nas bibliotecas); Lei 6.802/1980 (Planalto); Estado de Minas (setembro de 2026); Agência Pública (25 de setembro de 2026); Santuário Nacional (A12), "Por que Nossa Senhora Aparecida é negra?". Foto: Jaqueline Moia, via Wikimedia Commons.
25 de setembro de 2026CulturaSambaSão Paulo
Pesquisa mapeia 56 rodas de samba em São Paulo: uma edição de cada uma movimenta R$ 2,7 milhões, e o poder público segue longe da roda
Apresentação do Samba da Vela no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, em 2018. Foto: Joalpe, via Wikimedia Commons.
O samba de São Paulo gira milhões, e o poder público segue longe da roda. Uma pesquisa divulgada na quarta (23) mapeou 56 rodas e comunidades de samba nas cinco regiões da capital paulista.
A pesquisa
O levantamento foi feito pelo Observatório Ibira30 e pelo Bloco do Beco, do Jardim São Luís, com a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FespSP). Entre novembro de 2025 e junho de 2026, ouviu 1.267 pessoas e 41 organizadores.
A conta
Com público médio estimado em 450 pessoas por evento e gasto médio de R$ 108,30 por frequentador com transporte e lazer, uma única edição de cada uma das 56 rodas movimenta cerca de R$ 2,7 milhões, perto de R$ 48,7 mil por evento.
Não é o valor do mês nem do ano. É uma edição só. A conta é a descrita pela Agência Mural a partir da metodologia da pesquisa.
Quem está na roda
Quem está na roda também está nos números: 72,8% do público se declara preto (44,2%) ou pardo (28,6%). Na zona sul, o índice chega a 80%.
O apoio que não chega
O dinheiro gira, mas o apoio não chega. Para 57,5% dos organizadores, o diálogo com o poder público é ruim ou não existe. Três em cada quatro apontam falta de recursos, e a primeira barreira para acessar editais é a burocracia.
"Os fomentos, os editais e as políticas de incentivo muitas vezes não chegam, de fato, às rodas de samba", diz Alexandre Marques, pesquisador do Observatório Ibira30.
Bate Fundo, Samba da Vela, Pagode da 27, Samba do Bixiga, Samba do Chinelo: a cidade conhece os nomes. Falta a política pública conhecer o endereço.
Fonte: Agência Mural (23 de setembro de 2026), com dados da pesquisa do Observatório Ibira30, do Bloco do Beco e da FespSP. Foto: Joalpe, via Wikimedia Commons.
25 de setembro de 2026CulturaQuilomboPatrimônio
O Quilombo Ferreira Diniz, na Glória, é o primeiro do estado do Rio tombado pela regra do Iphan para os antigos quilombos
Roda de capoeira no quintal do Quilombo Ferreira Diniz. Foto: Oscar Liberal/Iphan.
Tem um quilombo na Glória, no Rio de Janeiro, com feijoada toda sexta. É o Quilombo Ferreira Diniz. Na terça (22), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) declarou o tombamento do território.
O tombamento
O tombamento foi informado na 114ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, em Brasília. Segundo o Iphan, é o primeiro quilombo do estado do Rio tombado pela Portaria Iphan nº 135, de 20 de novembro de 2023.
A portaria regulamenta o que a Constituição já dizia desde 1988: o artigo 216 determina que ficam tombados os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos. A regra de 2023 criou um livro do tombo próprio para esses territórios.
Tombamento protege o patrimônio. A titulação da terra é outro processo, e esta reportagem não trata os dois como a mesma coisa.
Desde os anos 1950
A história começa nos anos 1950, quando Maria Isabel Ferreira, descendente de africanos escravizados, passou a viver ali com o marido, Antônio Dias Pessanha. Hoje cerca de 70 descendentes das famílias Ferreira e Diniz vivem no território. O casarão do início do século 20 foi dividido em apartamentos, e o quintal recebe capoeira, futebol e festa.
Toda sexta tem a feijoada da Tia Cida, Aparecida Ferreira, com roda de samba. Ela começou em 2023, para ajudar nas despesas.
"Acredito que esse seja um novo começo, que reconheça as comunidades quilombolas como um futuro ancestral e possível", disse Érida Ferreira, presidente da Associação da Comunidade do Quilombo Urbano Ferreira Diniz, na nota do Iphan.
A história que não conseguiram apagar
Amos Wilson mostrou como a história contada pelo dominador apaga o povo negro. Um quilombo vivo no meio da cidade, com nome de família e endereço, é a história que não conseguiram apagar. A Falsificação da Consciência Afrikana está no catálogo da Editora Poder Afrikano.
Fontes: Iphan (nota de 22 de setembro de 2026 e Portaria Iphan nº 135/2023); Radioagência Nacional (24 de setembro de 2026); Brasil de Fato (19 de fevereiro de 2026); Notícia Preta. Foto: Oscar Liberal/Iphan.
25 de setembro de 2026PolíticaDireitos reprodutivosMovimento negro
A regra que Raquel Lyra mandou ignorar começou com a denúncia de mulheres negras
A médica Jurema Werneck, em 2016. Foto: Wotancito, via Wikimedia Commons.
No vídeo gravado em maio de 2025 num hospital de Garanhuns e divulgado no domingo (20), a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), manda pôr uma paciente com sete filhos na fila da laqueadura: "Mas faz sem ela saber! Vai!". Sem a vontade da mulher escrita e assinada, isso é crime no Brasil. E essa regra tem história: ela começa com a denúncia de mulheres negras.
O que Jurema Werneck encontrou nas favelas
No fim dos anos 1980, recém-formada, a médica Jurema Werneck trabalhava com agentes de saúde nas favelas do Rio de Janeiro e encontrou mulheres esterilizadas demais. "Esterilização não era algo que naturalmente estivesse na cesta de contraceptivos disponíveis; era uma cirurgia", lembra ela.
Em novembro de 1990, Jurema liderou a Campanha Nacional contra a Esterilização de Mulheres Negras, com o Programa de Mulheres do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap). O lema da campanha: "Esterilização: do controle da natalidade ao genocídio do povo negro!".
Do movimento ao Congresso
A pressão chegou ao Congresso. Cobrada por setores do movimento negro do Rio, a deputada federal Benedita da Silva assinou, em 20 de novembro de 1991, o pedido de uma comissão parlamentar mista de inquérito sobre a esterilização em massa de mulheres no Brasil. A comissão, criada pelo Requerimento nº 796/91-CN e instalada em abril de 1992, teve Benedita na presidência, como registra a capa do relatório final.
Jurema depôs na comissão, assim como Luiza Bairros e Edna Roland. O relatório, de 1993, apontou que mais de 45% das brasileiras em idade reprodutiva estavam esterilizadas, e registrou que a maioria era negra, "o que revela o caráter racista da esterilização".
O que a lei exige hoje
A Lei do Planejamento Familiar, a Lei 9.263, de 1996, regulamentou a esterilização no país. Os artigos que exigem o consentimento e punem quem desrespeita a regra foram vetados na sanção e só passaram a valer em 1997, quando o Congresso derrubou o veto. Desde então, a laqueadura depende da vontade da mulher manifestada por escrito, com pelo menos 60 dias entre essa manifestação e a cirurgia. Fora dessas regras, a esterilização é crime, com pena de 2 a 8 anos de prisão.
Nenhuma das fontes consultadas diz que a lei nasceu da comissão, e esta reportagem não afirma isso. A campanha e a comissão puseram a esterilização em massa de mulheres negras na pauta do país; a lei tem outros autores.
O que a frase de Garanhuns pisa
Por isso a fala da governadora pesa mais do que um deslize. Quem manda fazer "sem ela saber" pisa numa regra que mulheres negras ajudaram a construir, primeiro nas favelas do Rio, depois nos depoimentos ao Congresso.
Fontes: Relatório nº 2, de 1993-CN, da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre a esterilização em massa de mulheres no Brasil (capa), e CFEMEA; Revista Estudos Feministas, v. 20, n. 1 (2012); Geledés (Edna Roland); Agência Patrícia Galvão (2025); Lei 9.263/1996, texto compilado no site do Planalto. Foto: Wotancito, via Wikimedia Commons.
24 de setembro de 2026PolíticaPernambucoViolência obstétrica
Raquel Lyra disse para laquear uma paciente "sem ela saber", e o pedido de desculpas não responde o que o vídeo pergunta
Raquel Lyra em 2019, quando era deputada federal. A foto não é do vídeo de Garanhuns. Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados, via Wikimedia Commons.
Um vídeo gravado em maio de 2025 num hospital de Garanhuns, no Agreste de Pernambuco, mostra a governadora Raquel Lyra (PSD) respondendo a uma funcionária que comenta o caso de uma paciente grávida de novo, que já tinha sete filhos. "Aí, a gente bota na fila da laqueadura", diz a governadora. E em seguida: "Mas faz sem ela saber! Vai!" O vídeo veio a público no domingo (20), pelo Metrópoles.
O que diz o vídeo
A conversa acontece no Hospital Regional Dom Moura. A fala foi transcrita da mesma forma pelo Metrópoles, que divulgou o vídeo, pelo Brasil de Fato e pela Agência Pública, e a própria governadora confirmou a gravação ao se desculpar. O vídeo mostra a fala, não um procedimento: não há registro de que alguma laqueadura tenha sido feita.
Nas primeiras versões que circularam, a frase foi descrita como dirigida a "mulheres em situação de rua". Nenhuma das fontes que transcreveram o vídeo diz isso. A fala é sobre uma paciente.
O que diz a lei
A Lei do Planejamento Familiar, de 1996, só permite a laqueadura com a vontade da mulher manifestada por escrito e assinada. Sem esse consentimento, a esterilização é crime, com pena de 2 a 8 anos de prisão.
Um chão conhecido
A frase não cai no vazio. Entre 1991 e 1993, uma comissão parlamentar de inquérito do Congresso investigou a esterilização em massa de mulheres no Brasil. Como lembra a Agência Pública, a prática se concentrava em regiões pobres e de maioria negra.
E a desigualdade no atendimento às mulheres grávidas continua medida. Mulheres pretas morrem na gravidez e no parto duas vezes mais que brancas e pardas: 125,8 mortes por 100 mil nascidos vivos, contra 64, segundo estudo da Unicamp publicado na Revista de Saúde Pública com dados do SUS de 2017 a 2022. A pesquisa "A cor da dor", da Fiocruz, mostrou que elas recebem menos anestesia local na episiotomia e ficam mais vezes sem acompanhante no parto.
A raça da paciente citada no vídeo não foi informada, e esta reportagem não a afirma. Os números acima descrevem o que acontece com as mulheres pretas no sistema de saúde, não o caso de Garanhuns.
O pedido de desculpas
Na segunda (21), numa sabatina do Sindhospe no Recife, a governadora, candidata à reeleição, pediu desculpas: "Fiz uma fala equivocada, errada." Houve protesto no mesmo dia.
O pedido veio depois que o vídeo pegou mal. Reconhecer o erro de uma frase não diz o que o governo do estado faz para proteger as mulheres mais vulneráveis da violência obstétrica. É isso que se cobra de quem governa: política, não arrependimento.
No fundo, a frase trata de quem decide sobre o corpo e a vida de uma mulher. Amos Wilson escreveu sobre isso: um povo só se protege quando decide por si. Consciência Afrikano-Centrada versus Nova Ordem Mundial está no catálogo da Editora Poder Afrikano.
Fontes: Metrópoles (coluna de Andreza Matais, 20 de setembro de 2026), que divulgou o vídeo; Brasil de Fato (21 de setembro de 2026); Agência Pública (Andrea DiP, 23 de setembro de 2026); Diario de Pernambuco (21 de setembro de 2026), com o pedido de desculpas; Revista de Saúde Pública (Unicamp, junho de 2024, via IBDFAM); Cadernos de Saúde Pública, "A cor da dor" (Leal e outros, 2017, Fiocruz). Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados, via Wikimedia Commons.
24 de setembro de 2026SociedadeTerra YanomamiPolícia Federal
A PF fez buscas na casa de Alexandre Pires na segunda fase da operação sobre cassiterita da Terra Yanomami, e a defesa nega qualquer envolvimento
Alexandre Pires em show de 2009. A foto não é da operação. Foto: Pavlo Yakovenko, via Wikimedia Commons.
Na quarta (23), a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão na casa e na produtora do cantor Alexandre Pires, em Uberlândia (MG). Ele não foi preso. É a segunda fase da Operação Disco de Ouro, que investiga a venda ilegal de cassiterita tirada da Terra Indígena Yanomami, em Roraima. A defesa nega qualquer envolvimento do cantor com garimpo.
Como o caso começou
Em janeiro de 2022, a PF apreendeu cerca de 30 toneladas de cassiterita, o minério de onde se extrai o estanho. A carga era declarada como vinda de uma lavra no rio Tapajós, em Itaituba, no Pará. Segundo a PF, o minério saía de Roraima, e a rota declarada só existia no papel.
A segunda fase
Nesta fase foram 12 mandados de busca e 17 ordens de bloqueio de bens. A PF fala em mais de US$ 48 milhões, cerca de R$ 246 milhões, movimentados e escondidos por meio de empresas no Brasil e no exterior, contas de terceiros e compensações informais. Os investigados podem responder por lavagem de dinheiro, organização criminosa, falsidade ideológica e operação irregular de instituição financeira.
Onde entra o cantor
Segundo a PF, ao menos R$ 1 milhão foi transferido de uma mineradora investigada para uma conta ligada ao artista. Na primeira fase da operação, em dezembro de 2023, ele já tinha sido alvo de busca e teve o celular apreendido.
Alexandre Pires é investigado. Não há denúncia aceita nem condenação.
O que diz a defesa
O advogado Luiz Flávio Borges D'Urso afirma que o cantor "não tem e nunca teve qualquer envolvimento com garimpo ou extração de minério, muito menos em área indígena". A nota diz ainda que a relação com o empresário Matheus Possebon "esteve restrita à intermediação da venda de shows do artista à época".
O caminho de sempre
Seja quem for o responsável, o desenho que a investigação descreve é conhecido: a riqueza sai do território indígena, troca de nome no papel e vira dinheiro em conta de outros. A Terra Yanomami viveu nos últimos anos uma crise humanitária ligada ao garimpo ilegal, e a cassiterita é parte dessa economia.
Fontes: CNN Brasil; O Tempo (23 de setembro de 2026); Migalhas (23 de setembro de 2026), com a nota da defesa. Foto: Pavlo Yakovenko, via Wikimedia Commons.
24 de setembro de 2026CulturaMúsica
Perguntado sobre a melhor música de todos os tempos, Beck citou "San Vicente", de Milton Nascimento
Milton Nascimento em 1972, ano de lançamento do Clube da Esquina. Foto: Arquivo Nacional, domínio público, via Wikimedia Commons.
O músico norte-americano Beck citou "San Vicente", de Milton Nascimento, quando perguntado sobre a melhor canção de todos os tempos. Foi numa rodada de perguntas rápidas sobre os favoritos da carreira dele, em entrevista a Will Gamble publicada no domingo (20) no YouTube e no Instagram.
A resposta
Beck disse primeiro que a pergunta não tinha resposta: "Isso é impossível. É simplesmente, categoricamente impossível." Disse que é do time de "God Only Knows", dos Beach Boys, e completou: "só para surpreender, talvez eu diga 'San Vicente', do Milton Nascimento".
A tradução é desta reportagem, feita a partir do vídeo original. A fala circulou no Brasil pelo site Tenho Mais Discos Que Amigos (TMDQA!).
A canção
"San Vicente" saiu em 1972, no Clube da Esquina, disco que Milton Nascimento dividiu com Lô Borges. A canção é de Milton com Fernando Brant, o letrista que assinou boa parte do repertório do grupo. A letra fala de um país em abstração e foi escrita no meio da ditadura.
Não é uma das faixas que costumam representar o disco fora do Brasil. É uma escolha de quem ouviu o álbum inteiro.
Fontes: entrevista de Will Gamble com Beck, no YouTube e no Instagram, 20 de setembro de 2026; Tenho Mais Discos Que Amigos (Lara Teixeira, 22 de setembro de 2026); ficha do álbum Clube da Esquina; SecondHandSongs, com a autoria de "San Vicente". Foto: Arquivo Nacional, via Wikimedia Commons.
24 de setembro de 2026CulturaCinemaNigéria
A Sombra do Meu Pai, de Akinola Davies Jr., acompanha dois irmãos e o pai num dia de Lagos em 1993
O elenco principal de A Sombra do Meu Pai no photocall do Festival de Cannes, em maio de 2025. Foto: Kacy Bao, via Wikimedia Commons.
A Sombra do Meu Pai é o primeiro longa do cineasta britânico-nigeriano Akinola Davies Jr. e foi o primeiro filme nigeriano selecionado para a Seleção Oficial do Festival de Cannes. Estreou na mostra Un Certain Regard, em 2025, e levou a Menção Especial da Caméra d'Or.
Um dia
A história é semiautobiográfica e cabe num dia. Remi e Akin, dois irmãos que vivem longe do pai, atravessam Lagos ao lado dele enquanto a cidade se agita.
O pano de fundo é a anulação da eleição presidencial de 1993, o pleito que Moshood Abiola tinha vencido e que os militares cancelaram, abrindo uma das piores crises políticas da história da Nigéria.
Ṣọpẹ́ Dìrísù faz o pai. Godwin Egbo e Chibuike Marvellous Egbo fazem os filhos.
Depois de Cannes
Un Certain Regard é uma mostra da Seleção Oficial, não a competição principal. Depois do festival, o filme levou o BAFTA de melhor estreia de roteirista, diretor ou produtor britânico, o prêmio de direção do BIFA, o Gotham de diretor revelação e cinco troféus no AMVCA, na Nigéria, entre eles melhor filme e melhor direção.
Onde ver
O filme estreou nos cinemas brasileiros em 30 de abril de 2026 e está no MUBI e no Prime Video.
Cinema africano contemporâneo que não precisa da tabela de prêmios para funcionar: é um dia, um pai e dois meninos.
Fontes: Mundo Negro (21 de setembro de 2026); página oficial do filme no Festival de Cannes; verbete de Akinola Davies Jr. na Wikipédia; AdoroCinema, com a estreia brasileira. Foto: Kacy Bao, via Wikimedia Commons.
23 de setembro de 2026CulturaPublicidadeRacismo
A Converse tirou do ar o anúncio do Chuck 70 X acusado de aludir à Ku Klux Klan e a linchamento, e o recuo entra numa fila de doze marcas
A peça da campanha global do Chuck 70 X, estrelada pela cantora sul-coreana Karina, do aespa, retirada do ar pela Converse. A acusação é de alusão e foi apontada por usuários nas redes; a marca reconheceu o erro e não admitiu intenção. Foto: Divulgação/Converse.
A Converse retirou do ar o anúncio do Chuck 70 X publicado em 3 de setembro, depois que usuários apontaram na imagem duas leituras: o capuz da Ku Klux Klan e os pés de uma pessoa enforcada. A peça é da campanha global do modelo, estrelada pela cantora sul-coreana Karina, do aespa. A empresa, que pertence à Nike, reconheceu o erro num comunicado enviado à CBC. Em nenhum momento admitiu intenção, e a acusação segue sendo de alusão.
O que há na imagem
O enquadramento não mostra o rosto da cantora. Mostra a saia, as pernas e um par de tênis pendendo da mão dela, com um facho de luz que desenha um triângulo branco sobre o tecido claro. No chão, uma estrela de luz, o símbolo da marca, cercada por outros pares.
Foram esses dois elementos que a reação nas redes juntou. O triângulo branco sobre o pano claro foi lido como o capuz encapuzado da Ku Klux Klan. O par pendurado pelos cadarços, com as solas viradas para quem olha, foi lido como os pés de alguém enforcado. Nenhuma das duas leituras foi confirmada como intenção da campanha, e a cantora não é apontada por ninguém como responsável pela criação da peça.
A segunda imagem, e o que não se sabe dela
Depois do primeiro anúncio, passou a circular uma segunda imagem atribuída à marca: um homem numa escada de madeira estica o braço para alcançar um par de tênis pendurado num galho. Aqui a apuração para antes de fechar.
A CBC diz que a imagem saiu da conta da Converse na Malásia. A Fashion Times atribui a mesma peça a uma colaboração da marca com a Palmes, de 14 de setembro. A CBC registra que viu cópias em redes sociais e não o original, e que a Converse não respondeu sobre essa imagem. As fontes divergem sobre a origem, e esta reportagem não afirma de onde ela saiu. O que se sabe é que ela entrou na polêmica e que a marca não se pronunciou sobre ela.
Por que a leitura pegou
Uma reação em massa a uma imagem publicitária costuma ser descrita como exagero. Neste caso há um pano de fundo, e ele não é opinião.
Nos últimos dois anos, cerca de meia dúzia de mulheres e homens negros foram encontrados enforcados no Sul dos Estados Unidos. Em vários desses casos, a polícia concluiu por suicídio em pouco tempo, e o ceticismo das famílias e de organizações negras veio da pressa, não de uma prova em contrário. Esses episódios não têm relação com o anúncio. Eles explicam por que um par de tênis pendurado, fotografado de baixo, encontra um público que já viu aquela silhueta antes.
O comunicado
A Converse enviou à CBC uma nota curta. "Entendemos por que essa imagem é profundamente perturbadora e reconhecemos que erramos. Nós a removemos dos nossos canais e estamos trabalhando para removê-la de todos os lugares onde apareceu. Isso não deveria ter acontecido, e vamos fazer melhor."
A nota reconhece o efeito e o erro. Não diz de quem foi a decisão, nem em que etapa a peça foi aprovada. A empresa não respondeu sobre o processo de aprovação.
Uma campanha passa por muitas mãos
O deputado federal americano Troy Carter cobrou da Nike mais que um pedido de desculpas. O argumento dele é de processo: uma campanha global é concebida, fotografada, revisada, aprovada e distribuída, e em cada uma dessas etapas houve alguém em condição de interromper.
É a diferença entre o erro e o sistema que o deixa passar. Um pedido de desculpas responde pelo primeiro. A pergunta sobre quem estava na sala responde pelo segundo.
A fila
O caso não é isolado. Um levantamento do Mundo Negro reúne doze marcas que retiraram campanhas ou produtos depois de acusações de racismo, da Gucci à Target, passando pela H&M. São peças diferentes, em anos diferentes, com um ponto em comum: o problema foi apontado por quem viu, não por quem aprovou.
Nem todas pediram desculpas. Em vários desses casos houve retirada sem admissão de erro, e o levantamento registra ao menos um em que nenhum pedido foi feito. Retirar uma peça encerra o assunto para a marca. Não é o mesmo que responder por ele.
Duas leituras do mesmo ciclo
Uma diz que as pessoas despertaram. O símbolo é reconhecido assim que aparece, a reação vem em horas e a marca não consegue mais sustentar a peça no ar. Doze recuos desde 2017 seriam a prova de que o público mudou.
A outra diz que o recuo já virou parte do produto. A crítica devolve a marca ao noticiário, o pedido de desculpas é escrito na primeira pessoa do plural e a empresa sai da história dizendo que sempre esteve do nosso lado. Nada na estrutura que aprovou a peça precisou mudar para isso acontecer.
As duas leituras cabem nos mesmos fatos, e é por isso que a pergunta importa. Pedir desculpas custa uma nota. Mudar quem decide na sala custa a estrutura. Enquanto a segunda conta não for feita, a repetição do ciclo não é evidência de que alguém acordou: é o formato pelo qual ele se mantém.
Quando a imagem de si chega pronta de fora e volta corrigida pela mesma fonte, o nome disso tem bibliografia. A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, está no catálogo da Editora Poder Afrikano.
Fontes: CBC News, de 21 de setembro de 2026, que recebeu o comunicado da Converse; Fashion Times; Notícia Preta, de 21 de setembro de 2026; e o levantamento das doze marcas publicado pelo Mundo Negro em 21 de setembro de 2026. Os doze casos não foram conferidos um a um por esta reportagem e são creditados ao veículo. Fotos: Divulgação.
23 de setembro de 2026EsportesFutebolRacismo
No mesmo dia, a Justiça de Minas absolveu um torcedor acusado de racismo e a Espanha adiou para 2027 o julgamento do caso de Vinicius Junior
O Mineirão, em Belo Horizonte, onde Cruzeiro e Boca Juniors se enfrentaram em 28 de abril de 2026. Foto: Sudhertzen, via Wikimedia Commons.
Em 22 de setembro de 2026, a 5ª Vara Criminal de Belo Horizonte absolveu o torcedor argentino Nahuel Jeremias Maldonado, acusado de racismo durante Cruzeiro e Boca Juniors, no Mineirão. O juiz José Romualdo Duarte Mendes aplicou o artigo 386, inciso VII, do Código de Processo Penal: prova insuficiente. Na mesma terça-feira, em Sevilha, a Audiência Provincial de Sevilha adiou pela segunda vez o julgamento do torcedor acusado de insultar Vinicius Junior, agora para 13 de maio de 2027.
O que a absolvição diz, e o que não diz
O inciso VII do artigo 386 trata de um cenário específico: não há prova suficiente para condenar. Ele não é uma declaração de inocência. O juiz não afirmou que os gestos não aconteceram. Afirmou que a acusação não provou o conteúdo discriminatório no padrão que uma condenação criminal exige.
A distinção importa porque o noticiário costuma comprimir as duas coisas numa frase só. Absolver por falta de prova é uma decisão sobre o que foi levado ao processo, não sobre o que ocorreu no estádio.
A prova que não se fechou
Um segurança disse ter visto os gestos e não soube confirmar o conteúdo deles. Os policiais ouvidos não presenciaram o episódio. A defesa sustentou que as mãos levadas às orelhas eram o gesto do "Topo Gigio", associado a Juan Román Riquelme e usado pela torcida do Boca.
Essa é a estrutura de quase todo processo de racismo em estádio. O episódio dura segundos, acontece no meio de milhares de pessoas e depende de testemunho. O que sobra é a palavra de quem estava perto contra a interpretação de quem foi acusado.
Em Sevilha, o segundo adiamento
O caso espanhol tem data e minuto. Os fatos são de 21 de outubro de 2023, entre os minutos 83 e 86 de Sevilla e Real Madrid, no setor Gol Norte do estádio Ramón Sánchez-Pizjuán. A promotoria pede 1 ano e 9 meses de prisão por crime contra a integridade moral.
O julgamento estava marcado para 22 de setembro. Foi adiado na manhã daquele dia para 13 de maio de 2027, e é o segundo adiamento: o primeiro havia levado o caso de abril de 2026 para setembro. Não houve sentença e o julgamento não chegou a acontecer. Entre o episódio no estádio e a nova data marcada vão três anos e seis meses.
Quando vem, vem anos depois
A Espanha já condenou por esse tipo de crime. Em junho de 2024, três torcedores do Valencia pegaram oito meses de prisão por insultos racistas a Vinicius Junior. Em 2025, cinco torcedores do Valladolid tiveram penas confirmadas, por ataques de dezembro de 2022.
São condenações reais, e nenhuma delas chegou perto do calendário do episódio. O tempo é o dado que os dois casos desta terça-feira têm em comum. Num deles, a prova não se sustentou depois de cinco meses. No outro, o processo acumulou três anos e meio sem que a primeira audiência começasse.
Fontes: Notícia Preta e Metrópoles, de 22 de setembro de 2026, sobre a absolvição em Belo Horizonte; Sevilla Actualidad e ABC, de 22 de setembro de 2026, sobre o adiamento em Sevilha. Foto: Sudhertzen, via Wikimedia Commons.
23 de setembro de 2026CulturaMúsicaJazz
John Coltrane faria 100 anos em 23 de setembro, e A Love Supreme saiu inteiro de uma sessão de estúdio
John Coltrane em outubro de 1963, pouco mais de um ano antes da sessão que gerou A Love Supreme. Foto: Hugo van Gelderen, para o Anefo, via Wikimedia Commons.
John Coltrane nasceu em 23 de setembro de 1926, em Hamlet, na Carolina do Norte, e morreu em 17 de julho de 1967, aos 40 anos. O disco que virou sinônimo do nome dele, A Love Supreme, saiu inteiro de uma única sessão de estúdio, em 9 de dezembro de 1964. As quatro partes que o ouvinte conhece foram gravadas naquele dia.
9 de dezembro de 1964
A sessão aconteceu no estúdio de Rudy Van Gelder, em Englewood Cliffs, Nova Jersey. Van Gelder assinou a engenharia de som e Bob Thiele, a produção. De lá saíram Acknowledgement, Resolution, Pursuance e Psalm, na ordem em que aparecem no disco. São 32 minutos e 47 segundos.
Nada no resultado sugere pressa. A suíte tem um desenho fechado, com um tema que atravessa as quatro partes e volta transformado no fim. Foi montada assim de uma vez.
O quarteto
Com Coltrane no saxofone tenor estavam McCoy Tyner no piano, Jimmy Garrison no baixo e Elvin Jones na bateria. É a formação conhecida como o quarteto clássico, e A Love Supreme é o registro em que ela aparece mais inteira.
Tyner sustenta a harmonia em blocos abertos, Garrison firma a célula de quatro notas que abre o disco e Jones cobre o tempo por baixo sem marcá-lo. O que se ouve não é acompanhamento. São quatro linhas simultâneas.
O dia seguinte
Em 10 de dezembro, Coltrane voltou ao estúdio e gravou duas versões alternativas de Acknowledgement, com Archie Shepp num segundo saxofone tenor e Art Davis num segundo baixo. Ele preferiu a versão do quarteto, e foi ela que saiu no álbum. As outras só apareceram em edições posteriores, décadas depois.
Ou seja, houve um segundo dia, e o segundo dia ficou de fora. Não por acaso nem por falta de tempo, mas por escolha dele.
Janeiro de 1965
A Impulse! lançou o disco em janeiro de 1965. Ele se tornou a referência com que quase todo o jazz espiritual posterior conversa, dos anos 1970 até agora.
Cem anos depois do nascimento, o que resiste não é só a música. É a decisão de publicar a versão feita de uma vez e guardar o resto na gaveta.
Fontes: verbete de A Love Supreme na Wikipédia em inglês, com as datas de gravação, a ficha técnica do estúdio e o registro das versões alternativas de 10 de dezembro de 1964, e o arquivo da The John and Alice Coltrane Home. Foto: Hugo van Gelderen, para o Anefo, via Wikimedia Commons.
22 de setembro de 2026PolíticaSTFRacismo
Dino diz que as críticas às suas citações a Aristóteles têm "preconceito regional, de matriz racista"
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal. A classificação das críticas como racistas é uma avaliação apresentada por ele próprio. Foto: Agência Senado, via Wikimedia Commons.
O ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino publicou no domingo, 20 de setembro, uma resposta às críticas que vem recebendo na imprensa pela frequência com que cita filósofos. Ele listou expressões que diz ter lido em jornais, entre elas "jurista de província", e escreveu que elas derivam de um "indisfarçável preconceito regional, de matriz racista". A classificação das críticas como racistas é avaliação dele, não conclusão das reportagens.
O que ele escreveu
"Como derivação desse indisfarçável preconceito regional, de matriz racista, fazem tudo para desqualificar o meu conhecimento sobre Aristóteles e outros pensadores", afirmou o ministro na publicação, que trazia a imagem de um mapa do Brasil com o Maranhão destacado. Ele é maranhense.
Entre as expressões que atribuiu a textos publicados em jornais estão "jurista de província", "pessoa destituída de qualquer qualificação" e "oratória grandiloquente de província". Nenhuma reportagem identifica de qual jornal ou de qual autor saiu cada uma delas. A Gazeta do Povo registra apenas que Dino citou expressões de jornais.
O eixo que ele nomeia é a origem
Vale ler a frase devagar, porque o resumo distorce. O que Dino nomeia é preconceito regional, e o que ele chama de matriz racista é o mecanismo que enxerga por trás do desprezo pela procedência. A Notícia Preta registra de forma expressa que a classificação das críticas como racistas é uma avaliação apresentada pelo próprio ministro.
O estopim: cinco citações em uma sessão
Na sessão extraordinária do Supremo de 15 de setembro, que tratou do futuro do ministro Alexandre de Moraes e terminou sem definição, Dino citou Aristóteles cinco vezes. Na mesma manifestação recorreu a uma passagem bíblica do Sermão da Montanha, a do sal que perdeu o sabor, para falar de um órgão técnico que cede a pressões e perde a utilidade.
O hábito é conhecido. Numa publicação de 6 de setembro, o ministro abriu com uma frase atribuída a Ésquilo, a de que na guerra a primeira vítima é a verdade. Na de 4 de setembro, começou com Cícero, "cedam as armas à toga", e apontou a consulta aos clássicos como uma das saídas para a crise.
O que Pondé discutiu, e o que ele não discutiu
Em entrevista à Folha de S.Paulo, o filósofo Luiz Felipe Pondé comentou as citações feitas por todos os ministros naquela sessão e questionou algumas escolhas de Dino. Considerou imprecisa a associação entre ironia e descontração, porque em Aristóteles a ferramenta está mais ligada a um gesto de modéstia ou prudência. Concordou que a prudência é enaltecida pelo filósofo, mas questionou a intenção do uso. Achou correta a referência a formas corrompidas de exercício do poder, ainda que a lesse como um recuo. E viu um salto grande no trecho em que Dino invocou o silogismo ao contestar Luiz Fux, alertando para o risco de o uso político da forma descambar em sofisma.
Pondé discutiu o uso dos conceitos. Não tratou da origem nem da cor de ninguém.
A resposta do ministro
Dino afirmou que estudou a obra de Aristóteles na graduação, na Universidade Federal do Maranhão, e depois no mestrado, na Universidade Federal de Pernambuco. Diante da acusação de que algumas citações não constam das obras do filósofo, perguntou se os críticos nunca ouviram falar de paráfrase.
Reconheceu que, por exercer função pública, está sujeito a críticas, mas disse ter o dever de indicar quando enxerga ofensa. "Quem sabe o alerta serve para que melhorem a qualidade ética e técnica das críticas", escreveu. E avisou que continuará recorrendo a Aristóteles, Max Weber e Hobbes, além de referências da cultura brasileira, quando considerar pertinente.
A palavra que faz o trabalho pesado
"Província" carrega muito numa frase curta. Ela supõe um centro onde o saber nasce legítimo e uma periferia onde ele chega como imitação. É uma geografia do mérito, e ela raramente precisa ser dita em voz alta para organizar quem merece ser levado a sério.
Fontes: Notícia Preta e Gazeta do Povo, ambas de 21 de setembro de 2026. A publicação citada é do perfil do ministro em rede social, de 20 de setembro de 2026.
22 de setembro de 2026PolíticaEducaçãoRacismo
TJ-RJ eleva para R$ 35 mil por candidata a indenização a três mulheres negras obrigadas a prender o cabelo crespo em prova da Uerj
O campus Maracanã da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Foto: Avelludo, via Wikimedia Commons.
A Sétima Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro reconheceu discriminação indireta e racismo institucional no caso de três candidatas negras obrigadas por fiscais a prender os cabelos crespos para entrar na sala de uma prova de residência em saúde da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Por unanimidade, o colegiado elevou a indenização de R$ 20 mil para R$ 35 mil por candidata.
O que aconteceu na sala de prova
O episódio é de outubro de 2024, num processo seletivo da residência em saúde da Uerj. Fiscais determinaram que as candidatas prendessem os cabelos para entrar na sala, sob a alegação de que fios crespos e volumosos poderiam esconder objetos.
A exigência não constava do edital e não foi feita às demais participantes. Segundo o acórdão, as autoras da ação são candidatas autodeclaradas negras.
A universidade admitiu
A Uerj reconheceu o episódio administrativamente. Uma nota técnica do Centro de Produção da universidade registrou que um fiscal havia feito a solicitação a candidatas de uma sala, todas negras, contrariando as orientações da instituição. Houve também nota pública.
Depois do episódio, a universidade afastou os fiscais envolvidos e anulou o processo seletivo do programa de Serviço Social, por violação ao princípio da isonomia.
A diferença que o recurso desfez
Na primeira decisão, a Justiça reconheceu o constrangimento sofrido pelas estudantes, mas não considerou comprovada a motivação racial da conduta. Repare na distinção, porque é exatamente ela que o recurso derrubou: ninguém duvidava de que tinha sido humilhante. O que faltava era chamar aquilo pelo nome.
As candidatas recorreram sustentando que o episódio estava diretamente relacionado à condição racial delas.
O que diz o acórdão
"A conduta dos fiscais, ao exigir seletivamente que apenas mulheres negras prendessem seus cabelos, caracteriza tratamento desigual e vexatório, configurando discriminação indireta e racismo institucional", escreveu o relator, desembargador Luiz Alberto Carvalho Alves.
O voto aponta que o conjunto de provas, que inclui as manifestações das vítimas, registro de ocorrência policial, manifestações administrativas e o reconhecimento institucional, evidencia que o critério usado pelos fiscais recaiu exclusivamente sobre "características fenotípicas associadas à população negra".
Por que o valor subiu
"No caso concreto, a fixação do quantum indenizatório em vinte mil reais para cada autora não se mostra suficiente para atender aos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade, tampouco à função pedagógica da reparação civil, diante da gravidade dos fatos, do reconhecimento institucional da conduta discriminatória e do impacto causado às vítimas", diz a decisão.
O relator acrescentou que, em casos de discriminação racial, a reparação deve considerar os efeitos individuais e também os coletivos: ela "deve refletir não apenas a dimensão individual da ofensa, mas também sua função pedagógica e coletiva, sendo insuficiente a fixação de valores módicos que não cumpram o papel de desestimular a reiteração de condutas discriminatórias".
De quem é a responsabilidade
O colegiado entendeu que a ausência de uma orientação específica da universidade não afastava a responsabilidade dela, porque os fiscais atuavam por delegação da instituição. A regra que valia no papel não protege quem a instituição colocou na porta da sala.
Fontes: Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Portal do Conhecimento, que remete a ementa e o acórdão ao Boletim do Conhecimento nº 78, e Notícia Preta, de 21 de setembro de 2026. As aspas do acórdão seguem a transcrição publicada pelo próprio tribunal.
22 de setembro de 2026CulturaMúsicaRap
BK' reuniu 50 mil pessoas no Nubank Parque na abertura da turnê de 10 anos de "Castelos & Ruínas"
BK' em show no Circo Voador, no Rio de Janeiro, em 2024. Foto: Ana Clara Ozório, via Wikimedia Commons.
O rapper carioca BK', nome artístico de Abebe Bikila, reuniu 50 mil pessoas no Nubank Parque, na zona oeste de São Paulo, na noite de sábado, 19 de setembro. O show abriu a turnê "Castelos & Ruínas 10 Anos" e teve ingressos esgotados.
O disco que a turnê comemora
"Castelos & Ruínas" é o álbum de estreia de BK', lançado em 21 de março de 2016 pela Pirâmide Perdida Records. A turnê marca a década do disco.
Os números, separados um do outro
Aqui é preciso cuidado, porque as contas não são do mesmo tipo e a comparação circulou como se fossem.
Os 50 mil de BK' são público divulgado. Kendrick Lamar fez 32.314 pagantes na mesma arena em 30 de setembro de 2025, pela turnê Grand National, o equivalente a 71% dos ingressos disponíveis numa configuração com o anel superior fechado, segundo dados da organização. Travis Scott reuniu cerca de 46 mil pessoas no local em 11 de setembro de 2024, na Circus Maximus.
Público divulgado e público pagante medem coisas diferentes. Servem como ordem de grandeza, não como placar.
A comparação foi feita por Djonga, do palco
Djonga participou do show como convidado, na faixa "O Mundo É Nosso". Foi ele, e não BK', quem afirmou ao público que os 50 mil presentes igualavam a marca de Travis Scott e superavam a de Kendrick Lamar no mesmo estádio.
Falando da própria trajetória e do que o disco representou, Djonga disse: "Se esse cara que parece comigo conseguiu, eu consigo também".
É fala de palco, reproduzida pela reportagem. Não é apuração de público.
O superlativo é informação da organização
O título de primeiro rapper brasileiro a fazer um show solo na arena vem da organização do evento, e a imprensa o publica com essa ressalva. A Exame, que cobriu a estreia da turnê, escreve que, segundo a organização, ele seria o primeiro rapper a realizar um show solo no estádio.
Segundo o próprio Nubank Parque, que se chamava Allianz Parque até meados deste ano, BK' é o décimo rapper a se apresentar no local, e o show foi o sétimo de rap realizado ali, o que leva a arena a mais de 240 mil pessoas em apresentações do gênero.
O que rolou no show
Foram 39 músicas divididas em três partes: A Luz, A Sombra e Coroação. Entre os convidados estiveram Marcelo D2, Marina Sena, L7NNON, Luccas Carlos e Djonga. Os telões exibiram o curta-metragem "Monumental", dirigido por Willy Hajili e Poeta Visual.
Fontes: Mundo Negro e Exame, de 21 de setembro de 2026. Os números de público de Kendrick Lamar e Travis Scott são atribuídos pelas reportagens a dados da organização e à Rolling Stone Brasil.
21 de setembro de 2026PolíticaCaso MarielleEmendas
Assessora de Flávio Bolsonaro negociou emenda de R$ 199 mil com miliciano condenado no caso Marielle, aponta a Polícia Federal
O senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro. Procurado, ele afirmou que a emenda seguiu a legislação e os critérios técnicos do Ministério do Esporte. Foto: Agência Senado, via Wikimedia Commons.
Uma assessora parlamentar do senador Flávio Bolsonaro negociou em 2023 a liberação de uma emenda de R$ 199.999,79 com Robson Calixto, o Peixe, condenado neste ano por organização criminosa no processo que apura o assassinato da vereadora Marielle Franco. As mensagens foram extraídas pela Polícia Federal do celular de Calixto em março de 2024, numa busca e apreensão, e foram reveladas pelo Estado de S. Paulo nesta segunda-feira, 21 de setembro.
Quem estava dos dois lados da conversa
Do lado do gabinete, Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora parlamentar do senador. No celular do miliciano, o contato dela estava salvo como “Fafá Flávio Bolsonaro”.
Do outro lado, Robson Calixto Fonseca, policial militar aposentado que foi assessor de Domingos Brazão no Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro. Calixto não é o autor dos disparos que mataram Marielle: ele foi condenado por integrar a organização criminosa apurada no caso. Os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão foram condenados como mandantes do crime.
O que as mensagens mostram
Entre outubro e novembro de 2023, Calixto cobrava a liberação da verba. Segundo a reportagem, a assessora o orientou a procurar o senador pessoalmente para pedir a liberação dos recursos. As conversas não foram publicadas na íntegra; o que se conhece é o teor descrito pela apuração.
Na mesma troca de mensagens, a assessora pediu a Calixto quatro ingressos para o desfile das escolas campeãs no Sambódromo.
Para onde o dinheiro foi
Em 29 de novembro de 2023, R$ 199.999,79 de uma emenda do senador foram pagos ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio, o Ifop, na Taquara, zona oeste do Rio. O valor fica vinte e um centavos abaixo do teto de R$ 200 mil.
Uma auditoria do Tribunal de Contas da União, incorporada à investigação, identificou que parte dos valores destinados ao Ifop pagou um escritório de advocacia que pertence aos donos do próprio instituto.
O que dizem os citados
Procurado, Flávio Bolsonaro afirmou que “a emenda foi destinada dentro da legislação vigente e dos critérios técnicos do Ministério do Esporte” e que “a entidade executora apresentou notas fiscais dos materiais adquiridos e devolveu os valores não utilizados”. Ele não comentou os diálogos entre a assessora e Calixto.
Maria de Fátima Bezerra Castro e Robson Calixto não responderam. A defesa de Domingos Brazão disse que ele não atuou nesse caso; a de Chiquinho Brazão afirmou não ter conhecimento da investigação.
O que já se sabia e o que é novo
O repasse da emenda ao Ifop já havia sido noticiado em maio de 2026, quando se soube que a Polícia Federal investigava o destino do dinheiro. O que a apuração desta segunda-feira acrescenta é quem negociou dentro do gabinete e o teor das mensagens apreendidas.
Quem era Marielle Franco
Marielle Franco era mulher negra, cria da Maré e vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL, a quinta mais votada da cidade na eleição de 2016, com 46.502 votos. Socióloga formada pela PUC-Rio e mestre em Administração Pública pela UFF, presidiu a Comissão da Mulher da Câmara Municipal e foi uma das vozes mais duras contra a violência policial nas favelas.
Ela foi assassinada a tiros em 14 de março de 2018, no Estácio, no centro do Rio, junto com o motorista Anderson Gomes.
Sete anos depois, um homem condenado por integrar a organização criminosa apurada nesse caso aparece cobrando emenda no gabinete de um senador da República — e a assessora do senador ainda lhe pediu ingressos para o Carnaval.
Fontes: Estado de S. Paulo, via Terra, Bahia Notícias, Revista Fórum, GGN, Diário do Centro do Mundo e Brasil 247 (21 de setembro de 2026). Perfil de Marielle Franco: CartaCapital e Folha PE.
21 de setembro de 2026CulturaCinemaÁfrica
A Mostra de Cinemas Africanos entra nos últimos dias em Salvador com 22 filmes de 11 países, e a curadoria deste ano é de cinema de gênero
A Sala Walter da Silveira, em Salvador, é uma das duas salas das sessões regulares da Mostra, ao lado do Cine Lankiana. Foto: Ajmcbarreto, via Wikimedia Commons.
A 9ª Mostra de Cinemas Africanos ocupa Salvador de 17 a 23 de setembro com 22 filmes de 11 países, 12 longas e 10 curtas, e termina nesta quarta-feira. A programação é gratuita e, nos três últimos dias, as sessões acontecem na Sala Walter da Silveira, nos Barris.
A curadoria é de gênero, não de denúncia
O que muda nesta edição não é o número de filmes, é o critério que organizou a seleção. A curadoria se estrutura em torno do cinema de gênero: ficção científica, suspense, thriller psicológico, comédia, musical, romance, ação, aventura e narrativa sobrenatural.
Isso desfaz uma expectativa que costuma vir colada à ideia de cinema africano, a de que o continente só se filma pela via do documento e da denúncia. A seleção deste ano responde com naves, sustos e piadas. Temas como o uso de inteligência artificial no cinema e as narrativas urbanas das grandes cidades africanas também aparecem na programação.
Onze países na mesma grade
Estão representados Quênia, Senegal, Gana, Chade, Marrocos, Burkina Faso, Nigéria, Sudão, Tunísia, Benin e República Democrática do Congo. São produções recentes, e parte delas é inédita no Brasil.
Não são só as sessões
A Mostra programa também debate depois da exibição, masterclass, minicurso e seminário, com encontros que reúnem cineastas, críticos e pesquisadores.
A abertura teve o realizador em sala
A abertura, em 17 de setembro, às 19h, na Sala Walter da Silveira, exibiu “Memória da Princesa Mumbi”, com presença do cineasta e escritor suíço-queniano Damien Hauser. A sessão de abertura foi simultânea em dois espaços: além da Sala Walter da Silveira, o SESI Casa Branca, no bairro de Caminho de Areia, na Cidade Baixa. No fim de semana de 19 e 20 de setembro, a Mostra também ocupou o Cine Lankiana, em Cajazeiras.
A grade dos três últimos dias
De segunda a quarta, todas as sessões são na Sala Walter da Silveira, no subsolo da Biblioteca Pública dos Barris, às 15h, 17h e 19h. A entrada é gratuita, com ingresso pelo Sympla, e a classificação indicativa é de 14 anos, salvo indicação em contrário.
Segunda, 21. 15h, programa de curtas de cinema de gênero. 17h, “As Desvirtuosas”, de Aïcha Chloé Boro (Burkina Faso). 19h, “O Pescador”, de Zoey Martinson (Gana).
Terça, 22. 15h, “Movimentos Concretos” e “Liti-Liti” (Senegal). 17h, “Independência Hoje”, de Abdou Lahat Fall (Senegal). 19h, “Minha História em Jebba”, “Última Dança da Vergonha” e “Mobembo (Jornada)”.
Quarta, 23. 15h, “Guardião dos Mundos”, de Leila Chaibi (Tunísia). 17h, “O Pescador”. 19h, “Roupa Suja” e “Por Detrás das Palmeiras”, de Meryem Benm’Barek-Aloïsi (Marrocos).
A organização avisa que a programação pode mudar sem aviso prévio. Esta é a grade publicada no site oficial em 21 de setembro. Vale conferir mostradecinemasafricanos.com ou o perfil @mostradecinemasafricanos antes de sair de casa.
Um continente que se filma em ficção científica e comédia está disputando quem tem direito a imaginar o próprio futuro. O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre consciência e autodeterminação.
21 de setembro de 2026EsportesDireitosInternacional
Alysia Montaño competiu grávida de oito meses e perdeu o plano de saúde. Agora ela monta um bloco de empresas contra a discriminação de mães no esporte
Alysia Montaño assina autógrafos no campeonato nacional de atletismo dos Estados Unidos, em 2010, quando ainda competia com o nome de solteira, Alysia Johnson. Não existe foto de licença livre da prova de 2014: esta imagem não mostra a corredora grávida. Foto: Phil Roeder, via Wikimedia Commons.
Em junho de 2014, a corredora olímpica Alysia Montaño entrou na pista do campeonato nacional de atletismo dos Estados Unidos grávida de oito meses. A imagem virou manchete. O que veio depois foi menos fotografado, e é sobre isso que ela trabalha desde então: agora, lança um bloco de empresas que se comprometem a acabar com práticas de discriminação contra mães no esporte.
O que ela contou no New York Times
Num artigo assinado por ela no jornal The New York Times, Montaño relatou que patrocinadores como Nike e Asics teriam ameaçado pausar o contrato e reter o pagamento se ela tivesse um filho. Essa é a versão dela, e é assim que precisa ser lida: o relato é dela, e a reportagem que o reproduz trata a ameaça como alegação.
O plano de saúde não vinha da marca
Junto com o episódio, Montaño perdeu o plano de saúde. Ele não era fornecido pela marca que a patrocinava: vinha do Comitê Olímpico e Paralímpico dos Estados Unidos e da federação de atletismo do país. São duas coisas distintas, e vale não confundi-las.
A Nike implantou uma nova política de maternidade para atletas patrocinadas depois do caso. Isso também é parte da história, e sem isso ela fica contada pela metade. A mudança veio depois da denúncia dela.
De denúncia a estrutura
Em 2020, Montaño fundou a organização sem fins lucrativos For All Mothers+, para defender melhores condições para mães no esporte. Agora vai um passo além com o Mother in Sport Collective, que busca reunir empresas dispostas a assumir compromissos concretos: uma política de maternidade padrão, estações de amamentação e custeio de fertilidade ou adoção. Marcas como Strava, Hoka, Lululemon, Clif e Altra já aderiram, entre outras.
“Isso realmente nos levou a dizer: este não é só um problema de atleta”, disse ela ao jornal USA Today. “Não é um problema da indústria do esporte. É uma questão social ampla.”
Ela descreve o alcance que espera do bloco assim: “Vai ter um efeito de onda maior. A gente sabe que o esporte é um microcosmo do que acontece no mundo. E essas mudanças que usamos no esporte são um modelo de como enfrentar questões sociais maiores.”
Allyson Felix fez o próprio caminho
Allyson Felix, que teve o próprio embate com a Nike por razões semelhantes, se associou à marca Athleta para criar uma linha de produtos para mulheres e meninas e lançou uma iniciativa de creche para atletas mães. São duas histórias paralelas, não a mesma história.
Fonte: The Root, reportagem de Shanelle Genai, 19 de setembro de 2026, a partir de reportagem do USA Today. As declarações de Alysia Montaño foram dadas ao USA Today. A reportagem não informa a distância da prova que ela correu em 2014, apenas o campeonato.
Uma atleta que perde o plano de saúde grávida aprende cedo que contrato é onde o poder se escreve. O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre poder econômico e autodeterminação.
21 de setembro de 2026PolíticaEleições 2026Justiça
O Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco nega direito de resposta a Clarissa Tércio e diz que a publicação que a criticou sintetiza um episódio real
Clarissa Tércio no plenário da Câmara dos Deputados. Ela é candidata a deputada federal pelo Progressistas em Pernambuco. Foto: Pablo Valadares, Câmara dos Deputados, via Wikimedia Commons.
O Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco negou, em 14 de setembro, na 44ª Sessão Ordinária, o pedido de direito de resposta da candidata a deputada federal Clarissa Tércio, do Progressistas, contra uma publicação do perfil Macumba Ordinária no Instagram. Quatro dos cinco desembargadores presentes acompanharam o relator.
O que a publicação dizia
A publicação, de 19 de agosto, afirmava que a candidata e o então deputado estadual Joel da Harpa chamaram de “assassina” uma criança de 10 anos, vítima de estupro, que veio do Espírito Santo ao Recife para fazer aborto legal em 2020.
Na ocasião, os dois se juntaram a outras pessoas ligadas a grupos religiosos fundamentalistas na porta do Centro Universitário Integrado de Saúde Amaury de Medeiros para impedir o procedimento. Ele foi realizado assim mesmo.
O voto do relator
O relator, desembargador Luiz Gustavo Mendonça de Araújo, entendeu que a publicação era síntese crítica de um episódio real e que não havia falsidade capaz de justificar o direito de resposta.
Ele não afirmou que a candidata disse a palavra pessoalmente. Disse que, liderando o ato, não seria possível dissociá-la do contexto coletivo. A formulação importa, e é essa.
A decisão não foi unânime
O desembargador Breno Duarte de Oliveira divergiu. Reconheceu que houve manifestação hostil, mas questionou se havia elementos probatórios suficientes para afirmar que Clarissa Tércio pessoalmente chamou a criança de assassina, e sustentou que seria necessária prova mais palpável, como uma imagem ou registro direto.
O vídeo no canal dela
Além das reportagens usadas pelo relator, o Marco Zero Conteúdo cita um vídeo publicado no canal dela no YouTube: “tem uma assassinato de um bebê de 22 semanas de gestação [...] a gente não quer permitir isso, a menina tá vindo lá do Espírito Santo. Pernambuco, vai compartilhando, vai avisando para todo mundo. Um bebê vai ser morto aqui”.
A publicação segue fora do ar
Segundo o Marco Zero Conteúdo, a equipe jurídica do perfil Macumba Ordinária trabalha para reaver a publicação, que foi suspensa pela Meta.
Fonte: Marco Zero Conteúdo, 16 de setembro de 2026. A reportagem não informa a cor ou a raça de nenhuma das pessoas citadas, e esta matéria não a afirma. Nenhum dado que identifique a criança foi publicado aqui.
Quando um tribunal precisa decidir se lembrar o que foi dito é ofensa, o que está em disputa é o direito de guardar a memória do que aconteceu. O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre consciência e poder.
19 de setembro de 2026PolíticaEleições 2026Dinheiro público
Áudio mostra cantor gospel propondo usar uma ONG para receber emenda da deputada Edna Macedo, irmã de Edir Macedo. A organização recusou
A deputada estadual Edna Macedo, do Republicanos de São Paulo. Seria dela a emenda discutida na reunião gravada. Ela não respondeu à reportagem. Foto: Divulgação / Assembleia Legislativa de São Paulo.
Numa reunião gravada em 23 de maio de 2026, o empresário e cantor gospel Samuel Modesto propôs que a ONG Jesus Cristo Por Um Mundo Melhor, da zona norte de São Paulo, recebesse uma emenda parlamentar da deputada estadual Edna Macedo, do Republicanos, e contratasse a empresa de eventos dele com o dinheiro. O áudio foi obtido com exclusividade pelo Intercept Brasil e publicado em 16 de setembro. A proposta foi recusada pela presidente da organização.
“A verba é muito alta. É muito alta mesmo”
A frase é de Samuel Modesto, na reunião. Ele descreve assim o que teria combinado: “Ela [Edna Macedo] vai me dar a verba e a gente vai distribuir essa verba dentro daquilo que a gente achar legal, onde a gente vai colocar. Pelo que entendi, pelo que eu conversei com o rapaz [assessor da Edna], a verba não é pequena. A verba é muito alta. É muito alta mesmo”.
Na conversa, ele não chega a detalhar como gastaria o dinheiro. Especula possibilidades: comprar roupa para ajudar pobres, montar um consultório odontológico, fazer shows na comunidade.
Por que a empresa dele não podia receber direto
A legislação paulista só autoriza que emendas cheguem a entidades privadas que sejam organizações da sociedade civil sem fins lucrativos. A empresa de eventos gospel de Modesto, a SGM, não cabe nesse perfil; a ONG cabe. Daí o desenho da proposta: a entidade receberia o recurso e subcontrataria a empresa dele.
Cada deputado estadual de São Paulo pode indicar hoje cerca de R$ 12 milhões em emendas, uma fatia do orçamento do estado que o parlamentar decide para onde mandar. A verba discutida nessa reunião passava de R$ 2 milhões.
A justificativa era uma dívida de gratidão
Segundo o próprio Modesto, o repasse seria retribuição por ele ter ajudado um familiar da deputada. Ao dizer pela primeira vez na reunião de quem estava falando, ele se gaba: “É uma deputada muito grande, muito forte. (...) Ela é irmã do bispo Macedo. Só isso”.
Modesto circula no meio gospel e na própria Igreja Universal. Já foi diretor do Troféu Talento, concurso tradicional de músicos cristãos, e cantou no Gospel Day, evento da Universal patrocinado por emendas de deputados do Republicanos.
A ONG recusou, e o vice-presidente foi destituído
Quem levou Modesto até a entidade foi um amigo guitarrista, Edson Lopes Queiroz, então vice-presidente da organização. Cinco dias antes da reunião, ele mandou um áudio à tesoureira pressionando pela aceitação: “Essa verba passa de R$ 2 milhões. É muito dinheiro. É a oportunidade de a ONG ganhar dinheiro, entendeu? (...) Precisa da ONG só para constar o nome para liberar a verba, entendeu?”.
Na reunião, os demais líderes da entidade reagiram com cautela e alertaram para o risco de envolvimento em corrupção. A proposta esbarrou na presidente, Eliete de Almeida Lima Delmutti Ramos da Silva, que a recusou mesmo com o vice-presidente a favor. A organização informou ao Intercept que nenhuma proposta de Modesto foi aceita e que Queiroz foi destituído do cargo depois do encontro.
“Desvio de finalidade no uso do recurso”
Para Caio César de Medeiros Costa, doutor em administração pública e governo e professor do Departamento de Administração da Universidade de Brasília, o acordo fere o princípio da impessoalidade, a regra de que toda escolha na administração pública se baseia no interesse da sociedade e não em vantagem pessoal. “Tem um desvio de finalidade no uso do recurso, que ao invés de atender ao interesse público atende ao privado, que nesse caso seria pagar a dívida de gratidão da parlamentar”, disse ele à reportagem, acrescentando que o princípio vale mesmo quando o repasse não chega a acontecer.
Marcelo Marchesini, doutor em administração pública e professor do Insper, vai na mesma direção: “Os processos estão sendo deturpados para gerar um benefício privado claro e está sendo usado um subterfúgio de enviar para a OSC para se ocultar os verdadeiros beneficiários”.
R$ 16,8 milhões em emendas para eventos da Universal desde 2023
O caminho do dinheiro público até a estrutura da igreja não começa nessa reunião. Reportagem do Intercept publicada em agosto mostrou que Edna Macedo destinou R$ 2,2 milhões em emendas a eventos da igreja do irmão. Somando todos os parlamentares, são pelo menos R$ 16,8 milhões enviados a eventos da Universal desde 2023, repassados por meio do Instituto Paulo Kobayashi, entidade que organiza vários desses eventos.
Vale separar uma coisa da outra: a ONG Jesus Cristo Por Um Mundo Melhor não é a Igreja Universal, e nada na reportagem liga a entidade a esse histórico. O que a aproxima da história é ter sido escolhida como destinatária possível de uma emenda, e ter dito não.
No meio da conversa, o caso do Dark Horse
Para argumentar que não queria se meter em ilegalidade, Modesto citou como mau exemplo uma conhecida dos tempos da Igreja Renascer: “Ela está envolvida até os dentes, ela foi pega agora com R$ 108 milhões”. A mulher é Karina Ferreira da Gama, produtora do filme sobre Jair Bolsonaro e investigada pela Polícia Civil de São Paulo por suspeita de desvios num contrato de R$ 108 milhões de pontos de wi-fi com a Prefeitura de São Paulo. O Portal Poder Afrikano contou esse caso nesta matéria.
O que esta matéria não afirma
Proposta gravada não é crime provado. Não há decisão judicial sobre o caso e a manobra não se concretizou: o dinheiro não saiu, a ONG recusou.
A frase em que Modesto fala em devolver R$ 400 mil de R$ 2 milhões é uma hipótese que ele levanta sobre o que poderiam vir a pedir a ele, não um pedido que alguém lhe fez. “Eu não sei se tem repasse, não falaram nada disso para mim”, diz ele na gravação.
E Edir Macedo não aparece no áudio nem é parte da proposta. A emenda seria da irmã dele. O nome dele entra na história porque é assim que Modesto apresenta a deputada na reunião.
Quem respondeu e quem não respondeu
A ONG respondeu, negando ter aceitado qualquer proposta. Edson Lopes Queiroz respondeu por telefone: confirmou que Modesto propôs direcionar uma emenda de Edna Macedo para a entidade, disse que o dinheiro financiaria eventos de música gospel, com compra de equipamento de som, e alegou que as negociações não passaram de “só conversa”. O Intercept atualizou o texto às 18h12 do mesmo dia para incluir a posição dele. Samuel Modesto e Edna Macedo foram procurados e não responderam.
Fonte: The Intercept Brasil, reportagem de Thalys Alcântara, 16 de setembro de 2026, atualizada às 18h12 do mesmo dia. A reportagem não informa a cor ou a raça de nenhuma das pessoas citadas, e esta matéria não a afirma.
Quem está na base dessa estrutura
Os evangélicos são 26,9% da população brasileira, e 61,1% deles são pretos e pardos: 49,1% pardos e 12% pretos, no Censo 2022 do IBGE. O recorte é do conjunto dos evangélicos do país, não de uma igreja específica, e não diz nada sobre como esse público vota, porque esse cruzamento não existe publicado. Diz outra coisa, e já basta: quando orçamento público entra na estrutura que organiza a fé de um país, quem está na base dessa estrutura é, em maioria, preto e pardo.
Quem controla a consciência de um povo controla o que esse povo acha que é possível. Amos Wilson escreveu sobre isso em A Falsificação da Consciência Afrikana, que está no catálogo da Poder Afrikano.
Evandro recebeu emojis de macaco antes da semifinal nos Jogos Sul-Americanos, venceu a dupla da casa e conquistou o ouro com Arthur Lanci
Evandro Gonçalves Oliveira Júnior em quadra. Foto: Ailura, via Wikimedia Commons.
Antes da semifinal do vôlei de praia masculino nos Jogos Sul-Americanos Santa Fé 2026, na Argentina, o perfil de Evandro Gonçalves Oliveira Júnior nas redes sociais foi tomado por comentários com emojis de macacos e bananas. Ele não se manifestou sobre o assunto. Jogou na quarta-feira, 16 de setembro, venceu de virada e, no dia seguinte, conquistou o ouro ao lado de Arthur Lanci.
“Sabe por que ele estava bem? Porque ele está acostumado”
Quem falou publicamente foi Ana, esposa do atleta, em vídeo publicado nas redes sociais: “Aquilo me doeu. Eu liguei para ele e ele estava bem. Sabe por que ele estava bem? Porque ele está acostumado. Não existe estar acostumado. Me dói muito, ninguém é definido pela cor de pele”.
A frase dela é a parte mais dura do episódio, e não está no ataque: está na retenção. Um atleta que recebe a ofensa e segue normal não é um atleta forte, é um atleta que já passou por isso vezes suficientes para ter desenvolvido o hábito.
COB encaminhou o caso à Justiça argentina
O Comitê Olímpico do Brasil foi informado do episódio e encaminhou denúncia à Fiscalía, órgão do sistema de Justiça argentino responsável pela investigação de crimes na região de Rosário, onde a competição foi disputada. O alerta chegou ao comitê por meio do responsável pela missão brasileira do vôlei de praia nos Jogos, Pedro Paladino.
A Confederação Brasileira de Voleibol divulgou nota de repúdio na sexta-feira, 18 de setembro, declarou solidariedade ao atleta e à família e afirmou que trabalha junto com o comitê para levar os elementos disponíveis aos órgãos competentes, contribuir para identificar os responsáveis e acompanhar o caso.
A virada na semifinal
Dentro de quadra, Evandro e Arthur Lanci enfrentaram os argentinos Nicolás e Tomás Capogrosso diante da torcida da casa. Perderam a primeira parcial por 21 a 14, reagiram no segundo set com 21 a 16 e fecharam o tie-break em 17 a 15, garantindo a vaga na final.
O ouro veio contra quem já tinha vencido a dupla
Na decisão, em 17 de setembro, os brasileiros venceram os venezuelanos Esyenser Delgado e Juliangel Vargas por 2 sets a 0, com parciais de 21 a 15 e 21 a 17. Era a mesma dupla que tinha batido Evandro e Arthur na primeira rodada da competição. Parceiros desde 2023, os dois chegaram aos Jogos como a terceira melhor dupla do ranking mundial e disputavam juntos o primeiro Sul-Americano.
Ninguém foi identificado até agora
Não há responsável apontado pelos comentários. A apuração está com a Fiscalía, e nem o Comitê Olímpico do Brasil nem a confederação atribuíram os ataques a qualquer pessoa ou grupo. A dupla adversária na semifinal não foi associada ao episódio por nenhuma das entidades.
Fonte: Notícia Preta, reportagem de Layla Silva, 18 de setembro de 2026. O resultado da final e as parciais foram conferidos fora dessa reportagem, em coberturas do Comitê Olímpico do Brasil e da imprensa esportiva. O nome completo do atleta consta do registro fotográfico da FIVB no Wikimedia Commons.
Estar acostumado é o que o racismo cobra de quem ele atinge todo dia, muito antes de qualquer denúncia chegar à Justiça. O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre o efeito psicológico dessa rotina.
19 de setembro de 2026PolíticaEleições 2026Segurança pública
Candidatos que filmam operações policiais no YouTube lucram com abordagens em que nada ilegal é encontrado, mostra a Agência Pública
A Marginal Pinheiros, em São Paulo, onde ocorreu a abordagem que abre a reportagem. A imagem é uma vista da avenida, não da cena descrita. Foto: Wilfredor, via Wikimedia Commons.
Dois jovens negros foram abordados por três policiais militares numa noite na Marginal Pinheiros, em São Paulo. O motivo, segundo a equipe, era que caminhavam de forma suspeita. Veio revista, interrogatório e xingamento. Nada ilegal foi identificado com a dupla, e ainda assim a cena foi ao ar no YouTube. Uma apuração da Agência Pública em parceria com a plataforma Zeeng, publicada em 17 de setembro de 2026, mapeou os 15 candidatos que mais monetizaram vídeos de ocorrência policial neste ano.
“Tu é todo ladrãozão, né”
A frase é de um dos policiais, na abordagem gravada. Quem publicou o vídeo não foi nenhum deles: foi o Diretor Elias Junior, candidato a deputado estadual pelo MDB, que é diretor de cinema e não tem vínculo com a polícia. O título da publicação é “O tamanho do viaduto ficou pequeno quando viram a ROTA”.
O canal dele tem 1,3 milhão de inscritos e teria arrecadado mais de R$ 40,8 mil em monetização só neste ano, segundo a estimativa do levantamento. Na página inicial do perfil, Elias Junior aparece de colete à prova de balas e roupa camuflada; em alguns vídeos, usa boina e uniforme parecidos com os da Polícia Militar de São Paulo, sem ter ligação formal com a corporação. Ele não respondeu aos questionamentos da reportagem, e a PM não comentou o caso.
Quem lidera o levantamento
O primeiro colocado na estimativa de arrecadação é o deputado federal e candidato à reeleição delegado Palumbo, do Podemos de São Paulo, que pode ter faturado cerca de R$ 64,6 mil desde o início do ano, com mais de 26 milhões de visualizações no período analisado. Licenciado do cargo de policial civil, ele aparece nos vídeos participando de operações, caminhando ao lado dos agentes e, em alguns casos, conduzindo interrogatórios.
Procurado pela reportagem, Palumbo retirou do ar um vídeo de 20 de julho, que começava com policiais imobilizando um homem na rua, e não respondeu aos questionamentos.
O maior canal em inscritos é o 10º em visualizações
O canal com mais inscritos da lista é o do deputado federal delegado Da Cunha, do União Brasil de São Paulo, com 3,53 milhões. Em visualizações, porém, ele fica em décimo lugar: publicou 237 vídeos em quase oito meses e pode ter monetizado cerca de R$ 3,4 mil desde janeiro. Os dois números medem coisas diferentes, e o primeiro não puxa o segundo.
Também licenciado do cargo de delegado da Polícia Civil, Da Cunha participa de ocorrências e se apresenta como “deputado e delegado”. Num vídeo de 8 de julho, ele foi até o hospital onde estava internado um homem linchado por populares após uma tentativa de assalto em Osasco e, com o suspeito de cabeça enfaixada e deitado na maca, deu lição de moral e fez propaganda de um projeto de lei de autoria dele.
Em julho de 2021 ele chegou a ter distintivo e arma confiscados, depois de uma sindicância por simulação de operações policiais; os objetos foram devolvidos em 2023. Em 3 de setembro deste ano, o governador Tarcisio de Freitas anunciou a demissão dele do cargo de delegado, atendendo a uma recomendação feita pela Polícia Civil em 2022. No mesmo dia, a Justiça de São Paulo concedeu liminar, a pedido do deputado, impedindo que a decisão fosse formalizada.
As normas existem e quase ninguém fiscaliza
Dos 15 perfis analisados, 14 usam ocorrências policiais para divulgar a própria imagem, a maioria em condutas que não batem com as normas das polícias paulistas. Uma portaria de 2020 proíbe, na Polícia Civil de São Paulo, a publicação de fotos e vídeos com vítimas, suspeitos ou investigados, veda comportamento que busque “reconhecimento social” ou “promoção pessoal” e exige “decoro e discrição na linguagem”. A Polícia Militar tem norma parecida desde 2021.
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou à reportagem que parlamentar licenciado não tem prerrogativa para usar distintivo nem para se apresentar como autoridade policial. “Não há, portanto, autorização para ações como as descritas pela reportagem”, diz a nota. A pasta não confirmou se os casos enviados serão apurados.
No país, quase 30% dos órgãos de polícia não têm norma específica sobre uso de redes sociais por agentes, conforme levantamento do Instituto Sou da Paz. Para a diretora-executiva do instituto, Carolina Ricardo, o problema não é só a ausência de regra: “Falta em algumas normativas ter um fluxo claro de quem é o dono disso dentro das instituições, da função de fiscalizar. E isso torna muito mais difusa a implementação”.
Quem é posicionado como bandido
O pesquisador Dannilo Duarte, autor de Jornalismo Policial na Televisão Brasileira: Gênero e Modo de Endereçamento, descreve o que a câmera organiza antes mesmo de começar a gravar: “Há um posicionamento de quem é a vítima e de quem vai ser o bandido. Recorrentemente esse bandido vai ser preto ou pardo, vai estar em regiões periféricas”.
Segundo ele, esse formato alimenta a figura do justiceiro e a ideia de que a lei pode ser dispensada, e a conta não cai igual para todo mundo: “Mas você não verá isso acontecer num condomínio de classe média, mesmo que o infrator tenha cometido uma infração grave. Jovens brancos de classe média, média alta, não são espancados na praia ou nos becos”.
O que dizem os citados
O coronel Telhada, 14º no ranking, afirmou em nota que nenhuma das redes dele ganha dinheiro com monetização: “O YouTube com frequência manda mensagem para monetizarmos, mas nunca concordamos e nem aceitamos”. A capitã Rebeca, em 12º, respondeu que não monetiza os vídeos, e não comentou as críticas de espetacularização. O deputado federal sargento Fahur, 6º colocado, disse que a gestão do canal é feita por uma empresa e que “os valores obtidos com monetização não são suficientes sequer para custear integralmente a operação”. Palumbo, Da Cunha e Elias Junior não responderam.
Como os valores foram calculados
A reportagem partiu dos 100 perfis com mais inscritos no YouTube e cruzou a lista com a base de candidatos do Tribunal Superior Eleitoral. Para cada um dos 15 canais, somou as visualizações de vídeos publicados entre 1º de janeiro e 25 de agosto de 2026, separando shorts e vídeos longos, e aplicou um modelo de receita que combina a divisão oficial do YouTube com o criador, de 55%, com estimativas de custo por mil impressões e receita por mil visualizações.
Eduardo Prange, pesquisador e CEO da Zeeng, classifica os valores como estimativa “moderada”. São projeções por visualização, não faturamento declarado: o dado exato só existe no YouTube Analytics de cada canal, a que apenas o titular tem acesso. As contas também deixam de fora outras redes e patrocínios negociados direto com os candidatos, o que empurra os números reais para cima, não para baixo.
Fonte: Agência Pública, reportagem de Dyepeson Martins, com Matheus Pigozzi e José Cícero, edição de Ana Magalhães, 17 de setembro de 2026. A reportagem não informa a cor ou a raça de nenhum dos 15 candidatos, e esta matéria não a afirma. A menção à raça aparece onde a fonte a registra: nos jovens abordados e na análise do pesquisador sobre quem é posicionado como suspeito.
A abordagem que não encontra nada, mas rende vídeo, audiência e voto, mostra para que serve a imagem do corpo preto no debate público brasileiro. O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre consciência, imagem e controle.
Reconhecido entre os melhores padeiros do país, Jhonatan Kaique abre pizzaria de delivery em Osasco
Jhonatan Kaique de Oliveira Ramos, que inaugurou a Napoli Lab Pizzaria em Osasco. Foto: Divulgação / arquivo pessoal, via Mundo Negro.
Jhonatan Kaique de Oliveira Ramos tem 27 anos e inaugurou na sexta-feira, 18 de setembro de 2026, a Napoli Lab Pizzaria, um delivery de pizzas napolitanas e calzones na região de Santo Antônio, em Osasco, na Grande São Paulo. Ele começou a trabalhar aos 14 anos, depois da morte da mãe, e em 2022 foi reconhecido pela revista Panificação Brasileira como um dos melhores padeiros do país.
O irmão abriu a porta da panificação, um amigo abriu a do mercado
A entrada na profissão veio pela urgência. Com a morte da mãe, Jhonatan precisou começar a vida profissional aos 14 anos. O irmão, que já era padeiro, foi quem o levou para a panificação e ensinou os primeiros passos do ofício. Quem abriu as portas do mercado, no entanto, foi um amigo.
Daquele início até aqui, ele se especializou em pães rústicos de fermentação natural e em viennoiseries, a família de massas folhadas e fermentadas que inclui croissant e brioche. Nas redes sociais, ganhou público mostrando os bastidores do trabalho dentro da padaria.
“Tudo o que aprendi foi graças a ele”
“Me desenvolvi na área e passei a trabalhar com nomes de referência no ramo da panificação, como o chef Rodolfo Nunes, eleito o melhor padeiro do Brasil”, disse Jhonatan ao Mundo Negro e ao Guia Black Chefs. “Tudo o que aprendi foi graças a ele. Agora, estou abrindo uma pizzaria, que eu também aprendi a fazer nessa trajetória, com meus amigos João e Antônio.”
O reconhecimento público chegou em 2022, quando a revista Panificação Brasileira o colocou entre os melhores padeiros do país. O título de melhor padeiro do Brasil, vale registrar, é de Rodolfo Nunes, o chef com quem ele aprendeu.
“Isso me tirou das ruas”
Jhonatan liga a própria trajetória ao ofício sem meio-termo: “Sempre tive oportunidades na área por meu trabalho ser diferenciado. Fui inserido no ramo muito jovem e isso me tirou das ruas, trazendo oportunidades e esperanças de crescer cada vez mais”.
A premissa da pizzaria, segundo ele, é a mesma que o levou a ser um padeiro conhecido: produto de qualidade a preço acessível.
Serviço
Napoli Lab Pizzaria, região de Santo Antônio, em Osasco, na Grande São Paulo. O atendimento é exclusivamente por delivery, pelo aplicativo do iFood ou por WhatsApp, de segunda a domingo, das 18h às 23h. O cardápio tem pizzas napolitanas e calzones.
Fonte: Mundo Negro, Guia Black Chefs, reportagem de Duda Gomes, 18 de setembro de 2026. A reportagem não informa a cor ou a raça de Jhonatan Kaique em nenhuma linha, e esta matéria não a afirma: o que se registra é que o perfil dele saiu no Guia Black Chefs, o guia de chefs negros do Mundo Negro.
Uma cozinha que forma profissional preto e devolve negócio próprio ao bairro não é história de superação individual, é economia. O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre poder econômico e autodeterminação.
De cada R$ 10 que os estados gastaram com prisões em 2025, R$ 6 foram para encarcerar pessoas pretas e pardas
Unidade prisional em Pacatuba, no Ceará. Foto: Porto Neto, via Wikimedia Commons.
De cada R$ 10 gastos com prisões em 2025, em 26 unidades da federação, R$ 6 foram dirigidos ao encarceramento de pessoas pretas ou pardas. São R$ 13,7 bilhões de um total de R$ 22,3 bilhões. O dado é do estudo do Centro de Pesquisa Justa sobre investimentos em segurança pública nos estados, divulgado em 17 de setembro de 2026 e revelado pela Agência Pública. O Acre não forneceu os números.
"Cria-se uma falácia de que pessoas negras cometem mais crimes"
A frase é de Sofia Fromer, advogada do Justa e doutora em saúde coletiva pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Ela completa o raciocínio: "Na verdade, essas pessoas estão sendo selecionadas pela polícia e, depois, na frente do juiz, que poderia parar esse processo de seletividade penal. Essa engrenagem vem sendo construída dessa forma, essas pessoas estão sendo o alvo dessa política de segurança."
Convém registrar o que o levantamento faz e o que ele não faz. Ele não mede se as condenações foram justas nem se as pessoas presas cometeram os crimes de que são acusadas. Ele mede para onde foi o dinheiro público e qual é a cor da pele de quem está atrás das grades. É uma contabilidade, e é justamente por isso que ela incomoda: o orçamento não opina, apenas registra a escolha já feita.
58,6% do orçamento de segurança vai para as Polícias Militares
O estudo também mostra como os estados dividem o dinheiro da segurança pública. Nas mesmas 26 unidades, o investimento total foi de R$ 103,5 bilhões em 2025. A maior fatia, R$ 60,7 bilhões, ficou com as Polícias Militares, responsáveis pelo policiamento ostensivo: 58,6% do total. As Polícias Civis, encarregadas de investigar, receberam R$ 22,2 bilhões, ou 21,5%. E as Polícias Técnico-Científicas, que fazem perícia e produzem prova, ficaram com a menor parcela de todas: R$ 2,8 bilhões, 2,7%.
Luciana Zaffalon, diretora-executiva do Justa, resume o efeito dessa distribuição: "Quando o investimento em policiamento ostensivo cresce sem que a investigação e produção de provas avancem na mesma proporção, o sistema amplia sua capacidade de prender sem necessariamente fortalecer sua eficiência para esclarecer os crimes. É uma lógica que ajuda a sustentar um modelo de encarceramento em massa, marcado por fragilidades na apuração da autoria e na produção de evidências."
Em três anos, os gastos com as polícias cresceram 9,7% em média. Os do sistema prisional, 1,7%.
R$ 5.423 para as polícias, R$ 1 para quem sai da prisão
Na outra ponta do sistema está quem cumpriu a pena e volta para a rua. Segundo o Justa, para cada R$ 5.423 gastos em 2025 com as polícias estaduais, somando militar, civil e técnico-científica, apenas R$ 1 foi dirigido às políticas para egressos. O total investido nessas políticas foi de R$ 19 milhões, contra R$ 18 milhões em 2024. O valor corresponde, em média, a 0,001% dos gastos levantados pelo estudo.
Entre as 26 unidades avaliadas, 19 delas, ou 72%, não investiram nada em política exclusiva para egressos. São Paulo foi quem mais gastou, R$ 13,3 milhões, seguido pelo Ceará, com R$ 3,8 milhões. Mato Grosso aplicou R$ 781 mil e a Bahia, R$ 482 mil. Rio Grande do Sul e Santa Catarina registraram investimento pela primeira vez, com R$ 414 mil e R$ 177 mil. Alagoas e Tocantins deixaram de investir, e o Tocantins ainda teve dotação aprovada na Lei Orçamentária Anual que simplesmente não foi usada.
Fromer descreve o desenho como um funil: "Temos a boca muito alargada do funil, ou seja, o orçamento ali é muito grande, e quando você vai afunilando, depois estão os gastos com o sistema prisional ainda menores, e com as políticas para egressos, quase inexistentes." Ela lembra que não existe pena perpétua no Brasil, de modo que o Estado precisa responder como essas pessoas "vão conseguir um trabalho, renda, ter uma casa, ter os seus documentos".
Bukele na campanha brasileira
O estudo chega em ano eleitoral. Pelo menos três candidatos à Presidência da República que concorrem este ano, Renan Santos (Missão), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo), já citaram concordar com o modelo de segurança pública propagandeado por Nayib Bukele, presidente de El Salvador, baseado principalmente na construção de megapresídios.
Perguntada se a inspiração funcionaria aqui, Fromer vê dois problemas. O primeiro é de eficácia: "Criar novas vagas não resolve o problema. Se resolvesse, não teríamos mais o problema, porque as respostas para a segurança pública, para o sistema prisional, elas têm sido pautadas, muitas vezes, na construção de novas vagas." O segundo é de caixa: "Isso não funciona aqui no Brasil, e, de outro ponto de vista, a gente não tem nem orçamento para fazer essas mega prisões."
A advogada não nega a superlotação. Pelo contrário, descreve celas "onde caberiam 12 pessoas" e há 24, "às vezes até mais", em "condição de total insalubridade". O que ela contesta é a solução.
O plano que existe e o orçamento que não veio
Desde 2025 existe um plano oficial para enfrentar isso. Com base na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 347, julgada pelo Supremo Tribunal Federal em outubro de 2023, o Conselho Nacional de Justiça e o Ministério da Justiça e da Segurança Pública elaboraram o Plano Pena Justa, com mais de 300 metas até 2027, muitas delas voltadas justamente a políticas para egressos. O estudo do Justa mostra que a iniciativa ainda não produziu resultado relevante. "Sem o orçamento, não é possível que todas essas metas do Plano se efetivem", pondera Fromer.
Fonte: Agência Pública, reportagem de Wanessa Celina e Ludmila Pizarro, 17 de setembro de 2026, sobre estudo do Centro de Pesquisa Justa.
Um orçamento que separa R$ 5.423 para prender e R$ 1 para receber de volta não é falha de execução, é projeto. Amos Wilson passou a obra inteira mostrando como o sistema penal produz a criminalidade que depois alega combater. O catálogo da Poder Afrikano reúne A Falsificação da Consciência Afrikana e Violência Preta Contra Preto, que tratam exatamente disso.
Feito Pipa, com Lázaro Ramos e Teca Pereira, é o filme escolhido para representar o Brasil no Oscar 2027
Teca Pereira, que vive a avó Dilma em Feito Pipa. Foto: Multishow, via Wikimedia Commons.
O Brasil já escolheu o filme que vai tentar uma vaga no Oscar 2027, e ele é sobre um menino do sertão do Ceará. Feito Pipa, dirigido por Allan Deberton, foi definido em 16 de setembro de 2026 como o representante brasileiro na disputa por Melhor Filme Internacional. No elenco estão Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos.
Um menino, uma avó e uma escolha
O longa acompanha Gugu, menino de quase 12 anos apaixonado por futebol que mora com a avó no sertão do Ceará. A trama se abre quando surge a possibilidade de ele deixar a vida que conhece para morar com o pai. Yuri Gomes vive Gugu, Teca Pereira é a avó Dilma e Lázaro Ramos, o pai Batista.
Lázaro Ramos é um dos atores mais conhecidos do país e escreveu sobre a própria experiência como ator negro no livro Na Minha Pele. Teca Pereira nasceu em São Paulo em 1952 e começou bailarina, nos anos 1970. Em entrevista, ela contou ter vindo de uma família negra e ter sido criada por uma mulher branca, que a adotou quando ela tinha seis anos.
O filme já vinha ganhando antes
A escolha não chegou do nada. No Festival de Berlim, na mostra Generation Kplus, Feito Pipa levou o Urso de Cristal de Melhor Filme, entregue pelo júri jovem, e o Grande Prêmio do Júri Internacional. No Festival de Gramado, ficou com Melhor Direção, Melhor Atriz e Melhor Ator Coadjuvante, além do voto popular e de uma menção honrosa a Yuri Gomes.
Na seleção brasileira, Feito Pipa concorreu com outros cinco títulos: Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins, 100 Dias, de Carlos Saldanha, A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai, Nosso Segredo, de Grace Passô, e A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo.
Ser escolhido não é ser indicado
Vale a ressalva, porque a diferença costuma se perder na comemoração. Ser escolhido pela Academia Brasileira de Cinema significa apenas que o Brasil inscreveu esse filme na disputa. A lista reduzida e a indicação de fato vêm depois, já dentro da Academia de Hollywood, e nenhuma das duas está garantida. O que existe hoje é a candidatura.
No Brasil, Feito Pipa estreia nos cinemas em 5 de novembro de 2026, pela Paris Filmes. A cerimônia do Oscar 2027 acontece em 14 de março de 2027, no Dolby Theatre, em Hollywood.
Fonte: Mundo Negro, reportagem de Carolina Viana, 16 de setembro de 2026. A raça de Lázaro Ramos e de Teca Pereira não consta dessa reportagem: ela vem de declarações dos próprios atores, o livro Na Minha Pele, no caso de Lázaro, e entrevistas concedidas por Teca.
Um filme sobre um menino preto do sertão que chega ao Oscar carregando uma avó preta no centro da história não é acaso, é disputa por quem conta a história e com qual rosto. O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre consciência, imagem e representação.
Justiça Federal condena a União duas vezes por ofender a memória de João Cândido: R$ 200 mil de indenização coletiva e mais R$ 300 mil ao filho dele
João Cândido em retrato de 1910, ano da Revolta da Chibata. Reprodução.
Mais de 115 anos depois da Revolta da Chibata, a Justiça Federal do Rio de Janeiro condenou a União duas vezes em 2026 por ofensas da Marinha à memória de João Cândido, o Almirante Negro. Em maio, uma ação civil pública resultou em R$ 200 mil de indenização coletiva por dano moral. Em julho, uma segunda ação, movida pelo filho dele, Adalberto Cândido, somou mais R$ 300 mil. As duas decisões miram o mesmo gesto da Marinha: um ofício de 2024 que chamou a revolta de "deplorável página da história" e o próprio João Cândido de "abjeto marinheiro".
A revolta que a Marinha ainda tenta apagar
Em novembro de 1910, João Cândido liderou mais de 2.300 marinheiros, a maioria negra, na tomada de quatro navios de guerra na Baía de Guanabara. O estopim foi o castigo de 250 chibatadas aplicado ao marinheiro Marcelino Rodrigues — herança direta dos açoites usados contra pessoas escravizadas, mantidos na Marinha mesmo décadas depois da abolição. Os revoltosos exigiam o fim dos castigos físicos, melhores salários e anistia. Depois de cinco dias com os canhões apontados para o Rio de Janeiro, o presidente Hermes da Fonseca cedeu.
A anistia prometida não durou: a Marinha prendeu 1.216 marinheiros, manteve 600 presos e deportou 105 para a Amazônia em condições que mataram a maioria. João Cândido sobreviveu à tortura, foi internado à força como louco, escapou de tentativas de assassinato e acabou expulso da corporação em 1912, mesmo tendo sido absolvido em conselho de guerra. Morreu em 1969, aos 89 anos, sem nunca ter sido reintegrado. Só em 2008 o Congresso aprovou lei concedendo anistia póstuma a ele e aos demais marinheiros da revolta.
O ofício de 2024
Em abril de 2024, o comandante da Marinha Marcos Sampaio Olsen enviou à Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados um ofício se opondo à inclusão de João Cândido no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, proposta pelo PL 4.046/2021. O documento classificou a revolta como "deplorável página da história nacional", chamou os marinheiros de "exemplo repreensível" e se referiu ao próprio João Cândido como "abjeto marinheiro" — nos mesmos termos usados pela corporação para persegui-lo havia mais de um século.
R$ 200 mil por dano moral coletivo
A primeira condenação saiu em 21 de maio de 2026, na 4ª Vara Federal do Rio de Janeiro, em ação civil pública (processo nº 5138220-44.2025.4.02.5101). Na sentença, o juiz federal substituto Mário Victor Braga Pereira Francisco de Souza escreveu que "a liberdade de expressão institucional não autoriza o uso de linguagem ofensiva ou discriminatória" e que "expressões de cunho pejorativo extrapolam os limites do debate institucional e afrontam princípios constitucionais". Para o juiz, a Administração Pública tem o dever de usar linguagem compatível com a dignidade humana — algo que a Marinha rompeu ao atacar, quase dois séculos depois, uma liderança negra que o próprio Estado já havia anistiado por lei. A União foi condenada a pagar R$ 200 mil por dano moral coletivo.
Mais R$ 300 mil ao filho
Em 21 de julho de 2026, a mesma 4ª Vara Federal julgou uma segunda ação, individual, movida por Adalberto Cândido, filho idoso de João Cândido (processo nº 5021797-64.2026.4.02.5101). Com parecer do Ministério Público Federal favorável à procedência integral do pedido, a Justiça reconheceu que o mesmo ofício de 2024 também violou a honra da família e fixou indenização de R$ 300 mil, "patamar (…) adequado à extensão do dano sofrido e à gravidade da conduta estatal", segundo a decisão. A ação pedia ainda o reconhecimento de efeitos econômicos da anistia de 2008, como promoções retroativas e pensão — pedidos que a Justiça rejeitou por prescrição.
Um comandante da Marinha chamar João Cândido de "abjeto" em pleno 2024 mostra que a disputa pela memória de quem resistiu nunca terminou — ela só muda de arena. O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre falsificação da consciência e o poder de quem escreve a história oficial.
Kyrie Irving se oferece para pagar a multa de Azeez Al-Shaair, punido pela NFL por escrever no rosto o nome de Hind Rajab, menina palestina morta em Gaza
Azeez Al-Shaair no vestiário do Tennessee Titans, em 2023. Ele defende hoje o Houston Texans. Foto: Tennessee Titans, via Wikimedia Commons.
O linebacker Azeez Al-Shaair, do Houston Texans, foi multado pela NFL por entrar em campo com o nome de Hind Rajab escrito no adesivo que usa sob os olhos. A liga proíbe mensagem pessoal sem aprovação prévia. No dia seguinte, o jogador de basquete Kyrie Irving respondeu num post na rede social X que pagaria a conta.
A multa
Al-Shaair, de 29 anos, escreveu o nome de Hind Rajab no chamado eye black, o adesivo preto que os jogadores de futebol americano usam sob os olhos para reduzir o reflexo da luz. Foi na partida do Houston Texans contra o Buffalo Bills, no fim de semana passado.
A NFL aplicou a multa na quarta-feira, segundo a Al Jazeera. A ESPN e a Al Jazeera informam o valor de US$ 11.941. O Dallas Sports Journal, citando o repórter Aaron Wilson, da KPRC 2, publicou um valor diferente, de US$ 11.492.
A punição é procedimento padrão: as regras de uniforme e equipamento da liga proíbem que jogadores exibam mensagens pessoais sem aprovação prévia, segundo a ESPN. A multa saiu pela regra, e não pelo conteúdo da mensagem.
Quem era Hind Rajab
Hind Rajab tinha cinco anos. Foi morta em Gaza, em 2024, junto com seis parentes, depois que o carro em que a família estava foi alvejado por forças israelenses, segundo a ESPN e a Al Jazeera. No mês passado, o Exército israelense reconheceu pela primeira vez ter aberto fogo contra o veículo e disse ter instaurado uma investigação criminal.
Uma ligação telefônica registrada pelo Crescente Vermelho Palestino documentou os últimos momentos da menina. A gravação virou um docudrama indicado ao Oscar, segundo a Al Jazeera. O filme é “The Voice of Hind Rajab”, da diretora tunisiana Kaouther Ben Hania, escolhido pela Tunísia para concorrer ao Oscar de melhor filme internacional.
Não foi a primeira vez
Al-Shaair já tinha sido multado em janeiro, na temporada passada, por exibir a mensagem “Stop The Genocide”, parem o genocídio, numa fita que usava no rosto. A ESPN descreve a punição como relativa ao eye black; a Al Jazeera, à fita do nariz. Para a Al Jazeera, a frase não citava um conflito específico, mas foi amplamente entendida como referência a Gaza e ao Sudão.
Jogador negro, americano e muçulmano, segundo a Al Jazeera, Al-Shaair vem apoiando causas palestinas também pelo programa My Cause, My Cleats, da própria NFL, que autoriza chuteiras personalizadas. “Se a minha plataforma pode levar um pouco de esperança para famílias na Palestina, então é para isso que eu quero usá-la”, disse ele em comunicado na temporada passada, segundo a ESPN.
A resposta de Kyrie
Pouco depois de a multa ser divulgada por um repórter que cobre a NFL, Irving respondeu ao post: “Eu cuido da multa dele”. Nenhuma das fontes consultadas informa que o pagamento tenha sido feito, nem que Al-Shaair tenha aceitado a oferta.
Irving, nove vezes all-star da NBA, já vinha se posicionando. Em fevereiro, vestiu no Jogo das Estrelas uma camisa com a palavra “PRESS”, imprensa, em homenagem a jornalistas mortos em Gaza; segundo a Al Jazeera, a etiqueta da peça dizia ser dedicada aos jornalistas de Gaza que mostram a verdade ao mundo. Em abril, trocou a foto do perfil no Instagram pela imagem de uma criança palestina impedida por soldados israelenses de ir à escola na Cisjordânia ocupada. Em 2024, apareceu com uma corrente com a bandeira da Palestina. Em 2023, usou um keffiyeh.
A reação à punição
A NFL foi criticada nas redes. O estudioso muçulmano americano Omar Suleiman perguntou, num post no X, por que homenagear crianças palestinas assassinadas é “uma mensagem não autorizada”, e questionou se a punição teria sido a mesma caso a fita trouxesse o nome de Anne Frank.
O braço texano do Council on American-Islamic Relations saiu em defesa do jogador: “A mensagem de Al-Shaair estava enraizada na decência humana básica e na preocupação com vidas inocentes. Isso não deveria ser controverso, muito menos passível de multa”, diz a nota da entidade.
A Al Jazeera lembra que, em 15 de outubro de 2023, a NFL fez um minuto de silêncio por Israel num jogo entre Baltimore Ravens e Tennessee Titans, em Londres.
A conexão com o caso Ed Sheeran
A multa chega na mesma semana em que Robert Kraft, dono do New England Patriots, confirmou ter pressionado o cantor Ed Sheeran a tirar o rapper Macklemore da turnê americana. O Gillette Stadium, de propriedade de Kraft, era um dos palcos em que Macklemore abriria os shows. O Poder Afrikano tratou desse caso em outra matéria.
Análise: a regra que cobra pedágio
Esta parte é análise do Poder Afrikano. A NFL não proibiu o nome de Hind Rajab. Proibiu mensagem pessoal sem autorização, e cobrou por ela. É uma regra de forma, aplicada a um conteúdo, que converte posição política em despesa.
O efeito prático depende de quanto custa. Al-Shaair pagou duas vezes para escrever duas frases, e outro atleta se ofereceu para cobrir a terceira. Regra que transforma posição em conta a pagar não silencia quem tem dinheiro. Silencia quem não tem.
Uma regra que trata o nome de uma criança morta como mensagem não autorizada decide o que pode ser dito. A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, trata de quem controla a narrativa e do que isso produz.
Duda Santos treina seis dias por semana para viver Daiane dos Santos em “A Menina Que Voa”, cinebiografia dirigida por Yasmin Thayná
Mural de Daiane dos Santos em Porto Alegre, com o nome do salto que entrou para a ginástica em homenagem a ela. Foto: Eugenio Hansen, OFS, via Wikimedia Commons.
A atriz Duda Santos, de 25 anos, está em preparação para interpretar a ginasta Daiane dos Santos no cinema. São seis dias de treino por semana, dieta específica e testes de caracterização. As filmagens de “A Menina Que Voa” começam em janeiro de 2027 e o filme ainda não tem data de estreia.
A preparação
Duda Santos foi anunciada como protagonista do longa em julho deste ano. Além do treinamento físico e da dieta, a preparação inclui testes de caracterização, segundo o Mundo Negro. “A caracterização já começou, ela usava aparelho e eu já comecei a me acostumar”, disse a atriz.
Quem trabalha com ela é o coreógrafo Rony, responsável pela apresentação de Daiane ao som de “Brasileirinho”, em 2003, um dos momentos mais lembrados da carreira da ginasta. Duda também vem se aproximando da própria Daiane para entender seus gestos e sua trajetória. A ex-ginasta será consultora durante o roteiro e as filmagens.
O salto que leva o nome dela
Em 2003, Daiane dos Santos se tornou a primeira brasileira a conquistar uma medalha de ouro num Mundial de Ginástica Artística. Na mesma competição, apresentou o duplo twist carpado, movimento que entrou para o esporte com o nome de “Dos Santos”, em homenagem a ela. No ano seguinte, nos Jogos Olímpicos de Atenas, apresentou o movimento que ficou conhecido como “Dos Santos 2”.
O período que o filme cobre
O projeto acompanha a trajetória de Daiane, com foco no período entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000, quando ela enfrentou barreiras sociais, raciais e esportivas até se firmar como uma das principais atletas da ginástica artística brasileira, segundo o Mundo Negro.
Sobre aquele tempo, Daiane já falou em detalhe. Em entrevista à revista Marie Claire, reproduzida pela Exame em 2021, ela disse: “Comigo, houve situações na seleção, nos clubes, de pessoas que não queriam ficar perto, que não queriam usar o mesmo banheiro! Aquele tipo de coisa que nos faz pensar: opa, voltamos à segregação”. Na mesma entrevista, afirmou: “Acho que não existe uma pessoa preta que não tenha sofrido racismo na vida. O que acontece é que muitas pessoas não entendem o que estão passando, não sabem diagnosticar”.
Ela citou ainda a origem social como camada adicional da discriminação: “E além da questão da raça, tem a questão de vir do sul, de não ser do centro do país, de ter origem humilde”.
Quem produz
A produção é da Maria Farinha Filmes, em coprodução com a Ashé Ventures, fundada por Viola Davis, Julius Tennon e Maurício Mota, e com a Globo Filmes. A distribuição fica com o selo Manequim, da Vitrine Filmes. A direção é de Yasmin Thayná.
Análise: a cinebiografia chega depois do apelido
Esta parte é análise do Poder Afrikano. O nome “Dos Santos” está no código da ginástica desde 2003. Ele é usado por atletas do mundo inteiro que talvez nunca tenham visto Daiane competir, e sobreviveu à carreira dela sem depender de filme nenhum.
O que o cinema ainda não tinha feito era contar o que houve antes do salto. O recorte escolhido, o fim dos anos 1990 e o começo dos anos 2000, é justamente o das barreiras, e não o do pódio. É uma decisão de roteiro que muda o assunto: não é a história de uma medalha, é a história do que foi preciso atravessar para chegar até ela.
Uma menina que atravessa barreiras sociais e raciais para chegar ao pódio carrega um custo que ninguém mede. A Psicologia do Desenvolvimento da Criança Preta, de Amos Wilson, está no catálogo da Editora Poder Afrikano.
Luana Barbosa dos Reis pediu para ser revistada por uma policial mulher e morreu cinco dias depois da abordagem. Dez anos depois, ninguém foi preso nem condenado
Faixa com o rosto de Luana Barbosa no palco da 11ª Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, em 25 de julho de 2026. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil.
Em 8 de abril de 2016, Luana Barbosa dos Reis, mulher negra e lésbica de 34 anos, foi abordada por policiais militares em Ribeirão Preto (SP) quando levava o filho de 14 anos a um curso de informática. Pediu para ser revistada por uma policial mulher e foi agredida. Morreu em 13 de abril. Três PMs são acusados de homicídio e respondem em liberdade. Dez anos depois, ninguém foi preso nem condenado, segundo a Agência Brasil.
A abordagem
A abordagem aconteceu no bairro Jardim Paiva II. Luana pediu que a revista fosse feita por uma policial mulher, como prevê o artigo 249 do Código de Processo Penal: a busca em mulher deve ser feita por outra mulher, desde que isso não atrase nem prejudique a diligência. Foi agredida durante a abordagem.
Ela morreu na noite de 13 de abril. O laudo apontou isquemia cerebral causada por traumatismo cranioencefálico, segundo a Ponte Jornalismo. O boletim de ocorrência do caso registrou os policiais como vítimas de lesão corporal e desacato.
O que diz a família
Para a família e para organizações de direitos humanos, Luana foi alvo de racismo e lesbofobia. “Lésbica, negra e periférica com passagem pela polícia, ela já era considerada culpada”, disse a irmã dela, Roseli Barbosa dos Reis, à Ponte, em 2016.
Naquele ano, a ONU Mulheres e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos pediram a investigação do caso. O Alto Comissariado depois citou a morte de Luana num relatório sobre racismo sistêmico, segundo o Le Monde Diplomatique Brasil.
Dez anos de processo
Os policiais militares André Donizete Camilo, Douglas Luiz de Paula e Fábio Donizete Pultz são acusados de homicídio triplamente qualificado e respondem em liberdade. Douglas Luiz de Paula está aposentado desde 2017, segundo a Ponte.
Em 2020, a Justiça mandou os três a júri popular. Em 2021, o Tribunal de Justiça de São Paulo retirou as qualificadoras do crime; o desembargador Camilo Léllis entendeu que não houve crueldade. Em 2023, o Superior Tribunal de Justiça devolveu as qualificadoras. Em março de 2025, o Supremo Tribunal Federal negou o recurso de um dos réus, que queria levar o caso para a Justiça Militar.
Naquele mês, a Revista Afirmativa informava que a data do júri ainda não tinha sido definida. O Poder Afrikano não encontrou, em notícias publicadas em 2026, informação sobre data marcada.
Há 10 anos por Luana
Em 25 de julho, a 11ª Marcha das Mulheres Negras de São Paulo homenageou Luana com o lema “Há 10 anos por Luana Barbosa e por todas nós”. Na cobertura da marcha, a Agência Brasil registrou que ainda não há nenhum envolvido preso ou condenado.
Análise: o pedido era um direito
Esta parte é análise do Poder Afrikano. O que Luana pediu na abordagem está escrito na lei. O boletim de ocorrência pôs os policiais no lugar de vítimas. E a década seguinte foi de idas e vindas sobre o que o crime tinha sido, sem que ninguém fosse condenado.
Para uma mulher negra, lésbica e da periferia, a demora também diz alguma coisa. A família segue esperando a resposta que pede desde 2016.
Um boletim de ocorrência que registra os policiais como vítimas já é uma versão da história. A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, trata de quem controla a narrativa e do que isso produz.
Para a Ucrânia, Ed Sheeran disse “estou com vocês”. Sobre a Palestina, diz que escolhe não falar em público, e as atrações de abertura deixaram a turnê
Ed Sheeran em show em Minneapolis, nos Estados Unidos, em 2018. Foto: Erin McCormack, via Wikimedia Commons.
Em 2022, Ed Sheeran tocou num show beneficente pela Ucrânia e disse aos ucranianos: “Eu amo vocês, estou com vocês”. Em setembro de 2026, depois que o rapper Macklemore gritou “Palestina livre” ao abrir um show dele nos Estados Unidos e foi tirado da turnê, o cantor britânico escreveu que não usa a plataforma profissional para política. No dia 15, as atrações que ainda iam tocar com ele deixaram a turnê em protesto, entre elas Finneas, que abriria os shows de dezembro em São Paulo.
O que aconteceu em Nova Jersey
Macklemore abria os shows da Loop Tour, turnê de Sheeran pelas Américas. Num show em Nova Jersey, no início de setembro, gritou “Palestina livre” no palco. Segundo a Associated Press, também disse ao público: “A todos os meus irmãos e irmãs judeus, criticar Israel, criticar o apartheid, ser contra o genocídio não é, de forma alguma, uma crítica a vocês”.
Em seguida, foi tirado das datas seguintes nos Estados Unidos. A promotora da turnê, a Messina Touring Group, afirmou que os estádios não aceitariam o rapper, segundo a Global News. Macklemore diz que a pressão partiu de Robert Kraft, bilionário dono do New England Patriots, time da liga de futebol americano, e do Gillette Stadium, onde Sheeran tem shows marcados para 25 e 26 de setembro.
Kraft confirmou só que barrou Macklemore do estádio dele. Disse que a decisão se deve às falas recentes do rapper e ao que chamou de histórico mais amplo de retórica e imagens antissemitas. “Esta decisão não é sobre diminuir o sofrimento de palestinos inocentes”, escreveu, segundo a AP.
A resposta de Sheeran
No dia 15, Sheeran publicou uma declaração no Instagram. “A saída de Macklemore da turnê foi decisão da promotora, não minha”, escreveu. Afirmou que não é cúmplice, que está horrorizado com o conflito e que tem opiniões pessoais sobre ele. “Só porque eu escolho não falar publicamente, não significa que eu não as tenha”, escreveu.
E explicou por que não se posiciona: “Há uma razão para eu não usar minha plataforma profissional para política: meu público inclui jovens, muitas vezes crianças, de todas as origens”.
Quem deixou a turnê
Nas horas seguintes, saíram a banda dinamarquesa Lukas Graham e o cantor irlandês Aaron Rowe, que substituiriam Macklemore nas datas americanas; a banda irlandesa Beoga, que tocava com Sheeran em parte do show desde janeiro; e o americano Finneas, irmão e parceiro musical de Billie Eilish. “Artistas não podem ser silenciados quando falam em defesa dos oprimidos”, escreveu Finneas. “Dinheiro não dá a ninguém o direito de ser dono da conversa”, publicou o Lukas Graham.
Finneas abriria os shows de Sheeran em São Paulo, nos dias 5 e 6 de dezembro, no Nubank Parque. Até o dia 16, a página da casa ainda trazia o nome dele. Segundo a AP, nem Sheeran nem Macklemore se manifestaram depois das saídas. A turnê volta no sábado, 19, na Filadélfia.
Em 2022, a plataforma serviu
Em março de 2022, um mês depois da invasão russa, Sheeran gravou um vídeo para a banda ucraniana Antytila e disse: “Eu amo vocês, estou com vocês”, segundo a Capital FM. No fim daquele mês, foi uma das atrações do Concert for Ukraine, em Birmingham, que arrecadou dinheiro para ucranianos atingidos pela guerra.
Em maio, relançou a música 2step com Taras Topolia, vocalista da Antytila, e abriu o clipe com um recado: “Estou com a Ucrânia”. Os direitos da faixa foram para ajuda humanitária, segundo a Euronews. A AP registra também que Sheeran já fez campanha contra o racismo no Reino Unido.
A régua que a comunidade negra conhece
Quando a guerra começou, estudantes africanos relataram ter sido barrados ao tentar fugir da Ucrânia. Em 28 de fevereiro de 2022, a União Africana disse que tratar africanos de forma diferente seria “chocantemente racista” e uma violação do direito internacional. O embaixador da Polônia negou discriminação.
Na mesma semana, o correspondente da CBS Charlie D’Agata descreveu uma cidade ucraniana como “relativamente civilizada, relativamente europeia”, em comparação com o Iraque e o Afeganistão. Pediu desculpas no mesmo dia.
Agora, o caso Macklemore trouxe de volta Colin Kaepernick, o jogador que em 2016 se ajoelhou durante o hino contra a violência policial e a injustiça racial e depois processou os donos da liga por se unirem para mantê-lo fora dela, num processo que terminou em acordo em 2019. No podcast MeidasTouch, ele citou o veto de Kraft a Macklemore. “Eles estão agindo em conluio abertamente”, disse. “Se você toma uma atitude com a qual eles não concordam, eles vêm atrás de você.”
Análise: quem escolhe qual dor cabe no palco
Esta parte é análise do Poder Afrikano. Nenhuma fonte atribui a Sheeran motivação racial, e a contradição não precisa dela para existir. A regra que ele invoca agora, a de que o palco não é lugar de política, não valia em 2022. A plataforma que serviu a uma guerra não serve à outra.
A solidariedade que cabe no palco costuma ser a que tem consenso entre o público branco e ocidental e não custa estádio, patrocínio nem dono de time. A neutralidade aparece quando a causa passa a ter preço. É uma escolha que a branquitude faz muitas vezes sem perceber que é escolha.
A comunidade negra conhece essa régua. É a que tratou o joelho de Kaepernick como política demais para o campo e a que apareceu nos relatos de estudantes africanos na fronteira da Ucrânia. Silêncio seletivo também é posição.
Quem decide qual dor merece voz também forma a consciência de quem assiste. Narrativa, poder e consciência estão no centro da obra de Amos Wilson, publicada pela Editora Poder Afrikano.
iFood anuncia R$ 24 bilhões para restaurantes, novas categorias e inteligência artificial. Nenhuma das quatro frentes é para os 600 mil entregadores
Entregador de aplicativo em rua residencial, em 2021. Foto: Mariaclarav.f, via Wikimedia Commons.
O iFood anunciou nesta quarta-feira, 16 de setembro, que vai investir R$ 24 bilhões no Brasil entre abril de 2026 e março de 2027, 41% a mais que os R$ 17 bilhões do ciclo anterior. O dinheiro vai para restaurantes, novas categorias, tecnologia e serviços financeiros. A empresa diz ter 600 mil entregadores parceiros, e nenhuma das quatro frentes do plano é voltada a eles.
Para onde vai o dinheiro
O anúncio foi feito pelo presidente-executivo do iFood, Diego Barreto, na abertura do iFood Move 2026, em São Paulo. As quatro frentes são o fortalecimento dos restaurantes, novas categorias como farmácias, mercados, lojas de conveniência e pet shops, tecnologia própria e soluções além do delivery, como o iFood Pago, braço financeiro da empresa.
Segundo o Estadão, R$ 10 bilhões vão para restaurantes e novas categorias e cerca de R$ 5 bilhões para o iFood Pago. Tecnologia deve receber mais de R$ 2 bilhões, incluindo o desenvolvimento de um modelo próprio de inteligência artificial feito em parceria com a Prosus, controladora da empresa.
A plataforma diz reunir 65 milhões de consumidores, 500 mil estabelecimentos e mais de 180 milhões de pedidos por mês. E 600 mil entregadores.
O que a empresa diz fazer por quem entrega
Ao Estadão, o iFood afirmou que prevê crescimento de quase 20% no volume total de renda gerada para os entregadores, "dos quais mais da metade vem de aporte direto do iFood", e que a rede de pontos de apoio nas cidades, com banheiro, bebedouro, tomada e internet, cresceu 90%.
Em junho, a empresa lançou o Minha CNH, que paga até 90% da primeira carteira de motorista de moto. São mil vagas, na Grande São Paulo e no Rio de Janeiro, para quem está ativo na plataforma há cerca de seis meses. Quem tirar a habilitação pelo programa ganha 14 dias de aluguel de moto pela Mottu, empresa parceira que também oferece condições para aluguel e compra.
Os R$ 30 bilhões do governo são para carro
Na segunda-feira, 14, o presidente Lula sancionou a prorrogação do Move Brasil Táxi e Aplicativos, linha de R$ 30 bilhões em crédito subsidiado. Ela financia veículos novos e usados para taxistas, motoristas de aplicativo e, a partir de agora, vans escolares. O teto subiu para R$ 200 mil e os juros são de 12,6% ao ano para homens e 11,5% para mulheres, segundo a Folhapress. O programa acabaria no dia 15 e agora segue até o fim dos recursos.
Para quem entrega de moto, a linha é outra: o Move Brasil Entregadores e Motoapp, anunciado pelo governo em junho e em operação desde 27 de julho. Ele financia até 100% de motos, motonetas, ciclomotores e bicicletas elétricas novas, sem entrada, em até 48 meses, com dois meses de carência e juros abaixo de 1% ao mês, menores para mulheres. É preciso ter pelo menos seis meses de cadastro numa plataforma e cem corridas ou entregas feitas.
Desde agosto, o Banco do Brasil tem parceria com o iFood para identificar entregadores elegíveis e oferecer esse financiamento. Até meados daquele mês, o banco tinha desembolsado R$ 17,1 milhões na linha, segundo a CNN Brasil.
A taxa mínima de R$ 10
A reivindicação central da categoria não é crédito, é remuneração. O Projeto de Lei 2479/2025, apresentado na Câmara pelos deputados Guilherme Boulos (PSOL-SP), Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ), Túlio Gadêlha (Rede-PE) e outros, fixa pagamento mínimo de R$ 10 por entrega de até 4 quilômetros, mais R$ 2,50 por quilômetro adicional e R$ 0,60 por minuto de espera a partir do 11º minuto. O texto também cria regras de transparência e obriga seguro contra acidentes.
Um dos defensores do projeto é JR Freitas, motoboy e candidato a deputado estadual em São Paulo pelo PSOL. Segundo o site Boca Notícias, ele integra o grupo de trabalho criado pelo governo federal para propor melhores condições para a categoria e participou da elaboração do projeto.
Análise: o investimento que não chega na rua
Esta parte é análise do Poder Afrikano. Um plano de R$ 24 bilhões diz o que a empresa considera o centro do negócio. Restaurante, mercado, farmácia e inteligência artificial aparecem com nome e cifra. O entregador aparece como número de base, 600 mil, e como beneficiário de programas com mil vagas.
Nada disso é ilegal, e a empresa aponta aumento de renda para a categoria. Mas a diferença de escala é o dado. O pedido que sai do restaurante e chega à porta passa pelas mãos de quem, no plano, não tem frente própria. A resposta para quanto vale uma corrida, por enquanto, está num projeto de lei.
Black Pantera é indicado ao Grammy Latino com Resistência! Ao Vivo no Circo Voador. "Somos uma banda preta, antirracista", diz Chaene da Gama
Black Pantera em show. Foto: Ellen Artie.
O Black Pantera, trio de Uberaba (MG), foi indicado nesta quarta-feira, 16 de setembro, ao Grammy Latino de 2026 na categoria Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa, com o disco Resistência! Ao Vivo no Circo Voador. A cerimônia é em 12 de novembro, em Las Vegas.
Os concorrentes
Na mesma categoria estão Chico Chico, com Let It Burn / Deixa Arder, Detonautas, com Rádio Love Nacional, Foto em Grupo, com o disco que leva o nome da banda, e Urias, com Carranca. A premiação acontece na MGM Grand Garden Arena, segundo a Rolling Stone Brasil.
"O nome dessa banda está lá"
O baixista Chaene da Gama comentou a indicação no Instagram da banda. "Por incrível que pareça, hoje eu não sabia o que postar na página da banda", começou. "Nós somos oriundos de Uberaba, Minas Gerais. Somos uma banda preta, antirracista, que transita sim com o orgulho entre o underground e o mainstream."
E seguiu: "Um dos maiores prêmios da música mundial, que privilegia toda a América Latina. E o nome dessa banda, forjada aqui no interior de Minas, tá lá. A gente já entrou para a história de certa forma."
Quem é o Black Pantera
A banda foi formada em 2014, em Uberaba, por Charles Gama (voz e guitarra), Chaene da Gama (baixo) e Rodrigo "Pancho" Augusto (bateria). Toca crossover thrash, mistura de thrash metal e hardcore punk, e tem o racismo e a violência policial como temas centrais das letras. O nome é uma referência ao Black Panther Party, o Partido dos Panteras Negras.
Em 2024, o álbum Perpétuo foi eleito pela Rolling Stone Brasil o segundo melhor disco nacional do ano. No último dia 5, a banda tocou no Palco Sunset do Rock in Rio, num show que o portal contou aqui.
Por que importa
Esta parte é análise do Poder Afrikano. O rock nasceu de músicos negros e foi, durante décadas, vendido ao público como gênero branco. Uma banda preta do interior de Minas, com a luta antirracista no nome e nas letras, disputando um dos principais prêmios da música latina na categoria de rock é uma devolução de lugar, e não uma exceção simpática.
Quem conta a história da música negra decide quem aparece nela. Narrativa e consciência estão no centro da obra de Amos Wilson, publicada pela Editora Poder Afrikano.
Vini Jr., Mbappé e Konaté não mostraram a frase da camisa de apoio a Ceuta que os outros jogadores vestiram antes de Elche x Real Madrid
Vinícius Júnior em Brasil x Marrocos, em junho de 2026. Foto: Bryan Berlin, via Wikimedia Commons.
Antes de Elche x Real Madrid, pela sexta rodada do Campeonato Espanhol, na terça-feira, 15 de setembro, os jogadores dos dois times entraram em campo com uma camisa branca com a frase “Todos somos caballas”, gíria para quem é de Ceuta, cidade espanhola na costa do norte da África. Três jogadores do Real Madrid, Vinícius Júnior, Kylian Mbappé e Ibrahima Konaté, usaram a camisa enrolada até o peito, com a frase ilegível, e a tiraram antes do cumprimento aos adversários. Nenhum dos três explicou o gesto. O Real Madrid venceu por 3 a 2.
A crise de Ceuta
Ceuta é um dos dois territórios espanhóis na costa norte-africana, ao lado de Melilla, e está sob posse da Espanha desde 1580. Em julho, cerca de 80 mil pessoas, a maioria vinda do Marrocos, atravessaram a fronteira da cidade, segundo a agência AP. A Reuters fala em mais de 70 mil travessias irregulares. Cerca de 140 pessoas morreram tentando chegar pelo mar. A cidade ainda tenta dar conta dos milhares de imigrantes que permanecem lá.
A crise virou o principal tema político da Espanha. Segundo a AP, a extrema direita e a oposição conservadora esperam usá-la na eleição nacional do ano que vem contra o governo de esquerda, favorável à imigração legal.
Uma camisa que não era neutra
A camisa foi feita e distribuída por uma associação de empresários da região de Valência, e a LaLiga aprovou o gesto pelo procedimento padrão para homenagens antes das partidas. Nem todos aderiram: o Barcelona decidiu não usar a camisa contra o Levante, segundo a Reuters.
Na véspera, os jogadores de Villarreal e Betis vestiram a camisa. O atacante marroquino Ez Abde, do Betis, foi atacado por torcedores do Marrocos nas redes e respondeu que não pediria desculpas por uma camisa que, segundo ele, não tinha objetivo político nem desprezo pelo povo marroquino.
A reação
Nas redes e na imprensa espanhola, uns leram o gesto dos três como solidariedade aos imigrantes; outros acusaram os jogadores de não apoiar os moradores de Ceuta. O jornalista Jorge Calabrés, do jornal El Español, escreveu estar indignado com Mbappé, Vinícius e Konaté. Houve também quem culpasse os empresários por colocar os jogadores numa posição em que precisavam tomar lado.
Um dirigente do Real Madrid disse à Reuters que o clube aceitou o pedido do Elche para a homenagem, mas respeita opiniões diferentes e deu a cada jogador liberdade para decidir se vestiria a camisa.
Quem são os três
Vinícius Júnior está há anos no centro do debate sobre racismo no futebol espanhol, alvo recorrente de ofensas racistas de torcedores adversários. Mbappé nasceu em Paris, filho de um pai que migrou de Camarões para a França e de uma mãe de origem argelina. Em junho de 2024, antes das eleições legislativas francesas, ele disse que “os extremos estão batendo às portas do poder” e pediu aos jovens que votassem contra os extremos, quando o Reunião Nacional, partido de extrema direita, liderava as pesquisas. Jordan Bardella, líder do partido, respondeu que atletas multimilionários não deveriam dar lições a quem não consegue pagar as contas.
Escolher o que se veste também é consciência. Como essa consciência é formada, e deformada, é o tema de A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, no catálogo da Editora Poder Afrikano.
Dark Horse está pronto e registrado na Ancine, mas não tem data de estreia. O relatório da Polícia Civil de SP fala em desvio do contrato de R$ 108 milhões do WiFi Livre SP
Sala de cinema vazia. Foto: A.Savin, via Wikimedia Commons.
O filme existe. Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro, foi rodado, finalizado e registrado na Agência Nacional do Cinema (Ancine) em 7 de agosto: ficção, 1 hora e 40 minutos, título brasileiro O Azarão. O que não existe é data de estreia. Enquanto o lançamento não vem, o dinheiro que pagou a produção virou objeto de um relatório da Polícia Civil de São Paulo que fala em desvio de recursos de um contrato de R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo.
A estreia que nunca chega
Em abril, o ator Jim Caviezel, que faz Bolsonaro no filme, anunciou nas redes sociais que o lançamento seria em 11 de setembro. A data nunca foi confirmada para o mercado brasileiro. Em agosto, a Europa Filmes, que assumiu a distribuição, adiou o lançamento para depois das eleições. "Não seria estratégico colocar o filme em cartaz durante a campanha eleitoral", disse o diretor-geral da empresa, Wilson Feitosa, segundo o Papo de Cinema.
Depois disso, um cartaz anunciando pré-estreia em 30 de setembro circulou nas redes sociais. É falso. "Nunca demos data de lançamento", afirmou Feitosa ao UOL, acrescentando que o material "não foi produzido pela distribuidora" e que não existe possibilidade de venda antecipada de ingressos.
O filme tem direção de Cyrus Nowrasteh e argumento de Mario Frias, ex-secretário especial da Cultura no governo Bolsonaro, que também assina como produtor executivo. Caviezel é conhecido por ter interpretado Jesus em A Paixão de Cristo.
O contrato de R$ 108 milhões
O Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama, tem contrato com a Prefeitura de São Paulo pelo programa WiFi Livre SP, que leva internet gratuita a espaços públicos da cidade. O valor é de R$ 108 milhões, segundo o Poder360. Karina Gama também é sócia da Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse. É esse duplo papel que a investigação examina.
Os números da comparação estão no relatório, segundo o Poder360: o instituto cobrava R$ 1.800 por ponto de internet instalado. A Prodam, empresa pública de tecnologia da prefeitura, cobra R$ 230 pela instalação e R$ 306 por mês de manutenção.
O Jornal GGN, que acompanha o caso, descreve uma cadeia de subcontratações a partir do instituto: R$ 12 milhões para a Favela Conectada Serviço e Tecnologia, depois renomeada Urban Connect, R$ 8,55 milhões para a Ultra IP Tecnologia e R$ 6,17 milhões para a Academia Nacional de Cultura, além de contratos com as empresas Complexsys e Make One. O programa soma cerca de 3.200 pontos de wi-fi instalados.
O que diz o relatório
O documento da Polícia Civil de São Paulo foi tornado público pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, no dia 13 de setembro. Ele aponta "consistentes suspeitas" de "confusão patrimonial" e sustenta que "recursos públicos do programa WiFi Livre SP tenham sido desviados para custear as atividades de produção do referido filme". O relatório fala ainda em "subcontratações suspeitas com empresas parceiras para escoamento do dinheiro público".
As palavras desvio e lavagem, aqui, são do relatório policial, e não do Poder Afrikano. Nada foi julgado.
A perícia que recusou 27 aparelhos
Em 1º de junho, buscas em residências e empresas ligadas ao ICB e à Go Up apreenderam equipamentos. Vinte e sete deles, 13 pendrives, 9 notebooks e 5 celulares, foram recusados pelo Instituto de Criminalística de São Paulo por falha no lacre, segundo a Folhapress.
Em 2 de junho, quatro guias foram devolvidas porque os pacotes tinham "aberturas grandes o suficiente para permitir a retirada das peças". No dia 3, outros 13 lotes voltaram porque "o invólucro foi tracionado de forma inadequada na origem", criando um vão livre considerável. Em resumo: dava para chegar aos dados sem romper o selo.
A falha não travou a apuração. Depois que a Polícia Civil corrigiu o acondicionamento, os aparelhos foram reenviados ao Instituto de Criminalística e submetidos à extração de dados.
Os 49 mandados
Em 10 de setembro, a Polícia Federal cumpriu 49 mandados de busca e apreensão, sem prisões. Entre os alvos estavam Mario Frias e Karina Gama. A apuração trata de uso irregular de emendas parlamentares, contratos simulados e movimentações financeiras. Frias foi alvo de busca, e não de prisão.
O plano de negócios do filme previa investimento de US$ 24 milhões e bilheteria potencial de até US$ 100 milhões, segundo o Papo de Cinema. Documentos da Polícia Federal indicam ainda que Flávio Bolsonaro pediu R$ 131 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para a produção, e que R$ 60 milhões teriam sido pagos. São valores que aparecem em documentos citados pela imprensa, e não confirmados em juízo.
O outro lado
A defesa de Karina Gama nega qualquer ilícito, diz considerar positiva a transparência e afirma ter entregado voluntariamente mais de 20 mil páginas de documentação. "Investigação não é acusação, muito menos, condenação", diz a nota, que pede análise técnica sem contaminação por disputas políticas.
A Go Up afirma nunca ter recebido "um único centavo" de Daniel Vorcaro. Flávio Bolsonaro confirma que procurou o banqueiro e nega ligação com as acusações.
Análise: quem paga a versão decide o que será lembrado
Esta parte é análise do Poder Afrikano. Um filme é um documento sobre como um país escolhe se contar. O pensador Amos Wilson tratava a narrativa histórica como instrumento de poder, e não como registro neutro do passado: quem controla o relato controla a consciência que um povo tem de si.
Dark Horse é uma biografia encomendada, escrita a partir do texto de um ex-secretário do próprio governo retratado, com financiamento sob investigação. Nada nas fontes liga o filme a questões raciais, e esta análise não faz essa ligação. O ponto é o mecanismo: no Brasil, a mesma lógica escolheu por muito tempo quais heróis a escola ensinaria e deixou de fora os nomes negros. Por isso a pergunta sobre quem pagou, e com que dinheiro, não é secundária. É a pergunta principal.
Quem financia a versão oficial de um país decide o que será lembrado dele. Narrativa, poder e consciência estão no centro da obra de Amos Wilson, publicada pela Editora Poder Afrikano.
Conceição Evaristo conta a própria trajetória em Homo Brasilis, que estreia na TV nesta quinta, 17, no canal Curta!
Conceição Evaristo em cena do episódio da série Homo Brasilis dedicado a ela. Foto: Divulgação/Curta!.
O episódio da série documental Homo Brasilis dedicado a Conceição Evaristo estreia na televisão nesta quinta-feira, 17 de setembro, às 21h30, no canal Curta!. Nele, a escritora conta a própria história: a infância na favela do Pindura Saia, em Belo Horizonte, o trabalho como empregada doméstica, a chegada ao Rio de Janeiro e o conceito que ela deu à literatura brasileira, a escrevivência.
Romper com o espaço predestinado
"Eu sempre fui muito de romper com o espaço predestinado para mim", diz ela na série, em trecho reproduzido pelo site Notícia Preta. A frase resume uma trajetória que começou longe das estantes. Conceição nasceu em 1946, em Belo Horizonte, e viveu a infância e parte da juventude no Pindura Saia. Trabalhou como empregada doméstica até 1971, ano em que terminou o ensino secundário e em que a prefeitura removeu a favela onde morava. No lugar, hoje, funciona um mercado.
Em 1973 ela se fixou no Rio de Janeiro. Foi lá que se aproximou do movimento negro e dos Cadernos Negros, a série de publicações que desde os anos 1970 reúne autoras e autores negros brasileiros. O primeiro romance, Ponciá Vicêncio, saiu em 2003.
O que é escrevivência
A escrevivência, palavra que ela cunhou, não é escrever sobre si. É escrever a partir de uma vivência que é coletiva: a memória afro-brasileira, a experiência de quem foi apagado do registro oficial. Na série, Conceição conta que uma de suas personagens, Juventina, chegou até ela com corpo, fala e tom antes de virar texto.
Treze nomes, um país
Homo Brasilis é uma série documental da produtora Giros. Este episódio, de 2023, integra a segunda temporada, tem 26 minutos e é dirigido por Bianca Lenti e Guilherme Fernandez. A série reúne treze nomes da cultura brasileira, entre eles Lenine, Tom Zé, Joel Zito, Daniel Munduruku e Zélia Duncan.
Vale a ressalva: o episódio não é inédito. Ele estreia agora na televisão e, segundo a divulgação do canal, a temporada também está disponível no CurtaOn.
Onde ver
A estreia na TV é nesta quinta-feira, 17 de setembro, às 21h30, no canal Curta!. Na madrugada de sexta, 18, o episódio reprisa à 1h30.
Kevin Viveros, artilheiro do Brasileirão, postou uma foto com a família e recebeu emojis de macaco. A polícia do Paraná já identificou o autor
Kevin Viveros em 2017, ainda nas categorias de base na Colômbia. Foto: Ronald 2001, via Wikimedia Commons.
O atacante colombiano Kevin Viveros, do Athletico Paranaense e líder da artilharia do Campeonato Brasileiro, publicou no domingo, 13 de setembro, uma foto ao lado da esposa e dos dois filhos. Nos comentários, um perfil deixou emojis de macaco. A Delegacia Móvel de Atendimento a Futebol e Eventos do Paraná, a Demafe, já identificou o autor, morador de Matinhos, no litoral do estado.
O post, os comentários e o perfil apagado
O ataque aconteceu dois dias depois do Athletiba, disputado na sexta-feira, 11, no Couto Pereira, em Curitiba, pela 27ª rodada do Brasileirão. A partida terminou 3 a 3. Viveros marcou de pênalti o terceiro gol do Athletico, chegou a 18 gols no campeonato e manteve a liderança da artilharia. O gol também o fez superar Luis Suárez na lista de estrangeiros com mais gols em uma temporada de estreia no Brasileirão, segundo o Notícia Preta.
O perfil usado para escrever o comentário foi apagado depois que as denúncias começaram a circular. A associação do responsável com a torcida do Coritiba foi feita por páginas e internautas que acompanharam o caso nas redes, e não pelas autoridades.
O que diz a polícia
Segundo o delegado Luiz Carlos de Oliveira, da Demafe, ouvido pelo ge, a polícia aguarda uma definição de Viveros sobre uma eventual denúncia formal. Independentemente dessa decisão, a ocorrência será registrada e encaminhada ao Ministério Público. "Casos como esse não podem ser normalizados", afirmou o delegado.
A nota do Athletico
O clube se manifestou na segunda-feira, 14. Em nota, disse repudiar "com veemência" os atos de racismo dirigidos ao atleta e informou que adotará todas as medidas cabíveis e acompanhará de perto as investigações. O texto afirma ainda solidariedade ao jogador e à família, com apoio e assistência.
O trecho final da nota é o que interessa guardar: "Racismo é crime. Não é provocação, não é brincadeira e não é rivalidade. É uma conduta inaceitável que não pode ser tolerada sob nenhuma circunstância, seja na internet, nos estádios ou em qualquer outro ambiente da sociedade."
O que a lei prevê
Desde 11 de janeiro de 2023, quando foi sancionada a Lei 14.532, a injúria racial é tratada como crime de racismo, com pena de 2 a 5 anos de reclusão e multa. Esta matéria não afirma qual crime será imputado ao autor identificado: essa definição cabe às autoridades.
Por que isso não é caso isolado
Esta parte é análise do Poder Afrikano. O que separa este episódio de tantos outros é o alvo escolhido. Não foi a jogada, não foi o pênalti, não foi o resultado. Foi uma foto de família. O ataque não mirou o atleta em campo, mirou o homem com a mulher e os filhos, fora do jogo, onde a desculpa da rivalidade não se sustenta nem por um segundo.
É por isso que a frase da nota do clube importa: rivalidade é uma coisa, racismo é outra, e a confusão entre as duas é justamente o que garante a impunidade. Enquanto o crime for tratado como excesso de torcedor, ele continua barato.
Na origem, denegrir é tornar negro. Luana Génot reúne 64 crônicas em Denegrindo Ela e devolve à palavra o sentido que o preconceito roubou
Luana Génot no Fórum Econômico Mundial de 2023, em Davos. Foto: World Economic Forum e Boris Baldinger, via Wikimedia Commons.
Denegrindo Ela, quarto livro de Luana Génot, sai pela Astral Cultural e reúne 64 crônicas escritas ao longo de sete anos na revista Ela, do jornal O Globo. O título não é provocação gratuita: no dicionário, antes de significar manchar a reputação de alguém, denegrir quer dizer tornar escuro. É esse sentido que o livro resgata, e dessa vez como elogio.
A palavra e o que fizeram com ela
O verbo vem do latim denigrare. No dicionário Michaelis, denegrir aparece como variante de denigrir, formada de de mais negro mais ir, e o primeiro sentido registrado é ficar ou fazer ficar escuro. Manchar a reputação vem depois, marcado como sentido figurado.
Foi o figurado que virou ofensa corriqueira, a ponto de o sentido original sumir do uso. O livro faz o caminho de volta. "Denegrir pensamentos, para mim, é criar nuances. É olhar de novo para aquilo que parecia óbvio, questionar, deslocar, ressignificar", escreveu a autora ao anunciar o lançamento.
Em outro trecho, ela explica por que a palavra importa: "O negro nunca foi uma coisa só. Tem profundidade, tonalidades, contradições, beleza, sombra e luz."
Sete anos de crônica
As 64 crônicas saíram na revista Ela, onde Génot foi a primeira cronista negra, segundo o Mundo Negro. Os textos tratam de afeto, maternidade, carreira, identidade, medo, amor e pertencimento. Não são artigos sobre desigualdade racial escritos de fora: são a vida cotidiana narrada por quem a vive.
Na ficha do Fórum Econômico Mundial de 2023, Génot aparece como diretora-executiva do Instituto Identidades do Brasil. Antes deste livro, publicou Sim à Igualdade Racial (2019), finalista do Prêmio Jabuti, Mais Forte: Entre Lutas e Conquistas (2021) e um título infantil pela HarperKids, em 2022.
A linhagem: Neusa Santos Souza
Génot credita o movimento de ressignificação a quem veio antes dela, em especial à psiquiatra e psicanalista baiana Neusa Santos Souza, nascida em 1951, autora de Tornar-se negro, de 1983. O título do livro de Neusa e o título do livro de Luana dizem, em dois tempos e com quarenta e três anos de distância, a mesma coisa: tornar-se negro não é um destino imposto, é um processo assumido.
Onde e quando
O primeiro lançamento é nesta quinta-feira, 17 de setembro, na Livraria da Vila, em São Paulo. O segundo é em 24 de setembro, na Livraria da Travessa de Botafogo, no Rio de Janeiro.
Devolver sentido às palavras é parte de devolver a um povo a narrativa sobre si mesmo. É disso que trata a obra de Amos Wilson, publicada pela Editora Poder Afrikano.
Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul ocupa a Cinelândia de 21 a 25 de setembro, com virada gratuita que termina num filme às 4h e café coletivo ao amanhecer
O Cine Odeon, na Cinelândia, durante o Festival do Rio de 2025. Foto: Claudio Andrade/Festival do Rio, via Wikimedia Commons.
O 19º Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul ocupa a Cinelândia, no Centro do Rio de Janeiro, de 21 a 25 de setembro. Na madrugada de 24 para 25, a praça recebe uma virada cultural com entrada gratuita, que termina numa sessão de cinema das 4h às 5h e num café da manhã coletivo ao amanhecer. Realizado pelo Centro AfroCarioca de Cinema, o Encontro integra a programação da Semana de Arte do Rio.
Da madrugada ao café
Segundo a programação divulgada pela organização ao site Mundo Negro, a virada reúne DJs, MCs, apresentações musicais e intervenções com bailarinos, atrizes e músicos, ao ar livre, na Banca do André. A noite segue até a última sessão de cinema. Depois dela vem o café da manhã coletivo na Praça da Cinelândia, ao amanhecer. As atividades ao ar livre na praça têm entrada gratuita.
O horário de início da virada não foi divulgado. Só o fim está marcado: a sessão das 4h às 5h do dia 25.
O quadrilátero do cinema negro
A programação se concentra no que a organização chama de Quadrilátero do Cinema Negro: o Cine Odeon, o Centro Cultural da Justiça Federal, a Banca do André e o Salão Assyrius, no Theatro Municipal, que recebe o Encontro pela primeira vez. A abertura, no dia 21, tem avant-première no Salão Assyrius e cerimônia no Odeon, com acesso restrito a convidados.
Nos dias seguintes, há sessões, debates, rodas de conversa e atividades formativas no Odeon e no Centro Cultural da Justiça Federal. No Odeon, as sessões de 22 e 23 têm ingresso gratuito, com retirada no Sympla, um por pessoa. No dia 22, às 15h, passa Olhos D’Alma, curta de 11 minutos dirigido por Zózimo Bulbul. Às 19h, é a vez de Cadernos Negros, de Joel Zito de Araújo, e às 21h, de O Dia de Jerusa, de Viviane Ferreira.
Quem foi Zózimo Bulbul
A data de abertura foi escolhida para marcar o nascimento de Zózimo Bulbul, nome artístico de Jorge da Silva, nascido no Rio em 21 de setembro de 1937. Ator, cineasta, produtor e roteirista, ele estreou como diretor com o curta em preto e branco Alma no Olho e morreu em 24 de janeiro de 2013.
Segundo a organização, citada pela Alma Preta, Zózimo criou o Encontro como um espaço de reunião entre realizadores negros de diferentes continentes. Rejeitou o modelo competitivo de festival e priorizou a troca e a circulação de filmes. A organização apresenta o evento, hoje, como a maior janela de exibição dedicada a realizadores negros da América Latina. O Centro AfroCarioca de Cinema trata a 19ª edição como um rito de passagem rumo aos 20 anos do Encontro, em 2027, ano em que Zózimo completaria 90 anos.
Clara Moneke e Hilton Cobra
Os homenageados brasileiros da edição são a atriz Clara Moneke e o ator e diretor Hilton Cobra. Clara Moneke, nascida em São Paulo em 1998, ficou conhecida como a Kate de Vai na Fé, de 2023, e viveu a Leona em Dona de Mim, sua primeira protagonista em novelas, na TV Globo.
Hilton Cobra, nascido em Feira de Santana, na Bahia, criou em 2001, no Rio, a Cia dos Comuns, para ampliar a presença de artistas negros no teatro brasileiro contemporâneo. Em 2013, foi nomeado presidente da Fundação Cultural Palmares.
Do Mali, do Senegal e de Cabo Verde
O homenageado internacional é o cineasta malinês Cheick Oumar Sissoko, nascido em 1945 em San, no então Sudão Francês. Ele dirigiu Guimba, un tyran, une époque, de 1995, e foi nomeado ministro da Cultura do Mali em outubro de 2002. Sissoko também esteve na 18ª edição do Encontro, realizada em abril deste ano.
A programação internacional traz ainda o diretor senegalês Yoro Mbaye, com Ndar, a Saga de Waalo, e o cabo-verdiano Nuno Boaventura Miranda, com A Última Colheita. Dia e horário dessas exibições não foram divulgados nas fontes consultadas.
Contar a própria história com as próprias imagens também é consciência, e consciência, cultura e poder estão no centro da obra de Amos Wilson, no catálogo da Editora Poder Afrikano.
Andréia de Jesus e Ana Elisa Santos Silva, candidatas negras em Minas Gerais, são ameaçadas de morte com ofensas racistas e cobram proteção
A deputada estadual Andréia de Jesus numa audiência no Senado, em 2022. Foto: Geraldo Magela/Agência Senado, via Wikimedia Commons.
Duas candidatas negras do Partido dos Trabalhadores (PT) em Minas Gerais denunciaram em setembro ameaças de morte com ofensas racistas. A deputada estadual Andréia de Jesus, que disputa a reeleição, recebeu por email uma mensagem que expõe dados pessoais dela e da família. Ana Elisa Santos Silva, candidata a deputada federal na primeira eleição, registrou boletim de ocorrência e diz que não tem medida protetiva. As duas se declaram pretas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Um email com os dados da família
Andréia de Jesus denunciou na sexta-feira, 11 de setembro, uma nova ameaça de morte, segundo o site Alma Preta. A mensagem, enviada por email, traz ameaças diretas contra a deputada, ofensas racistas e ameaça de violência física. O autor descreve “com detalhes dados pessoais da deputada e de seus familiares, como telefones, endereços e registros gerais”, relata o Alma Preta.
Ela acionou os órgãos competentes e cobrou uma investigação urgente para identificar e responsabilizar o autor. A reportagem não informa quais órgãos foram acionados nem se houve boletim de ocorrência. A deputada afirma que o episódio se soma a mais de 4 mil ameaças recebidas em oito anos de mandato.
“Não vão conseguir”
“Em 2022, tentaram fazer a mesma coisa: me intimidar, me ameaçar e me tirar da política. Não vão conseguir. Eu não vou me calar e não vão retirar uma mulher preta da política pela força da violência”, afirmou Andréia, segundo o Alma Preta.
Para ela, o recado vai além do próprio mandato. “Não estamos falando apenas de uma ameaça contra mim. Estamos falando de uma mensagem para todas as mulheres negras que ousam ocupar a política: vocês não são bem-vindas aqui. E é justamente por isso que a resposta das instituições precisa ser firme. Quem ameaça precisa ser investigado e responsabilizado.”
Primeira eleição, sem medida protetiva
Também no início de setembro, Ana Elisa Santos Silva recebeu mensagens com linguagem de ódio racial e ameaças explícitas de morte e de violência sexual, segundo o Alma Preta. O autor se apresentou como integrante de um grupo supremacista branco, citou dados pessoais da candidata e ameaçou os familiares dela. As mensagens citavam grupos extremistas como a Ku Klux Klan.
Ana Elisa registrou boletim de ocorrência na 142ª Companhia da Polícia Militar (PM), e o caso foi registrado como ameaça e injúria racial. Segundo a Agência Pública, também levou o caso ao Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG).
Mesmo assim, diz que continua insegura. “Eu fui ameaçada de morte, não tenho segurança, não tenho medida protetiva, não tenho absolutamente nada e não tenho dinheiro”, disse à Pública. Ela considera que as ameaças, a ela e a outras candidatas mineiras, fazem parte de um ataque coordenado para enfraquecer candidaturas progressistas no estado. Nenhuma das reportagens consultadas liga as ameaças entre si ou identifica os autores.
Não são só elas
A deputada estadual Bella Gonçalves (PT), candidata a deputada federal, alertou ter recebido ameaças de morte e estupro nos primeiros dias de setembro, segundo a Pública. As mensagens, diz ela, se parecem com as que recebeu em 2024 e trazem informações de caráter privado. “É uma violência sem rosto”, afirmou. Ela pediu providências à Polícia Legislativa da Assembleia Legislativa de Minas Gerais e à Justiça Eleitoral.
A deputada federal Duda Salabert, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), candidata à reeleição, denunciou em 4 de setembro ter sido agredida na noite anterior, quando fiscalizava uma denúncia de extração ilegal de minério na divisa de Belo Horizonte com Nova Lima. Ela classifica o episódio como tentativa de homicídio. Segundo o jornal O Tempo, citado pela CartaCapital, o boletim de ocorrência registra o caso como lesão corporal. Em nota publicada pelo Poder360, a Polícia Civil informou que instaurou procedimento para investigar os fatos.
Nas reportagens, os casos de Bella e Duda não são descritos como racistas.
A lei tem cinco anos
A violência política contra a mulher ganhou uma lei específica em 2021, a Lei 14.192, e é crime eleitoral. Para Bella Gonçalves, órgãos que deveriam amparar as vítimas, como a Justiça Eleitoral e a Polícia Federal, não estão preparados para o problema, e as candidatas que entram na política “seguem muito desprotegidas para enfrentar a violência política de gênero”.
Nas reportagens consultadas não há manifestação da Polícia Civil, da PM nem do TRE-MG sobre os casos de Andréia de Jesus e Ana Elisa Santos Silva.
Quem ameaça uma mulher preta para tirá-la da política está disputando poder. Raça e poder estão no centro da obra de Amos Wilson, publicada pela Editora Poder Afrikano.
Piu bate o campeão olímpico Rai Benjamin e vence o primeiro Mundial Ultimate, 17 dias depois de quebrar o recorde mundial dos 400 m com barreiras
Piu na noite do recorde mundial, em Zurique, em 27 de agosto, 17 dias antes da vitória em Budapeste. Foto: Quejaytee, via Wikimedia Commons.
Alison dos Santos, o Piu, venceu os 400 m com barreiras da primeira edição do Mundial de Atletismo Ultimate, em Budapeste, na Hungria, no domingo (13), com 45s98. O americano Rai Benjamin, campeão olímpico e mundial, chegou em segundo, com 46s40, e o norueguês Karsten Warholm, em terceiro, com 46s78. Foi 17 dias depois de o brasileiro bater o recorde mundial da prova, com 45s80, em Zurique.
Ombro a ombro até a reta final
Segundo a World Athletics, a federação internacional de atletismo, a final reuniu os três homens mais rápidos da história da prova. Os três passaram juntos pelas primeiras barreiras. A partir da terceira, Piu e Benjamin se descolaram, e a corrida virou um duelo.
Os dois entraram na reta ombro a ombro, Benjamin na raia 6 e Piu na raia 7. Na última barreira, o brasileiro já tinha uma passada de vantagem, e ainda aumentou a diferença até a linha de chegada. O brasileiro Matheus Lima terminou em sétimo, com 48s67, segundo a Agência Brasil.
Os 45s98 são a terceira melhor marca da história. Só o próprio recorde de Piu e os 45s94 de Warholm nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021, foram mais rápidos. Com eles, Piu virou o único homem a correr os 400 m com barreiras abaixo de 46 segundos mais de uma vez, segundo a World Athletics, que contou a vitória como o segundo título global da carreira dele. O primeiro foi o Mundial de Eugene, nos Estados Unidos, em 2022.
À World Athletics, Piu contou que abriu o aplicativo da entidade e viu uma publicação que lhe dava algo como 95% de chance de vencer. “Pensei: uau, é bem alto. Então só quis ir lá e correr o mais rápido que pudesse”, disse, em tradução livre. “Correr rápido é importante, mas vencer é mais importante.” Em declaração reproduzida pela Agência Brasil, completou: “Corri rápido, tive ótimos resultados e queria terminar a temporada lá no alto.”
O campeão olímpico e mundial
Benjamin é o campeão olímpico de Paris 2024 e o campeão mundial de Tóquio 2025. Piu esteve nos dois pódios: foi bronze em Paris, atrás de Benjamin e Warholm, e prata no Mundial do ano passado, também atrás do americano.
Budapeste foi o primeiro confronto dos dois em 2026, segundo a Agência Brasil. Depois de Paris, Benjamin passou a se dedicar mais aos 400 m rasos, e a final de domingo foi só a terceira prova com barreiras dele na temporada, informou a World Athletics. Foi a quarta corrida dele em três dias.
O recorde de Zurique
O recorde veio em 27 de agosto, uma quinta-feira, no Weltklasse, em Zurique, na Suíça, a última etapa da fase regular da Diamond League deste ano. Com Warholm na pista, Piu cruzou a linha em 45s80, 14 centésimos abaixo do recorde que o norueguês tinha feito em Tóquio. Warholm chegou em segundo, com 46s69.
“Espero que o Brasil tenha parado para assistir”, disse Piu naquela noite, também à World Athletics e em tradução livre.
Uma temporada sem derrota
Piu chegou a Budapeste invicto em 2026, segundo a Agência Brasil. Venceu todas as etapas da Diamond League que disputou nos 400 m com barreiras e só não correu a de Londres, em julho. Depois de Zurique, ganhou a final do circuito, em Bruxelas, na Bélgica, com 46s70, recorde da competição em Bruxelas, que durava desde 1986, segundo o FloTrack. Foi o terceiro título da Diamond League da carreira dele, depois de 2022 e 2024. No Brasil, venceu o Troféu Brasil com 46s48, recorde do torneio, informou a Agência Brasil.
O Mundial Ultimate, que estreou neste ano, será disputado a cada dois anos e reúne a elite da modalidade, segundo a Agência Brasil. Piu tem 26 anos e nasceu em São Joaquim da Barra, no interior de São Paulo. Além do título mundial de 2022, tem dois bronzes olímpicos, em Tóquio e em Paris.
Um brasileiro no topo de uma prova que, até agosto, tinha outro dono: é assim que se constrói referência. Identidade, poder e consciência estão no centro da obra de Amos Wilson, publicada pela Editora Poder Afrikano.
Trabalhadoras domésticas de 90 e 65 anos são resgatadas de trabalho análogo à escravidão em Belo Horizonte depois de décadas servindo à mesma família
Um dos cômodos da casa em Belo Horizonte, em foto da fiscalização. Foto: Divulgação/MPT-MG.
Duas trabalhadoras domésticas negras, de 90 e 65 anos, foram resgatadas de condição análoga à escravidão numa casa de região nobre de Belo Horizonte. A mais velha trabalhava para a mesma família havia 75 anos; a outra morava na casa desde os 5 anos. O caso entrou na Operação Resgate 6, que em agosto retirou 479 pessoas dessa condição em todo o país, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
De uma geração para outra
Segundo a fiscalização, citada pela Repórter Brasil, as duas foram “transferidas de uma geração para outra de empregadores”. Limpavam a casa, faziam as compras e preparavam as refeições, sem descanso nem aos domingos, sem direitos trabalhistas e com restrições à vida social. Nenhuma das duas chegou à quinta série do ensino fundamental, e elas também não tiveram garantidos direitos patrimoniais e sucessórios.
A raça das trabalhadoras é informada pela Repórter Brasil. A nota do MTE e o material da Superintendência Regional do Trabalho em Minas Gerais não trazem esse dado.
Quartos sem janela
O Ministério Público do Trabalho (MPT) em Minas Gerais informou que as duas dormiam em quartos sem janela, numa dependência com mofo, e que os benefícios sociais delas eram geridos pelo filho da dona da casa, segundo a Folha de S.Paulo. A investigação começou em março, a partir de uma denúncia anônima.
No dia 3 de setembro, o MPT acionou as Defensorias Públicas do Estado e da União, segundo o Metrópoles. Os custos das indenizações estão sendo levantados pela Superintendência Regional do Trabalho e serão encaminhados à Justiça, informou o Estado de Minas. A família empregadora não foi identificada.
“É inadmissível que em 2026 a gente ainda conviva com essa prática”, disse Carlos Calazans, superintendente do Trabalho em Minas Gerais, ao portal BHAZ.
“A patroa”
Os patrões tentaram convencer as autoridades de que as duas eram membros da família. A fiscalização concluiu que elas prestavam serviços. Depois do resgate, as trabalhadoras foram encaminhadas a uma instituição governamental de acolhimento para mulheres vítimas de violência.
Segundo a Repórter Brasil, elas ainda se referem à antiga empregadora como “a patroa”. Uma delas insistia em lavar a louça e ajudar na limpeza no local de acolhimento.
479 resgatados em um mês
A Operação Resgate 6 foi coordenada pelo MTE, por meio da Secretaria de Inspeção do Trabalho, com o MPT, o Ministério Público Federal, a Polícia Federal e a Defensoria Pública da União. Foram 231 ações de fiscalização em 19 unidades da federação entre 1º e 31 de agosto. Minas Gerais teve o maior número de resgatados, 208.
No trabalho doméstico, 14 empregadores foram fiscalizados e 9 trabalhadoras, resgatadas. Desde maio de 1995, quando o país criou o sistema de fiscalização, o Brasil soma 70.271 pessoas resgatadas da escravidão, segundo dado da Inspeção do Trabalho obtido pela Repórter Brasil.
Chamar de família quem trabalha sem salário é uma herança que atravessa gerações dentro das mesmas casas. Poder, trabalho e consciência estão no centro da obra de Amos Wilson, publicada pela Editora Poder Afrikano.
Candidato do PL ao governo de Minas, Flávio Roscoe recebeu R$ 900 mil de ex-controlador de banco liquidado que é réu por gestão fraudulenta
Flávio Roscoe, candidato do PL ao governo de Minas Gerais. Foto: Divulgação/Fiemg.
Flávio Roscoe, candidato do Partido Liberal (PL) ao governo de Minas Gerais e apoiado pelo senador Flávio Bolsonaro e pelo deputado federal Nikolas Ferreira, recebeu R$ 900 mil de Carlos Geo Quick, ex-controlador do Banco Neon, liquidado pelo Banco Central em 2018. Quick é réu na Justiça Federal por crimes contra o sistema financeiro. A doação foi revelada pelo Intercept Brasil e aparece na prestação de contas do candidato ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A doação
Na prestação de contas de Roscoe no TSE, Quick aparece com duas transferências eletrônicas: R$ 380 mil em 20 de agosto e R$ 520 mil em 26 de agosto. É o maior doador pessoa física da campanha, com 8,23% do total arrecadado. À frente dele estão só as direções nacional e estadual do PL.
A assessoria de Roscoe disse ao Intercept que “a doação foi realizada diretamente ao partido, de forma legal, transparente e devidamente declarada pelo doador”, e que a relação com Quick “decorre exclusivamente do convívio no meio empresarial de Minas Gerais”. No sistema do TSE, as duas parcelas estão registradas na conta do próprio candidato.
Quem é Carlos Geo Quick
Quick foi um dos controladores do Banco Neon, o antigo Banco Pottencial, de Belo Horizonte, liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central em maio de 2018. O Banco Neon não é a fintech Neon Pagamentos, que era parceira operacional do banco e seguiu funcionando, segundo o Brazil Journal.
Em março de 2025, o Ministério Público Federal (MPF) denunciou Quick por crimes contra o sistema financeiro nacional, entre eles gestão fraudulenta. No fim de abril, a Justiça Federal em Belo Horizonte aceitou a denúncia. Segundo a acusação, quando uma empresa pedia de volta o dinheiro aplicado numa firma do grupo, os controladores simulavam um empréstimo no banco no mesmo valor, e quem queria resgatar passava a constar como devedor de uma dívida inventada. A defesa de Quick disse ao Intercept que ele “não tem relação comercial com o candidato Flávio Roscoe”, que doou “por acreditar nas suas propostas” e que não vai se manifestar sobre as acusações. Doação declarada não é crime, e réu não é condenado.
O candidato
Roscoe presidiu a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) de 2018 até abril deste ano, segundo o Metrópoles, e se filiou ao PL em março. A candidatura foi anunciada em vídeo pelo senador Flávio Bolsonaro, informou O Fator. Na quarta-feira, 9, Roscoe, Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira fizeram motociata e comício em Juiz de Fora. Procurados pelo Intercept, Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira não responderam.
Quem financia uma campanha ajuda a decidir quem governa. Poder e consciência estão no centro da obra de Amos Wilson, publicada pela Editora Poder Afrikano.
Joaquim Barbosa e mais 12 ministros aposentados pedem a Fachin apuração urgente da crise no STF; plenário se reúne na terça
Joaquim Barbosa no plenário do STF, em 2012. Foto: José Cruz/Agência Brasil.
Treze ministros aposentados do Supremo Tribunal Federal (STF), entre eles Joaquim Barbosa, o primeiro ministro negro a presidir a Corte, enviaram ao presidente do tribunal, Edson Fachin, uma carta em que pedem uma sessão pública “com toda a urgência” para que o plenário determine “imediata e rigorosa apuração” dos “gravíssimos fatos” que abalam o tribunal. O plenário se reúne na terça-feira (15), às 10h, para decidir se abre investigação contra o ministro Alexandre de Moraes.
O que diz a carta
A carta foi divulgada em 7 de setembro e tem um parágrafo. Os signatários dizem ter “plena confiança na seriedade, discernimento e firmeza” de Fachin “na condução dessa Suprema Corte, na mais aguda crise de sua história”, e a “absoluta convicção de que designará, com toda a urgência, sessão pública para que o Tribunal Pleno determine imediata e rigorosa apuração, sob o devido processo legal, dos gravíssimos fatos cuja divulgação vem comprometendo o prestígio e a autoridade desse Tribunal, a confiança do povo e até mesmo a estabilidade das instituições democráticas”.
Assinam Néri da Silveira, Francisco Rezek, Sydney Sanches, Celso de Mello, Carlos Velloso, Ilmar Galvão, Nelson Jobim, Ellen Gracie, Cezar Peluso, Ayres Britto, Joaquim Barbosa, Eros Grau e Rosa Weber, como ministros aposentados e ex-presidentes. O texto não cita nomes, casos nem pedidos de afastamento. A ligação com as mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro é leitura da imprensa, não da carta.
O que aconteceu depois
No dia 9, Fachin convocou sessão extraordinária do plenário para terça-feira, 15, às 10h, para discutir a abertura de investigação contra Moraes com base num relatório preliminar da Polícia Federal sobre as mensagens de Vorcaro, segundo O Tempo e o Metrópoles. No sábado, 12, Fachin assumiu a relatoria do caso das conversas entre Moraes e Vorcaro, que estava com o ministro André Mendonça, e suspendeu os inquéritos do caso Master e do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), informou o Poder360. O plenário também deve decidir, em 23 de setembro, sobre o caso de Mendonça.
Parte dos signatários vai acompanhar a sessão de terça da primeira fila do plenário, segundo a CNN Brasil: Ellen Gracie, Carlos Velloso, Nelson Jobim e Ayres Britto estavam confirmados até sábado.
Quem é Joaquim Barbosa
Joaquim Barbosa tomou posse no STF em 25 de junho de 2003, indicado pelo presidente Lula, e foi o relator da Ação Penal 470, o mensalão. Em 22 de novembro de 2012, assumiu a presidência do tribunal. Na ocasião, o próprio STF registrou que ele era “o primeiro ministro negro a tomar posse na presidência da Corte”. Aposentou-se em julho de 2014.
Quem ocupa as cadeiras do poder decide o que vira história oficial. Poder e consciência estão no centro da obra de Amos Wilson, publicada pela Editora Poder Afrikano.
Câmeras corporais de PMs só foram ligadas depois dos tiros que mataram diácono na zona leste de São Paulo, diz boletim; julho teve 66 mortes pela polícia no estado
O diácono José Carlos da Rocha Sobrinho. Foto: Reprodução/Instagram, via Ponte Jornalismo.
As câmeras corporais dos policiais militares que mataram o diácono José Carlos da Rocha Sobrinho, de 42 anos, na zona leste de São Paulo, só foram acionadas depois dos disparos, segundo o boletim de ocorrência. O caso é de 13 de julho, mês que terminou com 66 mortes decorrentes de intervenção policial no estado, o maior número para julho desde 2019, segundo levantamento da Ponte Jornalismo com dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP).
A abordagem
Na segunda-feira, 13 de julho, José Carlos dirigia um Volkswagen Fox pela Rua Wagner de Araújo, no Parque São Rafael, quando foi parado por uma viatura da Companhia de Ações Especiais de Polícia, segundo a Ponte. O g1 atribuiu a abordagem à Rota. Ele foi baleado no pescoço, na cabeça e na coxa direita e morreu no Hospital de Sapopemba. Era diácono do Ministério Jeová Rapha.
O g1 registrou, com base no boletim, que as câmeras corporais dos policiais só foram acionadas depois dos disparos e que a Polícia Civil ainda não tinha tido acesso às imagens. Segundo o Metrópoles, o mesmo documento traz, nos campos de identificação dos cinco policiais, a anotação de que não usaram a câmera.
As duas versões
Os policiais afirmaram que José Carlos desobedeceu à ordem de parada e “portava arma de fogo do tipo pistola, Glock, calibre 380, com numeração suprimida”, e que ele sacou a arma e a apontou para eles. A família diz que ele não reagiu e estava desarmado. Testemunhas ouvidas pelo g1 dizem que não houve troca de tiros: “O que a gente viu foram cinco disparos direto.”
A família nunca negou que ele tivesse passagens pela polícia, registrou a Ponte. O filho, Bruno, cobra a divulgação das imagens das câmeras. Os policiais foram afastados das atividades operacionais. O caso é investigado pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e em inquérito policial militar, com acompanhamento da Corregedoria da Polícia Militar.
Quem liga a câmera
Desde 2025, as câmeras da Polícia Militar paulista não gravam o turno inteiro. Pelo acordo homologado no Supremo Tribunal Federal, o acionamento passou a ser feito pelo policial ou, à distância, pelo Centro de Operações. A SSP fala em 15 mil equipamentos e três formas de acionamento: remoto, por proximidade via Bluetooth e manual.
Em reportagem de agosto, a Folha de S.Paulo analisou 25 boletins de mortes pela polícia e encontrou acionamento tardio das câmeras em 5 deles, quatro de julho. Ao jornal, Rafael Rocha, do Instituto Sou da Paz, disse que o programa de câmeras “em dois anos, reduziu basicamente 60% a letalidade policial”.
66 mortes em julho
Das 66 mortes de julho, 63 foram cometidas por policiais militares e 3 por policiais civis; 57 por agentes em serviço e 9 por policiais de folga. Foram 30 na capital, 21 no interior, 10 na Grande São Paulo e 5 no litoral. É o quinto maior número para o mês na série histórica iniciada em 2013, atrás de 2014 (79), 2017 (77), 2019 (75) e 2018 (68), segundo a Ponte.
A SSP afirma que todas as mortes decorrentes de intervenção policial “são investigadas com rigor pelas Polícias Civil e Militar, com acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Poder Judiciário”. No país, 82% das 6.243 pessoas mortas pela polícia em 2024 eram negras, segundo o Anuário 2025 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Quem registra a violência decide como ela será lembrada. Narrativa, poder e consciência estão no centro da obra de Amos Wilson, publicada pela Editora Poder Afrikano.
Roteirista de Taxi Driver diz que vai fazer filme com atores gerados por IA depois de não fechar elenco negro; Paul Schrader afirma que foi mal citado
Paul Schrader no Festival de Veneza, em setembro de 2026. Foto: LucaFazPhoto, via Wikimedia Commons.
O roteirista e diretor Paul Schrader, de Taxi Driver, disse ao site americano The Playlist, no Festival de Veneza, que vai usar atores gerados por inteligência artificial em Three Guns at Dawn, um filme sobre três irmãos negros em South Central, Los Angeles, porque nenhum ator negro quis os papéis. Dias depois, em email à revista MovieMaker, afirmou que a matéria foi imprecisa: o problema, segundo ele, foi não encontrar atores capazes de garantir o financiamento.
O que ele disse em Veneza
Segundo o The Playlist, em reportagem de 6 de setembro, Schrader contou que escreveu o filme sobre três irmãos negros, “todos vilões: um policial corrupto, um traficante e um criminoso sexual”, e que o diretor Antoine Fuqua ia produzir. “Mandamos para atores, e nenhum ator negro quis atuar num filme em que não há pessoas negras boas. E meio que morreu. Mas aí veio a IA, e eu não precisei de atores negros”, disse, segundo o site. Perguntado se ele mesmo criaria os atores, respondeu: “Estamos fazendo eles!”
Na mesma conversa, comparou os atores a pintores de retrato diante da invenção da fotografia: “É como pintores de retrato dizendo: temos que parar a fotografia, senão vamos ficar sem emprego. E a resposta é: vocês estão sem emprego.”
A reação
O diretor Boots Riley, que acaba de lançar I Love Boosters, com três protagonistas negras que furtam lojas, reagiu no X. Chamou de mentira a versão, publicada pelo The Playlist, de que atores negros recusaram o filme porque os três protagonistas eram criminosos. O site The Root lembrou séries e filmes como Training Day, Snowfall e Power, em que atores negros interpretam personagens do crime.
Ao jornal britânico The Telegraph, um agente de atores que não quis ser identificado disse que Schrader deveria investigar por que nenhum ator negro quer aparecer no filme dele, em vez de recorrer à IA.
O recuo
Em email à MovieMaker, publicado em 9 de setembro, Schrader escreveu: “A matéria do Playlist estava imprecisa. Anton Fuqua e eu não conseguimos fechar com três atores negros rentáveis. Claro que poderíamos ter achado três atores negros. Então troquei para atores brancos. Continuamos sem achar três atores rentáveis. Atores de IA não precisam ser rentáveis.” Segundo ele, Fuqua deixou o projeto há seis meses. A revista registrou que Schrader não contestou o essencial: o filme será feito com atores gerados por IA.
Schrader tem 80 anos. Escreveu Taxi Driver, de 1976, e foi indicado ao Oscar de roteiro original por First Reformed. O novo filme não tem data de lançamento, e o título pode mudar.
Quem escreve o personagem negro, e quem pode interpretá-lo, é uma disputa de narrativa. Narrativa, poder e consciência estão no centro da obra de Amos Wilson, publicada pela Editora Poder Afrikano.
A peruca que fez Jim Caviezel virar Bolsonaro custou R$ 10 mil. Os papéis de Dark Horse estão na Polícia Federal, e Fachin mandou parar o caso Master
Jim Caviezel caracterizado como Jair Bolsonaro. Foto: Reprodução/Instagram.
Uma peruca de R$ 10 mil e mais de R$ 730 mil em hospedagem para Jim Caviezel e a equipe dele estão entre os gastos que a própria defesa da produtora do filme Dark Horse entregou à Polícia Federal. No sábado (12), o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, mandou paralisar as investigações do Banco Master, das quais os papéis de Dark Horse fazem parte, segundo a Revista Fórum.
O que os comprovantes mostram
Hotel Unique, em São Paulo. Foto: Mauro Cateb, via Wikimedia Commons.
Os documentos foram entregues à Polícia Federal em 4 de setembro pela defesa da produtora Go Up e de Karina Ferreira da Gama, em resposta a um ofício. Tornaram-se públicos nos últimos dias, quando caiu o sigilo de parte da investigação no Supremo.
Dark Horse tem direção de Cyrus Nowrasteh e retrata Jair Bolsonaro na campanha de 2018, incluindo a facada em Juiz de Fora. O roteiro nasce de um texto de Mario Frias, ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro, chamado "Capitão do Povo", segundo a Folha de S.Paulo e o Correio Braziliense.
A peruca aparece em um pagamento de R$ 10 mil feito em 5 de dezembro de 2025. No comprovante, a descrição é "Locação Peruca Jim", informou a Folha. A passagem de Caviezel custou R$ 54.332,46.
O filme ainda não estreou. Na sexta-feira (11), a distribuidora Europa Filmes suspendeu o lançamento, sem nova data. O diretor-geral da empresa, Wilson Feitosa, disse que "não seria responsável fazer o lançamento deste filme com todos estes acontecimentos", segundo o Poder360.
Hotel de luxo, figurino e carros
Pelas contas da Revista Fórum, a hospedagem soma R$ 1.426.897,51, dos quais R$ 733.913,20 foram atribuídos à estadia de Caviezel. A Folha descreve notas de hospedagem que incluem, além do ator, o agente Nathon Lewis, Richard Dobrich e o segurança Keith Billiot. O Estadão fala em R$ 732 mil, em oito transferências. Em todos os casos, são mais de R$ 730 mil para Caviezel e a equipe.
Um pagamento chama atenção à parte: R$ 298.350,49 ao Hotel Unique, em São Paulo, em 30 de dezembro de 2025, com a descrição "Hospedagem + gorjetas e massagens Jim". Segundo a Folha, o Correio Braziliense e o Estadão, não foi localizada nota fiscal desse pagamento.
O figurino custou R$ 518,5 mil, segundo a Fórum e o Times Brasil: R$ 210 mil para a equipe, R$ 157,5 mil em locação de peças, R$ 120 mil para transportar as peças e R$ 30,9 mil em costura, bordado e lavanderia. Com transporte foram 81 pagamentos, que somam R$ 375,9 mil. Outros R$ 402,7 mil, em quatro pagamentos, foram para a compra de veículos.
As despesas no Brasil chegam a R$ 20,9 milhões. Somada a etapa nos Estados Unidos, o custo declarado fica em cerca de R$ 75 milhões, segundo o Times Brasil. Um laudo contratado pela própria Go Up declarou custo de US$ 13,4 milhões, informou a Folha.
Nenhuma das fontes afirma que dinheiro público tenha pago a peruca, o hotel ou as demais despesas listadas. Em junho, a defesa da Go Up disse que o filme foi pago com recursos privados. Uma das perguntas da investigação é de onde veio esse dinheiro.
O dinheiro de Vorcaro
Segundo o Estadão, o filme recebeu "ao menos US$ 12,3 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro". Os valores foram pagos pela Entre Investimentos ao fundo Havengate, "controlado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro", nas palavras do jornal.
A Agência Brasil fala em repasses de R$ 62,8 milhões atribuídos a Vorcaro. Em reais, os valores divergem entre os veículos e ficam entre R$ 61 milhões e R$ 64 milhões, conforme a fonte.
Flávio Bolsonaro, investigado, e a briga pelo relator
A Agência Brasil informou na sexta-feira (11) que o ministro André Mendonça incluiu Flávio Bolsonaro como investigado em 22 de julho. A inclusão se deu em uma petição sigilosa, separada e vinculada ao inquérito 5026, descrita como "PET sigilosa em apartado, vinculada ao INQ 5026, para apurar a possível prática dos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção". Flávio é investigado, e não denunciado.
A defesa de Flávio tentou tirar do ministro Flávio Dino a Petição 16.070, que trata de emendas parlamentares, e levá-la para Mendonça. Segundo a Agência Brasil, foram quatro solicitações entre 3 e 29 de julho. O Estadão fala em "pelo menos três".
Nos pedidos, a defesa falou em "criar uma 'prevenção artificial' para definir a relatoria" e em "verdadeira manipulação das regras de competência". E argumentou: "dos seis processos autuados perante esse Supremo Tribunal Federal para requerer a instauração de investigações acerca do filme Dark Horse, apenas um deles, a Petição nº 16.070, não está sob a relatoria do Exmo. Min. André Mendonça".
No sábado (12), Flávio escreveu no X que Dino "sequestrou" o caso, segundo o Estadão e o Diário do Grande ABC.
A Operação Make Up e as emendas de Mario Frias
Na quinta-feira (10), foi deflagrada a Operação Make Up, autorizada por Dino, com a participação da Controladoria-Geral da União (CGU). Foram 49 mandados de busca, sem prisões, em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Entre os alvos estão Mario Frias e Karina Gama. A operação investiga "peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios".
Segundo o Poder360, Frias mandou R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina. As fontes não afirmam que esses recursos tenham pago despesas do filme. Frias chamou a operação de "cortina de fumaça".
Fachin assume o caso de Moraes e manda parar o Master
Na noite de sábado (12), por volta das 20h40, segundo o Poder360, Fachin assumiu a relatoria do caso que apura as conversas entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, que estava com Mendonça. Também paralisou as investigações do Banco Master e das fraudes do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e requisitou à Presidência do tribunal as íntegras dos processos.
Mendonça continua como relator formal dos casos Master e INSS, mas não pode adotar novas medidas até nova determinação. Fachin não se tornou relator dessas duas investigações. Como fundamento, foram citados a possibilidade de o julgamento levar ao impedimento de juiz, prevista no artigo 144, inciso IV, do Código de Processo Civil, e o artigo 13, inciso XV, do Regimento Interno do STF.
A paralisação atinge as investigações do Master, das quais os papéis de Dark Horse fazem parte, segundo a Revista Fórum.
Há duas datas marcadas no Supremo. Na terça-feira (15), uma sessão extraordinária discute o relatório das mensagens de Vorcaro. Em 23 de setembro, o tribunal analisa a petição contra Mendonça por suposto abuso de autoridade na condução da Polícia Federal.
Análise: quem conta a história decide como ela será lembrada
Esta parte é análise do Poder Afrikano. O pensador Amos Wilson tratava a narrativa histórica como instrumento de poder, e não como registro neutro do passado. Em A Falsificação da Consciência Afrikana, ele mostra como essa narrativa forma a consciência de um povo sobre si mesmo.
Dark Horse é um filme sobre um político, escrito a partir de "Capitão do Povo", texto de um ex-secretário do próprio governo Bolsonaro, com financiamento sob investigação. É um exemplo de quem conta a história decidindo como ela será lembrada, antes mesmo de chegar às salas.
Nada nas fontes liga o filme a questões raciais, e esta análise não faz essa ligação. O ponto é outro: no Brasil, a mesma lógica escolheu por muito tempo os heróis que a escola ensina e deixou nomes negros de fora. Por isso vale perguntar quem pagou para contar essa história, e com que dinheiro.
Amos Wilson mostrou que a narrativa histórica não é registro neutro: ela forma a consciência que um povo tem de si mesmo, e quem a controla decide o que será lembrado. Essa é a engrenagem que ele desmonta em A Falsificação da Consciência Afrikana.
Ben Shelton joga hoje a final do US Open, o primeiro negro americano a chegar lá desde Arthur Ashe. No Brasil, 84,6% da elite juvenil do tênis vem da classe A
Ben Shelton no Australian Open de 2025. Foto: 350z33, via Wikimedia Commons.
O americano Ben Shelton, de 23 anos, disputa neste domingo (13), às 15h de Brasília (14h em Nova York), segundo a ATP, a final do US Open contra o alemão Alexander Zverev. É a primeira final de Grand Slam da carreira dele e a primeira vez desde Arthur Ashe, em 1972, que um homem negro americano chega à decisão do torneio.
Uma semifinal que o torneio nunca tinha visto
Nas quartas de final, Shelton eliminou o atual campeão, Carlos Alcaraz, segundo a ESPN. Na sexta-feira (11), venceu Frances Tiafoe por 4-6, 6-3, 6-3 e 7-5, com 20 aces, em 3h17 de partida, de acordo com o The Root.
Foi a primeira semifinal masculina do US Open disputada entre dois negros americanos, como registrou a CNN. Se vencer Zverev, Shelton será o primeiro americano campeão de Grand Slam desde Andy Roddick, em 2003, lembra a ESPN.
O menino barrado que virou nome de estádio
Arthur Ashe foi campeão do US Open em 1968, contra Tom Okker, e voltou à final em 1972, quando perdeu para o romeno Ilie Năstase em cinco sets, segundo a CNN. Até hoje, é o único homem negro americano campeão de Grand Slam em simples.
Na juventude, em Richmond, Ashe era mandado embora das quadras públicas da cidade, reservadas a brancos, conforme o site do legado de Ashe mantido pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Hoje, o principal estádio do US Open leva o nome dele.
Ashe não foi o último negro americano a jogar uma final de Grand Slam: MaliVai Washington disputou a de Wimbledon em 1996. À CNN, Washington disse, em tradução livre: "É difícil assim, e não só para um atleta negro, quando há tão poucos no circuito."
Pai técnico, avó na origem
O pai de Ben, Bryan Shelton, jogou os quatro Grand Slams e chegou às oitavas de final de Wimbledon em 1994, segundo a CNN. Depois virou técnico da Universidade da Flórida, onde levou o time ao título nacional universitário de 2021. Ben foi campeão individual da Associação Atlética Universitária Nacional (NCAA) em 2022. Em 2023, Bryan deixou a universidade para treinar o filho, informou o Tennis.com.
Após a semifinal, Ben falou da avó, segundo o Tennis Majors (tradução livre): "Meu pai perdeu a mãe dele no começo deste ano. Ela é a razão de ele ter podido jogar tênis. Sem ela, não haveria nenhum Ben Shelton aqui hoje."
Tiafoe é filho de imigrantes de Serra Leoa, segundo o Andscape. O pai trabalhava como zelador de um centro de tênis em College Park, em Maryland, e morava num quartinho de depósito do local, onde os filhos também dormiam, contou a CBS News em 2014.
No Brasil, o tênis é da classe A
Um estudo publicado em 2018 na revista Movimento, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ouviu 130 tenistas de 13 a 18 anos, 102 meninos e 28 meninas, durante dois torneios internacionais da Confederação Brasileira de Tênis: a Copa Guga Kuerten e a Copa Santa Catarina. A classificação seguiu o critério da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP).
Nas palavras dos autores: "A maioria dos tenistas infantojuvenis de elite pertence à classe socioeconômica A (84,6%). Apenas 6,9% são da classe B1 e 5,4% da classe B2. Da classe C1, foi verificado somente um atleta (0,8%)."
Nasceram no Sudeste 60,3% deles, e no Sul, 27%. Começaram a jogar aos 8 anos, em média, e treinam 19 horas por semana. Dos 130, 88,5% têm treinador e preparador físico, 61,9% contam com fisioterapeuta, 59,5% com nutricionista e 50% têm algum patrocínio. Os autores comparam com o futebol: no estudo de Marques e Samulski, de 2009, 79,6% dos atletas pertenciam à classe média ou baixa. E concluem: "Tênis, no Brasil, é um esporte elitizado, sendo praticado predominantemente por indivíduos da classe A."
A pesquisa aponta como obstáculos o número reduzido de quadras públicas e o alto custo das aulas e do material, como raquetes, bolas e calçados. O estudo não mede cor nem raça, e por isso não diz quantos desses jovens são negros. Mas mostra que a porta que Ashe encontrou fechada em Richmond, a da quadra pública, continua estreita por aqui.
Da quadra pública fechada para Ashe à elite juvenil da classe A, quem entra no jogo também é questão de narrativa, poder e consciência. São os temas no centro da obra de Amos Wilson, publicada pela Editora Poder Afrikano.
“Senta aí, cabelo de presidiário”: Luizão, reserva do CRB, denuncia racismo de torcedor em Ponta Grossa; o Operário chama de “ocorrência”
Luizão chega ao Germano Krüger, em Ponta Grossa, em 9 de setembro. Foto: Lucca Morais/CRB.
O volante Luizão, do CRB, levou à arbitragem uma denúncia de racismo na noite de quarta-feira (9), no Estádio Germano Krüger, em Ponta Grossa, durante a derrota por 3 a 0 para o Operário-PR. Ele estava no banco de reservas quando, segundo o relato registrado na súmula, ouviu de um torcedor do time da casa a frase “senta aí, cabelo de presidiário”.
O que está na súmula
A partida valia pela 27ª rodada da Série B e começou às 20h30. O árbitro Arthur Gomes Rabelo, do Espírito Santo, registrou que, aos 14 minutos do primeiro tempo, o atleta número 50 do CRB, Luiz Gustavo Novaes Palhares, o Luizão, foi até o quarto árbitro e relatou ter sido alvo de manifestação verbal de racismo por parte de um torcedor do Operário. O documento anota a frase dirigida a ele e acrescenta que nenhum integrante da equipe de arbitragem em campo viu ou ouviu o episódio.
Luizão estava entre os reservas e não entrou em campo: a súmula lista o nome dele no banco e não registra nenhuma substituição com ele. A frase foi dirigida ao jogador ali, no banco.
Ainda segundo a súmula, o torcedor foi identificado e retirado da torcida, ficando à disposição das autoridades, e o clube mandante o conduziu para o registro de um boletim de ocorrência. O nome do torcedor não foi divulgado.
A frase mirou o cabelo
A ofensa não fala de lance, de passe errado ou de placar. Mira o cabelo do jogador e o associa à prisão. Foi Luizão quem a identificou como racismo e a levou à arbitragem, ainda aos 14 minutos do primeiro tempo.
Até a publicação desta matéria, nenhuma fala direta de Luizão sobre o episódio havia sido publicada. Em nota, o CRB informou que o jogador “compareceu à autoridade policial”.
Para o Operário, uma “ocorrência”
O Operário se manifestou por meio de nota assinada pelo Departamento Jurídico. O texto diz que o clube “tomou conhecimento de ocorrência envolvendo o atleta Luizão, da equipe visitante, e um torcedor… identificando o torcedor, encaminhando-o à autoridade policial e preservando as imagens”.
A palavra “racismo” não aparece na nota. O que Luizão levou ao quarto árbitro como manifestação de racismo virou, no texto do clube mandante, uma ocorrência entre um atleta e um torcedor.
Segundo a CBN Ponta Grossa, o Operário diz ter entregue imagens e áudio das câmeras à Justiça Desportiva, à polícia e ao Judiciário.
Repúdio em Alagoas
Do lado alagoano, a Federação Alagoana de Futebol divulgou nota de repúdio na quinta-feira (10), segundo a Gazeta de Alagoas. O CRB, clube de Maceió, também tratou o caso publicamente e confirmou a ida do jogador à polícia.
Como a arbitragem não viu nem ouviu o que aconteceu, o registro do caso se apoia em três pontos: o relato de Luizão ao quarto árbitro, a identificação do torcedor pelo próprio clube mandante e as imagens e o áudio que o Operário diz ter preservado e entregue às autoridades.
Chamar de racismo ou de ocorrência é escolher como a história será contada. Narrativa, poder e consciência estão no centro da obra de Amos Wilson, publicada pela Editora Poder Afrikano.
EU AFETO: 20 artistas negros do RS fazem uma obra cada sobre afeto, raiva incluída, no Museu de Arte do Paço, em Porto Alegre
Trabalho da artista Pamela Zorn, uma das 20 da EU AFETO. Foto: Amanda Lucchese/Divulgação.
Vinte artistas visuais negros do Rio Grande do Sul fizeram, cada um, uma obra inédita sobre afeto, e a raiva entrou na conta. A exposição EU AFETO, realizada pelo Mamangava Lab, abriu na quarta-feira (9) no Museu de Arte do Paço, no Paço Municipal de Porto Alegre, e fica em cartaz até 9 de dezembro, com entrada franca.
Vinte nomes, quatro cidades
Os artistas vêm de Porto Alegre, Pelotas, Rio Grande e Santa Maria. "Cada um dos artistas produziu uma obra", informa o texto de divulgação da mostra. Os trabalhos passam por colagem, desenho, fotografia, instalação e pintura.
Participam Afrokaliptico, Avel, CARCOR, Estêvão da Fontoura, Gustavo Assarian, Josemar Afrovulto, Kayla Calistro, Leandro Machado, Lia Braga, Marcos Porto, Marlon Laurencio, Mitti Mendonça, Pamela Zorn, Paulo Corrêa, Rusha, Thiago Madruga, Tintas Dener, Virgínia Di Lauro, Wagner Mello e Yasmim Lima.
A curadoria é de Laila Garroni. O projeto expográfico é assinado por Thaise Machado, e a identidade visual, por Aline Gonçalves. A realização é do Mamangava Lab.
A raiva também é afeto
A pergunta que atravessa a exposição é o que cabe na palavra afeto. Para a curadora, a resposta vai além do sentimento que costuma ser vendido como afeto. "O trabalho coletivo representa o que é ser uma pessoa negra no mundo, no RS e quais são todos os afetos que nos permeiam. Afeto não é só o que tentam nos dizer o que é esse sentimento romantizado: amor ou carinho, por exemplo", afirma Laila Garroni.
Ela completa: "Também tem que contemplar a nossa raiva, insatisfação, os nossos momentos de solidão e despertencimento. Isso tudo vislumbra a nossa existência".
Segundo a curadora, a ideia foi posta em discussão com os artistas ao longo do processo, que passava por uma autoanálise. "Então, quando eu levantava esses questionamentos e os artistas passavam por um processo de autoanálise, de entender: mas por que realmente eu acho que a minha raiva não é afeto?", conta. E segue: "E aí a gente discutia horas e horas sobre isso, sobre como a raiva, principalmente relacionada ao povo negro, é usada para nos retirar a nossa humanidade".
A exposição, portanto, não trata o afeto só como ternura. Solidão, insatisfação e despertencimento aparecem, na fala da curadora, ao lado do amor e do carinho como parte da mesma existência.
Da parede para a tela
A mostra faz parte de um projeto maior. Laila Garroni dirige o documentário EU AFETO, contemplado pela Lei Paulo Gustavo e com lançamento previsto para 2027.
A exposição conta com recursos do Edital nº 29/2024 de artes visuais da Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul (SEDAC), dentro da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).
O Mamangava Lab se apresenta como uma "empresa criativa do setor audiovisual que atua no desenvolvimento, produção executiva, comunicação, curadoria e difusão de projetos culturais com foco em narrativas negras diaspóricas contemporâneas".
Durante a Semana da Consciência Negra, de 16 a 19 de novembro, a programação da mostra prevê atividades especiais.
Serviço
EU AFETO
Local: Museu de Arte do Paço, Praça Montevidéu, 10, Centro Histórico, Porto Alegre
Período: de 9 de setembro a 9 de dezembro de 2026
Horário: de segunda a sexta, exceto feriados, das 9h às 17h. Não abre aos fins de semana.
Entrada franca
Atividades especiais: Semana da Consciência Negra, de 16 a 19 de novembro
Contar a própria experiência, raiva incluída, é disputar quem escreve a narrativa. Narrativa, poder e consciência estão no centro da obra de Amos Wilson, publicada pela Editora Poder Afrikano.
Nem Todos Sabem: documentário sobre João Tomé, músico negro e cego que deixou mais de 500 músicas, está na Mostra Brasília do festival
João Tomé no material de divulgação de Nem Todos Sabem. Foto: Juliana Uepa/Divulgação.
João Tomé (1920-1971), músico negro e cego, deixou mais de 500 músicas, a maior parte escrita em braille. A história dele virou Nem Todos Sabem, documentário selecionado para a Mostra Brasília de longas do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Quem foi
Compositor, poeta e professor, João Tomé nasceu em Uberaba, em Minas Gerais, e foi um dos fundadores da Escola de Música de Brasília.
“Essa biografia apresenta um músico que veio para cá antes mesmo de Brasília existir. Um homem cego de nascimento que, por meio da música, superou todas as barreiras físicas e estruturais de raça, classe e inclusão”, diz a diretora, Edileuza Penha de Souza.
O filme
Nem Todos Sabem tem 83 minutos, direção de Edileuza Penha de Souza e roteiro dela com Vera Maria Tomé. Junta depoimentos de familiares, amigos e companheiros de caminhada a um acervo raro de arquivos. A trilha sonora é do próprio João Tomé.
“Eu espero provocar o desejo de conhecer a história de Brasília e de seus pioneiros, que vai além da Esplanada”, diz a diretora.
O caminho até a tela foi longo. O projeto ganhou o edital do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal, e aí veio a pandemia, que impediu a filmagem naquele período. “Amigos importantes do JT que estariam no filme morreram. Quando fomos fazer o filme, o dinheiro não era mais suficiente”, lembra Edileuza. O filme foi financiado pela Lei Paulo Gustavo e pelo FAC-DF.
Onde ver
O 59º Festival de Brasília vai de 11 a 19 de setembro. Nem Todos Sabem passa em sessões da Mostra Brasília que reúnem outros filmes da seleção:
Quinta, 17 de setembro: às 18h, no Cine Brasília, e às 19h45, no Complexo Cultural de Planaltina e na Universidade Católica de Brasília, em Taguatinga. Sexta, 18 de setembro: às 15h, na Sala 2 do Cine Cultura Liberty Mall. Classificação indicativa: 10 anos.
Fontes: Notícia Preta, Brasil de Fato, programação oficial do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e acervo Choro Patrimônio (UFPel).
A memória negra também se guarda em partitura. O catálogo da Poder Afrikano reúne a obra de Amos Wilson sobre cultura e poder.
Câmera na porta, tela dentro de casa: a patente de 1969 de Marie Van Brittan Brown, enfermeira negra do Queens, e do marido, Albert
Figura 1 da patente US 3.482.037, concedida em 2 de dezembro de 1969. Domínio público.
Antes do interfone com vídeo, uma enfermeira de Nova York e o marido desenharam um sistema para ver quem estava na porta sem abrir. A patente saiu em 2 de dezembro de 1969.
Quem era
Marie Van Brittan Brown nasceu em 1922, em Nova York, e era enfermeira. Afro-americana, morava no Queens com o marido, Albert L. Brown. Trabalhava em horários fora do comum, num bairro onde o crime crescia e a polícia demorava a responder aos chamados. Ela queria saber quem estava do lado de fora antes de abrir a porta.
O que a patente descreve
O pedido foi feito em 1º de agosto de 1966, em nome dos dois. A patente 3.482.037 dos Estados Unidos, com o título Home Security System Utilizing Television Surveillance, sistema de segurança doméstica por vigilância de televisão, foi concedida em 2 de dezembro de 1969.
O sistema tinha uma câmera na porta de entrada e uma tela dentro de casa. Quem estava lá dentro via o visitante e conversava com ele por um intercomunicador, sem abrir. A fechadura era controlada por rádio e podia ser destravada à distância. A conversa podia ser gravada. E um alarme, também por rádio, servia para chamar um guarda, um policial ou um vigia num posto de segurança.
O desenho principal da patente mostra a ideia inteira numa cena: uma mulher deitada vê, na tela ao lado da cama, o rosto do homem que está do lado de fora da porta.
O que veio depois
Quatro dias depois da concessão, o New York Times noticiou a invenção na coluna semanal de patentes, com uma foto do casal. Mais tarde, Marie recebeu um prêmio do National Scientists Committee. Ela morreu em 1999.
O registro da patente no Google Patents lista 40 patentes posteriores que citam a dela. Câmera na entrada, tela dentro de casa e porta aberta de longe: é a mesma ideia do interfone com vídeo e das campainhas com câmera de hoje.
Isso não quer dizer que ela tenha inventado a câmera de segurança ou o circuito fechado de televisão, que já existiam e são citados na própria patente. O que o casal Brown patenteou foi o sistema doméstico: a vigilância por vídeo levada para a porta de casa e controlada por quem mora nela.
A série
Com Marie Van Brittan Brown fecha a série Você sabia? Ciência negra que você usa e nunca creditou, que passou por Onesimus e a variolação, Alice Ball e o tratamento da hanseníase e Charles Drew e o banco de sangue.
Fontes: patente US 3.482.037 (Google Patents), Association for Women in Science e Wikipédia.
Ciência negra que todo mundo usa e quase ninguém credita. O catálogo da Poder Afrikano reúne a obra de Amos Wilson sobre consciência, crédito e poder.
Exu no palco em Salvador, as hortas da zona Leste em São Paulo: dois espetáculos para ver neste fim de semana
Nando Zâmbia em ELEGBAPHO. Foto: Adeloyá Mojubará/Divulgação.
Dois espetáculos em cartaz neste fim de semana, 12 e 13 de setembro, valem o ingresso: ELEGBAPHO, em Salvador, e SEMENTEIRA, em São Paulo.
ELEGBAPHO, em Salvador
ELEGBAPHO, Território Afrocênico de Celebração Negra, parte de Elegbara, o Exu associado ao poder e às encruzilhadas. A provocação é esta: depois de levar os pedidos dos humanos ao Orum, a morada dos orixás, e ajudar a realizá-los, Elegbara se revolta com o esquecimento das pessoas, que não celebram nem agradecem o que conquistaram.
A montagem mistura teatro, dança, música, projeções e vídeo, e celebra os 25 anos de trajetória de Nando Zâmbia como ator, iluminador e produtor cultural. A direção é de Onisajé e Nando Zâmbia.
“Eu sou um artista negro e a minha poética é o Teatro Preto de Candomblé, mas o espetáculo é para todas as pessoas, porque refletimos sobre questões que atravessam a todos na contemporaneidade”, disse ele ao Correio Nagô. Zâmbia chama a obra de espetáculo-festa: reflexão, humor, teatro ritualístico e festa, para o público pensar a celebração e também vivê-la no corpo.
Ele foi indicado ao Prêmio Braskem de ator revelação em 2010, por Dois Perdidos Numa Noite Suja. O primeiro solo, Irumalé Ayê, Divindades na Terra, circulou por Portugal, Itália, Alemanha e Grécia. Como iluminador, assina montagens como Medeia Negra e Exu, A Boca do Universo. É diretor artístico do Oyá Ladê Inan Ponto de Cultura, em Alagoinhas.
Quando e onde: domingo, 13 de setembro, às 18h, no Centro Cultural Barroquinha, em Salvador. Ingressos a R$ 30 a inteira e R$ 15 a meia, no Sympla. É a segunda apresentação: a pré-estreia foi em 4 de setembro, na abertura do 16º Festival Internacional Gestos de América, o FIGA, que se encerra no dia 13.
SEMENTEIRA, em São Paulo
SEMENTEIRA, do Núcleo Menos 1 Invisível, com concepção e direção artística de Cléia Plácido, leva para a dança a experiência das hortas urbanas e periféricas da zona Leste de São Paulo. A matriz vem das Hortas da Jô, em Ermelino Matarazzo, e do Viveiro Escola das Mulheres do Gaú, na região onde mora parte do elenco, e dos mutirões da Rede Permaperifa.
O espetáculo fala de crise climática e de injustiça ambiental, e recusa a imagem romântica do trabalho com a terra. O que ele valoriza é quem pega na enxada todo dia e espera brotar o que plantou, com chuva, sol, calor extremo ou frio.
“Ao vivenciar as hortas e os mutirões, percebemos que ali não existe apenas uma relação com a natureza, mas também resistência, trabalho e disputa por território”, diz Cléia Plácido.
A pesquisa conversa com Malcom Ferdinand, autor de Ecologia Decolonial, Nêgo Bispo, de A Terra Dá, a Terra Quer, e Denetèm Touam Bona, de A Sabedoria dos Cipós. E homenageia a queniana Wangari Maathai, criadora do Cinturão Verde e Nobel da Paz.
Quando e onde: sábado, 12 de setembro, às 20h, e domingo, 13, às 18h, no Teatro Flávio Império, na Rua Professor Alves Pedroso, 600, Cangaíba, zona Leste de São Paulo. Confira ingresso e retirada com o teatro. Depois, SEMENTEIRA passa pela Fábrica de Cultura Parque Belém em 24 de setembro, às 15h, pelo Centro de Referência da Dança em 16 e 17 de outubro e pelo Complexo Cultural Funarte SP de 21 a 24 de outubro.
Fontes: Correio Nagô, Sympla, Notícia Preta e Africas.
Celebrar o que se conquistou também é consciência. O catálogo da Poder Afrikano reúne a obra de Amos Wilson sobre cultura e poder.
O júri dos acusados de matar Valdir Macário foi adiado outra vez e ficou para 6 de outubro
Valdir Macário era cabeleireiro e pesquisador, e mantinha um salão na Avenida Vasco da Gama, em Salvador. Foto: Reprodução/redes sociais.
O júri dos dois acusados de matar o cabeleireiro Valdir Macário, marcado para a quinta-feira, 10 de setembro, no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador, foi adiado outra vez. A nova data é 6 de outubro, às 8h, no mesmo fórum.
O pedido chegou minutos antes do início da sessão. Ivan Jezler, advogado de Edgar da Silva Santos, um dos réus, foi internado durante a madrugada no Hospital Mater Dei com um quadro viral que se agravou, e informou que não conseguiria comparecer.
“Infelizmente, pela sétima vez, o júri é adiado em razão de um pedido do advogado”, disse ao jornal A TARDE Alonso Guimarães, que atua como assistente de acusação em nome da família. Ao Portal Massa, ele pediu que a Defensoria Pública assuma a defesa se o advogado voltar a faltar.
Valdir Macário foi morto a tiros em 12 de novembro de 2016, aos 45 anos, dentro do próprio salão, na Avenida Vasco da Gama. Homens armados entraram no estabelecimento e atiraram contra ele enquanto trabalhava. Fugiram sem levar nada.
Ele era cabeleireiro, pesquisador e referência na estética afro. O salão que montou na Vasco da Gama reunia de artistas a militantes do movimento negro, e o trabalho dele era sobre cuidado, autoestima e valorização da identidade negra. “Valdir sempre foi um pesquisador nato de tudo que ele buscou fazer”, disse a irmã Idy Macário à Revista Afirmativa. Ela conta que ele insistia com as clientes: “Não adianta ser bonita e não ser inteligente.”
Quem responde pelo crime
Patric Ribeiro Tupinambá, conhecido como “Bagão”, e Edgar da Silva Santos, o “Chocolate”, respondem por homicídio qualificado. O Ministério Público da Bahia aponta Edgar como mandante e Patric como executor, e sustenta que a motivação foi vingança.
Vale dizer com todas as letras: isso é acusação, não condenação. Os dois ainda não foram julgados, e é essa a função da sessão marcada para 6 de outubro. A imprensa baiana também registra que houve um terceiro envolvido, que nunca foi identificado.
Seis datas frustradas
A conta dos adiamentos muda conforme quem conta. O advogado da família fala em sete. O Instituto Odara e a imprensa baiana listam seis datas em que o júri não aconteceu: 8 de julho de 2025 e, em 2026, 23 de abril, 10 de junho, 6 de agosto, 25 de agosto e 10 de setembro.
Em 6 de agosto a sessão chegou a começar e foi suspensa às vésperas do veredito: o advogado de Patric abandonou a defesa, um defensor público precisou assumir e o juiz decidiu julgar os dois acusados juntos. Em 25 de agosto o pedido chegou na véspera, porque o advogado de um dos réus tinha outro processo no mesmo horário. Em 10 de setembro, a internação do advogado de Edgar.
Cada adiamento tem uma justificativa razoável por escrito: agenda, ausência, conflito de horário, doença. Somadas, as justificativas razoáveis viraram quase dez anos.
A espera da família
“Já é o sexto adiamento. Mesmo após quase dez anos do crime, seguimos vivendo essa espera tão dolorosa e enfrentando a impunidade”, disse Elen Vitória, sobrinha de Valdir, ao Instituto Odara.
“Tantos adiamentos me fazem pensar que é para nos silenciar”, tinha dito Idy Macário à Revista Afirmativa, dois dias antes da sessão.
Um processo que não anda não é um detalhe de procedimento. É a diferença entre uma família saber o que aconteceu e uma família envelhecer esperando.
Fontes: A TARDE, Portal Massa, Instituto Odara, Revista Afirmativa e Fala Genefax.
09 de setembro de 2026CulturaDiáspora
A lavagem do Bonfim tem versão em Paris há 25 anos, e quem criou nasceu em Santo Amaro da Purificação
A Lavagem do Bonfim, em Salvador, que serviu de espelho para a festa parisiense. Foto: Tatiana Azeviche/Turismo Bahia.
A Lavagem da Madeleine acontece na escadaria da igreja de la Madeleine, no centro de Paris, e chega este ano à 25ª edição, de 10 a 13 de setembro.
Quem criou foi Roberto Chaves, o Robertinho, nascido em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo baiano. Ele espelhou a festa na Lavagem do Senhor do Bonfim, de Salvador: a lavagem das escadarias, as baianas de branco, as águas de cheiro, as fitas e o cortejo com trio elétrico.
Vinte e cinco edições depois, a Lavagem da Madeleine entrou no calendário oficial da capital francesa e foi reconhecida como patrimônio imaterial da França.
A programação de 2026
A abertura é no dia 10, com a exposição fotográfica Três Olhares, em homenagem aos 25 anos da festa, na Embaixada do Brasil na França. Nos dias 11 e 12 há workshop de dança afro-brasileira. O cortejo de rua é no domingo, dia 13.
O trio elétrico é comandado por Mariene de Castro e Robertinho Chaves, com participações de Jau, Gildaa e Lorena Pires. Mais de 700 artistas devem ocupar as ruas no domingo, e a organização espera cerca de 60 mil pessoas ao longo dos quatro dias.
Quem banca
A festa tem apoio da prefeitura de Paris e da Secretaria de Turismo da Bahia, e patrocínio da Embratur, a agência brasileira de promoção internacional do turismo. Cultura afro-brasileira também é o que o Brasil manda para fora quando quer ser levado a sério.
São quase 8 mil quilômetros em linha reta entre Santo Amaro e a Madeleine. A festa faz esse caminho há 25 edições.
Fonte: Agência Brasil e cobertura da 25ª edição, setembro de 2026.
A diáspora não só guardou o que trouxe: exportou. O catálogo da Poder Afrikano reúne a obra de Amos Wilson sobre cultura e poder.
Charles Drew organizou a primeira rede nacional de bancos de sangue dos Estados Unidos, e o país decidiu separar por raça o sangue que ela guardava
Cartaz do Office of War Information com o retrato de Charles R. Drew. Desenho: Charles Alston. Arquivo Nacional dos Estados Unidos.
Charles Richard Drew era cirurgião e pesquisador negro estadunidense. Na Universidade Columbia, virou o primeiro negro a receber o título de Doutor em Ciência Médica, com uma tese chamada Banked Blood.
O que ele resolveu
Ele não inventou o banco de sangue. Fez outra coisa, e ela mudou a medicina de guerra: mostrou que, separando o plasma do resto do sangue e refrigerando cada parte por conta própria, o sangue dura muito mais e contamina menos. E que o plasma serve para qualquer pessoa, seja qual for o tipo sanguíneo. É por isso que dá para estocar antes de saber quem vai precisar.
Foi ele quem dirigiu o Blood for Britain, o programa que mandou plasma dos Estados Unidos para o Reino Unido no começo da Segunda Guerra.
A rede nacional, e a regra que veio junto
Em fevereiro de 1941, o Exército, a Marinha e a Cruz Vermelha americana criaram o National Blood Donor Service, a primeira rede nacional de bancos de sangue do país. Drew foi o diretor médico.
O serviço recusava sangue de doador negro. Em dezembro de 1941, um memorando interno com a política vazou para a imprensa e provocou condenação pública. Em janeiro de 1942 os militares anunciaram o que chamaram de acordo: passariam a aceitar sangue de doadores negros, processando separado, para que quem receba transfusão receba plasma de sangue da própria raça.
O que ele fez, e o que não dá para cravar
Drew argumentou por dentro que a ordem não tinha base científica e que nenhum órgão do governo deveria humilhar os próprios cidadãos. Não mudou nada, e ele deixou o cargo em 1942.
Aqui as versões divergem. Muita gente conta que ele renunciou em protesto. Outras fontes registram que não há evidência oficial disso e que ele não tornou pública a objeção no momento. O que todas sustentam é o mesmo: ele foi contra, saiu, e denunciou depois. Em setembro de 1942, em entrevista ao jornal Chicago Defender, chamou o problema de social, e não de médico.
A separação nos bancos nacionais acabou no fim dos anos 1940. A Louisiana só revogou em 1972 a lei estadual que obrigava a separar o sangue doado por raça.
A história que contam da morte dele, e que não é dele
Drew morreu em 1º de abril de 1950, num acidente de carro na Carolina do Norte, a caminho de uma aula em Tuskegee. Conta-se que morreu porque um hospital branco negou transfusão a ele.
Não foi isso. Os médicos do Alamance General o atenderam de imediato, os ferimentos eram grandes demais e a família escreveu depois agradecendo a eles.
O caso real é de outro homem. Maltheus Avery, veterano de 24 anos, se acidentou na mesma região oito meses depois e foi recusado pelo Duke University Hospital porque as camas destinadas a negros estavam lotadas. Morreu a caminho de outro hospital. Com o tempo, a história de Avery virou a de Drew.
Fontes: National Library of Medicine, Jim Crow Museum da Ferris State University, reportagem de Melba Newsome na Undark sobre a Cruz Vermelha e o Jim Crow, e o arquivo do Chicago Defender.
Ciência negra que todo mundo usa e quase ninguém credita. O catálogo da Poder Afrikano reúne a obra de Amos Wilson sobre consciência, crédito e poder.
Marçal diz que “todo macumbeiro é um derrotado” e vira alvo de representação no Ministério Público Eleitoral
Pablo Marçal é candidato à Presidência pelo PRTB. Foto: Daniel Teixeira/Estadão.
Pablo Marçal, candidato à Presidência pelo PRTB, disse que “se macumba funcionasse, a Bahia era Dubai”. A frase foi dita em entrevista ao canal BNTV e passou a circular no fim de semana. Na mesma conversa ele afirmou que “todo macumbeiro é um derrotado na vida” e que se trata de “gente invejosa e que não prospera”.
Quem levou o caso ao Ministério Público
Ivanir dos Santos protocolou uma representação no Ministério Público Eleitoral pedindo a abertura de procedimento para investigar as falas. Ele é babalaô, doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e candidato a deputado federal pelo PSB no Rio de Janeiro. Em 2008 fundou a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, que organiza desde então a Marcha em Defesa da Liberdade Religiosa, na orla de Copacabana.
A peça sustenta que o conteúdo pode configurar discriminação, racismo religioso, discurso de ódio e propaganda eleitoral vedada, e registra que o vídeo passou de 350 mil visualizações no YouTube. O Centro de Articulação das Populações Marginalizadas levou o caso à Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância do Rio de Janeiro.
Vale dizer o que ainda não aconteceu. Representação é pedido de investigação. Até a publicação desta matéria não havia procedimento aberto nem processo contra ele por essas falas.
O tamanho do problema
O Disque 100 registrou 2.472 denúncias de intolerância religiosa em 2024, contra 1.481 no ano anterior, segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. O crescimento foi de 66,8% em um ano.
Em 1.842 dessas denúncias a religião da vítima não foi informada. Entre as 630 que informaram, umbanda e candomblé somam 268: umbanda com 151 e candomblé com 117. São mais de quatro em cada dez casos em que se sabe a religião.
A palavra que ele escolheu tem endereço
Gildásia dos Santos e Santos, a Mãe Gilda, era ialorixá do Ilê Axé Abassá de Ogum, em Salvador. A Folha Universal, jornal da Igreja Universal do Reino de Deus, estampou a foto dela numa capa com a chamada “Macumbeiros e charlatães lesam a vida e bolso de clientes”. O terreiro foi atacado. Ela morreu em 21 de janeiro de 2000, aos 64 anos.
Foi essa data que a Lei 11.635, de 2007, escolheu para o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. O autor da proposta foi Daniel Almeida, deputado federal pelo PCdoB da Bahia, que nesta semana divulgou nota de repúdio à fala de Marçal. “Não podemos aceitar declarações que promovam intolerância e preconceito contra qualquer religião”, escreveu.
Marçal citou a Bahia pelo nome. A Bahia já tinha respondido em 2007, com uma lei escrita por causa de uma ialorixá de Salvador.
Fontes: Bahia Notícias, Brasil 247, Diário do Centro do Mundo, Jornal Grande Bahia e Agência Brasil, entre 6 e 9 de setembro de 2026, e dados do Disque 100 divulgados pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania em janeiro de 2025.
Racismo religioso não começa no ataque ao terreiro, começa na palavra que autoriza o ataque. O catálogo da Poder Afrikano reúne a obra de Amos Wilson sobre consciência e poder.
Morre aos 74 anos Zélia Amador de Deus, que ajudou a fundar o Cedenpa e foi decisiva pelas cotas na Universidade Federal do Pará
Zélia Amador de Deus passou mais de cinco décadas na Universidade Federal do Pará. Foto: divulgação.
Zélia Amador de Deus morreu na terça-feira, 8 de setembro, em Belém, aos 74 anos. O governo do Pará decretou três dias de luto oficial. A Universidade Federal do Pará, onde ela passou mais de cinco décadas, fez o mesmo.
Ela nasceu em Soure, na ilha do Marajó, em território quilombola. Entrou na UFPA como aluna de Letras em 1971, virou professora em 1978 e ensinou Teatro, Estética e História da Arte. Dirigiu o Centro de Letras e Artes entre 1989 e 1993 e foi vice-reitora da universidade de 1993 a 1997.
O Cedenpa e Durban
Em 1980 ajudou a fundar o Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará, o Cedenpa, que passou a atuar no reconhecimento de territórios quilombolas e contra a discriminação no trabalho. Em 2001 integrou a delegação brasileira na Conferência Mundial contra o Racismo, em Durban, na África do Sul.
Foi decisiva nas discussões que criaram a reserva de vagas na universidade e o acesso de estudantes quilombolas. Em 2020, ela disse ao Jornal Beira do Rio, publicação da própria UFPA: "não tenho dúvida de que as políticas de ação afirmativa mudaram o perfil da UFPA".
Também era do palco
Estreou como Catirina em Coronel de Macambira, em 1972, fez Suely em Quarto de Empregada em 1976 e, no mesmo ano, fundou a Companhia de Teatro Cena Aberta.
Doutorou-se em 2008. Em 2019 virou professora emérita, a primeira mulher negra a receber o título na universidade, e publicou Ananse tecendo teias na diáspora, sobre as estratégias de resistência da diáspora africana.
Em 18 de agosto, três semanas antes de morrer, plantou uma muda de baobá no campus da UFPA, cercada de amigos e da família.
Fontes: Agência Brasil, UFPA, Diário do Pará e registro do CNPq, 8 e 9 de setembro de 2026.
Ação afirmativa é disputa por poder, não por favor. O catálogo da Poder Afrikano reúne a obra de Amos Wilson sobre consciência e educação.
Jovens quilombolas do Maranhão encerram nesta quarta-feira, no Rio, a turnê de Gungas, Marimbas e Urucungos em Encantorias Ancestrais
Roda de capoeira tradicional do Engenho da Rainha, no Rio de Janeiro. A foto não é do espetáculo nem do elenco maranhense. Foto: Estela Neto, via Wikimedia Commons.
Foi a capoeira que motivou Josielma da Conceição Rodrigues a entrar na universidade federal. Ela tem 21 anos, é do Quilombo Santa Joana, em Itapecuru-Mirim, no Maranhão, e está no elenco de Gungas, Marimbas e Urucungos em Encantorias Ancestrais, que faz nesta quarta-feira, 9 de setembro, no Rio de Janeiro, a última apresentação da turnê nacional.
Nas palavras dela: "a turnê abre novos caminhos para nós, jovens quilombolas, valorizando nossa cultura e nossas raízes. Foi a capoeira que transformou a minha vida e me motivou a conquistar oportunidades, como entrar na Universidade Federal do Maranhão".
Mais de 50 em cena
São mais de 50 participantes, entre capoeiristas, musicistas, atores e bailarinos, vindos de cinco comunidades quilombolas maranhenses: Vila da Fé em Deus, em Santa Rita, e Santa Luzia, Santa Joana, Santa Rosa e Oiteiro dos Nogueiras, em Itapecuru-Mirim.
A Orquestra de Berimbaus fica no centro da montagem, dividida em oito atos, que cruza a Capoeira Angola com o tambor de crioula, o bumba meu boi e o samba. Gunga e urucungo são nomes do berimbau. O gunga tem a cabaça maior e o som mais grave, e é ele que comanda a roda.
Quem construiu
A circulação é do Centro Cultural e Educacional Mandingueiros do Amanhã, de São Luís, fundado por Mestre Bamba, que assina a direção artística, e por Mestra Valdira Barros, cocriadora do espetáculo. A instituição trabalha com crianças e jovens há 29 anos e, nos últimos dez, levou oficinas de capoeira, música e dança para as comunidades quilombolas.
Mestre Bamba resume o que a montagem representa: "a felicidade é enorme por ver esses jovens sendo protagonistas, não apenas apreciando a cultura, mas sendo verdadeiros fazedores de cultura".
O espetáculo foi um dos selecionados entre 8 mil projetos inscritos em edital nacional, com o Ministério da Cultura e patrocínio da Petrobras pela Lei Rouanet. A turnê passou por Parnaíba, no Piauí, São Luís e Itapecuru-Mirim, no Maranhão, e Belém, no Pará, antes de chegar ao Rio.
Serviço
Quarta-feira, 9 de setembro, às 19h30, no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, centro do Rio de Janeiro. Ingresso gratuito pelo Sympla. O espetáculo tem audiodescrição e intérprete de Libras.
Fontes: Alma Preta, Notícia Preta e Rota Cult, setembro de 2026.
Capoeira é memória que se transmite pelo corpo. O catálogo da Poder Afrikano reúne a obra de Amos Wilson sobre cultura e consciência.
Alice Ball fez o tratamento da hanseníase funcionar aos 23 anos, morreu aos 24 e o método foi publicado com o nome de outro
Alice Augusta Ball em 1915, ano em que se tornou mestre em química no College of Hawaii. Foto de domínio público, via Wikimedia Commons.
Alice Ball tinha 23 anos quando fez o remédio da hanseníase funcionar. O óleo da semente de chaulmoogra já era o único tratamento conhecido, e não servia: bebido, dava enjoo; injetado, empolava a pele. O óleo não se dissolve em água, e por isso o corpo não absorvia.
Ela separou os ácidos graxos do óleo e os transformou em ésteres etílicos, que se misturam à água e podem ser injetados. Levou menos de um ano, trabalhando fora do horário de aula.
Em 1915 ela havia se tornado a primeira mulher e a primeira pessoa negra a virar mestre no College of Hawaii, e foi contratada como professora ali mesmo.
O que isso mudou tem endereço
Quem tinha hanseníase no Havaí era mandado para o isolamento de Kalaupapa, na ilha de Molokai, e não voltava. Entre 1919 e 1922, com o tratamento em uso, o hospital Kalihi deu alta a 151 pessoas. Kalaupapa liberou outras 44 e passou quatro anos sem receber ninguém novo.
Não era cura, e é importante dizer isso com todas as letras. Foi o tratamento mais eficaz que existiu até os antibióticos sulfona, nos anos 1940. Ela também não descobriu o chaulmoogra: o óleo já era usado há séculos. O que ela resolveu foi como pôr o óleo dentro do corpo.
O crédito
Alice Ball morreu em 31 de dezembro de 1916, aos 24 anos, antes de publicar. Arthur Dean, químico, orientador dela e então diretor do College of Hawaii, depois presidente da universidade, seguiu o trabalho, publicou os resultados sem creditar a origem e o método passou a circular com o nome dele.
Em 1922, o médico Harry Hollmann, que tinha sido quem procurou Ball para o problema do óleo, escreveu em artigo nos Archives of Dermatology and Syphilology que quem havia resolvido a questão era ela, e chamou o procedimento de método Ball.
Nos anos 1970, os professores Kathryn Takara e Stanley Ali foram atrás dos registros na Universidade do Havaí. A placa em homenagem a ela veio em 2000, o mesmo ano em que o Havaí instituiu o Dia de Alice Ball, marcado para 29 de fevereiro. Em 2022 o estado voltou a proclamá-lo, agora em 28 de fevereiro, data que cai todo ano. Em 2007 a universidade lhe concedeu, postumamente, a Regents' Medal of Distinction.
Fontes: Universidade do Havaí, Smithsonian Magazine, Honolulu Civil Beat e Images of Old Hawaii.
A história da ciência também se escreve apagando nomes. A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, está no catálogo da Poder Afrikano.
O protocolo antirracismo foi acionado nos acréscimos de Juventude e Atlético-GO, quando já não havia jogo para parar
O estádio Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul, onde Juventude e Atlético-GO empataram por 2 a 2. Foto: Jpcp40, via Wikimedia Commons.
Chamaram o goleiro de macaco nos acréscimos, e o jogo acabou logo depois. Foi no sábado, 5 de setembro, em Caxias do Sul, no empate de 2 a 2 entre Juventude e Atlético-GO pela Série B.
Segundo o clube goiano, um torcedor chegou ao alambrado e disse ao goleiro Paulo Vitor: "vamos jogar, macaco". Ele comunicou na hora ao árbitro Ramon Abatti Abel, que registrou o episódio na súmula e chamou o policiamento.
Como o protocolo funciona
O protocolo antirracismo existe exatamente para isso, e a CBF adotou o gesto da FIFA para todas as competições no Brasil. São três etapas, e todas param a partida: primeiro interromper, com um anúncio no som do estádio; depois suspender de novo, tirando as duas equipes de campo; por fim encerrar o jogo em definitivo.
O problema é aritmético. A ofensa chegou nos acréscimos, durante o jogo, quando já não havia mais partida para interromper, suspender ou encerrar. O protocolo foi acionado e o apito final veio em seguida.
O que sobrou
Sobrou o que sobra sempre: o registro na súmula, um boletim de ocorrência e as imagens das câmeras do estádio. Até agora ninguém foi identificado.
A revista Placar relatou que parte da torcida do Juventude vaiou o protocolo.
Não é a primeira vez no futebol goiano. Em 2022, o jogador Fellipe Bastos, então no Goiás, denunciou ter sido chamado de macaco num clássico no Estádio Antônio Accioly.
O gesto do árbitro é o começo. O que decide é o que vem depois.
Fontes: Mais Goiás, Jornal Opção, Revista Placar e O Hoje, 5 a 8 de setembro de 2026.
O futebol é onde o racismo brasileiro fica visível e segue impune. O Almanaque da África na Copa está no catálogo da Poder Afrikano.
Jornada da Cena Independente abre inscrições em 8 de setembro para formação gratuita de mulheres negras e pessoas LGBTQIAPN+ no mercado da música
Cinco dos seis encontros da Jornada são online, pelo Zoom. Foto: Subhashish Panigrahi, via Wikimedia Commons.
A segunda edição da Jornada da Cena Independente abre inscrições nesta segunda-feira, 8 de setembro, pelo Sympla. A formação é gratuita e voltada a mulheres negras e pessoas LGBTQIAPN+ que atuam ou querem atuar no mercado da música.
Quem realiza é o Coletivo EPA Criativo, de Salvador. A iniciativa nasceu em 2021, da percepção de que artistas independentes, e sobretudo mulheres negras e pessoas LGBTQIAPN+, encontram dificuldade para acessar conhecimento básico sobre gestão de carreira, circulação de trabalho e elaboração de projeto.
Como funciona
São cinco workshops online, transmitidos pelo Zoom, de 21 a 25 de setembro, das 18h às 21h, com até 100 vagas em cada um. O encerramento é presencial, no sábado 26, das 13h às 17h, na Associação de Moradores do Final de Linha do Engenho Velho da Federação, em Salvador. São 19 horas de carga horária.
Ao final, cada participante desenvolve um produto prático, apresentado no encontro de encerramento, quando também saem os certificados.
A programação
21 de setembro, planejamento estratégico e assessoria de imprensa, com Laísa Gabriela. 22 de setembro, produção audiovisual para redes sociais, com Jéssica Docezero. 23 de setembro, produção musical e noções de direito autoral, com Victor Haggar. 24 de setembro, marketing digital e lançamento de carreira no mercado musical, com Jéssica Nunes, da Entrelaço Comunicação. 25 de setembro, escrita de projetos e editais culturais, com Everlen Kely e Leila Campelo.
Quem coordena
Laísa Gabriela é cofundadora do EPA Criativo e gestora da Jornada. Para ela, o problema é de acesso, não de talento: "ainda existe uma grande dificuldade no acesso às ferramentas necessárias para transformar o talento em uma carreira sustentável. A Jornada nasce justamente para reduzir essa desigualdade, compartilhando conhecimentos que, normalmente, circulam apenas em espaços mais restritos da indústria da música".
Everlen Kely, coordenadora executiva, situa a formação como questão de permanência: "o projeto fortalece trajetórias, amplia o acesso à informação e cria oportunidades para que mulheres negras, mulheres trans e pessoas LGBTQIAPN+ desenvolvam suas carreiras com mais autonomia, reconhecimento e condições de permanência no mercado da música".
O EPA Criativo foi idealizado por Laísa Gabriela, Ana GB e Francini Ramos. O projeto ficou cinco anos inativo e Laísa retomou a condução em 2026.
Como se inscrever
As inscrições abrem em 8 de setembro pelo Sympla. A divulgação não informa data limite, e o link será publicado nas redes sociais do coletivo, no perfil @epa.criativo do Instagram.
A segunda edição da Jornada foi contemplada nos editais da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, com recursos do Governo Federal por meio do Ministério da Cultura, executados pelo Governo do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura.
Fonte: Notícia Preta, 6 de setembro de 2026. Imagens: Subhashish Panigrahi, Dayron Villaverde, Cashlee69 e Matti Blume, via Wikimedia Commons.
Formação é infraestrutura. Despertando o Gênio Natural da Criança Preta, de Amos Wilson, está no catálogo da Poder Afrikano.
Onesimus, um homem africano, descreveu em Boston o método contra a varíola que salvaria a cidade em 1721, e o crédito ficou com o pastor que o anotou
A cidade de Boston no mapa de John Bonner, de 1722, o ano seguinte à epidemia. Imagem: Library of Congress, via Wikimedia Commons.
Onesimus era um homem africano que vivia em Boston no começo do século 18. Trouxe da África um conhecimento que a medicina europeia ainda não tinha: sabia como se proteger da varíola antes de pegar a doença. Quando a epidemia chegou à cidade, em 1721, foi esse método que reduziu a mortalidade a uma fração do que era.
Ele estava escravizado na casa de um pastor. Depois da epidemia comprou em parte a própria liberdade, casou e teve filhos em Boston. É quase tudo o que se sabe da vida dele.
De onde ele vinha
O pastor registrou que Onesimus era guaramantese. Historiadores leem a palavra como uma grafia de coromantee, o nome que os ingleses davam a gente do grupo akan, na região da atual Gana e da Costa do Marfim. Há uma corrente que situa a origem dele no norte da África, a partir de uma menção a Barbary nos papéis do período. Quem estuda o tráfico atlântico e a história africana costuma ficar com a leitura akan.
Quem foi Cotton Mather
O pastor era Cotton Mather, nascido em Boston em 1663 e morto na mesma cidade em 1728. Puritano, copastor da Old North Meeting House, foi eleito membro da Royal Society de Londres em 1713 e publicou perto de 400 obras. Defendeu publicamente os julgamentos das bruxas de Salem em 1693, sem ter tido papel oficial neles.
Mather tinha ao menos três pessoas escravizadas em casa, e Onesimus era uma delas. É pela pena dele que essa história chegou até aqui, e é isso que a torna uma história sobre crédito tanto quanto sobre medicina.
O que Onesimus contou
Perguntado se já tinha tido varíola, Onesimus respondeu que sim e não. Tinha passado por uma operação que lhe deu algo parecido com a doença e o protegeria para sempre. A prática, disse, era comum entre o povo dele. Mather escreveu isso numa carta de 1716 à Royal Society, falando do novo método usado por africanos e asiáticos contra a varíola.
O procedimento se chama inoculação, ou variolização: põe-se num corte de quem está saudável um pouco do material da ferida de um doente, para provocar uma versão branda da doença e criar defesa.
1721
A varíola chegou a Boston de navio e metade da cidade adoeceu, cerca de 11 mil pessoas. Mather defendeu o método, e quem colocou a mão foi o médico Zabdiel Boylston. Em 26 de junho ele inoculou o próprio filho, de seis anos, e dois escravizados da casa.
Em cinco meses Boylston inoculou 247 pessoas. Morreram seis, cerca de 2%. Entre quem pegou a doença naturalmente, a mortalidade ficou perto de 15%. Os números são do relato que o próprio Boylston publicou depois, e a folha de rosto do livro registra que a inoculação foi aplicada em todo tipo de pessoa, brancos, negros, de todas as idades.
A cidade reagiu
A resistência foi violenta. O médico William Douglass publicou panfletos contra, o conselho da cidade condenou a prática em agosto de 1721 e o New-England Courant nasceu naquele mesmo mês fazendo campanha contra a inoculação. Um crítico atacou Mather por pensar como negro. Alguém jogou uma bomba caseira na casa do pastor, com um bilhete de ameaça. Ela não explodiu.
Duas honestidades
Inoculação não é vacina. A vacina de Edward Jenner, feita com material de varíola bovina, só apareceria em 1796, e é outro procedimento.
E tudo o que se sabe de Onesimus chegou pela escrita de Mather, que era parte interessada na briga. A voz dele não sobreviveu. O método sobreviveu, e o crédito ficou com quem escreveu.
Fontes: College of Physicians of Philadelphia, Paul Revere House e Royal Society, a partir do relato de Zabdiel Boylston. Imagens: mapa de Boston de John Bonner (1722), retrato de Cotton Mather por Peter Pelham, folha de rosto do livro de Boylston e primeira edição do New-England Courant, via Wikimedia Commons.
O que acontece com um povo quando o conhecimento que ele produziu passa a ser contado com a assinatura de outro é o assunto de A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, no catálogo da Poder Afrikano.
Data centers de inteligência artificial avançam sobre bairros pobres na África do Sul, nos Estados Unidos e no Brasil, e o Senado aprovou a isenção de tributos para o setor
Gugulethu, na periferia da Cidade do Cabo. Foto: Bernard303, via Wikimedia Commons.
Ncediwe Vanqa tem 66 anos e mora em Gugulethu, na Cidade do Cabo, numa casa de 18 metros quadrados. Para ter água, ela caminha até sete vezes por dia até uma torneira comunitária. A menos de dois quilômetros dali, a prefeitura aprovou em julho dois data centers ligados à Equinix, fornecedora de infraestrutura para Amazon, Microsoft e Google.
A Equinix nega ter apresentado pedido de data center na cidade. Os registros municipais mostram três reuniões sobre o assunto.
A cena se repete em outro continente. Em Clarksdale, no Mississippi, cidade de maioria negra onde 55% da população vive na pobreza, mais que o dobro da média estadual e nacional, um data center foi anunciado como promessa de emprego ao lado do Roundyard, bairro negro histórico. Cerca de 15 moradores foram à Justiça alegando que não houve consulta pública.
Parece distante, e não é
No Ceará, dois projetos na Zona de Processamento de Exportação de Caucaia projetam demanda elétrica equivalente a 4,5 milhões de residências. O estado inteiro tinha 3,8 milhões de domicílios no Censo de 2022. A captação de água prevista é no Aquífero Dunas.
Ainda no Ceará, o povo indígena Anacé cobra consulta prévia sobre o data center do TikTok no Complexo do Pecém. A disputa não é de agora: a mobilização que paralisou a obra é de agosto de 2025, e o licenciamento seguiu sob investigação em 2026.
No Pará, o Ministério Público estadual abriu inquérito civil sobre o data center BEL1, da Elea, em Barcarena, um projeto de R$ 250 milhões com início previsto para 2027 e 7,5 MW de potência, o equivalente ao consumo de cerca de 22,5 mil residências. Entre os motivos citados estão ilha de calor, consumo de água e energia, ruído e ausência de consulta pública às comunidades ribeirinhas.
A empresa afirma que a unidade não usará água no resfriamento e será abastecida por energia renovável. E vale dizer com todas as letras: o Ministério Público abriu inquérito, não denunciou nem condenou ninguém.
O que o Congresso aprovou
Em 1º de setembro, o Senado aprovou o Redata, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center, previsto no PL 278/2026 e relatado pelo senador Cid Gomes. O texto suspende, por cinco anos, o Imposto de Importação, o IPI, o PIS/Cofins e o PIS/Cofins-Importação na compra de equipamentos de armazenamento e processamento de dados.
A renúncia fiscal estimada é de R$ 7,25 bilhões em três anos: R$ 5,2 bilhões em 2026, R$ 1 bilhão em 2027 e R$ 1,05 bilhão em 2028. O projeto seguiu para sanção presidencial.
O setor cresce rápido no país. Levantamento da consultoria JLL aponta 106 MW entregues no primeiro semestre de 2026, mais 134 MW previstos até dezembro, cerca de US$ 8 bilhões investidos e 660 MW em construção.
Uma ressalva honesta
As três pernas desta história não têm o mesmo recorte, e tratar as três como uma coisa só seria mais fácil do que correto.
Em Clarksdale, a disputa é explicitamente racial: a reportagem descreve uma cidade de maioria negra e um bairro negro histórico. No Brasil, quem cobra consulta prévia são o povo indígena Anacé e as comunidades ribeirinhas de Barcarena, o que faz da pauta uma questão indígena e ribeirinha, não uma pauta negra. E a reportagem sobre a Cidade do Cabo não racializa Gugulethu: ali o eixo que se sustenta é o de classe e infraestrutura.
O que amarra as três não é a cor de quem mora ao lado. É a ordem das perguntas. A máquina chega primeiro, o incentivo fiscal chega junto, e a consulta à vizinhança chega depois, quando chega.
Desenvolvimento para quem, e a que custo?
Fontes: Agência Pública e Pulitzer Center, 5 de setembro de 2026; Capital B News; Agência Senado e Agência Brasil, sobre a aprovação do Redata; Intercept Brasil, sobre a mobilização do povo Anacé; Olhar Digital, 9 de agosto de 2026, sobre o inquérito do Ministério Público do Pará; e levantamento da JLL sobre o mercado brasileiro. Imagem: Bernard303, via Wikimedia Commons.
Infraestrutura também decide quem tem água na torneira e quem caminha até a bica. Consciência Afrikano-Centrada versus Nova Ordem Mundial, de Amos Wilson, está no catálogo da Poder Afrikano.
Abraham Mofokeng, de 86 anos, é um dos três autores da ação que cobra do Estado sul-africano indenização pelo massacre de Sharpeville
A fileira de túmulos das vítimas do massacre de Sharpeville, no cemitério Phelindaba, em Vereeniging. Foto: Andrew Hall, via Wikimedia Commons.
Abraham Mofokeng tem 86 anos, mora em Sharpeville e carrega uma bala alojada na coluna desde 1960. Na quinta-feira, 3 de setembro, ele entrou com uma ação contra o governo da África do Sul pedindo indenização pelo massacre que o deixou assim. Não está sozinho: são três autores no processo, e ele é um deles.
Os autores pedem uma indenização de cerca de 500 mil rands, o equivalente a aproximadamente 23 mil libras, segundo Daniel Leader, sócio do escritório britânico Leigh Day, que assessora a equipe jurídica sul-africana, liderada pela organização Lawyers For Human Rights. Se a ação for bem-sucedida, dezenas de outras pessoas podem apresentar pedidos semelhantes.
Procurados pelo Guardian, os porta-vozes do departamento de Justiça sul-africano não responderam ao pedido de comentário sobre o caso.
O que aconteceu no dia em que ele levou o tiro
Em 21 de março de 1960, moradores de Sharpeville, a cerca de 60 quilômetros ao sul de Joanesburgo, saíram às ruas contra as leis do passe, que obrigavam sul-africanos negros, indianos e mestiços a carregar documentos o tempo todo especificando onde podiam estar. A marcha era uma de dezenas organizadas pelo Congresso Pan-Africanista, grupo dissidente do Congresso Nacional Africano.
Mofokeng tinha 20 anos e era operário de fábrica. "O tempo estava muito bom, o sol tinha aberto. Não dava para suspeitar que o dia terminaria tão mal", contou ele.
A multidão estava reunida pacificamente diante da delegacia, cantando, quando os policiais abriram fogo sem aviso. A polícia do regime registrou 69 mortos. Uma pesquisa publicada em 2023 por Nancy L. Clark e William H. Worger, feita a partir de autópsias e prontuários médicos, concluiu que foram pelo menos 91 mortos e 238 feridos. Ou seja: o Estado subnotificou as próprias vítimas em pelo menos um terço, e é o número maior que os autores da ação usam hoje.
Enquanto fugia, uma bala raspou a parte interna do pé direito de Mofokeng e arrancou o sapato. Uma mulher caiu no chão à frente dele; ele pulou por cima e continuou correndo. Só depois, ao notar o sangue escorrendo pelas pernas, percebeu que tinha sido baleado nas costas. A bala continua alojada na coluna.
Logo após o massacre, a polícia alegou que os manifestantes atiravam pedras. Numa declaração publicada pelo Guardian no dia seguinte, o comandante local, coronel J. Pienaar, disse: "Não sei em quantos atiramos". E completou: "Se eles fazem essas coisas, precisam aprender a lição do jeito difícil".
A lei de 1961 que ainda protege o Estado
Em julho de 1961, quando vítimas começaram a apresentar pedidos de indenização, o regime da minoria branca aprovou uma lei que isentava o governo e qualquer pessoa agindo sob sua autoridade da responsabilidade por atos praticados "de boa-fé" na prevenção ou supressão de desordem interna, na manutenção da ordem pública ou na preservação da vida e da propriedade.
A lei valeu retroativamente a partir da data do massacre e continua em vigor hoje. A equipe jurídica dos autores sustenta que ela é inconstitucional. Esse é o nó do caso: não se discute apenas o que a polícia fez em 1960, e sim o escudo jurídico que o Estado construiu no ano seguinte e nunca desmontou.
O que a Comissão da Verdade prometeu e o que pagou
Mofokeng recebeu 30 mil rands, em parcela única, depois que a Comissão da Verdade e Reconciliação concluiu seus trabalhos, em 2003. A comissão havia recomendado reparações anuais de cerca de 20 mil rands durante seis anos.
"A gente continuou sofrendo", disse Mofokeng, que segue morando em Sharpeville.
O caso entra numa onda de ações sobre crimes do apartheid, em meio à frustração com governos liderados pelo Congresso Nacional Africano que não corrigiram a desigualdade racial e a pobreza do país nas mais de três décadas desde o fim do regime. Em janeiro de 2025, num processo diferente deste, 25 sobreviventes e familiares de vítimas da violência de Estado processaram o governo por não ter levado adiante casos encaminhados pela Comissão da Verdade. Em maio daquele ano, o presidente Cyril Ramaphosa anunciou um inquérito judicial sobre possível interferência política, que segue em andamento.
Sessenta e seis anos depois, o que está em julgamento não é a memória do massacre. É a conta que nunca foi paga, cobrada por um homem que ainda carrega a prova dentro do corpo.
Fontes: The Guardian, 3 de setembro de 2026, reportagem de Rachel Savage; e Nancy L. Clark e William H. Worger, Voices of Sharpeville: The Long History of Racial Injustice (2023), sobre a subnotificação das vítimas. Imagem: Andrew Hall, via Wikimedia Commons.
Um Estado que legisla para se proteger da própria violência não é exceção histórica, é método. Consciência Afrikano-Centrada versus Nova Ordem Mundial, de Amos Wilson, está no catálogo da Poder Afrikano.
A Cor Púrpura, o Musical volta ao Rio em 13 de outubro para a quinta temporada da produção na cidade, com Suzana Santana outra vez no papel de Celie
Alice Walker, autora do romance de 1982 que deu origem ao musical. Foto: Virginia DeBolt, via Wikimedia Commons.
A Cor Púrpura, o Musical volta ao Rio de Janeiro a partir de 13 de outubro de 2026, no Teatro Multiplan, no Shopping VillageMall. É a quinta temporada da produção na cidade, onde ela começou em setembro de 2019, e Suzana Santana volta ao papel de Celie.
A direção geral e a concepção original são de Tadeu Aguiar, a versão brasileira é de Artur Xexéo e a direção musical da temporada é de Thalyson Rodrigues, que ocupa a função no espetáculo desde 2022. Ao lado de Suzana Santana, o elenco tem Lola Borges como Nettie, Wladimir Pinheiro como Mister, Flávia Santana como Sofia e Aline Serra como Shug Avery.
A montagem reúne 18 atores, 90 figurinos, um palco giratório de seis metros de diâmetro e uma escada curva com sistema de traveling que se movimenta ao redor do cenário. A equipe criativa tem cenário de Natália Lana, figurinos de Ney Madeira e Dani Vidal, coreografias de Sueli Guerra, desenho de luz de Rogério Wiltgen e desenho de som de Gabriel D'Angelo. Desde a estreia, a produção soma mais de 100 prêmios, indicações e honrarias.
Ingressos a partir de R$ 60, com opção solidária
A pré-venda para clientes do programa de relacionamento Multi começou na quinta-feira, 3 de setembro. Para o público geral, os ingressos ficaram disponíveis a partir do sábado, 5 de setembro, pela Sympla e na bilheteria do teatro, com valores a partir de R$ 60.
Há ainda a opção de ingresso solidário em todos os setores, com valores especiais mediante a entrega de 1 kg de alimento. O alimento não substitui o pagamento: ele dá acesso a um preço diferenciado.
Do romance de 1982 aos palcos brasileiros
O musical é baseado no romance homônimo de Alice Walker, publicado em 1982, livro que fez dela a primeira mulher negra a receber o Prêmio Pulitzer de Ficção. A trama acompanha Celie, uma mulher negra que cresce no sul dos Estados Unidos na primeira metade do século XX, afastada da irmã Nettie e entregue em casamento a Mister, e que começa a enxergar outras possibilidades de vida a partir de mulheres como Sofia e a cantora Shug Avery.
O texto do musical é de Marsha Norman, com músicas de Brenda Russell, Allee Willis e Stephen Bray, e a trilha atravessa gêneros como gospel, jazz, ragtime e blues. A obra chegou ao cinema em 1985, na adaptação de Steven Spielberg, que recebeu 11 indicações ao Oscar, e em 2015 uma nova produção da Broadway conquistou o Tony Award de Melhor Revival de Musical.
Sobre a decisão de trazer a obra para o Brasil, Tadeu Aguiar disse: "Comprei os direitos de A Cor Púrpura, o Musical em 2018, quando procurava, mais uma vez, algo que me provocasse como artista. Para mim, como cidadão, o espetáculo é uma grande oportunidade. Acho importante falar sobre uma mulher que vence, sobre amor, representatividade negra e feminina".
Serviço.A Cor Púrpura, o Musical, a partir de 13 de outubro de 2026, no Teatro Multiplan, Shopping VillageMall, Rio de Janeiro. Ingressos pela Sympla e na bilheteria, a partir de R$ 60, com opção de ingresso solidário mediante 1 kg de alimento.
Fonte: Notícia Preta, 6 de setembro de 2026. Imagem: Virginia DeBolt, via Wikimedia Commons.
A violência que Celie atravessa dentro de casa tem endereço e tem história. Questões de Masculinidade em Preto e Branco, de Amos Wilson, está no catálogo da Poder Afrikano.
Christian Malheiros diz que a virada do cinema negro não está só em quem aparece na tela, e sim em quem escreve o roteiro e assina a fotografia
O ator Christian Malheiros em 2023. Foto: Nerd Tatuado, via Wikimedia Commons.
Em entrevista publicada no dia 6 de setembro pelo Notícia Preta, o ator Christian Malheiros falou sobre como escolhe seus personagens. O momento da carreira dele ajuda a explicar por que a resposta interessa: ele levou o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cinema de Gramado por Justino: nos bastidores do reino, chegou ao 1º lugar no Top 10 global de filmes em língua não inglesa da Netflix com Nando entre dois mundos: um filme sintonia e se prepara para viver Glaidson em O Faraó dos Bitcoins.
Sobre o critério que usa, ele disse: "A minha casca ela é preta, qualquer personagem que eu vou fazer vai ser preto, então o que eu posso contribuir já que a minha cor já transmite uma mensagem para as pessoas? Eu posso fazer com que esse corpo preto tenha os dilemas que ninguém quer ver, é isso que eu faço com meus personagens".
Nando, e o que veio antes dele
Em agosto, a Netflix lançou Nando entre dois mundos: um filme sintonia, desdobramento da série Sintonia, em que Malheiros viveu Nando ao longo de cinco temporadas: um jovem negro periférico que acaba envolvido com o crime enquanto procura uma vida melhor.
"Eu sou um garoto periférico, então falar de Nando também é falar de mim", disse o ator, que contou ter levado para o papel pessoas que conheceu. "No Nando também foi possível trazer pessoas que eu conhecia, primos que perdi pro tráfico, amigos que perdi para o crime e drogas. Eu trouxe esse personagem em outro lugar, com uma outra consciência, mas isso também é representar a minha quebrada e mostrar histórias que sirvam de exemplo do que não fazer e que a gente também possa olhar com mais carinho".
Segundo ele, o filme só existiu porque havia um destino diferente reservado ao personagem, que decide largar o crime. "A Netflix me chamou e eu falei topo se a gente passar uma nova mensagem", contou.
O próximo é um criminoso, e o interesse está no que ele pensa sozinho
Em O Faraó dos Bitcoins, Malheiros vive Glaidson, personagem inspirado no líder de um esquema de criptomoedas. O que o atrai, disse, não é o crime em si. "A história do Glaidson me interessa demais, me interessa o dilema, ele fez um monte de coisa e o que me interessa é quando esse cara tá sozinho o que ele pensa? O que ele faz?"
A frase que muda o lugar do debate
Perguntado sobre o movimento de pessoas negras ocupando o protagonismo sem estar num lugar de vulnerabilidade, Malheiros deslocou a conversa. Para ele, não basta olhar quem está diante da câmera, é preciso olhar toda a cadeia de produção, o roteiro e a fotografia.
"Muitas vezes temos uma cara negra, periférica ou de qualquer outra minoria para protagonizar aquele produto e não tem uma estrutura pensada para isso, por isso é tão importante ter pessoas pensando na estrutura de roteiro, de fotografia", disse.
É a diferença entre aparecer e decidir. Um elenco negro num set em que ninguém negro escreve, ilumina ou monta continua sendo um produto pensado por outros. Entre as pessoas que, para ele, vêm mudando isso, citou a atriz e diretora Grace Passó: "Grace é uma das maiores inspirações desse momento que vamos transformar personagens e deixar mais profundo a nossa história".
Ele fechou a entrevista falando da geração a que pertence e do que considera obrigação dela: "nossa função aqui é também deixar a porta ainda mais escancarada e preparar o cinema de amanhã".
Fonte: Notícia Preta, 6 de setembro de 2026. Imagem: Nerd Tatuado, via Wikimedia Commons.
Quem escreve o roteiro decide quais dilemas cabem numa história, e quais nem chegam a ser contados. A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, trata de quem controla a narrativa e do que isso produz.
João Victor Gonçalves é seguido e filmado ao vivo na saída do Rock in Rio, e Erika Hilton diz que vai acionar o Ministério Público contra o streamer e a Kick
O ator João Victor Gonçalves, o Mau Mau de "Quem Ama Cuida". Foto: Reprodução/Instagram.
Na sexta-feira, 4 de setembro, o ator João Victor Gonçalves, o Mau Mau da novela Quem Ama Cuida, da Globo, foi seguido e filmado por um grupo na saída da Cidade do Rock. Debocharam da roupa e da sexualidade dele por todo o percurso. Tudo ao vivo, na transmissão do streamer GH, na plataforma Kick.
O streamer disse que estava fazendo entretenimento pela rua e que o vídeo saiu de contexto. Depois gravou um pedido de desculpas: "Se eu errei, eu peço desculpa, porque nós é ser humano, nós erra."
A deputada federal Erika Hilton anunciou que vai acionar o Ministério Público contra o streamer e contra a Kick. Para ela, gravar uma pessoa na rua e submetê-la a deboche e a ofensas de teor homofóbico não é entretenimento. João Victor Gonçalves disse que engoliu e seguiu, e lembrou que o personagem que interpreta enfrenta a homofobia estrutural.
A defesa tem nome no direito brasileiro
As fontes descrevem o ataque a João Victor Gonçalves como homofóbico, e é assim que ele entra aqui. O que liga esse caso aos processos abaixo não é a vítima. É a defesa.
"Era só entretenimento" é o argumento que aparece em quase todo processo desse tipo. Quando a vítima é negra, o direito brasileiro já deu um nome a ele: racismo recreativo, conceito de Adilson Moreira, doutor por Harvard em direito antidiscriminatório. É o humor hostil operando como política cultural, um jeito de manter a hierarquia e, ao mesmo tempo, esconder que ela existe.
O comentário que mais chega quando se fala disso é que é mimimi. Que ninguém mais pode brincar com nada. Então vale parar de discutir sensibilidade e olhar o que a Justiça brasileira vem decidindo, com data, valor e nome de juiz.
"Feioso do capeta", no ar
Um homem negro abordado na rua entra no Programa do Ratinho e comenta que queria conhecer uma mulher de "pezinho bonito". Ratinho responde na transmissão: "Pra você é demais, feioso do capeta."
O SBT foi condenado a pagar R$ 30 mil e a tirar o vídeo do ar. A emissora alegou que o programa é humorístico. O juiz Valdir Queiroz Júnior respondeu que isso "não elide a responsabilidade por ofensas individualizadas proferidas contra pessoa comum". A emissora informou que vai recorrer, e o caso não está encerrado.
O "cabelo ruim" no escritório
Num escritório de advocacia, um sócio falava do "cabelo ruim" de um advogado negro e associava a imagem dele a "maconheiro" e "traficante", por escrito, em grupo de trabalho. Em fevereiro de 2025, o TRT da 2ª Região manteve a condenação e fixou a indenização em R$ 50 mil, reduzindo os R$ 109,3 mil arbitrados em primeiro grau.
A desembargadora Soraya Lambert escreveu que a conduta exige "reprimenda adequada a fim de se coibir tais condutas no ambiente de trabalho". A fonte não identifica o escritório nem o sócio.
Os camarins separados
Em 19 de março de 2025, a juíza Aline Gomes Siqueira, do TRT da 1ª Região, condenou a Globo a pagar R$ 500 mil à atriz Roberta Rodrigues por assédio moral e racismo nos bastidores de Nos Tempos do Imperador. Segundo a decisão, havia camarins separados para elenco branco e elenco negro. A atriz relatou burnout e três meses de afastamento, e havia pedido R$ 10 milhões. A decisão não é definitiva, e cabe recurso.
Quando a lei funciona
Em 3 de setembro deste ano, o juiz Carlos Eduardo Gratão, da 2ª Vara do Trabalho de Aparecida de Goiânia, condenou uma empresa de Senador Canedo a pagar R$ 15 mil a um auxiliar de almoxarifado negro. Segundo as testemunhas, o chefe imediato dizia que o levaria para o tronco. Na sentença, o juiz usou exatamente o termo racismo recreativo. A decisão já transitou em julgado.
Quando a lei recua
Em 23 de fevereiro deste ano, o TRF-3 absolveu o humorista Léo Lins por 2 votos a 1, derrubando os 8 anos e 3 meses de prisão e os R$ 303,6 mil fixados na sentença de 2025. Para a maioria, as piadas não se enquadram como crime. O Ministério Público Federal ainda pode recorrer.
Então qual é o limite?
Repare no que esses casos têm em comum. Em todos, a defesa foi a mesma: era humor, era entretenimento, era brincadeira.
Num escritório, custou R$ 50 mil. Numa emissora, R$ 30 mil e o vídeo fora do ar. Numa novela, R$ 500 mil. Num palco, custou zero.
O limite existe. Ele só muda de lugar dependendo de quem está julgando, e de quem está apanhando.
Fontes: Terra, 5 de setembro de 2026; Notícia Preta, 3 de setembro de 2026; Diário do Centro do Mundo, 4 de março de 2026; Carreira Jurídica / Estratégia, sobre a decisão do TRT da 2ª Região; Metrópoles, 19 de março de 2025; Termômetro da Política, 24 de fevereiro de 2026; e entrevista de Adilson Moreira à CartaCapital. Imagem: Reprodução/Instagram.
A piada que humilha não é acidente de percurso, é um jeito de organizar quem manda e quem aguenta. Questões de Masculinidade em Preto e Branco, de Amos Wilson, está no catálogo da Poder Afrikano.
Black Pantera faz história no Rock in Rio: trio negro de Uberaba dividiu o Palco Sunset com a Nervosa e viu o público formar uma roda só de meninas em "Serotonina"
Charles no Palco Sunset do Rock in Rio, durante a faixa "Fogo nos Racistas". Reprodução/G1.
Em 5 de setembro, o Black Pantera subiu ao Palco Sunset do Rock in Rio para um show que a crítica especializada já chama de histórico. O trio de Uberaba (MG) dividiu o palco com a Nervosa, banda paulista de thrash metal formada só por mulheres, e viu o público responder com um gesto raro num festival de rock: uma roda formada exclusivamente por meninas, enquanto os homens abriam espaço ao redor.
Quem é o Black Pantera
Formado em abril de 2014 em Uberaba por três músicos negros — Charles Gama (voz e guitarra), Chaene da Gama (baixo) e Rodrigo "Pancho" Augusto (bateria) —, o Black Pantera toca crossover thrash, mistura de thrash metal com hardcore punk, com influências que vão de Bad Brains e Rage Against the Machine a Sepultura. O nome é uma referência direta ao Black Panther Party, e as letras tratam de racismo, discriminação e violência policial: "I Can't Breathe" (2020) foi lançada logo após o assassinato de George Floyd e cita casos de brutalidade policial contra crianças brasileiras. Em 2024, o álbum Perpétuo foi eleito pela Rolling Stone Brasil o segundo melhor disco nacional do ano, e a faixa "Tradução" ganhou o prêmio de Música do Ano da Associação Paulista de Críticos de Arte.
O show
A apresentação abriu com "Hórus" e trouxe faixas novas do quinto álbum, Continental, lançado em 21 de agosto: "Obsoleto" e "Fogo nos Racistas" entre elas. Ao tocar "Tradução", Charles dedicou a música ao fim da escala de trabalho 6 por 1, "para que suas mães possam estar mais tempo com vocês", e desceu para beijar a própria mãe na plateia. O show ainda teve uma homenagem a Rita Lee, com "Obrigado Não".
O encontro com a Nervosa
Prika Amaral, vocalista e guitarrista da Nervosa — que lançou em abril o sexto álbum, Slave Machine, o segundo com ela nos vocais —, subiu ao palco para cantar "Serotonina" e "Endless Ambition" ao lado do Black Pantera. Foi durante "Serotonina" — faixa gravada originalmente com a rapper Duquesa — que a banda pediu a roda só de meninas, e os homens recuaram para abrir espaço. A crítica destacou o encontro como um gesto duplo de representatividade num gênero historicamente branco e masculino: duas bandas que usam o próprio espaço para falar de quem normalmente fica de fora dele.
O show aconteceu no mesmo dia da despedida do Sepultura do Rock in Rio, que encerrou 35 anos de apresentações da banda no festival: os veteranos tocaram no Palco Mundo às 16h40, e o Black Pantera subiu ao Sunset às 17h50, pouco mais de uma hora depois. A proximidade não é só de horário — Derrick Green, vocalista do Sepultura, canta em Continental. A crítica leu a sequência como uma passagem de bastão entre gerações do metal brasileiro.
A camiseta que já tinha viajado antes
"Fogo nos Racistas" já vinha ganhando visibilidade fora do Brasil: em 2 de agosto, uma camiseta do Black Pantera com a frase apareceu como bandeira erguida durante o show do Turnstile no Lollapalooza Chicago. O baixista Chaene da Gama comemorou nas redes: "Enquanto isso no Lollapalooza Chicago, nossa camiseta emula como uma bandeira."
Fontes: G1; SemanaPop, "Black Pantera e Nervosa fazem encontro histórico no RiR"; Igor Miranda, resenha do show no Rock in Rio 2026; Tenho Mais Discos Que Amigos; Wikipédia, "Black Pantera".
Um trio negro de Uberaba dividindo o palco com uma banda formada só por mulheres, e a plateia respondendo com uma roda só de meninas é consciência histórica em ação. O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre cultura, resistência e o poder de quem ocupa espaços que não foram feitos pra ele.
Erê faz 30 anos e o Bando de Teatro Olodum leva o espetáculo de graça para o Subúrbio Ferroviário de Salvador
O Bando de Teatro Olodum em cena no espetáculo Áfricas, na Caixa Cultural de Brasília, em 2017. Foto: Matheus Alves / Clique Negro, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.
O Bando de Teatro Olodum está em cartaz com Erê no Centro Cultural Plataforma, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, de 4 a 26 de setembro. Os ingressos são gratuitos e saem na bilheteria uma hora antes de cada sessão.
O espetáculo estreou em 1996, com o título Erê pra Toda Vida/Xirê. Faz 30 anos.
O que ele conta
Erê nasceu da Chacina da Candelária, em julho de 1993, quando oito crianças e adolescentes que dormiam na porta da igreja, no centro do Rio, foram mortos a tiros. O Bando descreve a montagem como um manifesto contínuo contra a violência do racismo, que usa música, dança, performance e dramaturgia para afirmar que a vida negra importa e precisa ser preservada.
Erê, no candomblé, é a criança. É também a energia infantil que atravessa quem já cresceu. Um espetáculo que leva esse nome e nasce de uma chacina de crianças está dizendo, no título, de que morte se trata.
Quem assina
Esta montagem tem roteiro de Lázaro Ramos, texto de Daniel Arcades, direção de Cássia Valle e Zebrinha, e direção musical e música original de Jarbas Bittencourt.
Quem entra em cada sessão
As sessões de sexta às 19h e de sábado às 15h são para estudantes da rede pública. As de sábado às 19h abrem para instituições socioculturais e para o público em geral. Levar o Bando para o Subúrbio Ferroviário, e não para o circuito do centro, é parte da decisão: a peça vai ao lugar onde moram as crianças de que ela fala.
Serviço
Erê, do Bando de Teatro Olodum. De 4 a 26 de setembro de 2026, no Centro Cultural Plataforma, Subúrbio Ferroviário, Salvador. Sextas às 19h e sábados às 15h para estudantes da rede pública; sábados às 19h para o público em geral. Ingressos gratuitos na bilheteria, uma hora antes.
Fonte: Revista Afirmativa, 4 de setembro de 2026. Imagem: Matheus Alves / Clique Negro, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons. A foto é do espetáculo Áfricas, do mesmo grupo, e não de Erê.
Trinta anos depois, a peça continua precisando existir pelo mesmo motivo. Despertando o Gênio Natural da Criança Preta, de Amos Wilson, está no catálogo da Poder Afrikano.
A primeira noite da Biblioteca Comunitária Maju Coutinho foi um lançamento de Helena Theodoro
Helena Theodoro. Foto: TV ALERJ, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons.
A Biblioteca Comunitária Maju Coutinho, instalada na sede do CEAP, no bairro da Saúde, no Rio, recebeu na segunda-feira, 31 de agosto, o primeiro lançamento literário desde que foi inaugurada: Saias Rodadas: Pensares de ontem, hoje e sempre, da professora, escritora e intelectual Helena Theodoro.
O encontro durou cerca de três horas e juntou intelectuais negros, integrantes do movimento negro, estudantes e ex-alunos de Helena.
Quem estava na mesa
Ele Semog, presidente do CEAP; o professor e babalawô Ivanir dos Santos, da UFRJ; o professor Rafael Haddock-Lobo, da UFRJ e da UERJ; a diretora-executiva do CEAP, Mariana Gino; a autora; e a jornalista Maju Coutinho, homenageada que dá nome à biblioteca, presente como convidada de honra.
Helena Theodoro carrega, em sua história e em sua escrita, a força de Oyá, a potência do samba e o movimento das transformações. Como uma saia que dança ao vento, seu pensamento não permanece parado: circula, provoca, atravessa gerações e abre espaço para novos olhares.
Mariana Gino, diretora-executiva do CEAP
Uma biblioteca na Pequena África
A biblioteca foi aberta pelo CEAP em parceria com a Favelivro, na região que o Rio chama de Pequena África, onde ficam o Cais do Valongo e o Cemitério dos Pretos Novos. É o território de chegada dos africanos escravizados que virou território de guarda da memória. Uma biblioteca ali não é equipamento cultural genérico: é o mesmo endereço mudando de função.
Durante o lançamento, o CEAP anunciou que realizará em novembro o FLIPA, Festival Literário da Pequena África.
O que a saia que roda tem a ver com o pensamento
Referência da filosofia afro-brasileira, Helena Theodoro pega no título uma imagem que qualquer pessoa reconhece e a usa como método: a saia gira, muda de direção e continua contando a mesma história. É o que ela faz com a memória, que no livro não aparece como peça guardada, e sim como coisa que se veste.
Fonte: Portal Geledés, 4 de setembro de 2026. Imagem: TV ALERJ, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons.
Pensamento negro precisa de onde circular, e biblioteca é isso. Conheça o catálogo da Editora Poder Afrikano.
Morre aos 70 anos Cassandra Wilson, a cantora que a Time chamou de melhor dos Estados Unidos
Cassandra Wilson em apresentação. Foto: Professor Bop, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.
Cassandra Wilson morreu na terça-feira, 3 de setembro, em casa, em Jackson, no Mississippi, a cidade onde nasceu e cresceu. Tinha 70 anos. A morte foi confirmada por Jeramiah Howard, coroner do condado de Hinds. A causa não foi informada.
O que ela fez com o repertório dos outros
Wilson ganhou dois Grammys de melhor álbum de jazz vocal, o primeiro em 1997, por New Moon Daughter, e o segundo em 2009, por Loverly. Em 2015 lançou Coming Forth by Day. Em 2001, a revista Time a chamou de melhor cantora dos Estados Unidos. Em 2022, recebeu o título de Jazz Master da National Endowment for the Arts.
O que a tornou reconhecível não foi o repertório, foi o que ela fazia com ele: pegava canção conhecida, standard de jazz ou sucesso pop, e devolvia irreconhecível, num registro grave que obrigava quem ouvia a chegar mais perto. Motown, Miles Davis e Thelonious Monk estão entre o que ela citava como formação.
As homenagens
O músico Jon Batiste disse que o timbre, o fraseado e o modo dela de tecer junto o folclórico, o R&B e a música da diáspora eram inconfundíveis. O prefeito de Jackson, John Horhn, a chamou de filha extraordinária da cidade, de voz musical singular.
Uma cantora do Mississippi que morreu no Mississippi
Ela nasceu, cresceu e morreu na mesma cidade, num estado que é o centro geográfico do blues e um dos lugares mais duros da história racial americana. Cassandra Wilson fez carreira no circuito de jazz de Nova York, foi lida ali como uma das vozes mais sofisticadas da sua geração, e morreu na casa de onde tinha saído. O prefeito da cidade chamou isso de filha extraordinária. É uma forma de dizer que ela nunca foi embora de verdade.
Fonte: Andscape, com informações da Associated Press, 3 de setembro de 2026. Imagem: Professor Bop, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.
Toda vez que uma voz dessas se cala, a conta de quem guarda a memória aumenta. Conheça o catálogo da Editora Poder Afrikano.
Naomi Osaka entrou na quadra central do US Open com as tranças de Allen Iverson
Naomi Osaka em 2018, no Nottingham Open. Foto: Peter Menzel, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.
Naomi Osaka estreou no US Open em 1º de setembro, contra Anastasia Zakharova, e ganhou. Entrou na Arthur Ashe de cornrows, faixa na cabeça, uma manga e uma munhequeira, cada braço com uma peça diferente. Não é adereço solto: é a citação, item por item, do uniforme não oficial de Allen Iverson.
O que ela disse
Osaka chamou Iverson de abridor de caminho e disse que ele mudou a forma como os jogadores da NBA se vestem, tenha sido de propósito ou não. Disse também que nunca o encontrou, mas que esperava que ele visse. Ele viu. Iverson respondeu, no Instagram, que era uma honra, que era um grande fã e que mal podia esperar para conhecê-la.
O vestido que ela usou na entrada é da Who Decides War, dos designers Téla D'Amore e Ev Bravado, com styling de Law Roach.
Por que as tranças dele viraram assunto
Iverson entrou na NBA no fim dos anos 1990 e não trocou o cabelo, a roupa nem o jeito de falar para caber onde chegou. As cornrows dele foram lidas como afronta, e a liga adotou em 2005 um código de vestimenta que barrava correntes, bonés e a estética que os jogadores negros levavam para fora da quadra. Iverson foi o rosto daquela discussão sem ter pedido para ser.
Vinte e poucos anos depois, uma tenista japonesa e haitiana entra na quadra mais vista do tênis com o mesmo penteado, e isso não é rebeldia: é homenagem, com patrocínio e estilista. A distância entre uma coisa e outra é a matéria da notícia.
Fontes: ESPN e Essence, 1º e 2 de setembro de 2026. Imagem: Peter Menzel, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons; a foto é de 2018 e não mostra o penteado desta partida.
Um mesmo penteado pode ser motivo de regra proibitiva em uma década e de homenagem na seguinte. Conheça o catálogo da Editora Poder Afrikano.
Lanternas vira a maior estreia de série da DC na HBO Max, e o episódio que puxou o recorde é o da origem de John Stewart
Aaron Pierre na San Diego Comic Con de 2026. Foto: Kevin Paul, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.
O terceiro episódio de Lanternas, exibido no domingo 30 de agosto, alcançou 10 milhões de espectadores no mundo e 7 milhões nos Estados Unidos nos três primeiros dias, segundo dados da Warner Bros. Discovery apurados pelo The Wrap. É o maior número da série até agora, e ela vem crescendo semana a semana.
A estreia, em 16 de agosto, tinha feito 9,3 milhões no mundo e 6,6 milhões nos Estados Unidos, e o episódio piloto já passou de 20 milhões acumulados. É a maior estreia de uma série da DC Studios na HBO Max, acima de It: Bem-Vindos a Derry, Pinguim e True Detective: Night Country. Vale a ressalva: as três tiveram médias de temporada maiores, de 27,1, 19,8 e 17,5 milhões.
O episódio que puxou o número
O terceiro episódio conta a origem de John Stewart, o Lanterna Verde vivido por Aaron Pierre, ao lado de Kyle Chandler como Hal Jordan. E é aqui que a série faz o que quase nenhuma adaptação de super-herói faz.
A revelação do episódio é que o pai de John foi recusado pelos Guardiões, a força alienígena que escolhe os Lanternas, por ter admitido que sentia medo. Depois disso, passou décadas treinando o filho para não sentir medo nenhum, com métodos que a série mostra sem suavizar, e o menino cresceu dentro desse projeto.
A pergunta que organiza o episódio aparece em cena: é justo perguntar a um homem negro nos Estados Unidos se ele tem medo? Quem seleciona nunca tinha pensado nisso. O critério parecia universal e não era, porque ser destemido no mundo também é um privilégio, e não é distribuído por igual.
Por que isso não é detalhe de roteiro
A conversa que famílias negras têm com os filhos sobre como se comportar para voltar vivo para casa é assunto conhecido de quem a tem. Levá-la para a escala intergaláctica, e transformá-la no teste de admissão de uma corporação de heróis, é o que a Andscape aponta como o achado da temporada: o pai treina o filho para ser destemido num mundo que trata o filho como coisa a ser temida.
O preço aparece na conta. Um menino criado para não sentir medo é um menino a quem foi negado ter medo, e a série trata isso como perda, não como superpoder.
Fontes: Mundo Negro, 4 de setembro de 2026, para os números de audiência; Andscape, análise de David Dennis Jr. sobre o terceiro episódio, para a leitura racial. Imagem: Kevin Paul, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.
Criar um menino preto para não sentir medo tem um preço, e a conta chega. Questões de Masculinidade em Preto e Branco, de Amos Wilson, está no catálogo da Poder Afrikano.
TST devolve à Lista Suja o nome da empregadora de Sônia Maria de Jesus, mantida desde os nove anos na casa de um desembargador
Sede do Tribunal Superior do Trabalho, em Brasília. Foto: Luis Dantas, domínio público, via Wikimedia Commons.
O presidente do Tribunal Superior do Trabalho, ministro Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, assinou na quinta-feira, 3 de setembro, a decisão que devolve à Lista Suja do trabalho escravo o nome de Ana Cristina Gayotto de Borba, apontada como empregadora de Sônia Maria de Jesus. A decisão atende a um pedido da Advocacia-Geral da União e suspende um acórdão da 4ª Câmara do Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região, em Santa Catarina, que em julho havia anulado o processo administrativo e mandado retirar o nome do cadastro.
Os efeitos da autuação ficam mantidos até o trânsito em julgado, quando não couber mais recurso. O ministro registrou que a decisão não antecipa o julgamento definitivo da controvérsia.
Quem consta na lista é a empregadora
Ana Cristina é esposa de Jorge Luiz de Borba, desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, em cuja residência, em Florianópolis, Sônia foi encontrada. Os dois foram denunciados pela Procuradoria-Geral da República pelo crime do artigo 149 do Código Penal, submissão de alguém a condição análoga à de escravo. No cadastro de empregadores, porém, quem figura é ela. Ana Cristina foi incluída na lista em abril do ano passado, saiu em julho por ordem do tribunal regional e agora volta.
Quase quatro décadas na mesma casa
Sônia Maria de Jesus é uma mulher negra com surdez bilateral profunda. Durante a operação de resgate, a fiscalização constatou que ela tinha 50 anos e trabalhava para a família desde os nove, quando foi levada de uma creche na Grande São Paulo pela mãe de Ana Cristina, Maria Leonor Gayotto.
Os autos de infração apontam que Sônia vivia em um cômodo externo, úmido e com infiltrações, e fazia continuamente a limpeza, os cuidados pessoais e o vestuário da família. Não recebia salário, férias, 13º salário nem descanso semanal remunerado. Passou a maior parte da vida sem documento de identidade, que só obteve em 2019.
A fiscalização foi feita pelo Grupo Especial de Fiscalização Móvel, que reúne a Inspeção do Trabalho, o Ministério Público do Trabalho, o Ministério Público Federal, a Defensoria Pública da União e a Polícia Federal. A defesa sustentava que Sônia havia sido acolhida e era tratada como integrante do núcleo familiar. Para os órgãos que apuraram, um detalhe desmonta o argumento: ela não teve acesso à educação, não foi alfabetizada em português e não aprendeu Libras, a Língua Brasileira de Sinais.
O que o tribunal regional havia anulado
O TRT da 12ª Região anulou o processo administrativo por entender que a decisão que confirmou a autuação deveria ter sido comunicada à advogada constituída, e não diretamente à empregadora. Para o presidente do TST, a fiscalização trabalhista segue regra própria, prevista em portaria do Ministério do Trabalho e Emprego, que determina a intimação pessoal do autuado. A defesa técnica foi apresentada, processada e analisada, e não se demonstrou prejuízo concreto ao contraditório.
A retirada do nome da autuada do Cadastro de Empregadores representa retrocesso na tutela estatal da dignidade humana e enfraquece a rede de proteção social.
Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, presidente do TST, na decisão
A Lista Suja é atualizada pelo governo federal desde 2003, hoje a cada semestre, e é usada por empresas, bancos e financeiras para gerenciamento de risco. As Nações Unidas a consideram um dos instrumentos mais efetivos de combate ao trabalho escravo no mundo.
Três meses depois do resgate, ela voltou para a mesma casa
Em 6 de setembro de 2023, com o aval do ministro Mauro Campbell, do Superior Tribunal de Justiça, o desembargador e a esposa visitaram Sônia no abrigo e a levaram de volta para a residência deles, sob a justificativa de que ela havia demonstrado vontade clara e inequívoca de voltar. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, negou o habeas corpus impetrado pela Defensoria Pública da União contra essa decisão.
No Ministério Público Federal, o subprocurador-geral da República Carlos Frederico Santos chamou de teratológica a ordem que permitiu o retorno e escreveu que há laudos técnicos atestando a impossibilidade de Sônia manifestar vontade de forma livre. O relator da ONU para formas contemporâneas de escravidão, Tomoya Obokata, disse estar alarmado com a autorização dada pelo Judiciário brasileiro.
O arranjo nunca precisou de contrato
A criança pobre e negra levada de casa para ajudar em outra, criada como se fosse da família, é um arranjo antigo no Brasil. Ele nunca precisou de carteira assinada porque nunca foi tratado como trabalho. É assim que quase quatro décadas passam dentro de uma residência sem que ninguém ali precise dar um nome ao que estava acontecendo. Quando o nome aparece, ele chega pela fiscalização, não pela casa.
O que se faz com a infância de uma criança preta, e o que uma sociedade racista ensina a ela sobre o próprio lugar, é o assunto de A Psicologia do Desenvolvimento da Criança Preta, de Amos Wilson, no catálogo da Editora Poder Afrikano.
Fonte: Repórter Brasil, reportagem de Leonardo Sakamoto publicada em 4 de setembro de 2026. O processo corre em segredo de justiça para preservar informações médicas e familiares da trabalhadora. Imagem: Luis Dantas, domínio público, via Wikimedia Commons.
Uma criança levada aos nove anos para servir em casa alheia não é exceção na história brasileira. A Psicologia do Desenvolvimento da Criança Preta, de Amos Wilson, está no catálogo da Poder Afrikano.
Um chef congolês leva Ghana para Niterói: o Solar do Jambeiro recebe neste sábado a nova edição dos Dias dos Países Africanos, com entrada gratuita
Solar do Jambeiro, em Niterói, onde acontece o evento. Foto: Mircezar, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.
Neste sábado, 5 de setembro, o Solar do Jambeiro recebe a edição Ghana do projeto Dias dos Países Africanos, das 11h às 21h, com entrada gratuita. São debates, oficinas de dança, contação de histórias, feira de artesanato, cozinha ganesa e pocket show, todos no mesmo casarão de Niterói.
Quem faz
O projeto é da Chez Kimberly Food, empreendimento gastronômico e cultural fundado pelo chef congolês Rikler Makabu Sekelembe. Cada edição se dedica a um país africano, com a ideia de que a imersão em um país por vez rende mais que a generalidade do continente.
Esta edição tem coprodução do coletivo One Love Afrika Production e produção geral da produtora Ana Priscila, da Negra Sim. O anfitrião é Trevor Gudkid, artista, arquiteto e produtor cultural ganês, que faz a mediação do ciclo de debates ao lado de Hermenegildo Cagiza e apresenta um pocket show.
A programação
A mesa redonda acontece das 13h às 15h, no Salão Amarelo, com Dr. Camunda, Empodera Comunidade, Doux Salem e Quame Yeboah. As oficinas de dança, com Maria Chantal e Karen Pacheco, começam às 15h. O Espaço Griot, de contação de histórias africanas para famílias e crianças, tem sessões às 11h30 e às 17h15, no pequeno coreto.
A feira de artesanato, ambientada com a simbologia adinkra, e a cozinha ganesa funcionam o dia inteiro. As apresentações de música e dança com DJs vão das 18h às 20h30.
Adinkra não é enfeite
Os símbolos adinkra que ambientam a feira vêm dos povos akan, de Ghana e da Costa do Marfim. Cada um carrega um provérbio, e eles aparecem impressos em tecidos, esculpidos em madeira e usados em cerâmica há séculos. O mais conhecido fora do continente é o sankofa, o pássaro que anda para a frente com a cabeça voltada para trás, buscando o que ficou.
Serviço
Dias dos Países Africanos, edição Ghana. Sábado, 5 de setembro, das 11h às 21h. Solar do Jambeiro, Rua Presidente Domiciano, 195, Niterói. Entrada gratuita.
Fontes: Notícia Preta, 4 de setembro de 2026, Jornal O Gonçalense, 3 de setembro de 2026, e o flyer oficial do evento. O horário aqui é o do flyer do organizador, 11h às 21h; as duas reportagens dizem que o evento começa às 10h e divergem entre si no encerramento, 21h e 20h30. O endereço é o que consta no tombamento do Solar do Jambeiro, e não o que aparece no rodapé do flyer. Imagem: Mircezar, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.
Cada edição do projeto escolhe um país africano por vez porque o continente não cabe em uma palavra só. Conheça o catálogo da Editora Poder Afrikano.
164 países votaram na ONU para trocar o mapa que encolhe a África, e os Estados Unidos foram o único voto contra
Mapa-múndi na projeção Equal Earth. Imagem: Strebe, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
Em 4 de setembro a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a resolução Correct the Map, por 164 votos a 1, com seis abstenções. O texto foi patrocinado por Estados membros da União Africana e pelas Bahamas, com o Togo à frente da campanha. Os Estados Unidos deram o único voto contra, sob o argumento de que a resolução promovia uma agenda ideológica.
O que muda
A resolução recomenda o uso da projeção Equal Earth no lugar da projeção de Mercator, criada no século 16. Mercator preserva os ângulos, o que a torna útil para navegar, e paga por isso esticando as áreas quanto mais longe se vai do Equador. O efeito mais citado é a Groenlândia, que no mapa aparece com tamanho parecido ao da África, quando a África tem uma área cerca de 14 vezes maior.
Esse número é a razão entre as duas áreas reais, não a medida do quanto o mapa encolhe o continente.
O que não muda
A resolução não é vinculante e não interfere no uso da projeção de Mercator para navegação marítima e aérea, para a qual ela continua adequada. Nenhum país é obrigado a trocar os mapas das escolas ou dos órgãos públicos por causa dela.
Um mundo justo começa com um mapa justo.
Robert Dussey, chanceler do Togo
Moky Makura, da organização Africa No Filter, resumiu o que vem depois da votação dizendo que agora começa o trabalho de verdade, e que a África não precisa ser feita maior, precisa ser vista com precisão.
Quem desenha o mundo ensina o lugar de cada um
Um mapa é uma escolha sobre o que preservar e o que distorcer, e nenhuma projeção plana escapa dessa conta. A pergunta não é se o mapa distorce, é o que ele escolheu distorcer, e a favor de quem. A Mercator serviu à navegação europeia no século 16 e seguiu pendurada nas paredes das salas de aula do mundo inteiro por 400 anos, muito depois de a navegação ter deixado de depender dela.
Essa disputa, sobre quem organiza o conhecimento e com que interesse, é o tema de Consciência Afrikano-Centrada versus Nova Ordem Mundial, de Amos Wilson, no catálogo da Editora Poder Afrikano.
Fonte: Al Jazeera, 4 de setembro de 2026. A reportagem não informa como o Brasil votou. Imagem: Strebe, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
Quem desenha o mapa decide o tamanho de quem aparece nele. Consciência Afrikano-Centrada versus Nova Ordem Mundial, de Amos Wilson, está no catálogo da Poder Afrikano.
Beyoncé completa 45 anos e a edição de 20 anos do B'Day chega às lojas na mesma data, com 27 faixas e festa marcada em Salvador
Beyoncé em Londres, 2023. Foto: Raph_PH, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.
Beyoncé faz 45 anos nesta sexta-feira, 4 de setembro de 2026. No mesmo dia chega às lojas a edição comemorativa de 20 anos do B'Day, o segundo álbum solo dela. Não é coincidência de calendário: o disco original também saiu em 4 de setembro, em 2006, o dia em que ela completava 25 anos.
Um disco lançado no próprio aniversário
O B'Day foi lançado em 4 de setembro de 2006 em vários países e chegou às lojas dos Estados Unidos um dia depois. Era o trabalho seguinte ao Dangerously in Love, de 2003. A gravação foi rápida: duas semanas de estúdio, com a cantora alugando o estúdio da Sony e chamando os produtores um a um.
Vale a distinção, porque as duas coisas costumam ser confundidas: a Deluxe Edition do B'Day, de 2007, é outro lançamento. A edição que sai agora é a de 20 anos.
O que traz a edição de 20 anos
São 27 faixas. Entram cinco gravações inéditas, versões em espanhol, lados B e "Morning Dew (Donk)", coproduzida por Pharrell Williams. A caixa maior traz quatro LPs em vinil azul de 180 gramas, livreto de 60 páginas e dois pôsteres colecionáveis. Também saem uma versão em dois LPs e um CD.
A festa em Salvador, e o que já ficou para trás
A Sony Music Brasil marcou para terça-feira, 8 de setembro, em Salvador, uma audição comemorativa dos 20 anos do disco. São cerca de 40 convidados, escolhidos a partir de um questionário em que valiam as respostas mais criativas.
Quem ainda não foi avisado não entra mais. A gravadora começou a comunicar os selecionados por email em 2 de setembro e deu prazo até as 16h de 3 de setembro para confirmarem presença. Cada um leva um acompanhante.
A audição vai das 20h à meia-noite, em uma casa de eventos cujo endereço não foi divulgado, com transporte saindo do Salvador Shopping, na Avenida Tancredo Neves. Celulares e outros eletrônicos ficam proibidos. Beyoncé não estará presente.
Aniversário de artista negra virou data de catálogo
O B'Day não voltou como peça de museu. Voltou como lançamento, com faixas inéditas e edição limitada em vinil, no mesmo dia em que a autora faz 45 anos e segue enchendo estádio na turnê Cowboy Carter. É o tipo de controle sobre a própria obra que quase nenhum artista negro teve no século passado.
Fontes: Mundo Negro, 31 de agosto de 2026, sobre a festa em Salvador; Portal Massa e Bahia Notícias, 1 e 2 de setembro de 2026, sobre prazo de confirmação, acompanhante, horário, proibição de eletrônicos e ausência de Beyoncé; Billboard e Rolling Stone, 27 e 28 de agosto de 2026, sobre a edição de 20 anos e as 27 faixas. Foto: Raph_PH, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.
Reeditar o próprio disco vinte anos depois é uma forma de posse. O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre quem controla a produção cultural preta e o que se ganha quando esse controle muda de mãos.
Justiça do Trabalho de Goiás condena empresa a pagar R$ 15 mil depois que chefe ameaçava mandar funcionário negro para o tronco
Detalhe de "Nègres ào Tronco", de Jean-Baptiste Debret, desenho anterior a 1830. Domínio público, via Wikimedia Commons.
A Justiça do Trabalho de Goiás condenou uma empresa a pagar R$ 15 mil por danos morais a um auxiliar de almoxarifado negro que era alvo de piadas raciais do chefe imediato. A decisão saiu na 2ª Vara do Trabalho de Aparecida de Goiânia, já transitou em julgado e não cabe mais recurso.
O que dizem as testemunhas
O trabalhador atua em uma empresa de Senador Canedo. Segundo as testemunhas ouvidas no processo, o chefe imediato o chamava de "haitiano" e de "africano" na frente dos colegas e perguntava "onde está o negão?". Dizia ainda, segundo o relato acolhido na sentença, que ele seria levado para o tronco se não fizesse serviço de branco.
O tronco não é figura de linguagem
O tronco era uma peça de madeira com furos, usada para prender as pernas da pessoa escravizada. Jean-Baptiste Debret desenhou a cena antes de 1830, e a prancha foi publicada em Voyage pittoresque et historique au Brésil. Mandar um funcionário para o tronco é escolher exatamente essa imagem, não uma expressão qualquer.
O juiz deu nome ao que aconteceu
O juiz Carlos Eduardo Gratão reconheceu no caso o que a doutrina jurídica chama de racismo recreativo, o racismo que se apresenta como brincadeira e por isso escapa da acusação.
Piadas, apelidos, imitações e outras formas de humor podem banalizar a experiência da discriminação e desumanizar pessoas com base em suas características raciais.
Carlos Eduardo Gratão, juiz da 2ª Vara do Trabalho de Aparecida de Goiânia, na sentença
A piada precisa do esquecimento
Só vira humor o que a memória já soltou. O tronco saiu do vocabulário do dia a dia, não da história do país, e é essa distância que permite usá-lo como ameaça de corredor de galpão. A amnésia histórica é um dos temas de Amos Wilson em A Falsificação da Consciência Afrikana, livro tirado de palestras de 1993 e que está no catálogo da Editora Poder Afrikano: ele trata de como o apagamento do que houve transforma violência em naturalidade.
Por que não publicamos o nome da empresa
O TRT da 18ª Região omitiu o número do processo para preservar a identidade do trabalhador. Em uma vara só, em cidade pequena, publicar o nome da empresa reidentificaria a vítima que a fonte oficial escolheu proteger. Por isso ele não aparece nesta matéria.
Fonte: TRT da 18ª Região, notícia oficial de 1 de setembro de 2026, "Justiça do Trabalho de Goiás reconhece racismo recreativo e determina pagamento de danos morais a trabalhador". Imagem: Jean-Baptiste Debret, domínio público, via Wikimedia Commons.
A piada racial no trabalho só funciona onde a memória do que ela cita já se soltou. A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, está no catálogo da Poder Afrikano.
Uber encerra as operações na Nigéria e em Uganda, e os aplicativos criados nos dois países ficam com a rua
Motociclistas de boda-boda no centro de Kampala. Foto: Jim Joel, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
A Uber encerrou as operações na Nigéria e em Uganda em 2 de setembro de 2026, com efeito imediato. Foram 12 anos de Nigéria, desde a chegada a Lagos em 2014, e 10 anos de Uganda, desde Kampala em 2016. A empresa diz que revisou prioridades de investimento no continente. Restam quatro mercados africanos: Egito, Gana, Quênia e África do Sul.
Sobre o motivo da saída há mais de uma versão, e elas não coincidem entre a empresa, o sindicato dos motoristas e a imprensa local. Esta matéria não atribui uma causa.
O que ficava pelo caminho tem número
Segundo o AUATON, sindicato dos motoristas de aplicativo da Nigéria, as plataformas descontavam 25% de cada corrida, e a entidade defende um teto de 5%. Em março de 2026 houve três dias de paralisação em Lagos e em Ogun por tarifa baixa e comissão alta.
Em Kampala, quem herda a rua nasceu na rua
O SafeBoda foi fundado em agosto de 2014 por Ricky Rapa Thomson, ele mesmo um motociclista de boda-boda, ao lado de Alastair Sussock e Maxime Dieudonne. Chegou antes da Uber, que só desembarcou em Kampala em junho de 2016, e continua operando depois que ela saiu. Não é o caso de dizer que o aplicativo local expulsou a Uber: o que se pode afirmar é que ele estava lá antes e está lá depois.
Na Nigéria ficaram o LagRide, plataforma apoiada pelo governo do estado de Lagos, e o Rida.
Mas local não quer dizer nosso
Desde março de 2025, quem opera o LagRide é a CIG Motors, empresa chinesa que monta os carros GAC na Nigéria. Ela trocou o modelo em que o motorista pagava parcelas até ficar dono do carro por um salário mensal de 150 mil nairas. Os motoristas rejeitaram a troca.
É aí que Amos Wilson ajuda a ler o caso. Ele descreve um mecanismo simples: quase tudo o que a população negra gasta sai da comunidade em poucas horas e vai render em outro lugar. Por isso insistia que poder não é usar o serviço, é ser dono dele. A pergunta que fica para Lagos e para Kampala não é de onde o aplicativo é. É de quem ele é.
Amos Wilson e Marcus Garvey estão em Consciência Afrikano-Centrada versus Nova Ordem Mundial, no catálogo da Editora Poder Afrikano.
Fontes: Monitor (Uganda) e Pulse, 2 de setembro de 2026, sobre a saída da Uber; The Guardian NG, 2 de maio de 2025, sobre a comissão de 25% e o teto de 5% defendido pelo AUATON; TechCabal, 14 de março de 2025, sobre a CIG Motors à frente do LagRide; Legit.ng, 2 de setembro de 2026, sobre LagRide e Rida; SafeBoda, sobre a fundação em agosto de 2014, em Kampala. Foto: Jim Joel, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
Trocar a Uber por um aplicativo local só muda o caminho do dinheiro se o dono for local. Consciência Afrikano-Centrada versus Nova Ordem Mundial, de Amos Wilson, está no catálogo da Poder Afrikano.
Vorcaro chamou um pastor para saber "de que lado" Nikolas Ferreira estava, e o deputado que criticou o Banco Master em público pediu desculpas em particular
ICL Notícias, com Juliana Dal Piva: "Nikolas envia áudio a Vorcaro após banqueiro questionar 'embate'". Reprodução.
A jornalista Juliana Dal Piva (ICL Notícias) publicou mais um lote de áudios e mensagens entre o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master preso desde novembro de 2025. Desta vez, quem aparece como intermediário da relação é um pastor: André Valadão, líder da Igreja Batista da Lagoinha.
O post que quase virou embate
Em 27 de abril de 2024, Nikolas publicou uma crítica pública aos gastos de ministros do STF, do STJ e do TSE em um evento em Londres patrocinado pelo Banco Master. No mesmo dia, Vorcaro, incomodado, procurou Valadão para pedir ajuda: "Estão usando a fala dele pra me atacar, por conta de patrocínio num evento em Londres."
O banqueiro não queria só apaziguar. Queria saber em que pé estava a relação: "Só preciso saber se estamos do mesmo lado ou agora é um contra o outro." Pediu que o pastor conversasse primeiro com o deputado para entender "qual é a visão dele" antes de decidir se aquilo viraria, de fato, um embate público.
"Ele nem sabia sobre o banco"
Dois dias depois, em 29 de abril, Valadão reportou a conversa a Vorcaro: Nikolas, segundo o pastor, "nem sabia sobre o banco e você" e "pediu perdão demais e vai contornar tudo". Nas mensagens revisadas por Dal Piva, o próprio Nikolas teria dito depois: "Obviamente eu não teria postado, teria conversado anteriormente" — ou seja, soube que era o banco de Vorcaro, soube que magoou, e recuou.
Os voos que ninguém contou
Na mesma leva de mensagens de abril de 2024, ao tratar do assunto com o empresário Flávio Carneiro, Vorcaro deixou escapar outro dado: "Esse Nikolas eu banquei todos os voos dele", numa referência a deslocamentos de 2022 feitos em jato da Prime You, empresa ligada ao banqueiro.
Não é a primeira vez que o tom muda em particular
Este episódio se soma a outro já revelado por Dal Piva na mesma leva de áudios: em 30 de março de 2025, foi Nikolas quem procurou Vorcaro diretamente, chamando-o de "lindão" e admitindo "não tenho a proximidade assim, até mesmo a que eu queria ter" — ao pedir ajuda para que seu advogado, Thiago Rodrigues de Faria, conseguisse "liberar um ativo de minério" ligado a uma área de risco de rompimento de barragem em Nova Lima (MG), hoje sob investigação da Operação Rejeito, da Polícia Federal.
Publicamente, à Folha de S.Paulo, Nikolas disse não se lembrar de Vorcaro. Nos bastidores, segundo os áudios, havia pastor mediando mágoa, pedido de desculpas por críticas que "não deveriam" ter sido feitas, viagens pagas e um advogado próprio tentando destravar negócio de mineração com o mesmo banqueiro.
Fontes: ICL Notícias, 3 de setembro de 2026 (reportagens "Em áudio, pastor André Valadão pediu a Nikolas para não atacar Vorcaro" e "Vorcaro pediu a Valadão para cobrar 'de que lado' Nikolas Ferreira estava"); BPMoney; Poder360; Brasil de Fato, para o episódio do ativo de minério e a Operação Rejeito. Imagem: reprodução do ICL Notícias.
O que se diz em público e o que se resolve em particular raramente são a mesma coisa quando envolve poder e dinheiro. O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre quem realmente decide os termos de uma reconciliação.
Vorcaro diz que doação de R$ 5 milhões a Bolsonaro e Tarcísio era propina combinada com Kassab, mas a Justiça rejeitou a delação três vezes seguidas
Cobertura do ICL Urgente sobre a proposta de delação de Daniel Vorcaro. Reprodução.
Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, preso desde novembro de 2025 e alvo de acusações de fraude financeira, corrupção institucional e lavagem de ativos, tentou trocar informação por benefício penal. Em pelo menos três versões de uma proposta de colaboração premiada, ele afirmou que R$ 5 milhões doados às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022 não eram doação: eram propina, negociada com o presidente do PSD, Gilberto Kassab.
As três propostas foram rejeitadas pela Justiça. O motivo declarado é sempre o mesmo: falta de elementos inéditos de prova.
O que Vorcaro alega
Segundo o próprio Vorcaro, dos R$ 5 milhões doados em 2022, R$ 3 milhões foram para a campanha de reeleição de Bolsonaro à Presidência e R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio ao governo de São Paulo. Ele também afirma que outros cerca de R$ 10 milhões em dinheiro, não contabilizados, teriam sido planejados para campanhas do PSD.
A contrapartida, segundo essa versão, era a continuidade do Credcesta, produto de cartão consignado ligado ao grupo Master, dentro do governo paulista. O acesso ao programa remonta às gestões Doria e Rodrigo Garcia e exigia, segundo Vorcaro, garantia de continuidade em troca de 5% do lucro da operação mais o financiamento de campanha.
Quem é Kassab nessa história
Gilberto Kassab não é uma figura qualquer nesse tabuleiro. Foi secretário de Governo de São Paulo na gestão Tarcísio, preside o PSD e hoje é candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado. É o nome que a delação de Vorcaro tenta colocar no centro do suposto ajuste.
O que dizem os citados
Kassab classificou o relato de Vorcaro como "absolutamente fantasioso". Segundo ele, nunca tratou de doações com Vorcaro nem com Augusto Lima, nunca falou pessoalmente ou por telefone com o banqueiro, e não recebeu recursos de nenhuma das formas descritas.
Tarcísio de Freitas nega conhecer Vorcaro ou ter qualquer relação com ele. Sua campanha de 2022 informou ter tido mais de 600 doadores, seguido a legislação eleitoral e tido as contas aprovadas pela Justiça Eleitoral.
Bolsonaro não se pronunciou publicamente sobre a alegação até a publicação desta matéria.
Uma acusação sem prova ainda é uma acusação
Vale registrar o que esse episódio é e o que não é. Não é uma condenação, nem uma prova. É a palavra de um homem preso, sob forte pressão para negociar redução de pena, contra três políticos que negam tudo, e que a própria Justiça já recusou três vezes por falta de elementos novos.
Mas também não é nada, porque o mecanismo que Vorcaro descreve, dinheiro de campanha como contrapartida por continuidade de contrato público, é um mecanismo velho conhecido da política brasileira, provado ou não neste caso específico. A ausência de prova hoje não apaga a pergunta: por que um banco em situação tão frágil investia tanto em proximidade com quem manda no Estado?
Fontes: Brasil de Fato, 3 de setembro de 2026, para valores e detalhes do Credcesta; Jovem Pan (coluna de Beatriz Manfredini), para o histórico das três delações rejeitadas e as falas de Kassab e da campanha de Tarcísio; Revista Fórum, para o cargo atual de Kassab como candidato a vice na chapa de Ronaldo Caiado; BPMoney e Diário do Centro do Mundo, cobertura complementar de 3 de setembro de 2026. Imagem: reprodução do ICL Urgente.
Chamar de "doação legal" o que sustenta o acesso de um grupo econômico ao Estado não é engano, é o sistema funcionando como projetado. A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, trata de quem tem o poder de decidir o que conta como legítimo.
Cássia Raquel, a brasileira que canta a Singer in Black no Cirque du Soleil
Cássia Raquel. Foto: Phrancesco Guarnieri
Existem duas cantoras no palco do Alegría. Uma veste branco, a outra veste preto. Há pouco mais de trinta anos, quando o espetáculo estreou, elas não tinham o mesmo tamanho: a de preto era o alter ego da de branco, quase um backing vocal. Hoje dividem o palco pelo mesmo tempo, e quem canta a de preto é uma brasileira.
Cássia Raquel é carioca e formada em canto pela UFRJ. Antes do circo, construiu carreira no teatro musical brasileiro, quase sempre, como ela conta adiante, sendo a única preta do elenco ou uma das poucas. Passou pelo processo de seleção do Cirque du Soleil em 2021 e estreou em novembro daquele ano, em Houston.
O espetáculo
Alegría foi criado em 1994 e virou o disco mais vendido da história do Cirque du Soleil. Em 18 de abril de 2019, em Montreal, a companhia estreou Alegría: In a New Light, uma releitura feita para os 25 anos do espetáculo, com figurino, cenário e arranjos novos. O elenco atual reúne 54 artistas.
A personagem também tem outro nome hoje. Já se chamou The Black Singer, e passou a se chamar Singer in Black. Na entrevista, é Cássia quem explica o que mudou junto com o nome.
Segundo o site Drama de Honra, a montagem já foi vista por mais de 3,5 milhões de pessoas em sete países desde 2019. A temporada brasileira está em São Paulo, no Parque Villa-Lobos, até 8 de novembro, e segue para Curitiba, no Expotrade, de 19 de novembro a 13 de dezembro.
A entrevista
Cássia respondeu às nossas 13 perguntas por áudio, de São Paulo, em 3 de setembro. Ela fala da mudança do personagem, do que significa ser a única mulher preta de um elenco de 54, da escola que quer abrir na zona norte do Rio e da ausência de diretores e produtores negros no teatro brasileiro. Segue a íntegra.
Nota de edição: as respostas foram transcritas dos áudios e receberam limpeza leve de fala, como repetições e concordância. Os trechos em que a transcrição automática ficou duvidosa foram conferidos no áudio original antes da publicação. Onde aparece [local], é explicação nossa de um termo de bastidor, não fala dela.
Sobre o papel e a história
O personagem se chamava Black Singer e, em montagens anteriores, foi interpretado por cantoras brancas, como Eve Montpetit no especial gravado em 2001. Quando você soube disso, o que passou pela sua cabeça? E como foi reconstruir a Singer in Black com a sua identidade, não como a sombra de ninguém, mas como protagonista?
Eu acredito que esse personagem passou por uma reformulação porque também o espetáculo como um todo é visto de uma forma mais moderna, com o olhar que a sociedade tem hoje em dia. Ele é bem mais político. E as nossas vozes, apesar de se misturarem muito bem, têm sim pequenas diferenças, para contrastar e diferenciar as tribos que existem dentro dessa dramaturgia.
Então de Black Singer passou a ser Singer in Black, porque o figurino dá o destaque da diferença entre as duas cantoras, que hoje têm o mesmo peso. Antes era basicamente um alter ego da cantora de branco, então era vista mais como backing vocal, e agora ambas dividem o palco com basicamente o mesmo peso, no mesmo tempo de aparição cênica. Então ele tem um peso muito maior.
E é claro que eu coloco a minha identidade, como ponho em qualquer personagem que eu faço. Eu me identifico muito com a personagem, me identifico muito com a estrutura vocal dela. Todo o figurino, a maquiagem, tudo combina com a minha personalidade, então foi muito mais fácil me entregar para esse papel, porque eu não precisei mudar tanto. Eu simplesmente coloquei a minha visceralidade, a minha brasilidade, a minha experiência, a minha força.
Eu gosto de colocar a minha voz de uma forma que preencha bem os espaços, e tem que ser uma voz que dê potência, como se cada nota elevasse o atleta, o artista, a fazer os truques de uma maneira mais encantadora e que cause um impacto grande em quem está assistindo.
Você descreve o personagem como alguém que captura mensagens apenas no olhar. Como você trabalhou isso numa companhia onde a maioria do elenco fala outras línguas?
Justamente por sermos um elenco em que temos mais de 14 nacionalidades aqui, e basicamente falarmos inglês entre nós, eu acredito que a melhor forma de se comunicar é justamente com o olhar, respirar junto. E eu acredito que a minha parceira faz muito bem isso comigo.
A gente se olha bastante, principalmente porque os números aqui às vezes têm pequenas mudanças, ou porque tem rotações. O show nunca é o mesmo, é um show muito vivo, que quebra expectativas. Então muita coisa a gente não pode gesticular, muita coisa a gente não vai poder produzir sons, mas no olhar a gente sabe se respira, se entra, se sai, se pausa.
Tem o olhar do carinho, tem o olhar da atenção, o olhar do ator de modo geral, que consegue transmitir muita coisa só ali. As letras das músicas também não necessariamente têm um idioma oficial, nem todas têm. Às vezes é apenas um vocalize, mas com o nosso olhar e com a forma que a gente canta, a gente entrega a mensagem que a gente quer passar.
Sobre ser a única
Você é a única mulher negra no elenco principal atual? O que esse número diz sobre o teatro musical de forma mais ampla? E quando você olha para o palco e procura alguém que se pareça com você, o que você vê?
Sou a única mulher preta, mas não sou a única pessoa preta desse espetáculo. Aliás, um dos números mais importantes é o número do fogo, que é feito por um samoano. Então assim, é Black Power total, ainda mais porque o fogo já remete isso para a gente. A música tem uma batida percussiva muito forte. Eu acho que eu me entrego totalmente ali, em todas as minhas raízes.
E essa representatividade é muito importante, não apenas para o circo, mas em toda a minha trajetória do teatro musical, onde, se eu não era única, era uma das poucas, ou geralmente fazia parte de um trio de negras, e era muito porque era necessário ter. Poucas oportunidades eu tive de fazer um espetáculo em que eu fazia um personagem que poderia ser feito por qualquer pessoa, sem estar necessariamente atrelado à minha etnia.
E é muito bom ver pessoas como eu na plateia, famílias inteiras. Eu já falei isso até em músicas minhas, do quanto é legal me espelhar quando eu olho para a plateia. Mas é mais impressionante a forma como eles reagem quando me veem. Muita gente vem sem conhecer muito sobre o elenco, vem apenas pelo nome do circo, e quando veem uma cantora entrando com uma roupa super brilhante e colorida, elas ficam chocadas, em êxtase. A gente realmente capta essa emoção, é muito genuíno.
É uma pena que eu não possa demonstrar muito enquanto estou cantando, mas tem um calorzinho a mais, e eu acabo cantando mais olhando para eles, devolvendo para eles a emoção que eles entregam para mim.
Sobre trajetória e origem
Você estudou canto na UFRJ, veio do subúrbio carioca, passou 15 anos no teatro nacional. Qual momento dessa trajetória mais te preparou para este papel?
Eu acredito que não teve uma única coisa que me preparou para esse papel. Acho que foi um conjunto de tudo que eu estudei. Na UFRJ eu estudei mais música clássica, acho que isso deixa a minha voz mais resistente. O teatro musical me ajudou a me entender como personagem. Tem um pouco do gospel também na forma como eu canto até hoje, eu não consigo tirar.
Acho que tudo faz parte de mim, e o que a gente acumula de bom com isso, a gente leva para o palco. Me ajudou muito a ter maturidade nas minhas escolhas musicais e também como atriz aqui dentro. Então eu consigo entregar uma Singer in Black num combo bem equilibrado.
Você citou Ruth de Souza como referência. O que a história dela te ensinou sobre o que é possível?
A Ruth de Souza foi pioneira como mulher preta nas artes cênicas, na TV, no teatro. Então é aquela máxima que o povo fala: ela teve que correr para a gente conseguir engatinhar. Através dela, e depois de outras, muitas gerações, agora a gente pode se mostrar mais. Porque antes ela deu esse primeiro passo.
Sobre o Brasil e o futuro
Você planeja abrir uma escola de artes acessível para comunidades periféricas. Como esse projeto se conecta com o que você está vivendo agora no palco?
Um dos meus maiores desejos quando voltar para o Brasil é justamente fazer uma escola, ou reabrir a minha escola, com foco em teatro musical, mas voltada para a zona norte do Rio, começando no Rio de Janeiro, que é onde eu nasci e fui criada. Depois a gente pode expandir para outras cidades.
Eu vivi muito isso durante a minha universidade, ou em outros cursos que eu fiz, que a gente precisava fazer longas viagens para conseguir ter um ensino de qualidade. Então eu quero fazer isso, e quero também promover bolsas de estudo. Tudo aquilo que eu fiz, que precisei de muita intensidade, de muitas situações cansativas, proporcionar para outras pessoas de uma forma mais fácil, mais simples, com uma conversa mais franca, mostrando as possibilidades de que uma voz pode fazer um pouco de tudo, várias personagens diferentes, poder se permitir viver esse tipo de coisa.
Você está de volta ao Brasil. Quando você sai do Parque Villa-Lobos e entra na cidade, o que você sente?
É divertido sair daqui do site [local] para a vida real, vamos dizer assim, porque o meu personagem tem tantas camadas, tantas maquiagens, tanto figurino, que eu consigo sair um pouco anônima lá fora e viver a cidade como era pra ser mesmo, só caminhando, mais uma integrante, uma habitante do lugar.
Então eu saio daquele patamar da fantasia e volto para o mundo real, mas mesmo assim muita gente me reconhece. É muito divertido. As pessoas perguntam: é você mesma? Porque acham que eu sou uma pessoa muito maior, muito grande. O palco expande a gente, faz a gente crescer, a postura, a voz. E aqui eu ando como uma outra pessoa, literalmente.
Então é divertido poder pisar no Brasil e em São Paulo, que é uma cidade pela qual eu tenho muito carinho, onde tive a oportunidade de fazer tantos outros shows. Está sendo bem nostálgico para mim.
O que vem depois do Alegría?
Por enquanto, ainda não tenho um pós-Alegría. Eu ainda pretendo ficar aqui o máximo de tempo que eu puder. É muito legal poder estar num lugar em que eu me sinto confortável, com pessoas de diferentes localidades, com uma bagagem cultural enorme que eu tenho acumulado.
E pela primeira vez na minha vida eu não preciso me preocupar em fazer tantas audições. Não preciso me preocupar com as safras de teatro musical, ou de ter que fazer vários trabalhos para poder, sem folga, basicamente sem férias, sair e ter um mínimo de recursos. Fora a oportunidade de poder viajar o mundo.
E eu não vivo só para mim, eu vivo para a minha família, para a minha comunidade. Então, enquanto eu posso viajar, meus amigos e meus parentes vêm me visitar também, e conseguem usufruir de tudo isso, mesmo que indiretamente.
Mas quando voltar ao Brasil, eu quero voltar forte. Quero voltar para produzir, quero voltar para ter a minha escola. Todo o conhecimento que eu adquiri nesses últimos anos eu quero compilar nos meus cursos.
Sobre produção negra e mercado
Aqui na redação e na editora desenvolvemos um trabalho que visa autonomia de consciência na perspectiva de poder para o povo preto. Você é uma referência preta em vários sentidos, não só pela sua trajetória, mas pela maneira como conduz a sua carreira. Te incomoda a ausência de produtores e diretores negros na cena brasileira em pleno 2026?
Eu vejo muitas pessoas tentando uma vaga em elencos, mas vejo poucas produções majoritariamente negras, poucos diretores negros. Até mesmo quando o espetáculo é feito por um elenco de maioria negra, nem sempre as pessoas que estão no outro lado, na parte de direção, têm a mesma realidade, as mesmas vivências, a minha experiência. Então, tomara que eu tenha uma oportunidade de fazer isso dar certo um dia.
Nas suas andanças mundo afora você notou diferença nesse sentido? E por que é tão difícil a ascensão desses profissionais para além do protagonismo negro dentro do mercado brasileiro?
Eu tento continuar consumindo teatro musical fora do Brasil, principalmente, em todos os lugares que eu vou. Participo de festivais. E sim, acabo vendo mais diversidade de modo geral, não apenas diversidade étnica, mas também de pessoas com mobilidade reduzida, pessoas de idades diferentes. Eu vejo um pouco de tudo, sim.
Eu acho que em outros locais as pessoas estão mais preparadas para essa conversa. Mas ainda se encontra resistência, ainda estamos num caminho longo para andar, mas já vencemos boa parte. A gente tem que insistir, manter e incentivar que outras pessoas continuam estudando, dando o seu melhor, e que em breve essas coisas vão mudar. Eu acho que de pouco a pouco, infelizmente, mas vai mudar sim.
Recado
Deixe um recado para as novas gerações de artistas pretos que estão galgando os primeiros passos na carreira.
Eu espero muito que as pessoas que estão lendo essa matéria hoje, que estão indo nos assistir e investindo na carreira, que a gente possa um dia dividir esse palco e nos vermos cada vez mais no teatro, na TV, no cinema, com tantos projetos, e que a nossa voz possa ser ouvida muito mais vezes. Eu tenho muita esperança disso.
O Brasil tem exportado muitos artistas, e tomara que o próprio brasileiro consiga perceber o quão rica é a nossa cultura, e que aqui dentro mesmo merece todo esse investimento, carinho e parceria. Que as pessoas possam um dia enxergar tudo isso na gente, que não seja só um sonho.
Então eu torço para que isso aconteça em breve. Enquanto isso não acontece, ou está acontecendo aos poucos, que a gente comece a construir, mesmo que pouquinho em pouquinho, colocando a sementinha, que um dia a gente vai colher tudo que a gente está plantando.
Entrevista concedida ao Poder Afrikano por áudio, em 3 de setembro de 2026. Fotos: Phrancesco Guarnieri e Caio Gallucci.
Ocupar o palco sem ser a exceção, e depois ocupar também a direção e a produção, é uma questão de poder, não de talento. É disso que trata o catálogo da Poder Afrikano.
Angola vence a Irlanda por 2 a 0 no Mundial de futebol de rua em Utrecht, e o resultado devolve uma ideia mais antiga que o torneio: no continente africano, futebol é arte
Angola em quadra contra a Irlanda, pelo Grupo B do ISFA 3v3 World Cup 2026, em Utrecht. Reprodução de vídeo.
Numa quadra montada na Jaarbeursplein, praça central de Utrecht, um jogador de Angola recebe a bola de costas, gira em cima de um adversário irlandês e sai driblando como quem passeia. Atrás dele, o placar eletrônico não deixa dúvida: Irlanda 0 x 2 Angola, Grupo B.
A cena é da fase de grupos do ISFA 3v3 World Cup 2026, o Mundial de futebol de rua organizado pela International Street Football Association, que reúne 32 seleções nacionais em Utrecht, na Holanda, entre 2 e 4 de setembro.
O que é o ISFA
A ISFA se define como a entidade máxima do futebol de rua no formato 3 contra 3: três jogadores de cada lado, quadra pequena, sem goleiro fixo, ritmo constante. "Espaço pequeno, velocidade alta, sem esconderijo", resume o material oficial do torneio. É a versão organizada, com regras e calendário internacional, de um jogo que sempre existiu informalmente em praças, becos e quadras de bairro ao redor do mundo.
A edição de 2026 é a terceira do Mundial da modalidade. A Holanda chega como bicampeã, depois de vencer a edição de 2024, disputada em Riga, e joga em casa para tentar manter o título. O evento é gratuito para o público e acontece em três dias: dois de fase de grupos, com 56 partidas por dia, e um de mata-mata e grande final.
Angola no Grupo B
É nesse Grupo B que aparece a cena registrada em vídeo: a seleção angolana, de vermelho, preto e dourado, trocando passes curtos e dribles em cima da seleção irlandesa, de branco. Angola venceu a partida por 2 a 0.
Angola chega ao futebol de rua com uma tradição de bola que antecede o torneio em décadas. O país tem federação própria desde 1979, ano em que também nasceu o Girabola, seu campeonato nacional, e chegou à primeira Copa do Mundo da história em 2006. Em 2010, foi o país-sede da Copa Africana de Nações, erguendo quatro estádios para o torneio.
Bola no chão como herança, não como estilo
Existe uma expressão antiga no futebol para descrever times que preferem o drible ao choque, o passe curto à bola longa, a cintura ao ombro: futebol-arte. Historiadores do esporte costumam ligar essa forma de jogar à ginga que atravessou o Atlântico com a diáspora africana, e que no Brasil se manifestou tanto na capoeira quanto na maneira de tocar a bola nos campos de várzea.
O que a quadra de Utrecht mostra, num torneio pensado para o formato mais cru e mais rápido do futebol que existe, é essa herança em estado bruto. Sem tática de equipe grande, sem instrução tática de bancada, sobra o que sempre esteve na base: o corpo que resolve com a bola no pé antes de resolver com força.
A Irlanda, do outro lado da quadra, foi quem sentiu isso de perto: perdeu por 2 a 0 para uma Angola que resolveu no drible. O placar de uma partida de fase de grupos não decide o torneio, mas funciona como ilustração de algo que o continente africano repete, país após país, geração após geração: onde há uma bola e um pedaço de chão, o jogo que nasce ali carrega um jeito de jogar que o mundo ainda chama de exceção, e que para a África sempre foi regra.
Fontes: ISFA (tickets.isfastreet.com), sobre formato, datas e história do torneio; Discover Utrecht, para local e programação do ISFA 3v3 World Cup 2026; Sportknowhow XL, sobre a Holanda como bicampeã e a edição de Riga 2024; Wikipédia, verbete "Football in Angola", para dados sobre a federação, o Girabola, a Copa do Mundo de 2006 e a Copa Africana de Nações de 2010. Imagem: reprodução de vídeo do ISFA 3v3 World Cup 2026.
Quem tem o direito de ser chamado de artista com a bola no pé, e quem só ganha o rótulo de "físico" ou "raça", é também uma disputa sobre imagem. O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre consciência, poder e o direito de contar a própria história.
Nikolas Ferreira disse à Folha que não lembrava de Vorcaro. Os áudios revelados nesta quarta mostram um pedido de até US$ 45 milhões.
Nikolas Ferreira na tribuna da Câmara dos Deputados, em julho de 2026. Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados, via Wikimedia Commons, CC BY 3.0.
Em março de 2026, Nikolas Ferreira disse à Folha de S.Paulo que não se lembrava de ter contato com Daniel Vorcaro. Nesta quarta-feira, 03 de setembro, a jornalista Juliana Dal Piva, do ICL Notícias, publicou os áudios que contam outra história.
Neles, o deputado chama Vorcaro de "Dani" e fecha uma mensagem com "um abraço, lindão". No meio da conversa afetuosa, um pedido concreto: ajuda para liberar um ativo de mineração.
O pedido
Nikolas pediu a Vorcaro que recebesse Thiago Rodrigues de Faria, advogado e ex-assessor do deputado, para tratar de um negócio de minério avaliado entre US$ 30 milhões e US$ 45 milhões. A empresa de Faria ficaria com 25% do lucro da operação, segundo o Money Report.
Não é a primeira vez que os dois aparecem ligados por dinheiro. Mensagens de abril de 2024 mostram Vorcaro dizendo a um interlocutor que bancou todas as passagens aéreas do parlamentar durante a campanha presidencial de 2022.
Quem é Vorcaro
Daniel Vorcaro foi o principal acionista do Banco Master. Em novembro de 2025 o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição, depois de uma operação da Polícia Federal. O rombo é estimado em até R$ 12 bilhões e atinge cerca de 1,6 milhão de pessoas. Vorcaro foi preso tentando deixar o país e responde por fraude financeira, corrupção institucional, lavagem de ativos e obstrução de justiça.
É o mesmo homem que, segundo os áudios, tratava com carinho o pedido de um deputado para destravar um ativo de milhões.
O minério
O ativo em questão está ligado à Operação Rejeito, deflagrada pela Polícia Federal em setembro de 2025 para investigar extração ilegal de minério de ferro na Serra do Curral, em Nova Lima, Minas Gerais. A operação já indiciou 34 pessoas e resultou em 22 prisões preventivas. Um dos apontados como líder do esquema é acusado de comprar imóveis para intimidar juízas, e o grupo investigado negociava uma área vizinha a uma das barragens de maior risco do país.
Thiago Rodrigues de Faria, o ex-assessor que Nikolas pediu a Vorcaro para receber, é citado em empresas investigadas nesse esquema e apontado como intermediário de uma delas. Em nota, ele disse que o deputado estava em campanha e não seria incomodado com o assunto, e que o negócio de minério já era de conhecimento público, sem que ele mesmo tivesse sido chamado a depor.
Discurso e ativo
Em Consciência Afrikano-Centrada versus Nova Ordem Mundial, Amos Wilson retoma uma lição que via em Marcus Garvey: ideologia sem base econômica é decoração. Wilson lia isso como crítica a povos que discursam sobre poder sem controlar nada concreto.
O caso Nikolas e Vorcaro mostra a outra ponta da mesma lição. Em público, o deputado vende ideologia. Em privado, a mensagem que ele manda é sobre ativo, comissão e milhões de dólares. Enquanto o discurso é para a plateia, o pedido de favor é para quem controla o que interessa de verdade.
Nem Nikolas Ferreira nem Daniel Vorcaro se pronunciaram sobre os áudios até a publicação desta matéria.
Fontes: reportagem de Juliana Dal Piva, ICL Notícias (03 de setembro de 2026); Money Report (valores do negócio e comissão); Brasil em Folhas (identificação de Thiago Rodrigues de Faria e resposta dele); O Tempo (Operação Rejeito, indiciamentos e prisões); Banco Central do Brasil e cobertura sobre a liquidação extrajudicial do Banco Master (novembro de 2025). Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados, via Wikimedia Commons, CC BY 3.0.
O catálogo da Editora Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre poder, consciência e o que sustenta um projeto além do discurso.
Thelminha deixa a Mocidade Alegre depois de 21 anos e oito títulos
Thelma Assis, a Thelminha. Foto: Multishow, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons
“Foram 21 anos fazendo parte dessa escola, onde construí grande parte da minha trajetória como sambista.” Foi assim que a médica e apresentadora Thelminha anunciou, nas redes sociais, na segunda-feira, 1º de setembro, o fim da parceria com a Mocidade Alegre.
Vinte e um anos é carreira inteira. É mais tempo do que muita gente passa num mesmo emprego, e bem mais do que dura a maioria das passagens por uma escola de samba.
Ela não entrou pela porta da fama
Thelminha ficou conhecida do país pela televisão. Na Mocidade Alegre o caminho foi outro, e começou de baixo. Na própria publicação de despedida ela lista as funções que ocupou ao longo desses 21 anos: ritmista, passista, destaque de chão e destaque da comissão de frente.
É uma escada que se sobe por dentro, com anos de quadra e de ensaio, e não por convite de celebridade. Vale dizer isso com todas as letras, porque a versão mais fácil dessa história seria a da apresentadora famosa que apareceu na avenida. Não é essa.
Oito de treze
No período em que ela esteve na escola, a Mocidade Alegre conquistou 13 títulos no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo. Thelminha integrou oito deles.
Entre esses oito estão o bicampeonato de 2023 e 2024 e o título deste ano. Em 2026 ela desfilou na comissão de frente representando a atriz Léa Garcia, homenageada pela escola no desfile.
A despedida
Ela dedicou parte da publicação à comunidade da Morada do Samba, sede da agremiação, antes de reforçar o que a passagem significou.
Ser sambista é um privilégio e ter pertencido à Mocidade Alegre sempre será motivo de orgulho
Thelminha, na publicação de despedida
Segundo a reportagem, ela encerra o ciclo com tranquilidade. Diz que os desfiles inesquecíveis e a certeza de que essa história guarda capítulos que continuarão sendo lembrados tornam a despedida mais leve.
O que ela não disse
Thelminha não detalhou os próximos passos da carreira no Carnaval. Não informou se vai desfilar por outra escola, nem se pretende voltar à avenida.
O carnaval paulista é território preto e quase nunca é contado por dentro, pela trajetória de quem sobe na avenida ano após ano. Vinte e um anos numa mesma quadra, subindo função por função, é exatamente esse tipo de história.
Fonte: Mundo Negro, reportagem de Carolina Viana, 2 de setembro de 2026.
Trajetórias construídas de dentro para fora, nas instituições que a população preta ergueu e sustenta, são o ponto de partida do catálogo da Poder Afrikano, e não a exceção que confirma a regra.
Vereador do Recife diz ter sentido “medo do odor” de protesto de mulheres negras
Thiago Medina (PL) na tribuna da Câmara do Recife, em sessão de 31 de agosto. Foto: Câmara Municipal do Recife, divulgação
“Eu fiquei com mais medo do odor de quando eu cheguei do que com as falas que estavam sendo proferidas ali.” A frase é do vereador do Recife Thiago Medina (PL), candidato a deputado federal, durante a sessão plenária de terça-feira, 1º de setembro.
Ele se referia a um protesto realizado naquela manhã, na entrada da Câmara Municipal do Recife.
Trinta pessoas na porta da Câmara
O ato reuniu cerca de 30 pessoas, com presença majoritária de organizações sociais e coletivos de mulheres negras. Estavam ali para denunciar episódios de racismo e misoginia contra a vereadora Jô Cavalcanti (PSOL), única parlamentar negra da atual legislatura.
Jô, que também é candidata a deputada estadual, vem acusando Medina de perseguição há meses.
Thiago Medina subiu à tribuna para dizer que mulheres negras fedem. Essas mulheres estavam aqui em ato de solidariedade ao nosso mandato, que está sofrendo perseguição política na Casa
Jô Cavalcanti, em pronunciamento nas redes sociais logo após a sessão
Não começou agora
A escalada tem menos de 15 dias. Medina classificou como “uma porcaria” o Projeto de Lei nº 147/2026, de autoria de Jô, que propunha instituir o Dia Municipal da Mestra Ritinha. Na mesma ocasião, chamou a entidade espiritual da Jurema Sagrada de “mestra dos cabarés”. O projeto foi rejeitado em plenário por 12 votos a sete.
Antes disso já havia o acúmulo. Segundo a Marco Zero, interrupções, gritos, zombarias, dedo em riste e constrangimento público passaram a integrar a rotina da atual legislatura, e vereadoras apontam parlamentares da extrema direita, com destaque para Medina, como responsáveis.
Quem foi punida
Depois de meses de denúncias sem que Medina tivesse recebido qualquer advertência da Câmara, presidida pelo PSB, assim como a Comissão de Ética da Casa, Jô terminou chamando o colega de “racistinha de merda” e de “fascistinha” durante a sessão de 17 de agosto. O episódio levou o vereador a entrar com uma representação contra ela na Comissão de Ética.
Em 20 de agosto, a subcomissão de Ética aplicou uma medida de censura verbal contra Jô. Vale registrar com precisão o que essa censura puniu, porque a proximidade das datas engana: ela não tratou da fala de 17 de agosto. A punição foi por palavras proferidas na tribuna em 3 de novembro de 2025, durante um debate sobre letalidade policial e direitos humanos, depois de uma operação de grande repercussão no Rio de Janeiro.
Na reunião da subcomissão, a defesa da parlamentar sustentou que a denúncia se baseou em uma leitura recortada do episódio, que ignorava o vídeo completo, as interrupções sofridas por ela e a celebração das mortes feita pela bancada bolsonarista durante o debate.
São dois processos distintos, e é justamente aí que está o ponto. Um deles chegou a uma punição. O outro segue sem desfecho. Medina não recebeu advertência nenhuma até agora.
O deboche na tribuna
Na mesma sessão de 1º de setembro, o vereador zombou da situação em tom de deboche, com a voz em falsete, dizendo que a colega se coloca como vítima desde que perdeu a votação do Dia Municipal da Mestra Ritinha. Também afirmou ter sabido na véspera que haveria manifestação contra ele por racismo religioso, intolerância religiosa, misoginia e, nas palavras dele, todos os “mimimi” da esquerda.
O que acontece agora
O mandato de Jô entrou com representação contra Medina na Comissão de Ética da Câmara e também no Ministério Público de Pernambuco, por racismo e LGBTfobia. Ela anunciou na terça que representaria de novo, nas duas instâncias, por reiteração.
Procurada, a assessoria de imprensa de Medina não respondeu à reportagem até o fechamento da matéria. A Câmara do Recife, também questionada, respondeu por meio do presidente Romerinho Jatobá (PSB), com uma nota que reafirma compromisso com a garantia de direitos e diz que o respeito às diferenças deve nortear todos os pronunciamentos. A nota não informa se alguma medida será tomada.
Fonte: Marco Zero Conteúdo, reportagem de Raíssa Ebrahim, 1º de setembro de 2026.
Uma vereadora denuncia por meses e é a punida. O colega denunciado segue sem advertência. A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, trata de como o poder institucional decide de antemão quem tem direito a ser ouvido como vítima.
Júri de Las Vegas condena Duane Davis pelo assassinato de Tupac Shakur, quase 30 anos depois
Tupac Shakur em 1988. Foto: The Evening Sun, Baltimore, domínio público
Duane Davis, conhecido como Keffe D, foi condenado na segunda-feira, 31 de agosto, por um júri de Las Vegas, pelo assassinato de Tupac Shakur. O crime pelo qual ele responde é assassinato em primeiro grau com uso de arma letal, a categoria mais grave do homicídio nos Estados Unidos, aplicada quando o júri entende que a morte foi intencional e premeditada.
O rapper foi baleado em 1996, na mesma cidade onde o julgamento aconteceu agora. Entre o crime e a condenação passaram-se quase três décadas.
Ninguém sustentou que ele atirou
Os promotores nunca afirmaram que Davis puxou o gatilho. A acusação que prevaleceu foi outra: a de que ele orquestrou o ataque. Segundo o Ministério Público, a motivação foi retaliação por uma briga anterior envolvendo o sobrinho dele, Orlando Anderson, o Baby Lane, que teria sido agredido por Tupac e por integrantes do grupo do rapper pouco antes do crime.
Davis é a única pessoa já formalmente acusada por essa morte. Uma, em quase trinta anos.
O agravante que a acusação abandonou
Um detalhe diz muito sobre como este caso foi apurado. A acusação levou ao julgamento um agravante por envolvimento de gangues organizadas e desistiu dele no meio do processo. O motivo, segundo o vice-procurador-chefe do distrito, Binu Palal, foram questões logísticas relacionadas a testemunhas.
Não é um detalhe técnico qualquer. É o reconhecimento, em pleno julgamento, de que a parte da acusação que dependia de gente disposta a falar não se sustentava depois de tanto tempo.
Três quilômetros
Tupac tinha 25 anos. Levou quatro tiros e morreu seis dias depois, no University Medical Center de Las Vegas. O hospital fica a menos de três quilômetros do tribunal onde Davis foi julgado.
Quando o veredicto foi lido, Sekyiwa Shakur, a Set, irmã do rapper, chorou na sessão.
A pena sai em outubro
A sentença será conhecida em 13 de outubro. Até lá, Davis segue sob custódia, sem direito a fiança. Quem decide a pena é a juíza Carli Kierny, e ela pode chegar a prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional.
Vale dizer o que uma condenação como essa é e o que ela não é. Ela encerra um processo. Ela não devolve os anos em que o caso ficou parado, nem explica por que uma morte tão pública levou quase trinta anos para produzir um único réu.
Fonte: Mundo Negro, reportagem de Carolina Viana.
Tupac morreu num conflito entre pretos, e o caso levou trinta anos para chegar a um réu. Violência Preta Contra Preto, de Amos Wilson, trata de como esse tipo de morte é produzido e de por que ela costuma ser investigada com tão pouca pressa.
Naruna Costa leva o Kikito de melhor atriz coadjuvante como advogada negra dos anos 1980
Naruna Costa em 2023. Foto: Manda Notícias, via Wikimedia Commons
Naruna Costa recebeu o Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival de Cinema de Gramado de 2026 pelo papel de Maria Tereza em Pele de Rinoceronte. O longa estreou no festival, e a atuação dela foi aplaudida na exibição.
Maria Tereza é advogada criminalista. Na trama, responde pela estratégia de acusação de um homem envolvido em um feminicídio inspirado no caso de Ângela Diniz.
O lugar da personagem
Em entrevista ao Notícia Preta, a atriz explicou por que esse lugar importa. "Ela é uma advogada negra, bem-sucedida, nos anos 1980, o que é contrário ao que se esperava ver de uma mulher negra no Brasil naquela época", afirmou.
Sobre a alegria de interpretá-la, disse: "Tem coisas que são particularmente especiais e fundamentais para mim. Apresentar essa personagem negra, com todas as suas potências, que se compreende e não se conforma, é uma delas."
A virada não está no prêmio. Está na função que a personagem ocupa dentro da história. Não é a empregada nem a vítima. É quem monta a acusação.
A tese que ela tenta derrubar
Durante décadas, a chamada legítima defesa da honra foi usada no Brasil para justificar crimes cometidos contra mulheres. Em assassinatos de companheiras e esposas, o homem alegava ter agido para preservar ou lavar a própria honra, e parte da responsabilidade pela violência acabava transferida para quem tinha morrido.
É contra essa lógica que a personagem trabalha. "O filme tem essa função de não se conformar, e a Maria Tereza é a representação dessa inconformidade. Ela vai até os últimos momentos para derrubar a tese de legítima defesa", diz a atriz.
Os aplausos
A recepção do público na pré-estreia foi, para ela, um dos momentos mais marcantes da exibição. "Esse momento dos aplausos, que dizem ser tão raros em uma pré-estreia em Gramado, fez com que eu me sentisse recebida de uma forma incrível. Sinto que, mais do que qualquer coisa, a mensagem chegou às pessoas. Elas foram impactadas, e isso é o mais importante", afirmou.
Quem ela levou junto
Perguntada sobre o que emprestou de si à construção do papel, ela apontou a agonia e a inconformidade. "Eu tenho essa inconformidade, e a Maria Tereza também. Acho que é nossa essa agonia e essa inconformidade com a naturalização das violências."
E respondeu com nomes: "Nessa personagem, eu consigo honrar quem veio antes. Eu levei Ruth de Souza, Marielle Franco e tantas outras mulheres negras que são minhas inspirações comigo."
Fonte: Notícia Preta, reportagem de Layla Silva.
A legítima defesa da honra não era uma excentricidade jurídica. Era o país aceitando o argumento de um homem sobre a própria honra como explicação para uma morte. Questões de Masculinidade em Preto e Branco trata do que sustenta esse argumento.
Ministro propõe que o Parlamento de Uganda aceite trajes africanos no lugar do terno obrigatório
Frank Tumwebaze, no retrato oficial. Foto: Ssemmanda will, via Wikimedia Commons
Frank Tumwebaze, deputado por Kibale East e ministro da Agricultura, Indústria Animal e Pesca de Uganda, apresentou em 1 de setembro um memorando ao Comitê de Regras, Privilégios e Disciplina do Parlamento pedindo a mudança do código de vestimenta. A sessão foi presidida pelo deputado Fredrick Ruhindi.
O alvo é a Regra 88 do regimento interno, que hoje prescreve um traje ocidental único para os parlamentares homens: terno, gravata e camisa por dentro da calça.
O que a proposta permite
Pela emenda à Regra 88(1)(a), passariam a ser aceitos a camisa safari formal, o terno Kaunda, a camisa Madiba com calça e o kanzu acompanhado de calça e jaqueta. O terno com gravata continuaria válido, assim como o uniforme militar de não combate para os representantes do Exército.
Não se trata, portanto, de proibir o terno. Trata-se de tirar dele o estatuto de única forma legítima de se vestir dentro do Parlamento.
O argumento
"Não há absolutamente nenhuma necessidade de o nosso Parlamento ter uma forma rígida e única de vestir prescrita para todos os membros, sem consideração pelas crenças culturais, espirituais e ideológicas dos parlamentares", escreveu Tumwebaze. E completou: a tendência de tratar as roupas africanas como inferiores, informais e menos legítimas em espaços de poder é "um insulto terrível à herança africana".
No memorando, ele afirma que o traje de negócios ocidental herdado da administração colonial dominou o código de vestimenta por muitos anos. E conclui: manter esse padrão décadas depois da independência significa que o Parlamento de Uganda estaria sinalizando, simbolicamente, que as outras formas africanas de vestir são inferiores e menos legítimas em espaços de poder.
Roupas com nome de presidente
As peças não foram escolhidas ao acaso. O terno Kaunda leva o nome de Kenneth Kaunda, primeiro presidente da Zâmbia, e a camisa Madiba, o de Nelson Mandela. Para Tumwebaze, elas carregam significado político e histórico em toda a África e passaram a representar dignidade pós-colonial, acessibilidade e uma forma africana de conduzir o Estado.
Ele também levantou um argumento prático: peças africanas mais leves servem melhor ao clima equatorial de Uganda do que ternos de várias camadas e gravatas. E definiu traje decente como "roupa limpa, modesta e bem ajustada, que respeita as normas de uma cultura, de um ambiente ou de uma ocasião específica".
O pedido não veio do nada
A petição chega depois de debates recentes no plenário. Parlamentares da oposição levantaram questões de ordem contra colegas que usavam o terno Kaunda, alegando quebra do decoro parlamentar. Quem presidia a sessão decidiu a favor do traje formal africano, e é essa permissão que Tumwebaze agora quer escrita na regra, em vez de depender da decisão de quem estiver na cadeira.
Ele citou ainda outros países da Commonwealth, entre eles Reino Unido, Austrália, Índia, Canadá e Nova Zelândia, onde os parlamentos relaxaram gradualmente os padrões de vestimenta para acomodar formas culturais, indígenas e regionais de se vestir.
O que acontece agora
O Comitê de Regras, Privilégios e Disciplina vai analisar a proposta antes de fazer recomendações ao plenário. Nada foi decidido ainda.
O que já está posto é o debate: o quanto do funcionamento cotidiano de um Estado africano independente continua sendo medido por um padrão que ele não escolheu.
Fonte: Nile Post, Kampala, reportagem de Shamim Nabakooza, via AllAfrica.
Uma regra de vestimenta parece assunto menor até se perguntar quem definiu o que conta como sério, formal e legítimo. A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, trata exatamente de quem controla esse padrão.
Filme sobre Carolina Maria de Jesus exibe teaser inédito na Bienal do Livro de São Paulo
Foto: Correio da Manhã / Arquivo Nacional, domínio público
O longa "Carolina de Jesus" exibe teaser inédito na Bienal do Livro de São Paulo em 5 de setembro, das 15h15 às 16h, na Arena. O filme é dirigido por Jeferson De, com roteiro de Maíra Oliveira e produção de Clélia Bessa e Maria Gal. Está em pós-produção e tem estreia prevista para 2027.
A adaptação parte de Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada e acompanha o período entre a escrita do livro e a sua publicação.
Quem senta na mesa
Maria Gal interpreta Carolina e assina a produção. Vera Eunice, filha da escritora e também atriz, participa da conversa. Clayton Nascimento, ator e preparador de elenco, e Conceição Evaristo, escritora que integra o elenco do filme, completam a mesa. A mediação é de Adriana Couto.
Quatro livros em vida
Carolina publicou quatro livros enquanto viva: Quarto de Despejo, em 1960, Casa de Alvenaria, em 1961, e Pedaços da Fome e Provérbios, ambos em 1963.
A tiragem inicial de Quarto de Despejo foi de dez mil exemplares e se esgotou em uma semana. Com as reedições, passou de cem mil exemplares no primeiro ano. O livro foi traduzido para treze idiomas e distribuído em mais de quarenta países, em plena Guerra Fria.
O que ficou nos cadernos
Ela deixou muito mais do que publicou. O levantamento da pesquisadora Raffaella Fernandez reúne sete romances, mais de cem poemas e 58 cadernos manuscritos, cerca de cinco mil páginas, em grande parte inéditos. Nunca foi um livro só, ainda que o país tenha insistido em lê-la assim.
Esse acervo vem sendo publicado pela Companhia das Letras na coleção Cadernos de Carolina, coordenada por Vera Eunice de Jesus Lima e Conceição Evaristo, com conselho editorial formado pelas pesquisadoras Amanda Crispim, Fernanda Felisberto, Fernanda Miranda e Raffaella Fernandez. Quer dizer: quem edita a obra da mãe é a filha, ao lado de outra escritora preta.
O que ela abriu
Antes de Carolina, a favela era assunto de quem olhava de fora. Ela inverteu a posição: escreveu de dentro, em primeira pessoa, sobre a própria vida, e foi lida no mundo inteiro. A literatura periférica brasileira que veio depois começa aí.
Por décadas ela foi lida como caso raro, quase curiosidade, e não como escritora. Um filme dirigido por Jeferson De, com a filha dela na mesa e Conceição Evaristo no elenco, é a diferença entre virar personagem de um causo e ser tratada como autora de uma obra.
Antes de sair de casa
Este texto não é convite. Os ingressos para o dia 5 de setembro já se esgotaram, e as sessões da Arena pedem senha retirada com antecedência. Confira sempre a programação oficial da Bienal antes de sair de casa.
Fontes: Mundo Negro (31 de agosto de 2026); Instituto Moreira Salles e Jornal da USP (tiragem, traduções e bibliografia); Diário de Pernambuco e Jornal da USP (levantamento de Raffaella Fernandez sobre os inéditos); Companhia das Letras (coordenação e conselho editorial dos Cadernos de Carolina); programação oficial da Bienal do Livro de São Paulo.
Quem escreve a própria história decide o que dela fica. A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, trata de quem controla a imagem que um povo recebe de si mesmo.
Subtenente Juliana passa para a reserva na Polícia Militar de Minas depois de 31 anos de farda
Foto: reprodução do vídeo publicado por @juliana_plenitude
A subtenente Juliana passou para a reserva depois de 31 anos de efetivo serviço na Polícia Militar de Minas Gerais. No vídeo de despedida que publicou nas próprias redes, disse que pessoas trans precisam apenas de oportunidade. Encerrou com a frase que resume o ofício: "Missão dada, missão cumprida".
Dedicou a conquista à mãe, uma mulher preta de 90 anos que trabalhou como empregada doméstica. Homenageou a própria ancestralidade e as mulheres trans e travestis mortas pela violência. Agradeceu à família, aos irmãos de farda e à corporação.
Segundo a própria subtenente, ela foi a primeira mulher trans a vestir a farda da PMMG. Não há nota oficial da corporação confirmando o qualificador, e o relato se apoia na declaração dela sobre a própria carreira.
O tamanho de 31 anos
Para medir o que significa chegar à reserva sendo uma mulher trans neste país, vale olhar o Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais, a ANTRA, divulgado em janeiro de 2026 com os dados de 2025.
Foram 80 assassinatos de pessoas trans no Brasil em 2025. O número é 34% menor que os 122 registrados em 2024, e mesmo assim manteve o país, pelo décimo oitavo ano consecutivo, como o que mais mata pessoas trans no mundo.
A própria entidade alerta que a queda não significa menos violência. As tentativas de assassinato subiram 32% no mesmo período, chegando a 75 casos, e a subnotificação segue sendo a regra. Dos assassinatos consumados, 62,5% aconteceram em espaço público, concentrados na noite e na madrugada.
Onde as mortes acontecem
Minas Gerais e Ceará foram os estados que mais mataram pessoas trans em 2025, com oito casos cada um. Depois vieram Bahia e Pernambuco, com sete. Por região, o Nordeste concentrou 38 mortes, seguido pelo Sudeste, com 17, o Centro-Oeste, com 12, o Norte, com 7, e o Sul, com 6.
O perfil das vítimas, segundo a ANTRA, é majoritariamente jovem, preto e pobre. A entidade estima a expectativa de vida dessa população em torno de 35 anos.
Juliana serviu 31 anos, e serviu dentro de um dos dois estados que mais mataram. Na conta que este país faz para gente como ela, o tempo de farda dela é quase uma vida inteira.
Passar para a reserva é um evento administrativo banal na vida de qualquer militar. É exatamente por isso que este caso importa: a normalidade que a corporação oferece a milhares de pessoas todos os anos foi, para ela, uma exceção de três décadas.
Fontes: vídeo publicado por @juliana_plenitude (31 de agosto de 2026); Blog da Renata Pimenta (29 de agosto de 2026); Dossiê ANTRA 2026, com dados de 2025, via Agência Brasil, Brasil de Fato e Nexo Jornal.
O Poder Afrikano publica autores que tratam de poder, identidade e sobrevivência preta.
Mirtes Renata colou grau em Direito segurando a foto de Miguel, e a cosmovisão bantu tem nome para isso
Foto: Reprodução/redes sociais
No sábado, 29 de agosto de 2026, Mirtes Renata Santana colou grau em Direito no Recife. Subiu ao palco segurando um porta-retrato com a foto do filho, ao som de Maria, Maria, de Milton Nascimento e Fernando Brant. A mãe dela, Marta, a irmã Fabiana Patrícia e duas amigas acompanhavam da plateia. Imagens de Miguel foram exibidas no telão.
O trabalho de conclusão de curso, aprovado com nota 10, tratou de escravização moderna e das violações de direitos enfrentadas por trabalhadoras domésticas. A mesma categoria em que ela trabalhava no dia em que perdeu o filho.
Miguel Otávio Santana da Silva morreu em 2 de junho de 2020, aos cinco anos, após cair do nono andar de um edifício no Centro do Recife. Entre aquele dia e este sábado passaram seis anos. O que acontece com alguém nesse intervalo tem nome na cosmovisão bantu.
Quem é Nkosi
Nkosi, também grafado Roxi Mukumbe, é um nkisi. Nkisi é como se chamam as divindades do candomblé de linhagem bantu, de matriz Angola e Congo. Ele é senhor do ferro, da guerra e da abertura de caminhos, e guardião do terreiro. A palavra nkosi quer dizer leão em kikongo. Nas nações de matriz iorubá, corresponde a Ogum.
Nkosi é a divindade da forja, e forja não é lugar de descanso. É onde o ferro entra inteiro, apanha do fogo e do martelo, e sai com outra forma. Quem se recolhe depois da perda não está derrotado. Está sendo batido em outra forma.
Por que isto não se chama superação
Superação sugere que a dor ficou para trás e que no fim deu tudo certo. A forja não promete nada disso. O ferro não esquece o fogo, ele carrega a marca dele. Mirtes não superou Miguel. Foi forjada com ele dentro.
A diferença entre as duas palavras não é estética. Chamar de superação transfere para a mãe a tarefa de encerrar um assunto que o Estado não encerrou, e transforma em fim feliz o que continua sendo processo em andamento.
A linhagem já estava naquela casa
Marta Maria Santana, mãe de Mirtes e avó de Miguel, também trabalhou como empregada doméstica para a família Corte Real. Ela manteve contrato de trabalho doméstico com Sérgio Hacker Corte Real entre junho de 2014 e fevereiro de 2017. Três gerações de uma mesma família preta amarradas ao mesmo endereço.
Abrir estrada onde não havia
A outra função de Nkosi é abrir caminho. Mirtes entrou no Direito vinda de uma categoria que o próprio Direito brasileiro demorou décadas para reconhecer. A Consolidação das Leis do Trabalho, de 1943, deixou as trabalhadoras domésticas de fora. Foi preciso esperar até 2013, com a Emenda Constitucional 72, para que a categoria tivesse os mesmos direitos das demais, e até 2015, com a Lei Complementar 150, para que essa equiparação fosse regulamentada.
Quanto ao caso, Sari Corte Real foi condenada por abandono de incapaz com resultado morte. Em 21 de maio de 2026, a Seção Criminal do Tribunal de Justiça de Pernambuco negou o recurso da defesa, por seis votos a cinco, e manteve a pena de sete anos em regime inicial fechado. A defesa anunciou que pretende recorrer a instâncias superiores, e ela segue respondendo em liberdade.
Mirtes não se formou sozinha. Levou o filho no colo, a linhagem nas costas e a marca da forja nas mãos.
Fontes: Mundo Negro (31 de agosto de 2026); Agência Pública; Diário de Pernambuco e LeiaJá (decisão do TJPE, maio de 2026); Emenda Constitucional 72/2013 e Lei Complementar 150/2015. Nkosi e Roxi Mukumbe conferidos em referências de candomblé de nação Angola e Congo.
Trocar forja por superação é uma disputa sobre quem narra a dor preta e o que se espera dela. A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, trata exatamente de quem controla a imagem que um povo recebe de si mesmo.
São mais de 35 filmes de graça na zona sul de São Paulo, e quem escolheu a programação foi a própria quebrada
Foto: Ramon Aquim / Mídia NINJA
A segunda edição do PERIFERICU, Festival Internacional de Cinema e Cultura de Quebrada, acontece de 1 a 6 de setembro de 2026 no Jardim Ibirapuera, zona sul de São Paulo. A sede é a Associação Bloco do Beco, na Rua Bento Barroso Pereira, 288. Todas as atividades são gratuitas.
São mais de 35 filmes do Brasil e de outros países da América Latina, feitos nas periferias e sobre elas. O festival celebra processos artísticos LGBTQIA+ realizados na quebrada.
O que acontece fora da sala de exibição
A programação tem competição de ballroom, roda de samba, oficina de fotografia, debates, encontros e apresentações musicais. Tem também o Desafio Cine-Corre, em que equipes produzem um curta em três dias, e uma edição especial do Slam do 13, a batalha de poesia que há mais de uma década faz literatura no Terminal Santo Amaro.
Quem não está em São Paulo consegue acompanhar parte da programação online, pela plataforma Todesplay.
Cinco homenageados
Esta edição homenageia Linn da Quebrada, Neon Cunha, Dona Madalena, Seu Escurinho do Acordeon e Leo Moreira de Sá.
Neon Cunha é publicitária e diretora de arte. Em 2016, uma decisão judicial a tornou a primeira pessoa trans do Brasil a retificar nome e gênero nos documentos sem passar pelas exigências médicas que a lei impunha até então. Dois anos depois, em 2018, o Supremo Tribunal Federal derrubou essas exigências e levou a retificação para os cartórios. Linn da Quebrada é cantora, atriz e apresentadora.
Quem segura a câmera
A periferia brasileira aparece com frequência no cinema como cenário: o lugar onde a história de outra pessoa acontece. Um festival organizado na quebrada, exibindo filmes feitos na quebrada e escolhendo por conta própria quem homenagear, inverte essa posição.
Não se trata de ser retratado. Trata-se de decidir o enquadramento, a duração do plano e o nome que aparece nos créditos.
Fontes: Omelete; Notícia Preta; Metrópoles; Kondzilla; BNews São Paulo (30 de agosto de 2026); Renova BR e Defensoria Pública do Estado do Ceará (trajetória de Neon Cunha).
A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, trata de quem controla a imagem que um povo recebe de si mesmo. Um festival que escolhe o que exibir e quem homenagear responde a essa pergunta na prática.
OGermano conheceu a quadra do Santa Marta num videogame americano, anos antes de pisar lá
Reprodução, Instagram @ogermanin
O rapper OGermano lançou o clipe de Meu Coração Não Sente Dor, faixa do álbum Virada de Chave, gravado no Morro Santa Marta, no Rio de Janeiro. Ele é do Andaraí, na zona norte da cidade, e conheceu a quadra do Santa Marta nos anos 2000, jogando FIFA Street.
Eu cresci jogando o game e vendo aquela quadra. Então, quando cheguei ao Santa Marta pela primeira vez, foi uma sensação muito diferente. De certa forma, aquele cenário já me era familiar e me fez sentir em casa desde a hora que cheguei
OGermano, à Rolling Stone Brasil
O trajeto, em preto e branco
De terno, ele passa pelos Arcos da Lapa e pela Escadaria Selarón até chegar à quadra do Santa Marta, onde duas crianças jogam bola. Ele entra no jogo.
Eu não queria ir ao Santa Marta simplesmente para gravar um clipe. Eu queria que o lugar realmente fizesse parte da história. As pessoas, as ruas, a quadra e a energia da comunidade foram construindo a narrativa junto com a música
OGermano, à Rolling Stone Brasil
2003 e 2026
A estética do clipe é referência declarada a Beautiful, de Snoop Dogg com Pharrell Williams, gravado nas favelas do Rio em 2003 por uma equipe americana. Naquele vídeo, o morro entrou como paisagem exótica de fundo para dois artistas que estavam de passagem.
Vinte e três anos depois, a mesma paisagem volta às telas filmada por um carioca. A diferença não está no cenário, que é o mesmo. Está em quem segura a câmera e em quem decide o que aquele lugar significa dentro da história que está sendo contada.
Vale registrar o que a mudança não é: OGermano não é morador do Santa Marta, e o clipe não se apresenta como retrato de dentro da comunidade. É um artista da zona norte filmando um morro da zona sul que ele conheceu primeiro por um videogame feito nos Estados Unidos. O trajeto do clipe, que começa no centro e termina na quadra, é literalmente esse percurso.
Onde ver ao vivo
Ele divulgou cinco datas: 3 de setembro em São Paulo (Casa Rockambole), 11 de setembro no Rio de Janeiro (Acervo Bar), 20 de setembro em São Paulo (Jai Club), 27 de setembro em Sorocaba (Lobofest) e 18 de outubro em Belo Horizonte (Mascate). As apresentações do Rio, de São Paulo e de Belo Horizonte integram a primeira parte da turnê conjunta com Matchola.
Fontes: Rolling Stone Brasil; Canal RapRJ; Notícia Preta; ismo.mov; Instagram @ogermanin.
O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre representação, consciência e o direito de contar a própria história.
Um vídeo de blitz falsa viraliza no Rio. Menos de 2% dos PMs que matam em São Paulo são condenados.
Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil
Circula nas redes sociais um vídeo mostrando dois homens sendo abordados e detidos em poucos minutos, suspeitos de fazer uma blitz falsa no Rio de Janeiro. Não encontramos cobertura de imprensa que confirme os detalhes específicos que acompanham o vídeo, então esta matéria não é sobre esse caso. É sobre o que os números dizem quando a farda é verdadeira.
Os números que não viralizam
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 registrou 6.602 mortes por intervenção policial em 2025: recorde histórico, 18 por dia. 82% das vítimas eram negras, que têm 3,5 vezes mais chance de morrer numa abordagem policial do que uma pessoa branca.
Investigar não é condenar
Uma dissertação de mestrado da Faculdade de Direito da USP, da pesquisadora Debora Nachmanowicz, aprovada em setembro de 2024, mapeou 1.224 inquéritos concluídos sobre mortes causadas por PMs na cidade de São Paulo entre 2015 e 2020. Apenas 122 viraram denúncia, 9,9%. Desses, 49,1% chegaram a júri. No fim, foram 20 condenações no total, menos de 2% dos casos investigados. E só 4 dessas 20 condenações foram por mortes cometidas em serviço.
Um vídeo de blitz falsa resolve em minutos porque não tem uma corporação inteira para atravessar. A blitz real, quando erra, tem perícia, corregedoria, inquérito, e uma taxa de condenação que a matemática classifica como exceção.
Dois nomes, dois inquéritos sem desfecho
Wesley dos Reis Cordeiro, 41 anos, morador do Capão Redondo, em São Paulo, foi morto por dois PMs na madrugada de 5 de julho de 2026, horas depois de comemorar o aniversário de dois anos da neta. A polícia disse ter atirado por suspeitar que ele fosse armado; vídeos e a família contestam a versão: mostram que a jaqueta que a polícia citou como esconderijo estava amarrada na cintura. Um Inquérito Policial Militar foi aberto. Não há indiciamento concluído até a publicação desta matéria.
Thawanna da Silva Salmázio foi morta a tiros em Cidade Tiradentes, também em São Paulo, na madrugada de 3 de abril de 2026, depois que o retrovisor da viatura policial esbarrou em seu marido na rua. A discussão que se seguiu terminou com um disparo da soldado Yasmin Cursino Ferreira. A soldado e o parceiro foram afastados das operações, não presos, não indiciados até aqui. Um IPM também foi aberto.
Afastamento não é condenação. Inquérito não é sentença. Nos dois casos, o processo mais visível até agora foi administrativo, não penal.
Fontes: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 (Fórum Brasileiro de Segurança Pública); dissertação de mestrado de Debora Nachmanowicz, Faculdade de Direito da USP (2024), via reportagem da Agência Pública; CNN Brasil (casos Thawanna Salmázio e Wesley dos Reis Cordeiro); Agência Pública (Wesley dos Reis Cordeiro).
A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, nomeia o mecanismo por trás de uma taxa de condenação abaixo de 2%: um sistema que se protege por dentro, mesmo quando o dano é visível por fora.
Sem faculdade, sem laboratório: o jovem de 20 anos que construiu óculos de inteligência artificial para pessoas cegas
Khalifa Aminu testa os óculos de IA em Kano, na Nigéria. Reprodução: @inventorkhalifa.
Nenhuma faculdade. Nenhum laboratório. Só YouTube, Google e insistência.
Foi assim que Khalifa Aminu, de 20 anos, morador de Kano, no norte da Nigéria, construiu um óculos de inteligência artificial voltado para pessoas cegas. O dispositivo usa sensores de proximidade, processamento por IA e alertas de vibração e som para avisar quem usa sobre obstáculos, distâncias e pessoas ao redor, devolvendo autonomia de locomoção a quem não enxerga.
O primeiro teste ao vivo
O teste em campo aberto aconteceu na última semana de agosto, com um homem mais velho da comunidade usando o protótipo pela primeira vez enquanto caminhava. A reação, registrada em vídeo e resumida por quem acompanhou o teste: "incrível".
Não é o primeiro capítulo dessa história. A imprensa especializada em tecnologia africana já havia registrado uma versão anterior do projeto de Aminu em 2024, o que indica pelo menos dois anos de iteração por trás do protótipo desta semana, não um golpe de sorte isolado.
Genialidade sem porteiro
Aminu não teve acesso a um curso de engenharia, a um laboratório universitário ou a financiamento de uma grande empresa de tecnologia. Teve um problema real, a falta de ferramentas acessíveis de mobilidade para pessoas cegas na própria comunidade, e usou os recursos que tinha: tutoriais gratuitos, motor de busca e tempo.
É a definição mais direta de engenhosidade comunitária: identificar a dor de quem está ao lado e construir, com o que se tem, uma solução prática, barata e replicável.
Fontes: Pulse Nigeria (24 de agosto de 2026), Leadership.ng, The News Chronicle e AfroTech (cobertura de uma versão anterior do projeto, em 2024).
Despertando o Gênio Natural da Criança Preta, de Amos Wilson, argumenta que a genialidade negra floresce como projeto da própria comunidade: exatamente o que Aminu construiu em Kano.
Quinze filmes disputam a vaga do Brasil no Oscar 2027. Cinco deles, e onde assistir.
Antonio Pitanga recebe o prêmio do 28º Festival de Cinema Brasileiro de Paris, em abril de 2026. Foto: Daniela Ometto.
A Academia Brasileira de Cinema divulgou em 24 de agosto a lista dos quinze filmes brasileiros habilitados a disputar a vaga do país na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027. Nada está decidido. A comissão de seleção se reúne em 9 de setembro para cortar a lista para seis títulos, e em 16 de setembro anuncia qual filme vai representar o Brasil.
Os quinze habilitados são: 100 Dias (Carlos Saldanha), A Conspiração Condor (André Sturm), A Fabulosa Máquina do Tempo (Eliza Capai), A Natureza das Coisas Invisíveis (Rafaela Camelo), Ato Noturno (Marcio Reolon e Filipe Matzembacher), Cinco Tipos de Medo (Bruno Bini), Dolores (Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes), Feito Pipa (Allan Deberton), Herança de Narcisa (Clarissa Appelt e Daniel Dias), Malês (Antonio Pitanga), Nosso Segredo (Grace Passô), O Rei da Internet (Fabrício Bittar), Papagaios (Douglas Soares), Quando Vira a Esquina (Chris Alcazar) e Vicentina Pede Desculpas (Gabriel Martins).
Separamos cinco da lista com história ou elenco negro, com resumo e onde assistir. Dois já estão disponíveis em casa, um está em cartaz e dois estreiam em novembro.
Malês, de Antonio Pitanga
Cena de Malês. Foto: divulgação, via Festival do Rio.
Salvador, 1835. Dois jovens muçulmanos são arrancados da África e escravizados no Brasil, e acabam dentro da maior revolta de escravizados da história brasileira. A Revolta dos Malês foi organizada por negros muçulmanos escravizados e libertos contra o sistema escravista, e é o levante urbano de maior porte que o país registrou.
Antonio Pitanga estreou como ator no Cinema Novo, nos anos 1960. Levou mais de seis décadas para dirigir o primeiro longa. Em Malês ele dirige e ainda atua, como o líder religioso Pacífico Licutan. O filme chegou aos cinemas em 2 de outubro de 2025 e venceu o 28º Festival de Cinema Brasileiro de Paris, em abril deste ano.
Onde assistir: Telecine, ou aluguel na Prime Video e na Apple TV.
Nosso Segredo, de Grace Passô
Cena de Nosso Segredo. Foto: divulgação, Vitrine Filmes.
Uma família negra tenta se reorganizar depois de uma perda recente. Os adultos seguram o luto no silêncio, e o filho mais novo guarda um segredo capaz de mexer com a dor de todos. O filme foi rodado em Belo Horizonte.
É também a estreia de Grace Passô na direção de um longa. Em agosto, Nosso Segredo levou o Kikito de Melhor Filme no Festival de Gramado, além dos prêmios de Fotografia e de Direção de Arte. Antes disso passou pela mostra Perspectivas do Festival de Berlim.
Onde assistir: em cartaz nos cinemas desde 27 de agosto.
Feito Pipa, de Allan Deberton
Lázaro Ramos e Yuri Gomes em Feito Pipa. Foto: divulgação, Paris Filmes.
Gugu tem quase 12 anos, sonha em ser jogador de futebol e é criado pela avó Dilma no interior do Ceará. Quando o Alzheimer da avó avança, ele encara a possibilidade de ir morar com o pai, um homem com ideias rígidas sobre o que é ser homem e sem jeito para dizer o que sente. O filme foi rodado em Quixadá.
No elenco, Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos. Feito Pipa ganhou o Urso de Cristal de Melhor Filme no Festival de Berlim deste ano, além do Grande Prêmio do Júri Internacional. Em Gramado levou Melhor Direção, Melhor Atriz para Teca Pereira, Ator Coadjuvante para Lázaro Ramos, Melhor Filme pelo Júri Popular e menção honrosa para Yuri Gomes.
Onde assistir: nos cinemas a partir de 5 de novembro, com distribuição da Paris Filmes.
Cinco Tipos de Medo, de Bruno Bini
Cena de Cinco Tipos de Medo. Foto: divulgação, via Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Murilo quase morre numa UTI e se apaixona pela enfermeira Marlene, que namora Sapinho, traficante do Jardim Novo Colorado. Quando Sapinho é preso, a linha entre os três aperta. O longa nasceu do curta Três Tipos de Medo, do mesmo diretor.
No elenco, Bella Campos, Xamã, João Vitor Silva, Bárbara Colen e Jonathan Haagensen. O filme levou o Kikito de Melhor Longa Brasileiro no Festival de Gramado do ano passado, mais Roteiro, Montagem e Ator Coadjuvante. Chegou aos cinemas em abril deste ano.
Onde assistir: Telecine.
Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins
Rejane Faria em Vicentina Pede Desculpas. Foto: divulgação, Netflix.
Um ônibus despenca de um viaduto em Belo Horizonte. Quanto mais a polícia investiga, mais aparecem indícios de que o acidente, que matou quase todos os passageiros, foi provocado pelo próprio motorista. Vicentina, mãe dele, lê as manchetes e decide procurar as famílias das vítimas para pedir desculpas.
Gabriel Martins já esteve nessa disputa. Em 2022, Marte Um foi escolhido para representar o Brasil no Oscar, e Martins se tornou o primeiro diretor negro a levar um filme brasileiro à disputa. Não voltou a acontecer: nas três campanhas seguintes o país mandou Kleber Mendonça Filho duas vezes e Walter Salles uma. O novo filme é uma produção da Filmes de Plástico com a Netflix e estreia internacionalmente na mostra competitiva Plataforma do Festival de Toronto, em setembro, como o único filme brasileiro da seleção.
Onde assistir: nos cinemas em 5 de novembro e na Netflix em 20 de novembro, com lançamento simultâneo em mais de 190 países.
Cuidado com os dois quinzes
Há duas listas de quinze nessa história, e elas não são a mesma coisa. Os quinze de agora são só brasileiros, e servem para o Brasil escolher um. Depois que o país inscrever o representante, o prazo na Academia americana fecha em 30 de setembro.
Só então vem o outro quinze. Em 15 de dezembro a Academia divulga a lista dos quinze filmes internacionais, de todos os países, que seguem na disputa. Os cinco indicados a Melhor Filme Internacional são anunciados em 21 de janeiro de 2027, e a cerimônia do 99º Oscar acontece em 14 de março, no Dolby Theatre.
Ou seja: entre a lista de agora e um filme brasileiro entre os indicados faltam quatro cortes.
O Brasil venceu a categoria pela primeira vez em 2025, com Ainda Estou Aqui, de Walter Salles. Em 2026 voltou indicado com O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e o prêmio ficou com Valor Sentimental.
Fontes: Academia Brasileira de Cinema, lista de 24 de agosto de 2026, via Omelete, Metrópoles, Exame e Cinevitor. Datas do 99º Oscar pelo The Gold Knight e pelo AwardsWatch. Malês: Brasil de Fato e Jornal da USP. Nosso Segredo: Cinematorio, Estado de Minas e Jornal do Comércio. Feito Pipa: Paris Filmes e Berlinale. Cinco Tipos de Medo: Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Vicentina Pede Desculpas: About Netflix e Tela Viva. Representantes anteriores do Brasil: lista da Wikipédia em português. Disponibilidade de streaming conferida no JustWatch em 28 de agosto de 2026.
Quem decide qual imagem circula decide também a leitura que um povo faz de si mesmo. É disso que trata boa parte do catálogo da Editora Poder Afrikano.
Três dos quatro planos de governo propõem entrar na favela. Um propõe controlar a polícia.
Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (NOVO), Renan Santos (MISSÃO) e Lula (PT). Fotos oficiais de candidatura, TSE.
Em 2025 a polícia matou 6.602 pessoas no Brasil. São 18 por dia. E 82% delas eram negras. O número está no Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, publicado em julho, no meio da campanha eleitoral.
Baixamos os planos de governo dos quatro candidatos mais bem colocados na disputa presidencial, registrados na Justiça Eleitoral, e lemos os quatro documentos inteiros para responder a uma pergunta só: o que cada um propõe fazer sobre isso?
Esta é a terceira parte de uma série. Na primeira, contamos quantas vezes cada um dos doze planos escreve as palavras racismo, negro e quilombola. Na segunda, lemos o que os oito candidatos menores propõem sobre raça. Aqui a leitura é outra: não é contagem de termo, e sim o que os quatro principais dizem que vão fazer com a polícia.
Três propõem entrar. Um propõe controlar.
A favela é onde a letalidade policial acontece. Três dos quatro planos propõem ação policial intensificada exatamente ali, e nenhum dos três traz qualquer instrumento de controle sobre essa ação.
Não se trata de dizer que combater o crime em favela é errado. Trata-se de notar que os três planos que mais prometem entrar não escrevem uma linha sobre como sair sem matar. Quem propõe a operação não propõe o freio.
Flávio Bolsonaro (PL): retomar territórios, nada sobre controle
O plano promete recuperar os territórios dominados pelas facções, com consórcios para essa retomada. E afirma que bandido armado com fuzil será abatido pelas forças de segurança.
Em 23.296 palavras não há câmera corporal, corregedoria de polícia, ouvidoria nem qualquer mecanismo de controle da atividade policial. A expressão direitos humanos não aparece uma vez sequer no documento.
A única ocorrência da palavra câmera no plano é a da câmera de vigilância: um milhão delas espalhadas pelo país, com reconhecimento facial. Cabe aqui uma correção do nosso próprio trabalho. Antes de ler o PDF, trabalhando com resumo de imprensa, chegamos a afirmar que este plano também previa câmera corporal e controle interno e externo. Não prevê. A reportagem que lemos comparava dois planos, e a frase era do outro.
Romeu Zema (NOVO): Forças Armadas na retomada
Recuperar territórios dominados pelo crime é um dos cinco eixos centrais do plano. Quem entra são as Forças Armadas, atuando de forma integrada às polícias estaduais e à Polícia Federal. Domínio territorial é o modelo de operação mais letal que o país conhece.
Em 81 páginas, a única corregedoria proposta é a do Supremo Tribunal Federal, e não a de nenhuma polícia. O documento também fala em uso da Força, mas com maiúscula e como substantivo próprio: é a Força Nacional, e não o conceito regulado de uso da força que limita a ação policial.
Renan Santos (MISSÃO): um capítulo chamado desfavelização
O plano dedica um capítulo inteiro ao que chama de "A Desfavelização Física e Espiritual do País", com treze menções a favela. Propõe decretar estado de defesa para prender ou matar lideranças do crime organizado.
Em 21.462 palavras, nenhuma menção a câmera corporal, corregedoria, ouvidoria ou direitos humanos. O documento também propõe drones de patrulhamento autônomo e reconhecimento facial em tempo real, integrados a uma base de dados genéticos.
Lula (PT): os únicos instrumentos, todos como estímulo
É o único dos quatro com medidas capazes de conter a letalidade policial. O plano propõe ampliar os estímulos ao uso de câmeras corporais e definir padrão nacional de utilização, gestão e preservação das imagens. Prevê fortalecer o controle interno e externo da atividade policial, policiamento de proximidade nas comunidades, assegurar o uso legítimo da força e qualificar a investigação de homicídios. É também o único dos quatro que escreve direitos humanos, quatro vezes.
A fragilidade está na forma. Os dois instrumentos que mais importam entram como estímulo: "ampliaremos o programa de estímulos", "estimularemos o fortalecimento". Nenhum obriga estado nenhum a fazer nada.
E o plano não fixa meta de letalidade. A única vez que a palavra letalidade aparece no documento é em referência à violência doméstica.
Uma ressalva de leitura: as Forças Armadas citadas neste plano são as de fronteira amazônica e defesa nacional, e não de policiamento urbano. Não é a mesma proposta do emprego em retomada territorial.
O único instrumento com efeito já medido no Brasil
Estudo do Unicef com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública acompanhou a Polícia Militar de São Paulo entre 2019 e 2022. Nos 62 batalhões que adotaram câmera corporal, a letalidade caiu 76,2%. Nos 73 batalhões sem câmera, caiu 33,3%. Contra pessoas negras, a redução medida foi de cerca de 57%.
É o único instrumento citado nos quatro planos com efeito de redução já medido no país. E aparece em um plano só, na forma mais fraca possível.
O que amplia a exposição da população à polícia
Há propostas nos documentos que não matam por si, mas aumentam o número de contatos entre polícia e cidadão. O contato é onde a letalidade acontece.
Flávio Bolsonaro e Renan Santos propõem reconhecimento facial em massa. Pelo terceiro ano seguido, 90,5% das pessoas presas por essa tecnologia no Brasil são negras, segundo a Rede de Observatórios da Segurança. Em Feira de Santana, na Bahia, 1,3 milhão de rostos capturados geraram 903 alertas e 15 prisões: mais de 96% dos alertas não deram em nada.
O que não dá para colocar de nenhum dos dois lados
Por honestidade com a leitura, quatro propostas ficam fora dessa conta. Recriar o Ministério da Segurança Pública, o Sistema Único de Segurança Pública, a Proposta de Emenda à Constituição da Segurança e o repasse de recursos a estados e municípios podem reduzir ou aumentar a letalidade, conforme o que se decidir coordenar e condicionar. Um ministério pode impor padrão de uso da força ou apenas distribuir verba. O mesmo repasse compra câmera corporal ou compra fuzil.
O ponto comum entre elas é o que mais chama atenção: são exatamente os instrumentos que permitiriam amarrar dinheiro federal a indicador de letalidade. Nenhum dos quatro planos faz essa amarração.
Antes de cobrar, vale saber quem manda na polícia
Pela Constituição, a polícia militar e a polícia civil são subordinadas aos governadores. Quem decide como a abordagem acontece no estado é o governo estadual, e não o federal. À União cabem a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e as normas gerais de organização das polícias militares.
Por isso um presidente não pode simplesmente mandar um estado adotar câmera corporal. O limite aqui é de competência, e não apenas de vontade política.
Então o que dá para cobrar de um presidente
Três coisas estão ao alcance da Presidência sem mudar uma vírgula da Constituição: condicionar repasse de dinheiro a resultado, fixar padrão nacional de dado e de uso de câmera, e publicar estatística de letalidade por raça.
Nenhum dos quatro planos amarra repasse a indicador de letalidade. Nenhum fixa meta, prazo ou número a ser alcançado.
Plano que não nomeia a vítima não a protege
Os quatro documentos descem ao detalhe operacional. Sabem dizer quantas câmeras de vigilância, quais presídios, qual decreto, qual capítulo. Nenhum deles diz o que fará sobre os 82%.
Em nenhum dos quatro encontramos meta, prazo ou indicador para reduzir quantas pessoas a polícia mata, nem uma única menção à desproporção racial entre as vítimas.
Fonte: planos de governo de Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (NOVO) e Renan Santos (MISSÃO), registrados no Tribunal Superior Eleitoral para a eleição de 2026 e lidos na íntegra em 28 de agosto de 2026. Dados de letalidade: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026. Câmeras corporais na Polícia Militar de São Paulo: Unicef e Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Reconhecimento facial: Rede de Observatórios da Segurança.
A polícia que mata não é acidente de percurso: é política pública, com orçamento e endereço. Nosso catálogo trata de como esse arranjo se sustenta.
O menino que saiu do Rio para brilhar na Espanha voltou para viver o malandro de Chico Buarque
Tiago Barbosa, que divide com José Loreto o papel de Max Overseas Navalha na montagem carioca de Ópera do Malandro.
Ópera do Malandro é um musical de Chico Buarque de 1978, escrito sob a ditadura militar. Chico ambientou a trama na Lapa carioca dos anos 1940, entre contrabandistas, prostitutas e cafetões, e falou do Brasil de 1978 por dentro de outro Brasil. Era o que dava para fazer quando falar direto custava caro.
Max Overseas Navalha é o malandro que move o enredo inteiro: um contrabandista que se casa com a filha dos donos de um bordel para subir na vida, e detona uma engrenagem de corrupção, chantagem e traição.
A montagem
A direção é de Jorge Farjalla, com direção musical de Gui Leal. A leitura cruza o texto de Chico com A Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht, de onde a obra original já vinha, e acrescenta referências de umbanda e das entidades de rua.
No elenco, Totia Meireles é Vitória Régia, Carol Costa é Teresinha, Amaury Lorenzo é o delegado Chaves, Edgar Bustamante é Duran e Valéria Barcellos vive Geni. A produção é da Palco 7 Produções e da Solo Entretenimento, com produção geral de Griesi.
Max é dividido em alternância entre José Loreto e Tiago Barbosa. Tiago é o ator que o Brasil conheceu como Milton Nascimento em Clube da Esquina: Os Sonhos Não Envelhecem. Ele morava na Espanha e voltou para este texto.
Conversamos com ele no Rio. A entrevista sai na íntegra, com as respostas como ele as deu.
1. O que te prendeu no Max Navalha? Tem alguma coisa nele que você precisou entender antes de conseguir interpretá-lo de verdade?
Primeiro, foi para mim uma delícia o convite, quando o Griesi [produção geral] me chamou para poder fazer parte desse espetáculo, protagonizar ao lado do Loreto.
A primeira coisa foi mergulhar um pouco nessa obra, nas músicas, para poder entender um pouco o contexto. Eu já conhecia bastante coisa do próprio espetáculo, mas, ao mesmo tempo, entender como eu poderia fazer essa obra dentro dessa tessitura vocal, que é uma tessitura vocal um pouco mais grave que a minha, para ir encontrando também esse malandro através dessa tessitura.
E logo, com a direção do Farjalla, ele deixou a gente muito aberto e muito livre para sermos dois malandros distintos. Cada um tem uma vivência distinta.
Eu venho da Baixada Fluminense, de uma favela, e eu queria também levar essa favela para esse cenário. Esse Max diferente, esse Max que é do samba, mas ele também é do funk, que tem esse carioquês muito predominante da favela, com alguns signos da comunidade.
Eu queria muito levar essas características para dentro desse Max. Ainda que essa obra seja uma obra de 78, ela segue sendo muito atual. E, como homem negro, eu também queria trazer essas características e aquilo que me toca como cidadão preto dentro do mundo.
2. Você e José Loreto interpretam o mesmo papel. Como vocês lidam com isso: constroem de forma independente ou se influenciam?
Eu e o Loreto conversávamos muito sobre as formas. Ele tinha uma forma, ele tem o Max, ele tem o malandro dele, eu tenho o meu malandro.
E eu acho que quem vai para o espetáculo assistir ao show consegue se deliciar, duas vezes com os dois malandros distintos.
3. Geni salva a cidade e é expulsa logo depois. O espetáculo encena isso como tragédia ou como crítica, ou os dois ao mesmo tempo?
Bem, o espetáculo é uma crítica social, como sempre foi.
E é muito bonito ter uma atriz trans dentro desse lugar, com essa propriedade de fala. Todos os dias que Valéria entra ao palco para poder fazer esse personagem, sempre é icônico, porque ela também leva muito da verdade dela para o cenário.
É uma crítica social, está estampada dentro da nossa sociedade. Existe um momento que algumas pessoas dão aquele riso sem graça, aquele riso do constrangimento em muitos momentos do espetáculo, porque, claro, se veem deparadas com o que é a realidade social.
4. O Chico escreveu isso nos anos 70, em plena ditadura. O que o texto diz sobre o Brasil de 2026?
Eu acho que essa é a nossa responsabilidade também como artista.
Eu acho que, infelizmente, em muitas coisas ainda vivemos um retrocesso. Em outras, estamos a passos largos, mas aquele Brasil ainda continua tendo muitos fragmentos do Brasil agora, ainda em 2026.
E essa ideia: trazer essa crítica social para falar sobre as classes, para falar sobre as diferenças, trazer esse recorte.
E isso é muito importante. Eu acho que por isso também é um sucesso, porque não está longe da realidade que vivemos.
5. Qual é o momento do espetáculo que mais te afeta toda vez? Pode ser seu ou do elenco.
Existe um momento no final onde o melhor amigo de Max está com a arma apontada para a cabeça dele.
E tivemos uma conversa muito gostosa, eu e o Amauri, falando sobre esses dois homens pretos, um com a arma na cabeça do outro para poder tirar a vida, porque existe um, vamos dizer, um bico de sinuca. Jogo de interesse, jogo de poder. Ou ele mata ou ele morre.
Só que é o melhor amigo dele e é um homem preto.
Socialmente falando, o povo preto, a cada uma hora, nós temos um percentual de [cerca de 4] pessoas negras que morrem no Brasil. E esse desespero é um momento que eu vou com muito respeito, porque é real.
É real essa imagem do homem com a mão para cima, rendido. É real.
E tem muita gente, quando chega no final do espetáculo, que me fala sobre esse momento.
O momento da Geni é um momento icônico no espetáculo, com “Geni e o Zepelim”.
Eu acho que existem alguns recortes dentro do show que trazem uma realidade brasileira muito forte e, por isso, é um grande sucesso.
Nota da redação: o número entre colchetes é intervenção nossa. O Atlas da Violência 2026, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou 32.820 homicídios de pessoas negras em 2024, o equivalente a 77% de todas as vítimas de assassinato do país. São 89,9 por dia, uma morte a cada 16 minutos, e uma taxa 2,7 vezes maior que a das demais pessoas.
6. O que você quer que o público sinta quando sai do teatro?
Bem, como ator, eu sempre vou querer que meu público abrace o Max, (risos) que ele sinta a verdade no Max.
Nesse show não existe o bonzinho e o vilão. Todo mundo é tudo ali dentro.
Quero que o público se divirta, quero que o público entenda a informação, saia reflexivo, saia feliz, se emocione e veja um grande espetáculo com grandes artistas.
7. O teatro exige o que a câmera não exige. O que você perderia se parasse de fazer palco?
Eu acho que o teatro me trouxe essa disciplina.
O jogo nunca está ganho. Não é como na teledramaturgia onde rola um “para, ai gravamos, para, descansa”. Não. O teatro é vivo, então você precisa ter uma disciplina para poder estar no palco. Senão não existe, você não consegue, senão não funciona.
Então eu acho que, se eu não estivesse no palco, eu deveria ter outro tipo de disciplina. Acho que essa disciplina que o palco me trouxe, essa disciplina.
8. O malandro brasileiro é resistência ou adaptação ao sistema, ou não dá pra separar?
Eu acho que essa malandragem vem desses dois recortes.
Ela é resistência porque eu acho que o sistema tenta, muitas das vezes, dominar, emudecer, depreciar, e a malandragem é o que faz a gente resistir.
Mas, ao mesmo tempo, também a gente não consegue viver fora de algumas condições da padronização do sistema.
9. Você estava na Espanha. O que foi que te trouxe de volta? Foi o papel, foi o momento, foi o texto?
Eu acho que foi um conjunto de coisas que me trouxe de volta ao Brasil.
A primeira já era a vontade de fazer um texto brasileiro, passados tantos anos fazendo texto gringo. A vontade de voltar a fazer teatro brasileiro. E não somente vir para fazer teatro no Brasil: um texto brasileiro.
Isso me chamou muita atenção e roubou muito meu coração.
Além disso, a minha história está aqui, a minha família está aqui, meu sobrinho está aqui. E eu sentia muita saudade de casa, muita saudade do meu idioma, muita saudade das pessoas que me conhecem desde o primeiro texto.
Para mim, é muito importante estar no teatro e saber que essa vitória tem uma vitória distinta, porque as pessoas que vão me assistir são pessoas que estão torcendo por mim desde a época que eu falava sobre o meu primeiro sonho de ser artista.
Essa semana eu tive na plateia uma amiga da quinta série. E isso, para mim, é dizer: “Eu venci”. Desfrutar e compartilhar com essas pessoas que estiveram desde o momento zero.
E, lógico, eu tinha muita vontade de trabalhar com Griesi, com essa produção do Palco 7. Eu tinha muita vontade de trabalhar com o Farjalla, porque é um diretor que eu já acompanho há um tempo. Admiro a maneira dele dirigir, a maneira dele ver teatro, como ele respira a arte e como ele respeita a arte que trabalhamos.
10. Como é pisar no Brasil em 2026? O país que você encontrou é o mesmo que você deixou?
Eu deixei o país em 2015. Não, ele não é o mesmo país que eu deixei aqui.
Eu lembro que, quando eu regressei ao Brasil pela primeira vez, depois de tanto tempo, fui para fazer Clube da Esquina: Os Sonhos Não Envelhecem. E eu fiquei chocado, na época, quando eu vi tantos jovens negros com seu black power caminhando pela rua com tanto poderio, com tanta força. Ligar a televisão e sentir que a representatividade era maciça.
E, em 2015, a gente tinha que ficar quase que buscando quem eram os negros que estavam falando sobre moda, quem eram os negros que tinham o privilégio, na época, de fazer um advogado, ser um galã na televisão.
Hoje você liga a televisão e você sente que faz parte daquilo ali, que você está inserido naquilo ali, que já não é uma briga, já não é um orgulho em ser: “Eu fui o primeiro príncipe negro”. Não. Já tem vários.
Somos muitos, povoamos, temos uma palavra de ordem também.
Então, é um país muito distinto daquilo que eu deixei há anos atrás.
11. O que vem depois dessa temporada? Você fica ou volta?
Eu vou embora para a Espanha, organizar a vida na Espanha, e logo vou protagonizar um espetáculo na França, em Paris, que é o meu novo país.
Estou muito orgulhoso de mim mesmo por abraçar e me sentir desafiado, ser testado numa nova língua, língua a qual eu estou aprendendo, cultura a qual eu estou aprendendo, com aulas de francês. Todo um processo dessa mudança para Paris, que em breve eu vou poder dizer qual é o nome do espetáculo.
E não, não é nenhum espetáculo que eu já fiz até aqui.
12. Aqui na redação e na editora desenvolvemos um trabalho que busca autonomia de consciência na perspectiva de poder para o povo preto. Você é uma referência preta em vários sentidos, não só pela sua ascensão depois de O Rei Leão, mas principalmente pela maneira como conduz a carreira. Te incomoda a ausência de produtores e diretores negros na cena brasileira em pleno 2026? E por que, na sua opinião, é tão difícil a ascensão desses profissionais no mercado brasileiro?
Eu acho que o sistema embate, ele não permite. Quando vê um produtor negro, eu acho que ele dificulta muito o caminho. Por isso não existem tantos. É muito difícil.
E é uma luta que não é uma luta a solo, não. É uma luta coletiva. E quando o coletivo não se importa com a presença desse corpo negro sendo produtor, a gente volta a repetir padrões.
E seria tão legal ver um produto negro sendo dirigido, produzido por gente preta. Como a gente vê as mulheres, fazendo, dirigindo e administrando suas próprias produções. Eu acho isso tão, tão legal. Tão legal.
Mas ainda não funciona dessa maneira. E eu adoraria que fosse de uma forma diferente.
13. Deixe um recado para as novas gerações de artistas pretos que estão dando os primeiros passos na carreira.
Não se esqueçam das pessoas que cavaram esse caminho para que vocês pudessem hoje caminhar livremente. Não se esqueçam.
Eu acho que um dos grandes males dessa época é a gente apagar os nossos. É a gente não aplaudir o que as outras pessoas fizeram para a gente poder caminhar. E existe um caminho que foi feito.
Não digo tão somente por mim, porque eu sempre, quando posso, falo muito sobre Maurício Xavier, que foi um cara que, para mim, foi inspiração na época, quando foi o primeiro preto a sair do Brasil para ir para a Alemanha para poder fazer O Rei Leão na Alemanha, em alemão.
Eu sei que eu abri uma porta no mercado europeu, na Espanha, para muitos que hoje já estão trabalhando na Espanha, e como muitas coisas que eu já cheguei a fazer aqui no Brasil.
Mas não apaguem a nossa. Não sejam as pessoas que vão apagar a nossa própria história.
Vamos construir, vamos nos abraçar. Eu acho que ser coletivo, fazer coletivo, endossar a nossa causa é muito melhor. Você não vai vencer sozinho. Você vai precisar de pessoas ao seu lado para poder te abraçar e chegar lá juntos.
Onde ver
Ópera do Malandro está no Teatro Multiplan, no VillageMall, na Avenida das Américas 3900, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. A temporada carioca começou em 6 de agosto e vai até 30 de agosto de 2026, com sessões de quinta a domingo.
São 120 minutos, classificação 14 anos, e os ingressos saem a partir de 25 reais pela Sympla.
A montagem não estreia agora: passou antes por São Paulo, no Teatro Renault, entre janeiro e março deste ano.
Como Max é dividido em alternância, quem for duas vezes vê dois espetáculos diferentes. Vale conferir a escalação do dia antes de comprar.
Geni foi escrita em 1978 para dizer o que a cidade faz com quem ela precisa mas não quer assumir. Quase cinquenta anos depois, o texto não precisou ser atualizado.
Entrevista concedida ao Poder Afrikano em agosto de 2026, publicada na íntegra. As perguntas foram reescritas apenas na pontuação; as respostas estão como Tiago as deu, na transcrição revisada por ele. Ficha do espetáculo conferida no Teatro Multiplan e na Palco 7 Produções.
O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre consciência, poder e o direito de contar a própria história.
O fim da escala 6x1 destravou no Senado depois de três meses parado, e a escala que ele quer acabar é majoritariamente negra
Omar Aziz, relator da proposta na Comissão de Constituição e Justiça. Foto: Senado Federal, licença Creative Commons BY 2.0.
A proposta que acaba com a escala 6x1 andou nesta quinta-feira, 27 de agosto, depois de passar três meses parada no Senado.
O relator Omar Aziz apresentou parecer favorável na Comissão de Constituição e Justiça. Ele rejeitou as 12 emendas apresentadas por senadores e manteve o texto exatamente como a Câmara dos Deputados aprovou, no fim de maio. A votação na comissão é esperada para a semana seguinte. Depois dela, o plenário.
A espera
A proposta chegou ao Senado em maio e ficou. Só foi despachada para a comissão em 21 de agosto, pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre. Uma semana antes, em 14 de agosto, ele já havia listado a matéria entre as prioridades da pauta.
No intervalo, os argumentos para não pautar foram públicos. A oposição alegou que ano eleitoral não é momento de votar uma pauta dessas. Representantes dos empregadores preferiram esperar as eleições passarem.
Em 26 de agosto, uma reunião entre Alcolumbre, o presidente Lula e o presidente da Câmara, Hugo Motta, tratou a proposta como prioridade do Congresso.
Três meses é o tempo que a proposta esperou. Não é o tempo que quem trabalha na 6x1 esperou, porque essa pessoa continuou trabalhando na 6x1 o tempo inteiro.
A escala tem cor
Aqui está o dado que raramente entra no debate sobre jornada de trabalho.
Nas jornadas mais pesadas da construção civil, trabalhadores negros passam de 65%. E quem está na escala 6x1 ganha, em média, 58% a menos do que quem está na 5x2. Os números são do Dossiê Fim da Escala 6x1, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas, e de levantamentos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos.
Não é uma pauta trabalhista que por acaso atinge pessoas negras. É uma pauta racial que se apresenta como trabalhista.
O que a escala tira
Seis dias de trabalho para um de descanso não é apenas cansaço acumulado. É uma estrutura que decide, na prática, o que cabe na vida de alguém.
Estudar à noite depois do sexto dia é possível para poucos. Acompanhar a rotina escolar de um filho, com um domingo por semana, é matemática apertada. Participar de reunião de associação de bairro, de sindicato, de mandato coletivo, de qualquer coisa que exija presença regular em horário fixo, é quase inviável.
A escala não proíbe nada disso. Ela só torna caro demais.
E quando a mesma população que já enfrenta menor renda, pior transporte e pior acesso à cidade é também a que está sobrerrepresentada nessa jornada, o efeito se acumula. Falta de tempo é uma forma de desigualdade que não aparece em holerite.
O que vem agora
Com o parecer favorável do relator, a proposta segue para votação na comissão e, se aprovada, vai ao plenário do Senado, onde uma emenda à Constituição precisa passar em dois turnos.
O texto que está em jogo é o que a Câmara aprovou em maio, sem as 12 emendas que os senadores tentaram acrescentar.
A proposta esperou três meses por uma assinatura. A conta desses três meses foi paga por quem trabalhou seis dias em cada sete durante todos eles.
Fontes: Senado Notícias, 21 e 27 de agosto de 2026, sobre o despacho para a comissão e o parecer do relator Omar Aziz. Dossiê Fim da Escala 6x1, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas. Alma Preta e Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, sobre composição racial e rendimento na escala 6x1.
O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre consciência, poder e as estruturas que organizam a vida do povo preto.
O trailer de GTA 6 saiu, e parte do público reclamou que tem negro e latino demais em Miami
Ocean Drive, em Miami Beach, o cenário em que o jogo se passa. O mapa de GTA 6 é baseado em Miami, cidade onde 85% da população é latina ou negra. Foto: Robbschultz69, via Wikimedia Commons.
O trailer oficial de GTA 6 está no ar no Netflix desde a tarde desta quinta-feira, 27 de agosto. Antes mesmo disso, uma parte do público já tinha decidido do que ia reclamar: gente demais que não é branca na tela.
A queixa não é nova. Ela apareceu no primeiro trailer, voltou com o vazamento de agosto e agora reaparece com o lançamento. E ela diz mais sobre quem reclama do que sobre o jogo.
O que vazou, e o que não vazou
Em 18 de agosto, um hacker divulgou 27 minutos de GTA 6 antes do lançamento. Segundo o TechTudo, o material trazia jogabilidade do protagonista Jason, o mapa completo, cenas de corte e trilha sonora. Não era o trailer: era o jogo.
A Rockstar Games disse que o episódio foi de partir o coração.
O grupo que assinou o vazamento, o CyberLeek, declarou que agiu por protesto. A alegação: GTA 6 não terá mídia física no lançamento, só código dentro da caixa. O lema que o grupo adotou, segundo o GadgetReview, foi "No Disc, No Peace", algo como "sem disco, sem paz".
Só que junto com o vazamento veio outra coisa. O grupo lançou uma moeda digital chamada $CYBERLEEK, que movimentou perto de 20 milhões de dólares em poucos dias, de acordo com o MixVale.
Protesto de consumidor ou operação financeira? As duas explicações estão em cima da mesa, e só uma delas rende dinheiro.
Quem comemorou o vazamento, e por quê
Existe um grupo que não ficou triste com o vazamento. Ficou aliviado.
Não por causa do disco. Esse grupo queria conferir, com os próprios olhos e antes de pagar, se o jogo era tão negro assim quanto o trailer sugeria.
É um detalhe que merece ser dito com todas as letras: a pressa não era para jogar. Era para contar quantas pessoas não brancas apareciam.
Miami é assim
O mapa de GTA 6 é baseado em Miami. E Miami, segundo o levantamento anual do Departamento do Censo dos Estados Unidos referente a 2024, tem 71,5% de população latina e 13,7% de população negra. Somadas, são cerca de 85% da cidade.
A Rockstar retratou a cidade como ela é. Colocar num jogo ambientado em Miami a mesma proporção de gente que existe em Miami foi lido como militância.
Quando o retrato fiel de uma cidade real vira acusação de agenda política, o problema não está no retrato.
Em 2004 ninguém reclamou
GTA San Andreas, de 2004, tem protagonista negro, gangues negras, cultura hip hop e uma Los Angeles fictícia. É um dos títulos mais vendidos da história da franquia.
Não houve campanha contra ele por causa disso.
A diferença entre 2004 e 2026 não é a quantidade de personagens negros. É o que essa presença passou a significar. Em 2004, um protagonista negro era a exceção tolerada, o caso isolado que confirmava a regra. Em 2026, quando a presença negra e latina começa a virar norma e não concessão, ela passa a ser lida como ameaça.
É o mesmo mecanismo de sempre: a exceção diverte, a norma incomoda.
Três reações, três motivos
Vale separar o que aconteceu, porque virou tudo uma coisa só na conversa pública.
A Rockstar teve o trabalho de anos exposto antes da hora e disse que foi de partir o coração. O CyberLeek alegou protesto de consumidor e, no mesmo movimento, pode ter faturado milhões com uma moeda digital. E um terceiro grupo ficou com raiva porque um jogo mostrou, numa cidade real, a população que aquela cidade tem.
São três reações diferentes ao mesmo episódio. Só uma delas é sobre racismo.
Fontes: TechTudo (pronunciamento da Rockstar e atuação do CyberLeek, agosto de 2026), GadgetReview (o lema do grupo), MixVale (a moeda digital $CYBERLEEK) e Departamento do Censo dos Estados Unidos, levantamento anual referente a 2024 (composição da população de Miami).
O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre representação, consciência e o direito de contar a própria história.
Amos Wilson: o psicologo que o sistema nunca adotou
Amos Wilson (1941-1995), psicologo do desenvolvimento e autor de sete livros.
Amos Wilson nasceu em 1941, numa America que ainda tinha banheiros separados para negros e brancos. Cresceu no Sul dos Estados Unidos durante a vigencia plena das Leis Jim Crow, o conjunto de normas segregacionistas que tornavam a inferioridade racial nao apenas uma pratica social, mas uma politica de Estado.
Esse contexto nao e detalhe biografico. E o ponto de partida de toda a obra que ele construiu.
Wilson foi para a universidade, estudou psicologia do desenvolvimento, trabalhou como assistente social e se tornou professor. Lecionou na City University of New York. Em paralelo as aulas, comecou a colocar no papel as perguntas que a psicologia oficial nao queria responder.
A central delas era simples e devastadora: a psicologia que estudamos foi construida para entender quem?
A crianca que o sistema nao queria ver (1978)
Seu primeiro livro saiu quando Wilson tinha 37 anos. A Psicologia do Desenvolvimento da Crianca Preta (1978) documentou como o ambiente familiar molda o desenvolvimento cognitivo e politico da crianca negra desde os primeiros anos de vida.
Nao era uma obra sentimental sobre protecao. Era uma analise politica sobre formacao. Wilson argumentava que pais negros que protegiam seus filhos do mundo sem politiza-los estavam criando adultos adaptados ao sistema, nao adultos capazes de transforma-lo.
A falsificacao que ninguem chamava pelo nome (1993)
Quinze anos depois, Wilson voltou com um diagnostico mais amplo. A Falsificacao da Consciencia Afrikana (1993) analisou como o colonialismo nao terminou com o fim formal da escravidao. Ele continuou na linguagem que usamos, nos herois que celebramos, na forma como aprendemos a nos enxergar.
Wilson usava o conceito de "falsificacao" de forma precisa: nao como engano externo, mas como processo internalizado. Quando um povo colonizado adota a visao de mundo do colonizador e chama isso de identidade, a falsificacao esta completa. E invisivel.
A violencia que o sistema precisava que continuasse
Em Violencia Preta Contra Preto, Wilson fez o que ninguem queria fazer: explicou por que comunidades negras se destroem internamente e quem se beneficia disso.
A tese era incomoda para todos os lados. Para a direita, porque deslocava a culpa do individuo para a estrutura. Para parte da esquerda, porque recusava romantizar a vitima.
Violencia sem direcao politica serve ao sistema. Um povo que gasta seu poder destruindo a si mesmo nao tem energia para identificar o alvo real.
Garvey, o projeto e a ordem mundial (1999)
Consciencia Afrikano-Centrada versus Nova Ordem Mundial (1999) foi publicado quatro anos apos a morte de Wilson. E o livro em que ele dialoga mais diretamente com o legado de Marcus Garvey, o jamaicano que no inicio do seculo XX construiu o maior movimento negro de massa da historia americana.
Wilson extraiu de Garvey uma licao que considerava fundamental: ideologia sem base economica e decoracao. Garvey sabia disso. Criou a Black Star Line antes de qualquer manifesto. Um povo que nao controla nada concreto nao tem projeto. Tem discurso.
1995
Amos Wilson morreu em 14 de janeiro de 1995. Tinha 53 anos.
Morreu sem ver o impacto total do que havia construido. Sem ver a internet distribuir suas palestras para jovens negros no Brasil, em Angola, no Reino Unido. Sem ver seus livros sendo lidos em saraus, em rodas de estudo, em grupos de mensagem as tres da manha.
Cinquenta e tres anos. A pergunta que ele deixou continua sem resposta institucional:
A psicologia que voce pratica serve a quem?
Catalogo completo dos livros de Amos Wilson disponivel no site.
O observatório da produção acadêmica negra saltou de 107 para 261 pesquisas em dois dias
Biblioteca Universitária Central Reitor Macedo Costa, da Universidade Federal da Bahia. Foto: Maiagustavo, via Wikimedia Commons.
O Observatório de Produções Afro Acadêmicas, ou OPA, foi lançado em agosto de 2026. É um repositório aberto da produção acadêmica de pesquisadoras e pesquisadores negros vinculados ao ensino superior brasileiro, idealizado pela pesquisadora Livia Albuquerque.
A reportagem que noticiou o lançamento, publicada em 24 de agosto pela Revista Afirmativa, registrava o balanço do primeiro mês: 107 produções, 74 pesquisadores, 32 instituições de ensino superior e 14 estados.
Abrimos a plataforma na noite de 26 de agosto para conferir o número antes de publicar, e voltamos a abri-la na madrugada de 27. Nas duas leituras, o painel marcava 261 produções, 147 pesquisadoras e pesquisadores, 94 organizações no mapa e 24 estados alcançados.
Dois dias separam a reportagem da primeira leitura. No intervalo, o acervo mais que dobrou.
Uma ressalva sobre a comparação: produções, pesquisadores e estados são o mesmo indicador nas duas datas, e por isso podem ser comparados. Já as 32 instituições de ensino superior citadas na reportagem e as 94 organizações do mapa não medem a mesma coisa. O mapa reúne núcleos de estudo, coletivos estudantis, ligas, entidades acadêmicas, grupos de pesquisa e redes profissionais negras, e não apenas universidades.
O que o nome quer dizer
A sigla não é só sigla. A própria plataforma explica que o nome vem de ọ̀pá, palavra iorubá para cajado, símbolo de autoridade.
É um detalhe pequeno que diz o que o projeto se propõe a fazer. Não se trata de arquivar produção intelectual negra em um canto, e sim de afirmar autoridade sobre ela.
O problema que ele tenta resolver
Livia Albuquerque diz que o observatório nasce de uma pergunta sobre onde está a produção acadêmica negra brasileira e quem está conseguindo encontrá-la.
Existe uma produção ampla e diversa, mas muitas vezes ela permanece restrita aos espaços onde foi produzida. Queremos contribuir para que esse conhecimento circule, seja reconhecido e possa chegar a mais pessoas.
Livia Albuquerque, idealizadora do OPA, à Revista Afirmativa
Há um segundo ponto na fala dela, e é o que separa este projeto de um repositório temático. A produção de pesquisadores negros não deve ser acessada apenas quando o assunto da pesquisa é relação racial.
Pesquisadores negros produzem conhecimento em economia, comunicação, saúde, direito, educação, tecnologia, engenharia, ciências humanas e em todas as áreas. O OPA existe para tornar essa produção visível.
Livia Albuquerque, idealizadora do OPA, à Revista Afirmativa
O acervo confirma isso na prática. Entre as produções recentes listadas na plataforma aparecem trabalhos de psicologia clínica, de saúde na escola pública, de cobertura jornalística da letalidade policial e de políticas públicas para o autismo.
Como entrar
O cadastro é gratuito. Exige autodeclaração de preto ou pardo, vínculo com o ensino superior brasileiro e autorização para que a produção fique disponível no observatório. Antes de entrar no repositório, cada envio passa por análise editorial.
A plataforma vai além do acervo. Mantém um diretório de pesquisadoras e pesquisadores, um mapa de organizações negras por estado, uma seção de indicadores oficiais sobre a presença negra no ensino superior com a fonte primária citada em cada número, uma agenda e uma lista de chamadas abertas.
Por que o número sobe
Um contador que mais que dobra em dois dias não sobe sozinho. Sobe porque alguém cadastrou, e alguém cadastra porque alguém avisou.
Se você conhece uma pesquisadora ou um pesquisador que devia estar nessa lista, o caminho é curto: a plataforma é observatorioafro.com.br.
Fontes: Revista Afirmativa, 24 de agosto de 2026. Painel do Observatório de Produções Afro Acadêmicas, em observatorioafro.com.br, lido em 26 de agosto de 2026 às 23h30 e reconferido em 27 de agosto de 2026 às 00h30.
Conhecimento negro produzido, guardado e transmitido é o assunto de toda a nossa estante.
O que os planos de governo propõem sobre raça: cotas, desmilitarização da polícia e o nome das ruas
Hertz Dias (PSTU), Samara (UP), Edmilson Costa (PCB) e Augusto Cury (AVANTE). Fotos oficiais de candidatura, TSE.
Na primeira parte desta série, contamos quantas vezes cada plano de governo registrado para a eleição de 2026 escreve as palavras racismo, negro e quilombola. Cinco dos doze candidatos que disputam o pleito não escrevem nenhuma delas.
Contagem, porém, não diz o que um plano propõe. Voltamos aos documentos e lemos as seções inteiras dos oito candidatos que ficaram de fora daquela comparação, para responder a uma pergunta diferente: o que cada um diz que vai fazer?
Pablo Marçal (PRTB) registrou proposta, mas segue fora da conta: está inelegível até 2032 por decisão da Justiça Eleitoral.
Hertz Dias (PSTU): treze medidas, com a expropriação no centro
O plano do PSTU, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, é o único dos doze com uma seção batizada de Programa para a Questão Negra. É também a lista mais itemizada da disputa. Nela cabem: titulação imediata dos territórios quilombolas, manutenção e ampliação de cotas nas universidades e no serviço público, desmilitarização da Polícia Militar e unificação das polícias, revogação da Lei Antidrogas, fim da privatização dos presídios e desencarceramento em massa.
Há medidas que quase ninguém mais escreve. O plano propõe multas de caráter confiscatório, ou mesmo expropriação, para empregadores que estimulam ou toleram racismo no local de trabalho. Defende o combate à intolerância contra religiões de matriz africana e afirma que "funk e batalhas de rima não são casos de polícia". Cobra a implementação efetiva da lei que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena.
O eixo, no entanto, é um só. Expropriação sem indenização das fazendas do agronegócio que atuam sobre territórios indígenas e quilombolas; que o Banco do Brasil destine verbas à agricultura familiar e quilombola "e não para o agronegócio escravista"; e expropriação de todos os bilionários herdeiros de famílias escravocratas.
O texto também faz uma crítica frontal à esquerda institucional. Diz que ela "reduz reparação a ações afirmativas ou assistencialismo, sem tocar na grande propriedade privada", e trata a Proposta de Emenda à Constituição 27/2024, apoiada por PT, PSOL e PCdoB e conhecida como PEC da Reparação, como desvio de foco. No mesmo trecho, aponta o Banco do Brasil como o maior financiador do tráfico de africanos escravizados na história do capitalismo.
Samara (UP): reparação que mexe no nome das ruas
O plano da UP, a Unidade Popular pelo Socialismo, traz o diagnóstico mais detalhado dos doze. Afirma que a população negra é 73% dos desempregados, 43% de quem não tem acesso a esgotamento sanitário e quase 90% dos mortos pela violência policial, e que 69,6% das pessoas encarceradas no país são negras, citando o Atlas da Violência 2025 e o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026.
As propostas que se seguem têm um traço distinto: são culturais e simbólicas, além de materiais. A primeira delas é reparação histórica e cultural, com a troca de nomes de ruas e monumentos que cultuam escravistas, ditadores e genocidas por nomes de "heróis explorados e oprimidos".
Vem depois a cobrança para que as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que asseguram o ensino de história e cultura africana, afro-brasileira e indígena, saiam do papel com concurso e financiamento para a disciplina na grade curricular.
E há uma proposta que quase nenhum outro plano faz de forma explícita: assegurar a liberdade religiosa com prioridade para o enfrentamento dos crimes de intolerância contra candomblé e umbanda. Fecham a lista o fim da violência de Estado que atinge desproporcionalmente a população negra, a ampliação de vagas reservadas no setor público e a titulação de terras quilombolas, com o pleno funcionamento da Fundação Cultural Palmares e do Incra, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.
Edmilson Costa (PCB): acabar com o vestibular
Em 7.678 palavras, o menor plano entre os que propõem alguma coisa, o PCB concentra sua proposta racial na educação. Defende o fim do vestibular nas universidades federais e a ampliação das cotas: 54% para a população negra, "refletindo o censo do IBGE", mais 70% a 80% para estudantes de escola pública, além da universalização das cotas para a população trans.
Fora da educação, o plano fala em agir "com rigor no combate ao genocídio da população negra, pondo fim à política de guerra às drogas", com desmilitarização da segurança pública e unificação das polícias. Propõe ainda titulação imediata dos territórios quilombolas e uma reforma agrária popular que respeite povos originários e quilombolas.
Uma característica organiza o documento: as medidas raciais não têm capítulo próprio. Aparecem dentro dos programas de educação, de segurança e de reforma agrária, porque o plano trata o racismo como parte da estrutura de classe.
Augusto Cury (AVANTE): 34 desigualdades, nenhuma racial
O plano do AVANTE tem 41.979 palavras, quase o tamanho do maior da disputa. Escreve "desigualdade" 34 vezes e "vulnerabilidade" 26. Não escreve racismo, racial, negro, preto, pardo ou quilombola nenhuma vez.
O ponto não é a ausência da palavra, e sim o registro em que a desigualdade é tratada. É emocional, não estrutural nem programático: "A desigualdade não é apenas um fenômeno econômico. Ela é também emocional e psicológica"; "A pobreza extrema destrói autoestima. A exclusão social mutila sonhos". O texto chega a afirmar que "ignorar desigualdades estruturais produz arrogância social", e ainda assim não chega a nenhuma política pública para elas.
A palavra "escravo" aparece quatro vezes no documento, e nas quatro é metáfora: "escravos de slogans", "escravo dos próprios pensamentos", "emocionalmente escravizados" pela tecnologia. Os projetos que o plano lista pelo nome são os do próprio autor: um programa itinerante de saúde na estrada e academias de gestão da emoção.
Zema e Wilson Grassi: pobreza e território, sem raça
Dois planos tratam de temas vizinhos por outro caminho.
O de Romeu Zema (NOVO) enquadra pobreza como dependência. Cita cerca de 60 milhões de pessoas em situação de pobreza e mais de 9 milhões em extrema pobreza, e observa que 40% das famílias permanecem no Bolsa Família por mais de sete anos. A única menção a favela no documento serve para afirmar que empreender "é o maior sonho dos moradores de favelas para 2026". Sobre povos indígenas, propõe garantir "o pleno direito de exploração econômica de suas terras".
O de Wilson Grassi (DEMOCRATA) é tecnicamente detalhado em território. Critica a lógica de construir "novo conjunto na periferia da periferia, que sai barato na planilha e caro na vida das pessoas", defende requalificar área urbana com infraestrutura já instalada e cobra a Lei nº 11.888/2008, de assistência técnica pública gratuita para reforma e ampliação de moradia, que classifica como "nunca executada em escala".
Nos dois planos, pobreza e território existem com nome e proposta. Raça não aparece em nenhum dos dois.
Nenhum dos doze fixa meta de resultado
Procuramos, nos doze planos, qualquer número situado perto de um termo racial. Aparecem três tipos, e nenhum deles é promessa de chegada.
Os números da UP são de diagnóstico: descrevem o tamanho do problema. O 45,5% citado pelo PT, a proporção de estudantes de graduação que se declaram pretos, pardos ou indígenas, é resultado já alcançado pela política de cotas. O 54% do PCB é o único número prospectivo, e mede reserva de vaga, não resultado.
Nem o plano com o capítulo mais estruturado da disputa escapa disso. O de Ronaldo Caiado (PSD) promete publicar resultados por raça, território e gênero e gerar planos de correção onde a diferença persistir, mas não diz de quanto deve ser a redução nem em que prazo.
O que eles se propõem a resolver
Entre os cinco planos que trazem proposta concreta sobre raça (PT, PSD, PSTU, UP e PCB), quase tudo se concentra nas mesmas quatro frentes, à esquerda e à direita do espectro: educação, violência policial e prisão, território quilombola e liberdade religiosa.
A exceção é saúde. Mortalidade materna de mulheres negras e doença falciforme aparecem nos planos de Lula e de Caiado, e em nenhum dos outros dez. Nos programas de PSTU, UP e PCB, saúde comparece apenas em listas gerais de serviços básicos, sem recorte racial.
Fonte: planos de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral para a eleição de 2026. Levantamento de referência para a metodologia de contagem: Agência Mural de Jornalismo das Periferias, 20 de agosto de 2026.
Entender o que o poder promete e o que ele entrega é trabalho de leitura longa. Nosso catálogo é feito disso.
Contamos a palavra racismo nos planos de governo. Cinco dos doze candidatos à Presidência não escrevem nenhuma vez.
Lula (PT), Ronaldo Caiado (PSD), Flávio Bolsonaro (PL) e Renan Santos (MISSÃO). Fotos oficiais de candidatura, TSE.
Todo candidato à Presidência é obrigado a registrar um plano de governo na Justiça Eleitoral. São documentos públicos, que qualquer pessoa baixa. Ninguém é obrigado a seguir formato nenhum: os planos não precisam nem informar de onde virá o dinheiro das promessas.
Baixamos os treze planos registrados para 2026 e fomos contar neles cinco palavras: racismo, racial, negro, negra e quilombola.
Cinco dos doze candidatos que disputam a eleição não escrevem nenhuma dessas palavras uma única vez.
Pablo Marçal (PRTB) registrou proposta, mas ficou fora da conta: está inelegível até 2032 por decisão da Justiça Eleitoral.
O que a contagem diz e o que ela não diz
Antes dos números, a ressalva. Contar palavra não mede qualidade de política pública. Um plano pode citar muito e entregar pouco, e a ausência de um termo não significa ausência de proposta que afete aquele grupo. A própria Agência Mural, que faz esse levantamento desde 2018 com a palavra "periferia", faz questão de dizer isso.
O que a contagem mostra é outra coisa, e ela é escolha: quem decide nomear o problema e quem decide não nomear.
Os quatro planos, lado a lado
Entre os quatro candidatos mais comentados da disputa, a soma das cinco palavras ficou assim:
Os quatro documentos têm tamanho parecido, entre 21 mil e 42 mil palavras, então a diferença não vem de um ser mais longo que o outro.
Caiado é quem mais escreve
É o resultado que menos se espera olhando o espectro político. O plano do PSD dedica um capítulo inteiro ao assunto, o "Tema 22 · Racismo", e afirma que o governo "reconhecerá a maioria negra da população brasileira".
O diagnóstico nomeia causas: "legado histórico, desigualdade territorial, discriminação, escola de qualidade desigual, violência, baixa acumulação patrimonial e redes de oportunidade limitadas". Reconhece que "a juventude negra, especialmente masculina, sofre maior risco de morte violenta e recrutamento por facções" e que "mulheres negras enfrentam sobreposição de desigualdades de renda, cuidado, saúde materna e violência".
As propostas incluem publicar resultados de programas por raça, território e gênero, com planos de correção onde a diferença persistir; proteção da juventude negra contra a violência; saúde da população negra, com atenção a doença falciforme e mortalidade materna; e apuração de crimes raciais e de intolerância religiosa. O plano também fala em enfrentar o "racismo algorítmico".
Há um ponto que o plano deixa explícito quanto ao mecanismo: "programas universais terão metas de equidade; ações focalizadas serão usadas quando a desigualdade estiver comprovada, com transparência, avaliação e respeito à igualdade perante a lei". E diz que instituições públicas devem ter "seleção baseada em mérito com igualdade de oportunidades".
Em 42 mil palavras, o plano de Caiado não usa a palavra cota nem a expressão ação afirmativa uma única vez. Não se declara contra elas: simplesmente não trata do assunto.
Lula lista instrumentos com nome
O plano do PT parte de uma tese: não é possível superar as desigualdades brasileiras "sem enfrentar a questão racial como dimensão estruturante da sociedade".
É o único dos quatro que amarra raça a orçamento. Igualdade racial aparece como marcador do plano plurianual, ao lado de mulheres, meio ambiente e povos indígenas. Ou seja, é uma rubrica que se acompanha, não só um princípio.
E lista instrumentos existentes que promete continuar: a regulamentação do Estatuto da Igualdade Racial, as cotas no serviço público, as cotas no ensino superior com reserva para quilombolas, a política nacional de educação para as relações étnico-raciais, o campus quilombo dos Institutos Federais, a titulação de territórios quilombolas e o Periferia Viva.
Os problemas que o texto nomeia são específicos: mortalidade materna de mulheres negras, "que seguem as mais afetadas por óbitos evitáveis"; prevenção da violência com foco na juventude negra; disparidade salarial; e acesso ao território quilombola.
Sobre cotas, os dois planos escolhem lados opostos da mesma palavra: o de Lula a cita como política a manter e ampliar; o de Caiado não a escreve.
Flávio Bolsonaro não escreve a palavra
Em 23.665 palavras, o plano do PL tem zero ocorrências de racismo, racial, negro, periferia e favela.
O território existe no texto, com outro vocabulário. Aparece como "áreas degradadas" e como "comunidades". O plano promete "retomar as áreas hoje sob domínio de facções, devolvendo aos moradores a liberdade de ir e vir na própria comunidade", além de urbanização de encostas e regularização fundiária.
As três únicas marcas raciais do documento são menções a quilombolas, e todas servem ao mesmo fim: dar a eles, junto com os povos indígenas, "autonomia para decidir sobre atividades produtivas em suas terras". É enquadramento produtivo, não de reparação.
Renan Santos estuda a favela, e só ela
O plano do MISSÃO é o que mais se debruça sobre o território popular entre os quatro. São 13 menções a favela, com dado do Censo 2022: 12.348 favelas e comunidades urbanas em 656 municípios, abrigando 16,4 milhões de pessoas. Cita que Belém tem 57,2% dos moradores em favelas e que a Rocinha tem incidência de tuberculose cerca de dez vezes a média nacional.
É um capítulo com apuração. E não escreve a palavra negro, negra, racismo ou racial nenhuma vez.
O enquadramento aparece neste trecho: "Pior ainda, a favela contaminou nossa cultura. Ao longo do século XX, ela se converteu no estereótipo internacional do Brasil, a imagem que o mundo tem de nós. Nas últimas décadas, a mídia passou a vendê-la como algo exótico, glamouroso até, romantizando o crime, a promiscuidade e a degradação material e moral. A maioria dos moradores, brasileiros honestos, vive sob o jugo dessa cultura opressora e anseia por libertação."
O plano propõe "desfavelização" e redirecionar recursos do Minha Casa Minha Vida da "construção periférica" para a aquisição de imóveis em áreas já estruturadas. Diz que "acabar com a favela é precondição para que o Brasil deixe de ser um país dividido entre lei e ausência de lei, entre cidade e periferia".
O eixo não é esquerda contra direita
Caiado e Flávio Bolsonaro estão do mesmo lado do espectro político e nos extremos opostos da contagem: 30 e 3.
O que separa os quatro é onde cada um decide que o problema mora. Lula e Caiado o colocam na estrutura: desigualdade racial que se mede e se corrige, por caminhos diferentes. Um pela política de cotas e pelo orçamento carimbado, outro por metas de equidade em programas universais. Flávio Bolsonaro e Renan Santos o colocam no território. Um o chama de área degradada; o outro, de contaminação.
Nos dois casos o problema é o lugar. A cor de quem mora nele não entra na conta.
Como a contagem foi feita
Os treze planos foram baixados do repositório de propostas de governo do TSE. O texto de cada PDF foi extraído e as ocorrências das cinco palavras foram contadas com busca que ignora acento e maiúscula, incluindo variações de gênero e número.
Dois cuidados fizeram diferença. O PDF de uma das candidaturas entregava todo o texto duplicado, um artefato de camada sobreposta que dobrava qualquer contagem. Foi preciso remover os trechos repetidos antes de contar. E o resultado foi validado contra o levantamento que a Agência Mural publicou em 20 de agosto usando a palavra "periferia": os números de Lula, Flávio Bolsonaro e Hertz Dias bateram exatamente com os nossos.
Fontes: planos de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral e Censo 2022 do IBGE. Levantamento de referência: Agência Mural de Jornalismo das Periferias, 20 de agosto de 2026.
25 de agosto de 2026PolíticaReligião
Explicando o voto evangélico: por que 61% deles são negros, e por que ninguém diz isso na televisão.
Culto em igreja evangélica no Brasil. Foto de Alan Alves do Nascimento, via Wikimedia Commons.
Toda eleição alguém aparece para explicar o voto evangélico. Fala-se em bloco, em pauta de costumes, em pastor no púlpito, em WhatsApp. Repare no que quase nunca entra na frase: a cor de quem está sendo descrito.
Segundo o Censo 2022 do IBGE, 49,1% dos evangélicos do Brasil são pardos e 12,0% são pretos. Somados, 61,1%. Brancos são 38,0%.
Por que 61%
A resposta não é mística nem sociológica complicada. É aritmética, e está no próprio Censo.
Primeiro fato: o Brasil é maioria negra. Em 2022, pardos são 45,3% da população e pretos, 10,2%. Somados, 55,5%. Brancos são 43,5%.
Segundo fato: a adesão evangélica é mais frequente entre negros. De cada grupo de cor, a proporção que se declara evangélica é de 30% entre pretos, 29,3% entre pardos e 23,5% entre brancos.
Junte os dois. Um grupo que já é maioria no país, com taxa de adesão acima da média, forma um bloco majoritariamente negro. Não é surpresa estatística: é o resultado esperado.
O que surpreende é outra coisa. Esse resultado é público, está no Censo, e mesmo assim não aparece quando o país discute o voto desse grupo.
E o grupo não é pequeno
Os evangélicos são 26,9% da população brasileira, mais de um quarto do país, contra 21,6% em 2010. No mesmo período, os católicos caíram de 65% para 56,7%.
Falar de religião é falar de política
Alguém sempre reclama que discutir religião e política é invadir a fé alheia. Não é. O Brasil é um Estado laico por lei: o artigo 19 da Constituição proíbe a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios de estabelecer cultos religiosos, subvencioná-los ou manter com eles relação de dependência ou aliança.
Só que a Frente Parlamentar Evangélica reunia, em janeiro de 2024, 202 deputados federais e 26 senadores, 228 parlamentares ao todo.
O número pede uma ressalva, e ela é importante: nem todo integrante da frente é evangélico. Frente parlamentar precisa de assinaturas para existir, e a lista inclui católicos e parlamentares que se elegeram com apoio de igrejas. Ainda assim, o tamanho diz alguma coisa sobre quem legisla, e é por isso que o assunto é público.
O que a pesquisa mede, e o que ela não mede
O Datafolha de agosto de 2026 ouviu 2.058 eleitores, com margem de erro de dois pontos percentuais, num cenário de segundo turno.
Por religião, o resultado foi este: entre evangélicos, Flávio Bolsonaro tem 62% e Lula, 29%. Entre católicos, o cenário se inverte, com Lula em 54% e Flávio em 36%.
Por cor, na mesma pesquisa: entre pretos, Lula tem 55% e Flávio, 37%. Entre pardos, Lula 48% e Flávio 42%. Entre brancos, Flávio 47% e Lula 41%.
Os dois recortes saem do mesmo levantamento, são divulgados lado a lado, e nunca se encontram. O eleitor preto e evangélico entra nas duas contas puxando para lados opostos, e não aparece sozinho em nenhuma delas.
Esse cruzamento não é publicado. Este texto não inventa o número que falta, e ninguém deveria inventar: não existe dado que diga como vota o evangélico negro brasileiro. O que existe é a ausência, e ela também informa.
Autonomia de consciência
Para Amos Wilson, a consciência de um povo é um território em disputa. Quem descreve o grupo decide o que ele consegue enxergar sobre si mesmo, e a descrição que circula não é neutra: ela ensina o grupo a se ver de um jeito e não de outro.
Um bloco que é 61% preto e pardo, descrito todos os dias sem cor nenhuma, não é convidado a fazer a leitura racial da própria força. Ele aprende a se pensar como bloco religioso, e só. A conta que ninguém publica é também a conta que ninguém sugere que ele faça.
Isso não é sobre dizer em quem essa gente deveria votar. É sobre quem tem o direito de saber quem ela é antes de decidir. Estatística pública é matéria-prima de autonomia, e ela existe, e está sendo usada pela metade.
Fontes: IBGE, Censo Demográfico 2022, para religião por cor ou raça, composição da população por cor ou raça e proporção de evangélicos em cada grupo; Datafolha de agosto de 2026, recortes por religião e por cor de um mesmo levantamento com 2.058 entrevistados e margem de erro de dois pontos; Constituição Federal de 1988, artigo 19, inciso I; Poder360, 28 de janeiro de 2024, para a composição da Frente Parlamentar Evangélica, com a ressalva, feita pela própria reportagem, de que há integrantes que não são evangélicos. Fotos de Alan Alves do Nascimento e DSantosJr, via Wikimedia Commons.
A disputa pela descrição de um povo é o assunto de A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos N. Wilson.
Mais de quatro mil pessoas numa convenção de anime em Nairóbi. A história dela começou com trinta.
Cosplayer na Otamatsuri, em Nairóbi. Foto de @radarafrica.
No sábado, 22 de agosto, o Carnivore Grounds, em Nairóbi, recebeu mais de quatro mil pessoas para a Otamatsuri, a convenção anual de anime e mangá do Quênia. Foram nove horas, das dez da manhã às sete da noite, entre música, cosplay, videogame e cultura pop japonesa e coreana. É uma das maiores do gênero em todo o continente africano, e quem organiza é a produtora Movie Jabber.
A pergunta que quase todo brasileiro faria diante dessa cena é o que o Quênia tem a ver com anime. A resposta tem catorze anos de história.
Trinta pessoas a cada dois meses
Em 2012, Brian Khisa e Harto Muhato criaram o Anime Café, um encontro no estúdio Tsunami para quem gostava de anime em Nairóbi. Nas palavras de um dos fundadores, eram vinte ou trinta pessoas aparecendo a cada dois meses. A motivação que eles descrevem é simples e reconhecível: os fãs estavam isolados em pequenos círculos, e faltava um lugar onde pudessem celebrar juntos.
Em 2017 entrou Jotham Micah, cofundador da Movie Jabber, e os três resolveram tentar algo bem maior. A primeira Otamatsuri aconteceu em 2019, no Alchemist Bar, e levou cerca de trezentas pessoas.
Sete anos depois da estreia, são mais de quatro mil num sábado.
A fantasia sai da própria casa
O concurso de fantasias é o centro do evento, e as peças não vêm de loja. Saem de papelão ondulado recortado, canos de PVC, material reciclado e uma técnica de moldagem com areia quente. Armas, máscaras, armaduras e acessórios, tudo montado à mão.
A vencedora desta edição foi Yvonne Chockey, de 24 anos. Julius Mokaya, 34 anos, zelador de prédio, já tinha vencido duas vezes. A explicação dele para a escolha do material desarma qualquer leitura de improviso:
A mensagem da história é que o lixo e as coisas jogadas fora não são realmente ruins.
Julius Mokaya, à Africanews
Não é gente sem dinheiro se virando com o que sobrou. É autoria com o material que os outros descartam, e quem faz diz isso com todas as letras.
E não é só consumo
No Artist Alley da convenção, ilustradores, artistas de mangá e designers quenianos venderam obras originais que misturam narrativa africana com estética japonesa. Muitos relataram ter esgotado pôsteres, bottons e produtos feitos à mão.
Fora da convenção, a cena também produz. O estúdio Fatboy Animations, de Nairóbi, assina o vídeo animado de Mwaki, faixa de Zerb com Sofiya Nzau que rodou o mundo cantada em kikuyu. O anúncio do vídeo saiu no perfil do próprio Zerb, creditando o estúdio queniano.
Por que isso importa aqui
A África chega ao noticiário brasileiro quase sempre pela tragédia. Fome, guerra, golpe, naufrágio. Quando a notícia é boa, ela raramente atravessa a barreira da tradução.
Quatro mil pessoas num sábado em Nairóbi, uma convenção que começou com trinta e uma cena que já desenha o próprio traço não são exceção nem curiosidade exótica. São o que acontece quando um lugar é tratado como lugar onde gente vive, e não como pauta de desgraça.
Você sabia? Agora sabe.
Fontes: Africanews, 24 de agosto de 2026, sobre a edição deste ano e a fala de Julius Mokaya; The Standard, do Quênia, sobre a origem da Otamatsuri, o Anime Café e a primeira edição de 2019; Nairobi Events Guide, para data, local e horário da edição de 2026. O crédito do vídeo de Mwaki ao estúdio Fatboy Animations foi divulgado pelo perfil do próprio Zerb. Fotos: @radarafrica.
O Poder Afrikano publica todo dia o que a imprensa brasileira não traduz sobre o continente. Conheça também o catálogo da editora.
Vinte e quatro intelectuais assinaram uma carta sobre os presos políticos do Irã. Um deles assinou de dentro da cadeia.
A prisão de Evin, em Teerã. Foto de Ehsan Iran, via Wikimedia Commons.
No dia 20 de agosto, o jornal britânico The Guardian publicou uma carta aberta endereçada aos presos políticos do Irã. Ativistas, estudantes, trabalhadores, artistas. Vinte e quatro pessoas assinaram. Uma delas, Mumia Abu-Jamal, está presa na Pensilvânia desde 1981 e assinou de dentro da cadeia.
A carta pede duas coisas ao mesmo tempo. Que o governo iraniano pare de executar e solte os presos políticos. E que os Estados Unidos e Israel parem a guerra e as sanções.
Dois dias depois, quem caiu em cima dos signatários não foi a direita. Foi a própria esquerda.
O que a carta diz
A imagem central do texto é de uma tesoura: o preso iraniano está entre duas lâminas, o regime de um lado e as bombas do outro. Foi essa figura que provocou a reação. Em 22 de agosto, o historiador Vijay Prashad respondeu acusando a carta de criar uma simetria falsa entre o Estado iraniano e o poder americano. No mesmo dia, o escritor Sudip Bhattacharya publicou uma crítica na mesma direção. No dia 23, a imprensa estatal iraniana entrou na discussão.
Os números do lado iraniano são graves e não têm desculpa. Só neste ano, a organização Iran Human Rights, com sede em Oslo, verificou pelo menos 444 execuções no Irã em sete meses. O Centro Abdorrahman Boroumand, de Washington, conta 916. Entre dezembro de 2025 e fevereiro deste ano, o próprio governo iraniano admite ter matado 3.117 pessoas na repressão aos protestos, e a agência de notícias dos ativistas de direitos humanos no Irã, a HRANA, verificou caso a caso 7.007.
A metáfora não é dos professores
A acusação de que acadêmicos americanos inventaram uma equivalência confortável esbarra numa data. Em julho de 2025, treze meses antes da carta, dois presos políticos iranianos escreveram um relato de dentro da prisão de Evin. Abolfazl Qadyani e Mehdi Mahmoudian descreveram estar entre dois perigos, passados de um para o outro: as feras estrangeiras e os torturadores domésticos. O relato foi publicado pelo Center for Human Rights in Iran.
Eles escreveram isso porque em 23 de junho de 2025 Israel bombardeou Evin. No horário de visita. O judiciário iraniano contou 71 mortos, o governo falou em 79. Entre eles havia funcionários administrativos, jovens em serviço militar, detentos, familiares que estavam ali visitando e vizinhos da prisão. A Human Rights Watch e a Anistia Internacional classificaram o ataque como aparente crime de guerra. Os presos que sobreviveram foram transferidos à força e maltratados, e alguns desapareceram, dessa vez pelas mãos das autoridades iranianas.
Quem assinou
A lista não é aleatória. Angela Davis, que já foi presa política e saiu da cadeia para construir o movimento pela abolição das prisões. Ruth Wilson Gilmore, que deu a essa tradição a definição de racismo que ela usa até hoje. Robin D. G. Kelley. Keeanga-Yamahtta Taylor. Ruha Benjamin. Judith Butler. Rashid Khalidi.
Racismo é a produção e a exploração, pelo Estado ou fora dele, de uma vulnerabilidade à morte precoce distribuída por grupo.
Ruth Wilson Gilmore, Golden Gulag, 2007
Repare que não há país nessa frase. É um critério, e critério serve para medir qualquer lugar. Quando essa gente cobrou o Irã, não estava sendo incoerente. Estava aplicando a própria régua.
A frase que abre a porta
O problema não é a frase. É quem a diz. Quando Angela Davis pede a soltura dos presos de Teerã, não há exército atrás do pedido. Quando Washington diz exatamente a mesma coisa, há.
Em 13 de janeiro deste ano, Donald Trump disse aos manifestantes iranianos para continuarem protestando, que a ajuda estava a caminho. Em fevereiro, ao anunciar os bombardeios, declarou que a hora da liberdade deles havia chegado. No primeiro dia da guerra, 28 de fevereiro, um míssil Tomahawk americano atingiu a Escola Primária Shajareh Tayyebeh, na cidade de Minab, província de Hormozgan. Morreram pelo menos 110 crianças, 26 professores e 4 pais. A Anistia Internacional apurou a arma pelos destroços, o Pentágono confirmou o disparo e uma investigação do New York Times concluiu que a responsabilidade era americana. Trump disse que tinha sido o Irã ou outra pessoa.
A escola atendia famílias pobres da região, incluindo a minoria balúchi. A mesma minoria que a carta cita como perseguida pelo governo iraniano.
Em 17 de junho, Estados Unidos e Irã assinaram um memorando de entendimento de catorze pontos. Não havia uma linha sobre presos políticos, sobre dissidentes perseguidos ou sobre direitos humanos. Quem documentou a ausência foi Holly Dagres, do Washington Institute, instituto alinhado a Israel. Quatro meses entre a promessa de liberdade e o acordo que não a menciona.
O que sobra
Denunciar a cadeia de Teerã é obrigação, e foi isso que aqueles vinte e quatro fizeram, cobrando as duas pontas na mesma frase. O que não dá é aceitar que essa denúncia vire licença para bombardear. No instante em que a frase "o Irã mata dissidente" se transforma em moeda, ela compra míssil. Foi com esse argumento que se pagou por 110 crianças em Minab.
Amos Wilson escreveu sobre como o controle da narrativa é anterior ao controle do território. Quem define o que conta como liberdade, define o que conta como libertação. E quem controla essa definição raramente é quem está preso.
Para entender como a disputa pela narrativa antecede a disputa pelo poder, comece por A Falsificação da Consciência Afrikana.
Seis artistas negros foram premiados em Gramado. A última vez tinha sido há 22 anos.
Grace Passô dirigiu Nosso Segredo, Kikito de Melhor Filme. Foto: Mariaduna, via Wikimedia Commons
Na noite de sábado, 22 de agosto, o 54º Festival de Cinema de Gramado terminou com seis artistas negros reconhecidos em categorias de atuação. Só tinha acontecido uma vez antes, em 2004.
Quem ganhou
Por Feito Pipa, dirigido por Allan Deberton: Teca Pereira levou o Kikito de Melhor Atriz, Lázaro Ramos o de Melhor Ator Coadjuvante, e Yuri Gomes recebeu menção honrosa.
Por Justino: Nos Bastidores do Reino, de José Eduardo Belmonte: Christian Malheiros levou o Kikito de Melhor Ator, e Onna Silva recebeu menção honrosa.
Por Pele de Rinoceronte: Naruna Costa levou o Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante.
Fora das categorias de atuação, o Kikito de Melhor Filme ficou com Nosso Segredo, dirigido por Grace Passô, que também levou Melhor Fotografia, com Wilssa Esser, e Melhor Direção de Arte, com Lucas Osório.
A única outra vez
Foi na 32ª edição, em 2004. Naquele ano, seis artistas negros também foram premiados em categorias de atuação, e todos pelo mesmo longa: Filhas do Vento, de Joel Zito Araújo.
Milton Gonçalves venceu como Melhor Ator. Léa Garcia e Ruth de Souza dividiram o prêmio de Melhor Atriz. Rocco Pitanga foi Melhor Ator Coadjuvante. Taís Araújo e Thalma de Freitas dividiram o de Melhor Atriz Coadjuvante.
Vinte e dois anos. Vinte e uma edições.
Entre a noite de 2004 e a noite de sábado, o Festival de Gramado realizou 21 edições sem que a marca se repetisse.
Vale dizer o que isso não significa. Não quer dizer que artistas negros passaram 22 anos sem receber prêmio nenhum em Gramado. Quer dizer que seis de uma vez, em categorias de atuação, na mesma edição, não voltou a acontecer em nenhum desses 21 anos.
O talento não apareceu no sábado. Ele já estava disponível em 2004, e esteve disponível em cada um dos anos do intervalo.
Quem ganhou está na tela. Quem assina a produção, não.
Os seis foram premiados pelo que fizeram diante da câmera. Grace Passô foi premiada pela direção. Uma camada acima, a das empresas que levantam o dinheiro e assinam a obra, o quadro é outro.
Feito Pipa é uma produção da Deberton Filmes e da Biônica Filmes, em coprodução com a Warner Bros., distribuída no Brasil pela Paris Filmes.
Justino: Nos Bastidores do Reino é da Mercado Filmes, em coprodução com a Geração Entretenimento, distribuído pela Imovision.
Pele de Rinoceronte é da República Pureza Filmes, produtora do próprio diretor, Marcello Ludwig Maia, em coprodução com Telecine e Canal Brasil.
Nosso Segredo é produzido por Ricardo Alves Jr., em coprodução com Rachel Daisy Ellis, Julia Alves e a Globo Filmes.
São quatro filmes com protagonismo negro na tela, e nenhum deles depende de uma produtora surgida desse mesmo protagonismo para existir.
O que os números do setor mostram
A Agência Nacional do Cinema mediu exatamente essa distância. No estudo Diversidade de Gênero e Raça nos lançamentos brasileiros de 2016, que analisou 142 longas lançados comercialmente e 1.326 profissionais, pretos e pardos eram 13,3% do elenco e homens negros assinavam 2,1% das produções executivas.
Nenhuma mulher negra assinou direção, roteiro ou produção executiva de nenhum filme nacional naquele ano.
São dados de 2016, e é justo dizer que a década seguinte trouxe mudança na frente da câmera, como a própria noite de sábado mostra. O que não há é medição pública recente indicando que a distância entre os dois números tenha se fechado atrás dela.
A pergunta que fica
Em A Falsificação da Consciência Afrikana, Amos Wilson trata a representação como disputa de poder: quem decide qual imagem circula decide também a leitura que o grupo faz de si mesmo. Prêmio de atuação reconhece o trabalho de quem aparece. Não transfere a decisão sobre o que será filmado no ano seguinte.
A pergunta não é quando virá o próximo prêmio, nem se seis é muito. É quando artistas negros vão liderar as produções, e não apenas estrelá-las.
Fontes: Notícia Preta, 23 de agosto de 2026, reportagem de Layla Silva; Omelete, lista de vencedores do Festival de Gramado 2026; Jornal do Comércio, 23 de agosto de 2026. Fichas técnicas das quatro produções conferidas individualmente. Dados de produção executiva: Ancine, estudo Diversidade de Gênero e Raça nos lançamentos brasileiros de 2016, divulgado pela Agência Brasil em 25 de janeiro de 2018. Foto: Grace Passô, por Mariaduna, via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
Um partido embranqueceu. O outro escureceu no papel. Nos dois, o cargo com poder ficou branco.
Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Foto: Senado Federal, via Wikimedia Commons
Contar quantos candidatos negros um partido lançou diz pouco. O que diz muito é para qual cargo ele os lançou. Dois partidos ilustram isso indo em direções opostas e chegando no mesmo lugar.
O PL encolheu, e encolheu mais em cima
Em 2022 o PL tinha 42,8% de candidatos negros. Em 2026 tem 37,1%, e 61,8% dos candidatos do partido são brancos. É um dos maiores partidos do país, com 1.635 candidaturas.
A queda de 5,7 pontos na média geral esconde o que aconteceu nos cargos de poder:
Governador: de 40% para 15,4%. Senador: de 47,1% para 27,3%. Primeiro suplente de senador: de 42,1% para 21,4%.
Nos cargos de base a retração foi bem menor: deputado federal caiu de 38,4% para 32,1%, e deputado estadual de 45,7% para 41,2%.
Há uma inversão nesses números que vale isolar. Em 2022, o bloco do Senado do PL era mais negro do que o partido inteiro: 47,1% contra uma média de 42,8%. Em 2026 isso virou ao contrário: 27,3% no Senado contra 37,1% de média. O topo da hierarquia trocou de direção.
O NOVO cresceu, e cresceu embaixo
O caminho do NOVO parece o oposto. Em 2022 o partido tinha 19,2% de candidatos negros. Em 2026 tem 42,6%. Mais que dobrou em quatro anos, com o partido saltando de 479 para 1.297 candidaturas.
Dentro da chapa do Senado do NOVO em 2026, porém, a distribuição é esta:
Senador: 26,7%. Primeiro suplente: 18,8%. Segundo suplente: 64,3%.
O segundo suplente só assume a cadeira se o senador e o primeiro suplente morrerem ou renunciarem. Na prática, é um mandato que não existe. E é o cargo mais negro da chapa.
Uma ressalva necessária: são números pequenos, 15 candidatos a senador, 16 a primeiro suplente e 14 a segundo suplente. Poucas pessoas mexem muito no percentual. Ainda assim, a ordem dos três degraus é difícil de explicar por acaso, e ela se repete no PL, que é um partido grande.
O que os dois têm em comum
Um partido diminuiu o número de candidatos negros. O outro aumentou. Nos dois, a posição com chance real de mandato ficou mais branca do que a média da legenda.
Isso importa porque a candidatura negra move dinheiro público. No mínimo 30% do Fundo Eleitoral tem que ir para candidaturas de pessoas negras, e até 2030 os votos dados a candidatos negros contam em dobro no cálculo da fatia do fundo que cabe a cada partido. Um partido pode cumprir o percentual, receber o recurso e ainda assim reservar as vagas que elegem para outro perfil.
Diversidade no número total não é diversidade no poder. Não basta contar os candidatos. É preciso contar os que têm chance real de mandato.
Em A Falsificação da Consciência Afrikana, Amos Wilson trata de como o poder decide quais rostos circulam e em que posições, e de como a presença pode ser concedida no lugar exato em que ela não decide nada.
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, arquivos abertos de candidaturas de 2022 e 2026, lidos do arquivo consolidado nacional, agrupados por partido e por cargo. Cotas do Fundo Eleitoral e contagem em dobro dos votos: legislação eleitoral vigente. Foto: Esplanada dos Ministérios, por Senado Federal, via Wikimedia Commons, CC BY 2.0.
Negros são metade dos candidatos a deputado estadual. Quando o cargo é o Senado, são pouco mais de um terço.
Congresso Nacional, em Brasília. Foto: Senado Federal, via Wikimedia Commons
Pretos e pardos são 56% da população brasileira. Nas candidaturas a deputado estadual registradas para 2026, o cargo com mais vagas e mais candidatos, são 50,7%. Perto da proporção. Parece resolvido.
Só que candidatura não é poder. E quanto mais poder tem o cargo, menos negros aparecem disputando.
O funil
Percentual de candidatos negros por cargo, em 2026:
São 14 pontos percentuais de queda entre o primeiro degrau e o último. A cada passo para cima na hierarquia, a proporção encolhe.
Vale a ressalva: entre os quatro cargos acima, o Senado é o que tem menor participação negra. A disputa presidencial tem percentual ainda mais baixo, 23,1%, mas com apenas 13 candidaturas no país inteiro, um universo pequeno demais para comparar.
Onde as mulheres negras somem
Nos cargos legislativos, a participação de mulheres negras ficou estável entre 2022 e 2026, em torno de 18%, tanto para deputada federal quanto para deputada estadual.
No executivo, encolheu. Candidatas negras a governadora eram 21 em todo o Brasil em 2022. Em 2026 são 13. O percentual caiu de 9,2% para 6,5%.
Não é o eleitorado que produz esse recuo. Ninguém votou ainda. É a formação da chapa.
O Senado melhorou e ainda é o pior
Entre os candidatos ao Senado, a participação negra subiu de 32,5% em 2022 para 36,9% em 2026, alta de 4,4 pontos. É o maior avanço entre os cargos de disputa nacional.
E mesmo assim o Senado continua sendo, dos quatro cargos principais, aquele com menor participação negra. Melhorar não basta quando o ponto de partida é o fundo do funil.
A decisão que o eleitor não participa
Nada disso foi decidido na urna. Todos esses números vêm do registro de candidatura, apresentado antes de qualquer voto ser dado.
Quem escolhe o nome que vai encabeçar a chapa ao governo do estado é o partido. Quem escolhe quem disputa o Senado é o partido. O eleitor recebe a lista pronta e escolhe dentro dela. Quando a lista já chega filtrada, a eleição não tem como desfazer o filtro.
Em A Falsificação da Consciência Afrikana, Amos Wilson analisa como o poder controla quais rostos chegam às posições de decisão, e como o acesso amplo à base convive tranquilamente com o fechamento do topo. O funil não é acidente de percurso. É a forma como a coisa está montada.
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, arquivos abertos de candidaturas de 2022 e 2026, lidos do arquivo consolidado nacional. Percentual de pretos e pardos na população: Censo 2022, IBGE. Foto: fachada do Congresso Nacional, por Senado Federal, via Wikimedia Commons, CC BY 2.0.
Cinco candidatos disseram que a fortuna declarada ao TSE era erro de digitação. Ninguém confere nenhuma das outras.
Plenário do Senado Federal. Foto: Boaventuravinicius, via Wikimedia Commons
Todo candidato entrega ao Tribunal Superior Eleitoral uma lista dos próprios bens. O valor de cada item é escrito pelo próprio candidato. Ninguém confere.
O resultado apareceu logo depois do fim do prazo de registro, em 15 de agosto. Um candidato a deputado estadual em São Paulo, Fernando Irineu de Souza, o Fê (PDT), declarou R$ 500 milhões correspondentes a 10% de um "community token a ser lançado em breve" de um jornal de super-heróis. O registro foi homologado. Nada na lei impede isso.
Os cinco que alegaram erro
Cinco candidatos disseram publicamente que os valores estavam errados, depois que a imprensa noticiou:
Pablo Marçal (PRTB), candidato à Presidência, declarou R$ 7,4 bilhões e afirmou que foi erro de digitação, pedindo correção. Em 2024 ele havia declarado R$ 169,5 milhões.
Lúcia Viana (PSOL), candidata a vice-governadora do Tocantins, declarou R$ 2,07 bilhões. A assessoria do partido confirmou erro de preenchimento que transformou milhares em milhões, e disse que o valor correto é de cerca de R$ 2 milhões. Na lista dela havia um Toyota Etios 2015 avaliado em R$ 35 milhões e um imóvel rural registrado a R$ 900 milhões, quando o correto seriam R$ 900 mil.
Georgia Micheletti (PSDB), candidata a deputada estadual no Acre, declarou R$ 1,2 bilhão. O partido confirmou erro de digitação.
André Silva (MDB), candidato a deputado estadual em Alagoas, declarou R$ 548 milhões. O diretório do partido pediu correção.
Alvamiro Alves Branco (PDT), candidato a deputado estadual em Minas Gerais, declarou um lote com casa e garagem no valor de R$ 400 milhões. O diretório mineiro confirmou que o valor correto é R$ 400 mil.
E os que não alegaram nada
Tirados esses cinco, os maiores patrimônios da eleição são de gente que não alegou erro nenhum, porque não é erro:
Luiz Osvaldo Pastore (PL), candidato a primeiro suplente de senador pelo Tocantins, com R$ 677,7 milhões. Empresário da metalurgia, é dono do avião que levou o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, ao Peru em 2025. A aeronave nem consta da declaração, porque está em nome de uma empresa da qual ele é sócio.
Antídio Lunelli (MDB), candidato a senador por Santa Catarina, com R$ 613,2 milhões, vindos em boa parte do grupo têxtil que leva o nome da família. Em vídeo de campanha, ele aparece capinando um terreno e promete levar a enxada para Brasília. Em 2022 havia declarado R$ 390 milhões.
Otaviano Pivetta (Republicanos), governador do Mato Grosso e candidato à reeleição, com R$ 575,7 milhões. É o candidato a governador mais rico do país. Em 2022 declarou R$ 378,8 milhões.
Fê (PDT), o do token, com R$ 501,1 milhões.
Leonardo Avalanche (PRTB), candidato a vice-presidente na chapa de Marçal, com R$ 495,2 milhões, quase tudo declarado em criptomoedas.
O que mais aparece nas declarações
Somando o que os candidatos de todo o país declararam ao TSE em 2026: 78 aeronaves, que valem R$ 115 milhões juntas; 147 embarcações, R$ 20,3 milhões; 145 joias, quadros e objetos de arte, R$ 40,5 milhões. Há um relógio, sem marca informada, avaliado em R$ 1,35 milhão.
Por que isso importa
A diferença entre os dois grupos não foi apurada por ninguém do Estado. Foi a imprensa que olhou, e olhou só para os cinco maiores. Os valores que ninguém noticiou seguem no ar exatamente como foram digitados.
O trabalhador da escala 6x1 acorda às cinco da manhã para pegar o trem. Esse trem atrasa. Às vezes pega fogo. O candidato do jatinho nunca esperou na plataforma com a marmita na bolsa, e é o voto desse trabalhador que decide se ele vai para Brasília.
Em A Falsificação da Consciência Afrikana, Amos Wilson mostra a concentração de riqueza e de poder político operando junto, uma sustentando a outra. A declaração de bens é o ponto em que as duas ficam visíveis de graça, para qualquer pessoa, e mesmo assim quase ninguém olha.
A consulta é pública e gratuita, em divulgacandcontas.tse.jus.br. Basta escolher o ano de 2026, buscar pelo nome e clicar em bens declarados.
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral, arquivos abertos de declaração de bens e de candidaturas de 2022 e 2026, somados por candidato a partir do arquivo consolidado nacional. Casos de erro admitido: Metrópoles, 23 de agosto de 2026, e Gazeta do Povo. Ranking conferido contra a lista dos dez candidatos mais ricos do Brasil publicada pela Gazeta do Povo em 19 de agosto de 2026. Foto: plenário do Senado Federal, por Boaventuravinicius, via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
909 candidatos mudaram de raça no cadastro do TSE. Em concurso público, isso passaria por uma banca.
Foto: Senado Federal, via Wikimedia Commons
Todo candidato preenche um campo de cor ou raça ao registrar a candidatura. É autodeclaração: a pessoa diz o que é, e o que ela diz vale.
Cruzando pelo número de CPF as candidaturas de 2022 com as de 2026, nos arquivos abertos do Tribunal Superior Eleitoral, aparecem 909 pessoas que marcaram uma raça em 2022 e outra em 2026. São 909 em um universo de 20.627 candidaturas.
A mesma pessoa, o mesmo CPF, duas respostas para a mesma pergunta feita pelo mesmo órgão, com quatro anos de intervalo.
A troca acontece nos dois sentidos, e não se trata de acusar ninguém individualmente: a lista completa está publicada e pode ser conferida caso a caso. O que importa aqui é o tamanho do número. E o fato de que nenhuma dessas 909 declarações passou por qualquer verificação.
Como funciona no concurso público
A Lei 12.990, de 2014, reserva 20% das vagas dos concursos federais para candidatos negros. Quem quer concorrer por essa reserva se autodeclara preto ou pardo na inscrição.
E aí vem a diferença. Desde a Portaria Normativa nº 4, de 2018, a autodeclaração não basta. O candidato passa por um procedimento de heteroidentificação: uma comissão avalia, pelo critério fenotípico, se a declaração se sustenta.
Quem não é confirmado pela banca é eliminado do concurso, mesmo tendo tirado nota suficiente para passar na ampla concorrência. Se já tiver sido nomeado, a admissão é anulada.
É um mecanismo controverso, criticado pela subjetividade e pela falta de preparo de parte das bancas. Mas ele existe, é obrigatório e tem consequência imediata.
Como funciona na eleição
Não funciona.
A candidatura negra também dá acesso a dinheiro, e mais do que no concurso. No mínimo 30% do Fundo Eleitoral tem que ir para candidaturas de pessoas negras. E, até 2030, os votos dados a candidatos negros contam em dobro no cálculo da fatia do fundo que cabe a cada partido.
A declaração racial move recurso público duas vezes: na largada, quando define quanto o partido precisa destinar, e na chegada, quando multiplica o resultado da urna.
Mesmo assim, a minuta de resolução apresentada pelo TSE para as eleições de 2026, discutida em março, não criou comissões de heteroidentificação na Justiça Eleitoral. Manteve a verificação como faculdade dos partidos, sem obrigatoriedade e sem diretriz sobre como essas comissões deveriam ser formadas. O Conselho Nacional de Justiça havia recomendado a adoção de mecanismos de verificação.
Punição existe, mas é posterior e individual: declaração falsa pode ser enquadrada como falsidade ideológica eleitoral, no artigo 350 do Código Eleitoral. Depende de alguém denunciar, do Ministério Público apurar e da Justiça julgar, um caso por vez, com a eleição já decidida.
A pergunta que fica
Para disputar uma vaga de analista judiciário, o Estado brasileiro convoca uma comissão para olhar o seu rosto antes de aceitar o que você diz sobre si mesmo.
Para disputar uma cadeira no Senado, com acesso a quase um terço de um fundo bilionário e voto contado em dobro, o mesmo Estado aceita o campo preenchido no formulário.
Não falta tecnologia nem precedente. O modelo existe, está regulamentado desde 2018 e é aplicado todo ano a milhares de pessoas que disputam vaga de servidor, gente que não decide o orçamento da União. A diferença entre um caso e outro não é técnica.
Em A Falsificação da Consciência Afrikana, Amos Wilson trata de como a identidade racial é moldada por quem tem poder para defini-la, e do que se ganha ao aceitar a definição alheia. Os 909 são o dado. A ausência de banca é a escolha.
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, arquivos abertos de candidaturas de 2022 e 2026, baixados em agosto de 2026, cruzados por número de CPF. Heteroidentificação em concursos: Lei 12.990/2014 e Portaria Normativa nº 4/2018. Cotas eleitorais e minuta de resolução do TSE para as eleições de 2026. Foto: fachada do TSE, Senado Federal, via Wikimedia Commons.
Nove candidatos deixaram a pensão dos filhos virar mandado de prisão. Um renunciou quando a lista saiu.
Foto: Agência Brasília
Existe um número que não aparece no cadastro de candidaturas do Tribunal Superior Eleitoral. Ele está em outro lugar, no Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões, mantido pelo Conselho Nacional de Justiça, e só aparece quando alguém se dá ao trabalho de cruzar os dois bancos.
Foi o que fez o portal alagoano TNH1, em levantamento publicado em 19 de agosto de 2026. A reportagem comparou as 20.575 candidaturas registradas para as eleições de outubro com os 280.578 mandados de prisão em aberto no banco do Conselho Nacional de Justiça, conferindo número de CPF, nome completo, data de nascimento e filiação. Das 475 correspondências iniciais, 343 eram homônimos e 57 não batiam com os candidatos. Sobraram nove.
Nove candidatos com mandado de prisão em aberto por dívida de pensão alimentícia, somando R$ 95.221,88.
Quem são
São cinco candidatos a deputado federal, três a deputado estadual e um a suplente de senador, em seis estados. Pela ordem do tamanho da dívida:
Bruno Souto Martins, do Unidade Popular, segundo suplente de senador pela Paraíba, com R$ 48.198,17. Antonio Ricardo Costa Moeler, do MDB, deputado federal pelo Rio Grande do Sul, com R$ 19.674,61. Odair Yamamoto Araujo, da Democracia Cristã, deputado estadual por Rondônia, com R$ 8.233,74. Carlos Alexandre Ferreira Silva, do Solidariedade, deputado federal pelo Amazonas, com R$ 7.294,50. João Reginaldo de Alencar Filho, do Novo, deputado estadual por Rondônia, com R$ 5.642,23. Vitor Hugo Pinheiro Bicca, do Novo, deputado federal pelo Rio Grande do Sul, com R$ 3.307,71. Cleuber Gomes Ferreira, do Republicanos, deputado federal por Goiás, com R$ 1.886,03. Elivaldo Saldanha Brasil, do Republicanos, deputado estadual por Roraima, com R$ 984,89. E Valdiley Abadia da Silva, da Democracia Cristã, deputado federal por Goiás, cujo mandado não informa o valor.
O que aconteceu depois que a lista saiu
No dia seguinte à publicação, o g1 apurou o desdobramento. Bruno Souto Martins, o de maior dívida, apresentou formalmente a renúncia à candidatura.
Quatro correram atrás de comprovante. Cleuber Gomes Ferreira informou que havia pago em 12 de janeiro de 2026. Elivaldo Saldanha Brasil disse ter quitado em 28 de abril e pediu à Justiça o reconhecimento. A assessoria de João Reginaldo de Alencar Filho classificou o caso como erro processual e protocolou documentos. O partido de Vitor Hugo Pinheiro Bicca informou que ele está atualizando os pagamentos.
Carlos Alexandre Ferreira Silva afirmou que os valores estavam quitados, mas o Tribunal de Justiça do Amazonas confirmou à reportagem que a ordem de prisão continuava ativa. Antonio Ricardo Costa Moeler, Odair Yamamoto Araujo e Valdiley Abadia da Silva não responderam.
Nenhum dos nove quitou a dívida antes de ela virar ordem de prisão. É esse o fato que sobrevive a qualquer comprovante apresentado na semana em que o nome apareceu no jornal. A prisão civil por pensão alimentícia não é pena, é instrumento de coação: ela só é decretada quando o atraso já se acumulou e as vias comuns de cobrança falharam.
A lei não impede
A Justiça Eleitoral não tem mecanismo para barrar essas candidaturas. Dívida de pensão alimentícia não está entre as causas de inelegibilidade previstas na Lei da Ficha Limpa. Os registros seguem em análise no Tribunal Superior Eleitoral, e a campanha continua.
O contexto em que isso acontece tem números próprios. O Brasil registrou 1.571 feminicídios em 2025, recorde histórico, alta de 4% sobre o ano anterior, uma média de quatro mulheres mortas por dia, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. É diante desse cenário que nove homens que não pagaram a pensão dos próprios filhos pedem mandato para escrever as leis que protegem mulheres e crianças.
Em A Psicologia do Desenvolvimento da Criança Preta, Amos Wilson descreve o que uma criança precisa para se desenvolver e o que se instala quando essa base falta. A pensão não é um detalhe contábil de um divórcio. É a estrutura material de uma infância.
Fontes: levantamento do TNH1, publicado em 19 de agosto de 2026, sobre o Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões do Conselho Nacional de Justiça cruzado com o cadastro de candidaturas do TSE; desdobramento do g1, de 20 de agosto de 2026; Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. Foto: manifestação contra o feminicídio em Ceilândia, Agência Brasília, via Wikimedia Commons.
Um fim de semana do Homem-Aranha na Nigéria rendeu quase o que o maior filme nigeriano do ano fez em três meses
Foto: CaliBen, via Wikimedia Commons
O filme Spider-Man: Brand New Day estreou nos cinemas da Nigéria em 31 de julho de 2026 e fez 725 milhões de nairas em um único fim de semana, com 101.708 ingressos vendidos. É a maior estreia da história da bilheteria da África Ocidental de língua inglesa.
Call of My Life, o filme nigeriano de maior bilheteria de 2026, chegou a 855 milhões de nairas depois de quase três meses em cartaz, tendo liderado as bilheterias por seis fins de semana seguidos. Foi o primeiro título de Nollywood a passar de 600 milhões fora da tradicional janela de lançamento de dezembro.
Três dias de um lado. Três meses do outro. Os números quase empatam.
A Nigéria tem uma das maiores indústrias de cinema do mundo em volume de produção. E não fica com a bilheteria do próprio território.
Antes de apontar o dedo para Lagos
O mesmo dado existe aqui, e é pior.
Os filmes nacionais foram 7,1% da bilheteria brasileira nas primeiras 14 semanas de 2026: 1,97 milhão de ingressos num total de 27,8 milhões, segundo a Agência Nacional do Cinema, a Ancine. No mesmo período de 2025, o cinema brasileiro tinha 26% do público, com 7,9 milhões de espectadores.
A participação do cinema nacional caiu para pouco mais de um quarto do que era, em um ano.
Ninguém escolhe entre mil filmes
A explicação confortável para esse número é o gosto do público. É uma explicação ruim.
Você não escolhe entre todos os filmes que existem. Escolhe entre os que estão na sala, no horário em que você pode ir, com cartaz na entrada e trailer antes da sessão. A distribuição decide o cardápio antes de qualquer pessoa decidir o que quer comer.
Quem controla a distribuição controla o repertório. E quem controla o repertório, ao longo de anos, forma a referência do que é bonito, do que é importante e de quem merece ser filmado.
Amos Wilson tratou disso em Consciência Afrikano-Centrada versus Nova Ordem Mundial. A dominação cultural não precisa de força: basta ocupar o imaginário e esperar que a própria pessoa dominada passe a defender, como gosto pessoal, a escolha de quem a domina.
Fontes: What Kept Me Up e Nairametrics, para a bilheteria nigeriana; Agência Nacional do Cinema, Sistema de Controle de Bilheteria, para os dados brasileiros. Foto: Asia Comic Expo 2023, por CaliBen, via Wikimedia Commons.
Aos 25 anos de carreira, Ellen Oléria apresenta Canto de Casa Vol. 1 no Sesc Belenzinho
Ellen Oléria em foto de divulgação de Canto de Casa Vol. 1. Foto: Diego Bresani.
Ellen Oléria sobe ao palco do Teatro do Sesc Belenzinho, em São Paulo, neste domingo, 23 de agosto de 2026, às 18 horas, para apresentar Canto de Casa Vol. 1. O show tem 90 minutos e marca os 25 anos de carreira da cantora, compositora e produtora nascida em Brasília.
O disco em si não é novidade: está nas plataformas desde 30 de maio de 2026. O que acontece no domingo é o show desse repertório no Sesc Belenzinho, com a banda que gravou o disco com ela.
Um disco sobre o afeto do encontro
Canto de Casa Vol. 1 abre um novo projeto de Ellen Oléria, numerado desde o título. O material de divulgação descreve o disco como um abraço sonoro: dez faixas cheias de suingue que recriam a atmosfera das rodas de música entre amigas e amigos, a canção que nasce no quintal, na sala, no calor das memórias compartilhadas. É apresentado como um tributo à força do afeto, do pertencimento e da escuta, e como a construção da identidade a partir do espelhamento.
A produção e a direção musical são assinadas por Ellen Oléria ao lado dos músicos Felipe Viegas, Pedro Miranda e Renato Galvão Santos. Gravado em São Paulo, o álbum tem 35 minutos e costura rhythm and blues, música popular brasileira, samba-funk, soul, hip hop, afrobeat e outras sonoridades negras contemporâneas.
Entre os destaques estão Incendiou, que cruza rhythm and blues, funk e hip hop; A Saudade Se Instaurou, entre neo soul e música popular brasileira; e Pinga Tinta, que junta afrobeat e carimbó. O disco abre com Axé de Ouro e conta com as participações de Rincon Sapiência, em Te Faria, e de Jef Rodriguez, da Banda OQuadro, em Nada Se Compara.
No palco, Ellen Oléria divide o repertório com Pedro Miranda no baixo, Vini Sampaio na guitarra, Renato Galvão Santos na bateria e Felipe Viegas no teclado. Ela assina voz e violão.
De um bar em Taguatinga ao prêmio nacional
Ellen Gomes de Oléria nasceu em Brasília em 12 de novembro de 1982. Começou a cantar ainda adolescente nos bares e clubes de Taguatinga, e conta a carreira profissional a partir do ano 2000.
Em 2012 ela ganhou o país inteiro de uma vez. Na audição às cegas da primeira temporada do The Voice Brasil, escolheu cantar Zumbi, de Jorge Ben Jor, e virou as quatro cadeiras. Carlinhos Brown, Cláudia Leitte, Daniel e Lulu Santos a disputaram. Ela foi para o time de Brown e venceu a temporada.
Repare no repertório, porque ele não é acaso. Uma mulher negra de Brasília se apresentou ao maior programa de auditório da televisão brasileira cantando uma canção que nomeia Zumbi dos Palmares. O prêmio da temporada incluía dinheiro, carro, gestão de carreira e contrato com uma gravadora multinacional.
O que veio depois é a parte que interessa. Ellen Oléria não virou produto de gravadora. Construiu um catálogo próprio, com discos como Afrofuturista, de 2016, e levou esse repertório para fora do país.
Canto de Casa Vol. 1 segue a mesma lógica: é um lançamento independente, com o fonograma no nome dela e distribuição da Tratore. Catorze anos depois de receber um contrato multinacional como prêmio de televisão, ela lança o disco por conta própria.
Por que isso importa para a música negra brasileira
A música negra brasileira raramente teve o problema de talento. Teve, e tem, o problema do controle: quem grava, quem distribui, quem fica com o fonograma, quem decide o que é comercial. A trajetória de Ellen Oléria é uma resposta prática a essa pergunta, e ela responde no lugar onde a resposta custa caro, que é o da propriedade.
Há também a questão do repertório. Os gêneros que o disco costura, rhythm and blues, soul, samba-funk, hip hop, afrobeat, não são estilos avulsos: são ramos de uma mesma matriz. Reuni-los num álbum só, sem pedir licença a nenhuma fronteira de gênero, é uma afirmação sobre a origem comum deles.
E há o gesto do título. Chamar o disco de canto de casa, e falar do quintal, da sala e da roda de amigos, é dizer que a música negra não precisa provar nada em território alheio para valer. Ela vale no lugar de onde vem.
Serviço
Ellen Oléria apresenta Canto de Casa Vol. 1
Domingo, 23 de agosto de 2026, às 18 horas
Teatro do Sesc Belenzinho, Rua Padre Adelino, 1000, São Paulo
90 minutos, classificação 12 anos
Ingressos: 60 reais a inteira, 30 a meia e 18 para credencial Sesc Plena
Vendas no site do Sesc São Paulo e nas bilheterias das unidades, com limite de dois ingressos por pessoa
Fontes: ficha do álbum na Apple Music, conferida em 21 de agosto de 2026; Sesc São Paulo; Agência Athos; Preta Joia. Fotos de divulgação: Diego Bresani.
Produção Local / Editorial: Leila de Castro (@leialdecastro) Produção Operacional Geral: Jaqueline Pimentel (@jaquelinespimentel) Produção Executiva: Poliana Martins (@polipreta)
3 absurdos das eleições 2026 tirados dos arquivos brutos do TSE
Foto: TSE / Divulgação
O Tribunal Superior Eleitoral disponibiliza os dados brutos de candidaturas e declaração de bens de todos os candidatos registrados para as eleições de outubro de 2026. São arquivos CSV que podem ser baixados, cruzados e analisados por qualquer pessoa. O que está nesses arquivos, quando você os lê, é o seguinte.
1. 909 candidatos mudaram de raça entre 2022 e 2026
Cruzando os dados de cor e raça declarados nas candidaturas de 2022 com os de 2026, pelo número do CPF, encontram-se 909 candidatos que registraram uma raça diferente nas duas eleições. O movimento mais comum é de parda para branca: 333 candidatos fizeram essa troca.
Entre senadores e governadores, os cargos de maior visibilidade, 29 candidatos mudaram de declaração racial. A mudança não é aleatória: ela segue uma direção. O sistema de cotas eleitorais, que reserva percentuais de recursos e vagas para candidatos negros (pretos e pardos), cria um incentivo perverso para que candidatos se declarem negros ao registrar candidatura e brancos quando isso não importa mais. Os dados do TSE não provam intenção, mas o padrão que revelam é difícil de explicar de outra forma.
2. Nove candidatos foram registrados com mandado de prisão em aberto
Um levantamento do portal TNH1, publicado em 19 de agosto de 2026, cruzou as 20.575 candidaturas registradas para as eleições com os 280.578 mandados de prisão em aberto no Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões, mantido pelo Conselho Nacional de Justiça. A conferência usou número de CPF, nome completo, data de nascimento e filiação. Sobraram nove candidatos com mandado em aberto por dívida de pensão alimentícia, somando R$ 95.221,88.
São cinco deputados federais, três deputados estaduais e um suplente de senador, distribuídos por Paraíba, Rio Grande do Sul, Rondônia, Amazonas, Goiás e Roraima. Os partidos incluem Novo, Democracia Cristã, Unidade Popular, Republicanos, MDB e Solidariedade.
A Justiça Eleitoral não tem mecanismo para impedir a candidatura por esse motivo. Dívida de pensão alimentícia não está entre as causas de inelegibilidade previstas na Lei da Ficha Limpa. Vale registrar que esses mandados não constam do cadastro de candidaturas do TSE: eles estão na base do Conselho Nacional de Justiça, e só aparecem quando alguém cruza os dois bancos.
No dia seguinte à publicação da lista, o g1 apurou o desfecho. Um dos nove renunciou à candidatura. Quatro apresentaram comprovantes de pagamento ou alegaram erro processual, e num desses casos o Tribunal de Justiça do Amazonas confirmou que a ordem seguia ativa. Nenhum deles quitou a dívida antes de ela virar ordem de prisão.
3. Pablo Marçal está inelegível até 2032 e ainda assim foi registrado
Em 2024, o Tribunal Superior Eleitoral condenou Pablo Marçal por abuso do poder das redes sociais nas eleições municipais de São Paulo. A pena incluiu inelegibilidade por oito anos, o que o impede de disputar qualquer cargo até 2032.
O PRTB registrou a candidatura de Marçal amparado por uma liminar que suspendeu temporariamente os efeitos da condenação. O TSE já bloqueou os recursos públicos de campanha destinados a ele. O registro existe, a decisão existe, e a disputa judicial sobre qual prevalece ainda está em curso.
Os dados são públicos
Os números sobre declaração racial saem dos arquivos brutos disponibilizados pelo TSE em dadosabertos.tse.jus.br: os CSVs de candidaturas de 2022 e de 2026, baixados em agosto de 2026. Não há nenhuma informação aqui que não esteja acessível a qualquer pessoa com um computador e alguma paciência para ler uma tabela.
O problema não é falta de transparência. O problema é que poucos leem.
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, dados abertos de candidaturas (cand_2022 e cand_2026), baixados em agosto de 2026. Mandados de prisão: levantamento do TNH1 de 19 de agosto de 2026 sobre o Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões, do Conselho Nacional de Justiça, com desdobramento do g1 de 20 de agosto. Foto: TSE, divulgação.
Ele fugiu de casa aos doze anos com um circo e inventou um gênero de teatro. O Brasil esqueceu o nome dele.
Benjamim de Oliveira em frente ao Circo Teatro Dorby, do qual era sócio e diretor teatral. Revista Comoedia, Rio de Janeiro, março de 1947. Acervos Erminia Silva e família de Benjamim de Oliveira.
Em 1882, um menino de doze anos fugiu de casa em Pará de Minas com a trupe do Circo Sotero, que passava pela cidade.
Ele se chamava Benjamin Chaves. Nasceu em 11 de junho de 1870, filho de Malaquias Chaves e de Leandra de Jesus, e nasceu forro: a alforria dele e a dos irmãos veio no nascimento.
O sobrenome Oliveira ele pegou emprestado do instrutor dele no circo, um artista chamado Severino de Oliveira. É com esse nome que ele entra na história do teatro brasileiro, e é esse nome que quase ninguém sabe.
Palhaço, ator, cantor e autor de peças
Ele virou trapezista e acrobata, e é reconhecido como o primeiro palhaço negro do Brasil. Na estreia como palhaço, o público o rejeitou. Ele seguiu, e acabou aclamado como o rei dos palhaços do país.
Escreveu peças de sucesso, entre elas O Diabo e o Chico e A Noiva do Sargento. Cantava lundus, chulas e modinhas ao violão nos intervalos, e gravou discos pela Columbia por volta de 1910.
E ele inventou um gênero
O circo-teatro foi introduzido no Rio de Janeiro por ele e teve auge entre 1918 e 1938. Começou com paródias de operetas e contos de fadas encenados, e chegou a peças de Shakespeare e à representação da Paixão na Semana Santa.
Em 1908 ele protagonizou Peri numa adaptação de O Guarani filmada no Circo Spinelli, o que também o coloca entre os primeiros artistas negros do cinema brasileiro.
Então por que você nunca ouviu esse nome?
Em 1941 ele pediu ajuda de passagem e transporte para uma excursão a Belo Horizonte, e o pedido foi negado. Só em 1947, depois de pressão de jornalistas na Câmara dos Deputados, ele passou a receber uma pensão do governo.
Morreu no Rio de Janeiro em 1954. As fontes divergem sobre o dia, e por isso esta matéria fecha só o ano. O formato que ele criou continuou rodando o país por décadas sem o nome dele colado.
A volta começou num trabalho de escola
No fim de 2018, ainda no ensino médio, Isaac Belfort recebeu a sugestão de pesquisar Benjamim de Oliveira para um trabalho escolar. A pesquisa nunca foi encerrada e virou musical.
Benjamim, O Palhaço Negro estreou em 2022 no Teatro Cesgranrio, no Rio, já passou por Pará de Minas, cidade natal do homenageado, e está em nova temporada em São Paulo desde 18 de agosto, às terças-feiras às 20h30, no Espaço Cia. da Revista, com temporada até 15 de setembro. Os ingressos são vendidos pela Sympla.
O que Amos Wilson descreveu
Em A Falsificação da Consciência Afrikana, Amos Wilson trata do processo em que o povo negro produz a cultura e outro assina a autoria. Benjamim inventou o circo-teatro. O formato sobreviveu. O nome, não.
Um legado só desaparece quando deixa de ser contado.
Isaac Belfort, que idealizou o musical, assina a direção de produção e integra o elenco
Memória não se guarda sozinha. Ela se guarda em palco próprio, em livro próprio e em arquivo próprio.
Fontes: Notícia Preta, 20 de agosto de 2026, e Geledés. Foto: revista Comoedia, 1947, acervos Erminia Silva e família de Benjamim de Oliveira.
A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, trata de como o povo negro produz a cultura e depois assiste outro assinar a autoria dela.
A ONU calcula risco de desastre com uma fórmula. Uma pesquisadora do Jardim São Luís reconheceu essa conta nas letras dos Racionais.
Racionais MC's na Virada Cultural de 2013, em São Paulo. Foto: Mumu Silva, via Wikimedia Commons.
O Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres calcula risco assim: Ameaça x Exposição x Vulnerabilidade.
Ameaça é o evento, como a chuva forte. Exposição é quem está no caminho dele. Vulnerabilidade é a condição de quem não tem como se proteger nem se recuperar. Cada fator é medido com dado estatístico, mapeamento geográfico e índice socioeconômico.
A fórmula existe e é técnica. O que esta matéria conta é o trabalho de quem reconheceu essa mesma conta já escrita em verso.
Julia Neres, 27 anos, do Jardim São Luís
Ela é educomunicadora e se formou em Educomunicação na Universidade de São Paulo com a pesquisa Racismo Ambiental, Sobrevivendo no Inferno: leituras socioambientais a partir da obra dos Racionais MC's, concluída no último semestre de 2025.
A orientadora foi a professora Thaís Brianezi, que tinha dado a atividade em que a ideia nasceu.
A ficha caiu numa visita técnica
No segundo semestre de 2022, Julia visitou o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden. Foi lá que ela viu a fórmula do risco de desastre.
Quando vi a Fórmula do Risco de Desastres, especialmente o R, percebi que sua conexão com as letras dos Racionais MC's estava pronta.
Julia Neres, à Agência Mural
As três músicas da pesquisa
Tempos Difíceis, de 1988. Homem na Estrada, de 1993. E o álbum Sobrevivendo no Inferno, de 1997.
Julia cruza as letras com enchente, deslizamento e onda de calor nas periferias para mostrar que risco de desastre não é só fenômeno natural: é também efeito de quem foi empurrado para o terreno mais inseguro da cidade.
A ordem importa e ela está respeitada aqui: a fórmula é do escritório da ONU e a pesquisa a reconhece nas letras. Ninguém está dizendo que os Racionais escreveram a fórmula.
O termo tem dono e tem data
Racismo ambiental foi cunhado pelo ativista afro-americano Benjamin Chavis, nos anos 1980. Ele nomeia a distribuição desigual do dano ambiental.
Populações negras, indígenas e periféricas costumam estar mais expostas e mais vulneráveis, por causa de desigualdades históricas que as empurraram para os lugares mais inseguros das cidades, sem infraestrutura urbana adequada.
200 exemplares impressos
Em 2026 a pesquisa virou livro, com versão física, digital e audiolivro. A publicação saiu por um edital do Programa de Valorização de Iniciativas Culturais da Prefeitura de São Paulo, pelo Mirante Coletivo, que trabalha com design, literatura e educomunicação e que Julia coordena. As ilustrações do livro também são dela.
Os materiais foram distribuídos de graça em espaços como o Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário e o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento de Parelheiros, onde a obra foi lançada.
O hip-hop passou a ser a linguagem pela qual consigo dialogar com diferentes públicos e transformar conceitos acadêmicos em discussões que fazem sentido para quem vive nas periferias.
Julia Neres, à Agência Mural
A fórmula mede. A letra já descrevia.
Fonte: Agência Mural, reportagem de Daniel Santana, 18 de agosto de 2026. Foto: Mumu Silva, via Wikimedia Commons.
O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre consciência, memória e poder, e sobre quem decide onde o povo negro pode morar.
Geni foi escrita em 1978. Levou 48 anos para uma atriz trans viver o papel.
Valéria Barcellos, em retrato da época de Terra e Paixão. A foto não é da montagem da Ópera do Malandro. Foto: Globo / João Miguel Júnior.
Ópera do Malandro é um musical de Chico Buarque de 1978, ambientado na Lapa carioca dos anos 1940, entre contrabandistas, prostitutas e cafetões. Geni é a travesti da trama, destratada por todos e alçada por um momento à condição de salvadora.
A canção Geni e o Zepelim é a mais emblemática do espetáculo, e a personagem é apontada como uma das primeiras representações trans da dramaturgia feita no Brasil.
Por quase cinco décadas, o papel foi de atores homens
Nas inúmeras versões de Ópera do Malandro, Geni foi vivida por homens. Entre eles, Emiliano Queiroz, Sandro Christopher, Eduardo Landim e Kleber Montanheiro, todos atores cisgênero.
O levantamento é do crítico Dirceu Alves Jr., publicado no Infoteatro em fevereiro deste ano.
Valéria Barcellos vive Geni agora
Atriz e cantora gaúcha, mulher trans e negra, ela já passou por Titanique e por A Palavra Que Resta, e viveu Luana na novela Terra e Paixão. Agora, na montagem dirigida por Jorge Farjalla, é ela quem vive Geni.
E ela não foi convidada. Segundo a própria atriz, foi ela quem procurou o diretor, se apresentando como alguém que se preparou a vida inteira para viver a personagem.
Não houve convite. Houve disputa.
O que muda quando a atriz é trans
A Mundo Negro resume assim: nesta montagem, pela primeira vez, não se veria um transfake, nome dado à prática de escalar uma pessoa cisgênero para viver uma personagem trans.
O crítico do Infoteatro escreve que a leitura de Jorge Farjalla amplia o peso das figuras femininas da peça, que hoje o público estranharia ver uma Geni de outro gênero em cena, e que a plateia se levanta para aplaudir por longos minutos a cena da canção, apresentação após apresentação.
Onde ver
Ópera do Malandro está em cartaz no Teatro Multiplan, no VillageMall, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. A temporada vai até 30 de agosto de 2026, com ingressos de 25 a 350 reais.
A montagem não estreia agora: ela passou antes por São Paulo, no Teatro Renault, no começo deste ano. O que acaba em 30 de agosto é a temporada carioca.
A personagem esperou 48 anos
Chico Buarque escreveu Geni em 1978. A atriz que a vive hoje diz que se preparou a vida inteira para o papel, e mesmo assim teve que bater na porta do diretor para conseguir disputá-lo.
O papel sempre existiu. A porta é que estava fechada.
Fontes: Mundo Negro, 20 de agosto de 2026, e crítica de Dirceu Alves Jr. no Infoteatro, 5 de fevereiro de 2026. Foto: Globo / João Miguel Júnior.
O catálogo da Poder Afrikano reúne os livros de Amos Wilson sobre representação, identidade e o direito de contar a própria história.
Jason Arday: 289 matérias em 22 dias. Dois terços saíram depois de ele ter pedido demissão de Cambridge.
Jason Arday em 2024. Foto: ConiferousForest19 / CC0 / Wikimedia Commons.
Jason Arday morreu em 14 de agosto de 2026, aos 41 anos. Era o professor negro mais jovem da história da Universidade de Cambridge, contratado em 2023, aos 37, para a cadeira de Sociologia da Educação.
Ele havia renunciado ao cargo nove dias antes, em 5 de agosto.
A polícia informou que a morte é tratada como inesperada e não é considerada suspeita. A causa não foi divulgada. Este texto não especula sobre ela.
O número
Steven Barnett, professor de comunicação na Universidade de Westminster, contou as publicações da imprensa britânica sobre Arday: 289 matérias em 22 dias. Quase dois terços delas saíram depois da renúncia.
É esse o dado do qual este texto trata. Não a validade das acusações, que ninguém concluiu. O volume.
O que foi acusado e o que já foi decidido
Nathan Cofnas, ex-pesquisador da própria Cambridge, que havia deixado a universidade após controvérsia sobre comentários dele a respeito de programas de diversidade, afirmou ter encontrado plágio na tese de doutorado de Arday. Foi o que deu início à cobertura.
Cambridge, Glasgow e Durham anunciaram apurações. Nenhuma delas foi concluída. Este texto não afirma nem nega o plágio, porque não existe decisão para relatar.
Existe uma decisão, e ela precisa aparecer: a Liverpool John Moores University, onde Arday fez o doutorado, concluiu que o título dele deve ser mantido.
O que dizem quem ficou
Em declaração citada pela imprensa, Arday escreveu que as acusações, a especulação e o comentário público haviam cobrado um preço profundo dele e de quem ele ama.
O Good Law Project reuniu mais de 127 mil assinaturas numa carta aberta pedindo inquérito público sobre a cobertura da imprensa, contagem conferida na página da própria organização em 20 de agosto de 2026. A organização atribui à conduta da imprensa uma contribuição para a morte. É a posição declarada dela, não um fato apurado, e aqui aparece como o que é.
Chris Smith, chanceler de Cambridge, disse ser possível sustentar dois princípios ao mesmo tempo: acreditar na importância da integridade acadêmica e, ainda assim, recusar-se a participar do que chamou de frenesi racista.
O tamanho do grupo do qual se fala
Em 2024 e 2025 havia cerca de 270 professores catedráticos negros nas universidades do Reino Unido. Em 2016 e 2017 eram 120.
São aproximadamente 1% do total de catedráticos, numa população em idade ativa que é cerca de 4% negra.
Quando o grupo tem esse tamanho, o que acontece com um não fica sendo sobre um.
O que Amos Wilson descreveu
Em A Falsificação da Consciência Afrikana, Amos Wilson trata da presunção de competência: a pessoa negra que entra numa instituição branca não recebe de graça a mesma confiança que os outros recebem antes de provar qualquer coisa. O diploma não encerra a suspeita, apenas muda o terreno em que ela é feita.
E ele observa que o efeito mais duradouro desse tipo de episódio não recai sobre quem foi atingido. Recai sobre quem assiste e aprende o preço de ocupar aquele lugar.
Fontes: Associated Press, 19 de agosto de 2026. Inside Higher Ed, 18 de agosto de 2026. Contagem de matérias atribuída a Steven Barnett, Universidade de Westminster.
A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, trata de como a suspeita sobre a competência do negro sobrevive a qualquer credencial que ele apresente.
Em 1843 o Império mandou cobrir o Cais do Valongo com terra. Uma noiva ia desembarcar ali.
Cais do Valongo. Foto: Brian John Godfrey / CC BY 2.0 / Wikimedia Commons.
O Cais do Valongo foi construído em 1811, na zona portuária do Rio de Janeiro. Entre 1811 e 1831, cerca de um milhão de africanos escravizados desembarcaram ali. Foi o maior porto de entrada da diáspora africana forçada nas Américas.
Em 1843, Teresa Cristina vinha de Nápoles para casar com dom Pedro II. O desembarque de uma futura imperatriz não podia acontecer no mesmo cais por onde entravam os africanos.
O Império mandou aterrar o Valongo. Ergueram um cais novo por cima e batizaram o lugar de Cais da Imperatriz.
O cais ficou enterrado por 168 anos. Só voltou à luz em 2011, durante as obras de revitalização da zona portuária.
O que foi entregue em 18 de agosto
Com cortejo do Afoxé Filhos de Gandhi, o governo federal entregou o Edifício Docas André Rebouças para abrigar o futuro Centro de Interpretação do Patrimônio Africano do Cais do Valongo.
São 77 milhões de reais em recursos federais e três anos de obra de adaptação pela frente.
É importante dizer com clareza: o museu não abriu. O que foi entregue foi o prédio. O acervo previsto é de cerca de um milhão de peças encontradas no Valongo e no entorno, e mesmo os responsáveis falam em décadas de trabalho até se saber o que existe ali.
O prédio e o nome
A edificação é de 1871, do período imperial, e se chamava Armazém Dom Pedro II. Recebeu o nome de André Rebouças em 2025, por decisão do Conselho Consultivo do Iphan.
Rebouças nasceu na Bahia em 1838. Foi engenheiro e abolicionista, apontado como o primeiro engenheiro negro do país, e assinou o projeto das docas da região.
Um detalhe que a Agência Brasil registra e que vale reter: a construção de 1871 não usou mão de obra escravizada.
Por que o aterro importa mais que o prédio
O Cais do Valongo é hoje Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco e patrimônio histórico e cultural afro-brasileiro por lei federal.
Mas por 168 anos ele foi terra batida sob os pés de quem passava. Não foi esquecido por acidente. Foi coberto por decisão, e a decisão tinha data, motivo e nome de noiva.
Amos Wilson escreveu em A Falsificação da Consciência Afrikana que quem controla o registro do passado controla o que um povo consegue reivindicar no presente. Aterrar um cais é um jeito de escrever história. Desenterrar também.
Faltam três anos de obra. O que já está de pé é o argumento.
Fontes: Agência Brasil, 18 de agosto de 2026. Iphan e Unesco.
A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, trata de quem controla o registro do passado e do que isso permite reivindicar no presente.
Ele avisou que o cabelo e a barba já estavam aparados. Levaram ele à barbearia mesmo assim.
Barbearia em Meridian, Idaho, EUA. Foto: Tamanoeconomico / CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons.
Um fiscal de loja, contratado em abril de 2024 por uma prestadora de serviços, foi retirado do posto de trabalho e levado a uma barbearia. Ele avisou que o cabelo e a barba já estavam aparados. Foi levado do mesmo jeito, para atender ao padrão estético exigido pela empresa contratante.
O trabalhador é um homem negro.
Uma testemunha que participou da transmissão da ordem confirmou no processo que não havia nenhuma justificativa sanitária ou de higiene para a exigência. Não era norma de segurança. Não era regra de manipulação de alimento. Era aparência.
A palavra que entrou nos autos
Uma gravação juntada ao processo registra um representante da primeira reclamada orientando o fiscal a cortar o cabelo e retirar a barba para que o "estigma" ficasse no passado.
A palavra é do superior, não do trabalhador e não da imprensa. Ela está gravada e está nos autos. É o que transforma o caso de queixa em prova.
O que a sentença decidiu
A 34ª Vara do Trabalho de São Paulo condenou as empresas de forma solidária a pagar 20 mil reais por danos morais e reconheceu a rescisão indireta, com as verbas rescisórias devidas. Rescisão indireta é quando o trabalhador encerra o vínculo por falta grave do empregador e sai com os direitos de quem foi demitido sem justa causa.
A decisão é da juíza Marcele Carine dos Praseres Soares, no processo 1000552-53.2026.5.02.0034. Na sentença, ela escreveu:
Ao qualificar o cabelo crespo e a barba de pessoas negras como estigmas a serem eliminados ou ocultados para fins de credibilidade corporativa, as reclamadas perpetuam a desvalorização sistemática dos corpos negros.
Marcele Carine dos Praseres Soares, 34ª Vara do Trabalho de São Paulo
A juíza usou como referência o Protocolo de Julgamento com Perspectiva Racial do Conselho Nacional de Justiça, e enquadrou o caso como discriminação estética e abuso do poder diretivo do empregador.
A decisão é de primeira instância e cabe recurso.
Por que o argumento é o estigma
A empresa não disse que o cabelo era sujo. Disse que era estigma. E estigma é uma marca que a pessoa carrega, não um problema que ela criou.
Ao usar essa palavra, a ordem admite o que tentava esconder: o que estava sendo corrigido não era o cabelo, era o corpo que ele identificava. A barbearia não resolvia uma questão de higiene. Resolvia uma questão de leitura racial dentro da loja.
Amos Wilson descreveu esse mecanismo em A Falsificação da Consciência Afrikana. A dominação não precisa proibir o corpo negro. Basta ensinar que ele é um defeito a corrigir, até que a correção pareça escolha de quem a executa.
Neste caso, a escolha não foi apresentada como escolha. Foi transporte até a barbearia, com a ordem gravada.
Fontes: Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, nota de 17 de agosto de 2026, processo 1000552-53.2026.5.02.0034. Notícia Preta e Consultor Jurídico.
A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, trata de como a dominação transforma a característica do dominado em defeito que ele mesmo passa a querer corrigir.
A Libéria foi criada para receber os negros que os Estados Unidos não queriam. Duzentos anos depois, o acordo voltou.
Casas de colonos perto de Monróvia, Libéria, 1977. Foto: Fred van der Kraaij / CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons.
Em 1822, na costa oeste da África, começou um assentamento organizado pela American Colonization Society, uma entidade americana criada para transferir população negra livre dos Estados Unidos para fora do território americano.
O lugar virou país. Chama-se Libéria. A capital chama-se Monróvia, em homenagem a James Monroe, presidente dos Estados Unidos no ano da fundação. A capital de um país africano leva o nome de um presidente americano porque o país foi projetado do outro lado do Atlântico. A independência foi declarada em 1847.
O que foi anunciado esta semana
Em 19 de agosto de 2026, o ministro da Informação da Libéria, Jerolinmek M. Piah, divulgou comunicado do governo confirmando que o país aceitou receber até 1.200 pessoas removidas dos Estados Unidos ao longo de um ano. O primeiro grupo, de 20 pessoas, chega em 20 de agosto.
O acordo não é novo. O comunicado registra troca de notas entre os dois governos em 4 e 10 de setembro de 2025.
Quem são essas pessoas
Segundo o comunicado, são cidadãos ou nacionais de países africanos e do hemisfério ocidental, com autorização médica para viajar, que estavam em território americano.
O governo liberiano afirma que elas não são criminosas e não estão sendo processadas sob a lei americana nem sob a lei liberiana. Afirma que serão recebidas como hóspedes da República da Libéria, que seguem livres para deixar o país quando quiserem, e que quem quiser ficar poderá pedir asilo.
O comunicado diz ainda que a Libéria não exigiu nem recebeu compensação nem promessa de recompensa em troca do consentimento.
O que não é a mesma coisa
É preciso dizer com todas as letras: a Libéria de 2026 é uma república soberana, e a decisão foi tomada pelo governo dela.
Em 1822 não havia governo liberiano para consentir. Havia uma sociedade americana comprando terra na costa africana para depositar uma população que os Estados Unidos não queriam dentro de casa. As duas situações não são equivalentes, e tratar como equivalentes apaga a soberania de um país africano.
O que é a mesma coisa
A função.
Nos dois momentos, separados por duzentos e quatro anos, os Estados Unidos precisaram de um lugar na África Ocidental para onde enviar pessoas que não queriam manter em seu próprio território. E nos dois momentos esse lugar foi a Libéria.
A função que sobrou para o país é a mesma função que inventou o país. Mudou quem assina o acordo. Não mudou para que serve o acordo.
Fontes: comunicado do Governo da Libéria assinado pelo ministro da Informação Jerolinmek M. Piah, 19 de agosto de 2026, via AllAfrica.
O catálogo da Editora Poder Afrikano reúne obras sobre como o projeto colonial organizou a circulação forçada de pessoas negras e continua organizando.
Dez anos com a matrícula parada. Aí estreou uma série de TV sobre uma faculdade negra.
Founders Library, Howard University, Washington D.C. Foto: Derek E. Morton / CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons.
Entre 1976 e 1986, a matrícula nas faculdades e universidades historicamente negras dos Estados Unidos, as HBCUs, cresceu 662 alunos. Em dez anos. De 222.613 para 223.275.
Em 24 de setembro de 1987 estreou na NBC uma série ambientada em Hillman College, uma faculdade historicamente negra que não existe.
Em 1993 a matrícula real era de 282.856. Quase 60 mil alunos a mais em sete anos.
De onde vêm os números
Os três valores estão na tabela 1 do relatório 96-902 do NCES, o órgão de estatística educacional do governo americano.
E aqui vale a honestidade: o NCES não atribui a alta à série. Ele registra que a matrícula subiu 26% entre 1976 e 1994 e que praticamente todo o aumento aconteceu entre 1986 e 1994. O relatório conta o que houve, não por quê.
Quem faz a leitura causal
Quem liga uma coisa à outra é Marybeth Gasman, pesquisadora de HBCUs e diretora do Centro de Instituições que Servem Minorias. Para ela a coincidência não é coincidência: a série trouxe as HBCUs para o mainstream e as mostrou de forma positiva, toda semana, dentro de casa.
Não era propaganda institucional. Era ficção popular em horário nobre mostrando gente negra estudando, discutindo, errando e se formando num campus negro.
O ciclo está se repetindo
A Universidade Howard recebeu 36.393 candidaturas para o outono de 2024, alta de 79% em dois anos. A Carolina do Norte A&T chegou a 15.275 alunos e virou a primeira HBCU da história a passar de 15 mil. Há HBCUs construindo alojamento novo porque não cabe mais gente.
E a continuação de A Different World estreia na Netflix em 24 de setembro de 2026, com 10 episódios. Trinta e nove anos, dia a dia, depois da estreia da original. Debbie Allen, que deu à série o retrato de uma HBCU por dentro, volta como produtora executiva e dirige três episódios.
O que isso ensina sobre instituição própria
As HBCUs já existiam em 1976. Já tinham professores, bibliotecas e diplomas. O que faltava não era instituição. Era a imagem dela circulando onde a comunidade pudesse se ver dentro.
Instituição própria não se enche por decreto. Se enche quando a comunidade se vê dentro dela.
Fontes: NCES, relatório 96-902 (julho de 1996), tabela 1. Netflix, NBC News e Capital B News.
Despertando o Gênio Natural da Criança Preta, de Amos Wilson, trata da educação de crianças negras como projeto da própria comunidade, e não como concessão de fora.
O prefeito Rodrigo Manga inaugurou uma nova base da Guarda Civil Municipal de Sorocaba com um vídeo promocional que circula nas redes desde a semana passada. Nos primeiros segundos: um homem negro rouba um celular. Em seguida, outro homem negro surge com uma espada e decepa o braço do ladrão. No final, o homem branco aparece — com a tecnologia que resolve o problema.
O elenco não foi acidente. Cada papel foi escolhido: o críme negro, a punição negra, a solução branca. A GCM como instituição aparece no lugar do homem branco — a força que chega depois, com ordem e método.
O mecanismo tem nome
Amos Wilson descreveu esse fenômeno em A Falsificação da Consciência Afrikana. O título já é o argumento: quando o povo colonizado interioriza a visão que o colonizador tem dele, passa a exercer violência contra si mesmo com a eficiência de quem acredita que é merecida.
No vídeo da GCM, o executante negro não precisa de ordem externa. Ele já sabe o que fazer com o criminoso negro. O sistema só precisa aparecer no final, como salvador, depois que o trabalho sombrio já foi feito.
O que o vídeo comunica sem dizer
Não é uma peça sobre segurança pública. É uma peça sobre quem é perigoso e quem é protetor. A castação é medieval e deliberada: ela comunica que o crime negro merece punição corporal exemplar. A GCM entra depois não para impedir a violência — para oferecer uma versão gerenciada dela.
Wilson chamou isso de falsificação porque é exatamente isso: uma imagem do mundo onde o negro é simultaneamente o problema e o instrumento da punição, e o branco é quem organiza os dois. Aceitar esse roteiro como natural é aceitar a falsificação.
A instituição que fez o vídeo
A GCM de Sorocaba é uma guarda municipal armada com mais de mil agentes. O vídeo foi produzido para divulgar a inauguração de uma nova base — é material oficial da Prefeitura. Não é um erro de comunicação. É uma escolha editorial sobre como a instituição quer ser vista e como quer que o crime seja visto.
As editoras disseram que não havia mercado. Ela imprimiu 500 cópias por conta própria.
Sue Nyathi. Reprodução: Nehanda Radio.
Em 2012, a escritora zimbabuana Sue Nyathi tinha um romance de estreia pronto e uma resposta repetida das editoras: não havia mercado para aquele livro.
Ela não insistiu com o portão. Pagou do próprio bolso a impressão de 500 cópias de The Polygamist, e antes disso contratou por conta própria o editor, o diagramador e o artista que o livro precisava. Fez o trabalho que a editora faria, com o dinheiro que a editora não colocou.
Catorze anos depois
Em 12 de junho de 2026 a Netflix estreou O Polígamo, adaptação daquele romance, em 22 episódios.
Os números são da própria plataforma: primeiro lugar em 21 países, top 10 em 62 e 27,6 milhões de visualizações. Foram sete semanas seguidas na lista global, o maior tempo já alcançado por um título sul-africano.
É o mesmo livro. O mercado que não existia em 2012 aparece em 62 países quando alguém decide distribuí-lo.
Quem pode bancar o tempo de escrever
Nyathi trabalhava como analista de investimentos em Harare desde 2001. Largou a carreira corporativa aos 40 anos e escreveu criando o filho sozinha.
Ela costuma dizer que a maioria dos escritores não vive dos próprios livros, e que na África isso é ainda mais raro. Escrever, para quase todo mundo, é um luxo que não se pode bancar. A recusa da editora não elimina só um livro. Elimina o tempo de quem teria escrito o próximo.
O que o veredito realmente mede
Amos Wilson tratou desse mecanismo em A Falsificação da Consciência Afrikana: quem controla os meios de narrar decide o que passa a existir.
O veredito de que não há mercado quase nunca é uma medição do público. É uma declaração sobre quem está autorizado a chegar até ele. Nyathi não conseguiu mudar a opinião de ninguém em 2012. Ela financiou a própria produção, que é o único caminho que não depende da autorização de quem recusa.
Fontes: BBC News (14 de agosto de 2026), Netflix e The Africa Report.
A Editora Poder Afrikano existe pelo mesmo motivo: publicar o que o mercado diz que não tem público.
Marçal está inelegiível. Se candidatou mesmo assim. E bastou uma pergunta para a máscara cair.
Pablo Marçal em entrevista à TV Brasil Central, 2022. Foto: Wikimedia Commons.
Pablo Marçal está inelegiível. A decisão judicial existe, o impedimento também — e mesmo assim ele anunciou candidatura.
Numa entrevista, a pergunta chegou direta: “Você está ganhando dinheiro para tumultuar a eleição?”
A máscara caiu.
A candidatura que não é candidatura
Quem está inelegiível não pode vencer. Então, para que serve a candidatura? A resposta mais simples é a mais honesta: ela serve a quem está do lado de fora da urna — quem financia a perturbação, quem lucra com o caos, quem não precisa vencer para ganhar.
A pergunta que derrubou a máscara não perguntou sobre programa ou proposta. Perguntou sobre dinheiro. E a ausência de uma resposta satisfatória foi a resposta.
O mecanismo que Amos Wilson nomeia
Amos Wilson descreve em A Falsificação da Consciência Afrikana como a dominação racial não precisa operar só pela força: ela opera quando o dominado internaliza o projeto do dominador e passa a executá-lo de dentro. A candidatura inelegiível não é ambição de poder — é serviço prestado a quem nunca precisou das urnas para mandar.
Quem falsifica a própria consciência não tem candidatura. Tem senhor.
A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, dá nome ao mecanismo que transforma uma candidatura inelegiível num instrumento do projeto da branquitude.
A associação dos jornalistas negros dos EUA deu a Stephen A. Smith o prêmio Polegar para Baixo
Stephen A. Smith em janeiro de 2023. Foto: Moody College of Communication / CC BY-SA 2.0 / Wikimedia Commons.
No sábado, 15 de agosto, na convenção de 50 anos da NABJ, em Atlanta, a associação nacional dos jornalistas negros dos Estados Unidos entregou a Stephen A. Smith o prêmio Polegar para Baixo.
A entidade não apontou uma frase. Apontou um padrão: comentários públicos e recorrentes que depreciam mulheres negras de destaque na política, no esporte e na mídia. Segundo a NABJ, esse padrão reforça narrativas nocivas e prejudica a representação justa e respeitosa das mulheres negras no debate público.
A entidade disse os nomes
A NABJ citou a ex-vice-presidente Kamala Harris, a deputada Jasmine Crockett e o desentendimento público com a jornalista Joy-Ann Reid.
A presidente da associação, Errin Haines, resumiu a decisão: se a entidade vai levar a sério a defesa dos jornalistas negros e do próprio jornalismo, então às vezes é preciso dizer os nomes.
Três coisas que o caso não é
Não é um prêmio criado para ele. O Polegar para Baixo existe há anos, ao lado do Polegar para Cima, e faz parte do repertório normal da entidade.
Não foi entregue só a ele. No mesmo sábado o Polegar para Baixo foi também para a CBS News, para o Washington Post, para o presidente da FCC, Brendan Carr, e para o empresário DuJuan McCoy. Foi a maior leva da história da entidade.
Não é cancelamento. É uma categoria profissional cobrando publicamente de quem fala em nome dela. Smith já disse que vai rebater a associação, e esse direito é dele.
Quem paga a conta
Fica a pergunta que o prêmio coloca: o que acontece quando o microfone negro mais alto do país aponta para a mulher negra?
Amos Wilson deu nome a esse mecanismo. Em Violência Preta Contra Preto, ele trata a agressão entre pessoas negras não como desvio individual, mas como a violência da dominação redirecionada para dentro do próprio grupo, contra quem tem menos poder de revidar.
Um homem negro com o maior microfone do país mirando mulheres negras é o exemplo em estado puro. O livro explica o mecanismo e não absolve quem o aciona. O que a NABJ fez é a outra metade da história: o grupo se recusando a deixar passar.
Fontes: Capital B News (17 de agosto de 2026), The Root e theGrio.
Violência Preta Contra Preto, de Amos Wilson, trata da agressão dentro do grupo como efeito da dominação, e não como falha de caráter.
Uma cineasta negra brasileira e um fotógrafo suíço filmaram juntos o mesmo assunto: o projeto colonial
Sabrina Fidalgo em Berlim, 2012. Foto: Hypergirl / CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons.
No sábado, 15 de agosto, O Projeto abriu a Mostra Competitiva de Longas Documentais Brasileiros do 54º Festival de Cinema de Gramado.
É o primeiro longa de Sabrina Fidalgo, codirigido com o fotógrafo suíço Yvan Rodic, e levou seis anos sendo filmado em vários países. O documentário investiga os efeitos históricos e atuais do colonialismo europeu e da supremacia branca no Sul e no Norte globais, com depoimentos de Djamila Ribeiro, Erika Hilton e Grada Kilomba. Fidalgo define a obra como ensaística, performativa e poética.
O detalhe que está na ficha técnica
A divisão da direção é o argumento do filme, e não um dado de produção. Uma diretora negra brasileira, de um país colonizado. Um fotógrafo branco suíço, de um país que nunca teve colônia.
Só que a segunda metade dessa frase é menos limpa do que parece.
O país que não teve colônia
Um estudo da Universidade de Lausanne concluiu em 2005 que suíços participaram do financiamento de cerca de 1,5% do transporte de aproximadamente 11 milhões de pessoas escravizadas para as Américas.
A casa comercial Christoph Burckhardt e Cia., da Basileia, comprou cotas de 21 viagens negreiras entre 1783 e 1815. Tecidos, armas e álcool saíam da Suíça para a África Ocidental e voltavam convertidos em café e algodão.
Não é um país de fora da história colonial. É um país que ficou com a parte de dentro do lucro e sem a parte de fora da cobrança. Sem bandeira fincada em território nenhum, não há monumento para derrubar nem pedido de desculpas para cobrar. O capital circulou do mesmo jeito.
Onde assistir
O Projeto é produzido pela Gullane, em coprodução com Fidalgo Produções, Globo Filmes, GloboNews e Canal Brasil. O festival vai até 22 de agosto, e a estreia em circuito está marcada para 19 de novembro.
Fontes: Mundo Negro (17 de agosto de 2026), Coletiva.net, Museu Nacional Suíço e Universidade de Lausanne.
Entender o colonialismo como projeto, e não como acidente do passado, é o ponto de partida do catálogo da Editora Poder Afrikano.
Disseram que o cloro fazia mal à pele deles. Então compraram 60 mil metros e fizeram a própria piscina.
Elza Soares no II Encontro Afro-Latino, Bahia, 2010. Foto: Ministério da Cultura / CC BY 2.0 / Wikimedia Commons.
“O clube não era bom para negros porque a água da piscina tinha um produto que fazia mal à nossa pele.” Foi essa a desculpa que um diretor do clube Pinheiros deu a um amigo dos fundadores do Aristocrata, segundo Luiz Carlos dos Santos, um deles, em entrevista à revista Trip.
“Ali percebemos que, se quiséssemos ter uma piscina para a diversão dos nossos filhos e familiares, teríamos que construir nós mesmos.”
A exclusão tinha endereço
Em março de 1961 nascia o Aristocrata Clube, com sede social num conjunto comercial da rua Álvaro de Carvalho, no centro de São Paulo. Raul dos Santos foi o primeiro presidente. Nos primeiros meses entraram 600 sócios: funcionários públicos, advogados, profissionais liberais.
Eram pessoas negras de classe média que queriam frequentar os clubes tradicionais da cidade e não conseguiam. Regatas Tietê, Espéria, Paulistano, Pinheiros, Sírio-Libanês, Monte Líbano: ser “de cor” bastava para o pedido de sócio voltar com o carimbo de rejeitado, ou para a entrada no salão de bailes, no bar e na piscina ser barrada.
O único lugar dividido em igualdade dentro daqueles clubes era o campo de futebol, e mesmo assim só em dia de jogo contra os próprios clubes.
Sessenta mil metros quadrados, em 24 parcelas
A sede de campo veio depois. O terreno escolhido tinha 60 mil metros quadrados e relevo irregular, na Estrada do Bororé, no Grajaú, zona sul, então uma região de pequenas chácaras. Cinquenta sócios se cotizaram para quitar a dívida da compra em 24 parcelas.
As primeiras obras foram as piscinas: uma olímpica e uma infantil. Elas abriram em 1970, e a inauguração não tinha vestiário nem sede administrativa ao redor.
“Ela representou a redenção da elite negra paulistana. Muitos de nós nunca tinha entrado numa piscina”, contou Luiz Carlos, que quando pequeno nadava nas águas barrentas do rio Tietê. Aurea Maria Neves, que foi secretária geral do clube, definiu aquela piscina como um “grito de liberdade”.
Aos sábados, entre mil e 1.500 pessoas se dividiam entre as piscinas, o futebol, o basquete, o vôlei e o balé. No auge, na década de 1970, o Aristocrata tinha 3.600 sócios. A diretoria chegou a planejar uma escola e um hospital na região.
O palco
O clube também era palco. Segundo reportagem da Agência Mural publicada em 13 de agosto de 2026, passaram por ali Elza Soares, Jorge Ben Jor e, ainda segundo a Mural, os Jackson 5. Essa última passagem não é confirmada por nenhuma outra fonte, e fica registrada aqui como a agência publicou.
O Aristocrata não estava sozinho. No Rio de Janeiro, o Renascença Clube, fundado em 17 de fevereiro de 1951, tinha nome em homenagem ao Harlem Renaissance. Durante os anos 1960, 1970 e 1980, os dois formaram a ponte da elite negra entre as duas cidades.
O que sobrou, e o que fica
A sede de campo acabou desapropriada pela prefeitura. Em 2026, o terreno reabriu como Parque Linear Aristocrata, e é essa reabertura que traz a história de volta ao noticiário.
Vale prestar atenção no que exatamente aconteceu ali. Diante da recusa, aquele grupo não gastou energia pedindo revisão de estatuto nem esperando que os clubes mudassem de ideia. Comprou o terreno, parcelou a dívida entre cinquenta pessoas e construiu a instituição que faltava.
Amos Wilson descreve poder como a capacidade de erguer e sustentar as próprias instituições, com capital próprio, sem depender da autorização de quem exclui. O Aristocrata não é uma história de vítima. É a história de quem ouviu não e foi atrás da escritura.
Fontes: Agência Mural (13 de agosto de 2026), Primeiros Negros e entrevista de Luiz Carlos dos Santos à revista Trip.
Amos Wilson trata exatamente disso: construir instituição própria em vez de disputar espaço na instituição que exclui.
Ela foi a primeira quilombola mestra em Direito do Brasil. Agora é a primeira doutora.
Vercilene Dias. Reprodução: @vercikalunga.
Em 11 de agosto de 2026, Vercilene Francisco Dias defendeu sua tese no Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade de Brasília e tornou-se a primeira pessoa quilombola doutora em Direito do Brasil.
Não era a primeira vez que ela ocupava essa posição. No mestrado em Direito Agrário, na Universidade Federal de Goiás, já havia sido a primeira quilombola mestra em Direito do país.
Ser a primeira duas vezes não é elogio ao Brasil. É a medida do atraso dele.
Do território para a universidade, e de volta
Vercilene é do território Kalunga, em Goiás, o maior território quilombola do país, na região de Cavalcante. Formou-se em Direito pela UFG, fez o mestrado na mesma universidade e construiu a carreira em torno de direitos territoriais.
É advogada popular e exerceu funções jurídicas na Conaq, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas. Em 2022, entrou na lista “20 Mulheres de Sucesso” da Forbes Brasil.
A tese não estuda o quilombo de fora
O trabalho se chama “Começo, meio e começo: O Direito Achado Entre os Vãos do Território Quilombola Kalunga”. A pesquisa investiga como o povo Kalunga produz suas próprias formas de normatividade e organização social, articulando identidade, territorialidade, ancestralidade e vida comunitária.
O território aparece ali não como área no mapa, mas como lugar de memória, pertencimento e organização coletiva. E a tese examina a relação entre as práticas jurídicas que a comunidade desenvolveu e o direito do Estado, usando pluralismo jurídico, epistemologias negras e perspectivas contra-coloniais.
A conclusão aponta para a construção de uma teoria jurídica quilombola Kalunga comprometida com a autodeterminação e a justiça territorial.
Quem escreve a lei sobre o território
A titulação de terra quilombola é discutida no Brasil há décadas: em audiência, em processo, em projeto de lei. Quase sempre por gente que nunca morou em um quilombo.
O ponto da tese de Vercilene inverte a ordem: o quilombo já pratica um direito próprio, com mecanismos próprios de decisão, e o Estado chega depois. Chega, em geral, achando que está inaugurando alguma coisa.
Uma quilombola doutora em Direito muda quem tem autoridade reconhecida para dizer o que é direito quilombola. Que isso só aconteça em 2026 diz menos sobre ela e mais sobre a universidade brasileira.
A Tempestade é filha de uma princesa queniana. Em 26 anos de cinema, nenhuma das três atrizes é africana.
Halle Berry como Tempestade nos filmes X-Men. Reprodução: 20th Century Fox.
Em 14 de agosto de 2026, no D23, evento da Disney na Califórnia, Kevin Feige anunciou o elenco do novo filme dos X-Men no Universo Cinematográfico Marvel. Maya Boyd foi confirmada como Tempestade. A estreia está marcada para 5 de maio de 2028, com direção de Jake Schreier e roteiro de Michael Lesslie.
Boyd tem 23 anos, nasceu em Ann Arbor, no Michigan, e se formou em Teatro Musical pela Universidade de Michigan. Ficou conhecida ao viver Julieta em “& Juliet”, musical da Broadway. É a estreia dela no cinema: a Marvel entregou uma das personagens mais importantes do catálogo a uma atriz que nunca apareceu em tela.
O anúncio veio junto com o resto da equipe: Sadie Sink como Jean Grey, Kit Connor como Ciclope, Christopher Abbott como Professor X, Samara Weaving como Emma Frost, Inde Navarrette como Vampira e Adam Driver como o vilão Sr. Sinistro. Os X-Men não se reuniam nas telas desde “Fênix Negra”, de 2019.
Quem é Ororo Munroe
Agora a parte que quase não aparece na cobertura. Nos quadrinhos, Ororo Munroe é filha de N'Dare, princesa de um povo do Quênia, com o fotojornalista americano David Munroe.
Ela nasceu em Manhattan, foi levada para o Cairo com seis meses e perdeu os pais em um ataque aéreo quando ainda era criança. Descende de uma linhagem de sacerdotisas africanas e, antes de ser encontrada por Charles Xavier, era cultuada como deusa por comunidades africanas.
A origem africana não é detalhe de biografia. É a estrutura da personagem: uma divindade da chuva num continente onde chuva é a diferença entre colheita e fome.
Três atrizes, 26 anos
No cinema, o papel foi de Halle Berry, nascida em Cleveland, Ohio, na trilogia iniciada em 2000, e de Alexandra Shipp, nascida em Phoenix, Arizona, em “Apocalipse” (2016) e “Fênix Negra” (2019). Com Maya Boyd, de Ann Arbor, são três atrizes em 26 anos de franquia.
Nenhuma das três é africana.
Isso não diz nada sobre o talento de nenhuma delas. Berry construiu a personagem para o público de cinema, e Shipp assumiu o papel numa fase difícil da franquia. O que está em questão é outra coisa: um roteiro que herda uma personagem africana e entrega, três vezes seguidas, uma personagem americana.
A África como cenário
Quando a origem aparece nos filmes, aparece como paisagem: um trecho no Cairo, uma referência solta. O Quênia de N'Dare, a linhagem de sacerdotisas, a relação com as comunidades que a cultuavam: nada disso chegou à tela em 26 anos.
Há tempo para mudar. O filme só estreia em 2028, e Boyd inicia a carreira no cinema já com a personagem mais poderosa do elenco nas mãos. A pergunta que fica é se o roteiro vai tratar a África dela como origem ou como locação.
A bateria do carro elétrico passa por uma mina onde quem cobra pedágio não é o Estado.
Garimpeiros artesanais no Senegal oriental, 2012. Foto: Uzabiaga / CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons.
Toda bateria recarregável de carro elétrico, celular ou notebook começa no mesmo lugar: o lítio. E a África entrou na disputa por esse mineral pela porta mais frágil.
Mais de 40 mil toneladas de lítio já saem de rocha africana por ano, e a projeção é chegar a 500 mil toneladas até 2030. Os maiores produtores mundiais hoje são Chile, Austrália e China.
O que o estudo encontrou
A análise é de Bradley A. Mortin, pesquisador de geopolítica e estudos de guerra, publicada em 16 de agosto de 2026 pela AllAfrica em parceria com o The Conversation Africa. Ela cobre cinco países do Sahel: Mali, Níger, Burkina Faso, Chade e Nigéria.
A conclusão é que grupos armados estão se inserindo na cadeia do lítio. Eles taxam mineradores, controlam o acesso aos sítios, cobram de quem transporta o minério e vendem “segurança” onde o Estado não chega, exercendo, na prática, funções que seriam do Estado. Boko Haram e o ISWAP aparecem citados nominalmente.
País a país
Na Nigéria, a mineração de lítio cresce de forma informal e fora da fiscalização; grupos criminosos exigem pagamento por proteção e se infiltram nas cadeias legais e ilegais.
No Mali, grupos já enraizados na economia do ouro passaram a aplicar ao lítio o mesmo modelo de taxação e extorsão.
Em Burkina Faso, grupos jihadistas usam redes informais de mineração para gerar receita e ampliar influência local.
No Níger, a instabilidade e o enfraquecimento do controle de fronteiras depois do golpe de 2023 aumentaram o risco de contrabando: as rotas usadas para ouro e armas estão sendo adaptadas para o lítio.
No Chade, governança frágil e corrupção facilitam o comércio transfronteiriço ilícito.
Não é a primeira vez
O padrão é conhecido. Diamantes ajudaram a financiar guerras civis em Serra Leoa e Angola. O ouro sustentou grupos armados na África Ocidental. A riqueza do petróleo alimentou corrupção e instabilidade na Nigéria, em Angola e na Líbia.
A diferença agora é o destino: o minério que pode financiar conflito no Sahel é o mesmo que abastece a transição energética do Norte global. As baterias que ajudam o mundo a reduzir emissões podem, indiretamente, financiar alguns dos grupos armados mais letais do continente.
Antes que isso vire “a África é assim”
O próprio estudo aponta o contraexemplo. Botsuana regulou a cadeia do diamante, manteve controle sobre o fluxo do mineral e converteu a receita em infraestrutura, serviço público e crescimento.
Ou seja: a diferença nunca foi o minério nem o continente. É quem controla a cadeia. Onde a instituição é forte e o Estado mantém a mão no fluxo, o recurso vira hospital e estrada. Onde não é, vira pedágio de grupo armado.
A pressa da demanda global joga contra. Quanto mais rápido o mundo quer lítio, menos tempo os governos têm para montar a regulação, e é exatamente nessa fresta que o grupo armado se instala.
Fonte: AllAfrica / The Conversation Africa, 16 de agosto de 2026.
Inelegível até 2032, Marçal registra candidatura à Presidência mesmo assim.
Pablo Marçal. Foto: Wikimedia Commons.
O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo declarou Pablo Marçal inelegível por oito anos, até 2032. A decisão foi unânime. No mesmo dia, o PRTB registrou a candidatura dele à Presidência da República para as eleições de 2026.
O que o TRE-SP decidiu e por quê
A condenação é por uso indevido dos meios de comunicação durante a campanha municipal de 2024 em São Paulo. O instrumento central foi o chamado "campeonato de cortes": uma disputa organizada pela equipe de Marçal que estimulava criadores de conteúdo a editar e viralizar vídeos da candidatura com a hashtag #prefeitomarçal, com promessas de prêmio vinculadas ao desempenho dos posts. A competição correu entre junho e julho de 2024, antes mesmo do início oficial da campanha.
O TRE-SP entendeu que a mera organização da disputa, com a oferta de remuneração, favoreceu a disseminação massiva da candidatura de forma irregular, mesmo sem prova concreta de que os pagamentos foram efetivados. A tese da acusação por abuso de poder econômico foi rejeitada. A condenação por abuso dos meios de comunicação foi mantida, por unanimidade, com multa de R$ 420 mil.
Vale registrar o percurso: em novembro de 2025, uma segunda instância do próprio TRE-SP havia revertido a condenação. Em dezembro de 2025, o pleno do tribunal reverteu essa reversão e restabeleceu a inelegibilidade por oito anos.
A candidatura registrada: o que a liminar faz e o que não faz
Na manhã de 15 de agosto, um juiz da 428ª Zona Eleitoral de Santana do Parnaíba concedeu uma liminar que regularizou provisoriamente a filiação de Marçal ao PRTB, com efeito retroativo a 4 de abril. Horas depois, o partido registrou a candidatura ao Palácio do Planalto.
A liminar resolve a questão da filiação partidária enquanto os recursos tramitam. Ela não derruba a inelegibilidade imposta pelo TRE-SP. São duas coisas distintas: estar filiado a um partido é uma coisa; estar apto para concorrer é outra. O registro da candidatura não significa que ela será validada: o processo de análise pela Justiça Eleitoral ainda está em aberto.
O próximo passo é o TSE
A defesa de Marçal recorrerá ao Tribunal Superior Eleitoral. A candidatura correrá o país como sub judice por meses, o que, do ponto de vista de mobilização de base, tem valor independente do resultado. A narrativa de "perseguido pelo sistema" já está sendo construída, e o processo em aberto alimenta o engajamento dos seguidores.
O precedente do TRE-SP, porém, é específico: a plataforma digital foi tratada como meio de comunicação sujeito à legislação eleitoral, e a organização de uma disputa de viralização foi enquadrada como uso irregular desse meio. Esse entendimento dificilmente desaparece no TSE sem deixar rastro.
Fontes: TRE-SP, Aos Fatos, Conjur, Poder360 e Gazeta do Povo. 15 de agosto de 2026.
A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, analisa como o poder se sustenta pela narrativa, e como a percepção de perseguição pode ser usada para consolidar, e não enfraquecer, uma base política.
O epicentro caiu no departamento mais pobre da Colômbia. E no mais negro.
Casa danificada em Quibdó, Chocó, após o terremoto de agosto de 2026. Foto: WCK / CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons.
Às 7h34 de 10 de agosto de 2026, um terremoto de magnitude 7,4 sacudiu o ocidente da Colômbia. O epicentro ficou nas proximidades de San José del Palmar, no departamento do Chocó. Foi o sismo mais forte registrado no país neste século.
O balanço da Unidade Nacional de Gestão do Risco de Desastres, atualizado em 12 de agosto, contava 239 mortos, 3.755 feridos e 287 desaparecidos. A emergência alcançou 14 departamentos e 403 municípios, com 49.214 pessoas afetadas. Os danos estruturais mais graves apareceram em Cali, Manizales, Pereira e Quibdó.
O lugar onde o chão cedeu
O Chocó é o departamento com a maior população afrocolombiana do país, 82,1% segundo o censo. É também o mais pobre da Colômbia. Em 2025, 65,3% dos seus habitantes viviam abaixo da linha de pobreza monetária, a maior taxa entre todos os departamentos.
Os dois primeiros lugares não são de listas diferentes. São da mesma lista, lida de dois jeitos.
O terremoto não escolhe. A reconstrução escolhe.
Um tremor libera a mesma energia sobre a estrutura reforçada e sobre a casa de tábua. O que muda o resultado é o que já estava de pé antes e o que vai ser levantado depois. É nesse segundo tempo que o racismo ambiental faz o seu trabalho.
A Organização Nacional Indígena da Colômbia registrou 68.583 indígenas afetados em Caldas, Chocó, Quindío, Risaralda e Valle del Cauca. Quarenta e seis comunidades dos povos Embera e Wounaan tiveram impactos severos. No resguardo Copeg, do rio Ingará, em San José del Palmar, ou seja, no próprio epicentro, os danos foram graves.
A ONIC pediu avaliação de danos com enfoque étnico, censo das moradias rurais indígenas e envio de ajuda humanitária básica. Quando é preciso pedir que a contagem das vítimas leve em conta quem elas são, é porque a contagem padrão não leva.
O país já mostrou como reconstrói
Em 25 de janeiro de 1999, um terremoto de magnitude 6,2 atingiu o Eje Cafetero, com epicentro em Córdoba, no Quindío. Morreram 1.185 pessoas. O Estado criou um fundo dedicado ao caso, o FOREC, que coordenou a reconstrução até ser liquidado em 2002. O Banco Mundial e especialistas internacionais passaram a citar a experiência como exemplo bem sucedido de trabalho conjunto entre Estado e sociedade civil organizada.
Em 18 de outubro de 1992, um terremoto de magnitude 7,1 atingiu o Atrato Medio, entre o Chocó e o Urabá antioquenho. Murindó perdeu 95% da sua área urbana. O município foi transferido sete quilômetros, para a margem do rio Atrato, em caráter provisório. Décadas depois, continua lá.
Dois terremotos, o mesmo país. Um virou caso internacional de reconstrução. O outro virou uma mudança provisória que nunca terminou.
O que observar quando as câmeras forem embora
A parte visível de uma catástrofe é o resgate. A parte que decide o futuro é a reconstrução, e ela obedece a critérios que quase nunca viram notícia: título de propriedade, acesso a crédito, cadastro atualizado, capacidade de um município pequeno de escrever projeto e disputar recurso.
Território coletivo, posse sem título individual e comunidade rural distante do cartório entram nesses critérios em desvantagem. Não por decisão de ninguém em particular, o que é justamente o ponto.
O Chocó volta a ser notícia agora. Vale conferir daqui a um ano quem foi reconstruído.
Fontes: Servicio Geológico Colombiano, Unidad Nacional para la Gestión del Riesgo de Desastres, ONIC, DANE, El Colombiano, El Espectador e Infobae, 10 a 13 de agosto de 2026.
A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson, trata de como a versão oficial de um acontecimento decide o que o público lembra e o que o Estado se sente obrigado a resolver.
Filiaram Flávio Bolsonaro sem ele saber. O TSE descartou o hacker. E agora?
Na manhã de 13 de agosto de 2026, a certidão do TSE registrou Flávio Bolsonaro como filiado ao Partido Missão desde a véspera. Sem autorização dele. Sem autorização do PL. O TSE descartou ataque hacker, o que significa que alguém com credenciais reais do Missão executou a filiação deliberadamente.
O TSE reverteu a filiação em horas. Flávio voltou ao PL. Caso encerrado, pelo menos para a imprensa.
Por que a filiação ao Missão era uma armadilha
Filiado ao Missão, Flávio não poderia registrar sua candidatura pelo PL. E não poderia disputar pelo Missão tampouco. O partido já tem candidato presidencial registrado: Renan Santos, o próprio presidente da legenda.
Era um beco sem saída. A filiação não abria nenhuma porta. Só fechava uma. Quem a executou sabia exatamente o que estava fazendo.
Três hipóteses, nenhuma inocente
A primeira e mais sólida: sabotagem da candidatura. Alguém usou o sistema de registro partidário para bloquear o registro de Flávio no prazo. Não para trazê-lo ao Missão, mas para deixá-lo sem partido viável. O timing era cirúrgico: uma filiação indevida detectada tarde inviabilizaria a candidatura sem nenhuma ilegalidade explícita por parte do adversário.
A segunda: operação de desgaste do TSE. Demonstrar que credenciais legítimas de partido podem ser usadas para filiar qualquer pessoa a qualquer sigla cria dúvida sobre a integridade do processo eleitoral antes de 2026. O TSE já foi alvo dessa narrativa em 2022. O playbook foi testado.
A terceira: autossabotagem. A candidatura de Flávio Bolsonaro passava despercebida no noticiário. Agora está na capa de todos os veículos. Vitimização política com retorno de mídia garantido tem custo zero e efeito duradouro numa campanha que ainda não decolou.
O que ficou sem resposta
Renan Santos, presidente do Missão, disse que abrirá investigação interna. Mas se o próprio presidente do partido não sabe quem usou as credenciais da sua sigla, a resposta não virá facilmente, e talvez não convenha a ninguém que ela venha.
O sistema de filiação partidária no Brasil permite que qualquer credenciado de um partido registre a filiação de qualquer cidadão. A gente só ficou sabendo que isso era possível porque a vítima era um pré-candidato à Presidência monitorado de perto. Para um eleitor comum, essa filiação indevida poderia durar meses ou anos sem ser percebida.
Fontes: Metrópoles, O Globo, TSE. 13 de agosto de 2026.
Consciência Afrikano-Centrada versus Nova Ordem Mundial, de Amos Wilson, analisa como o poder se move através das instituições e quem controla os mecanismos que parecem neutros.
Pessoas negras são 72,7% da população presa no Distrito Federal. Na população livre, são 59,4%.
O Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura publicou em 7 de agosto de 2026 o relatório de uma inspeção feita em março nas unidades prisionais do Distrito Federal. O documento aponta que 72,7% das pessoas presas no DF são negras.
Brancos são 16,5%. Em 10% dos casos a raça sequer foi registrada.
A diferença entre a rua e a cela
Na população geral do Distrito Federal, pessoas negras são 59,4%. Atrás das grades, 72,7%.
São treze pontos percentuais de distância entre estar no mundo e estar preso. Essa distância não é acaso estatístico. É o retrato de quem a polícia aborda, de quem o sistema condena e de quem fica sem defesa paga.
O Centro de Internamento e Reeducação
Numa unidade a conta fica ainda mais nítida. No Centro de Internamento e Reeducação, 80% dos 3.026 presos são negros.
A unidade foi projetada para 1.527 pessoas e abrigava 2.988. Uma taxa de ocupação de 196%, quase o dobro da capacidade.
O relatório descreve o quadro como política de encarceramento em massa da população negra e parda na unidade federal.
O que o número obriga a perguntar
O Distrito Federal é a unidade da federação com a maior renda média do país. Tem a sede dos três poderes. É o lugar onde as leis são escritas.
E é ali que a distância entre a cor de quem anda na rua e a cor de quem dorme na cela aparece com essa clareza.
Fonte: Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura e Revista Afirmativa, 7 e 12 de agosto de 2026.
Violência Preta Contra Preto, de Amos Wilson, discute como a violência e a punição se organizam dentro da população negra e a serviço de quem.
A África do Sul repatriou quase 90 mil pessoas. Agora quer que o Malawi pague a conta.
A Autoridade de Gestão de Fronteiras da África do Sul informou ao parlamento que 89.936 pessoas foram repatriadas pelos postos de fronteira do país até 7 de agosto de 2026.
Os malauianos são o maior grupo, seguidos por zimbabuanos e moçambicanos. E boa parte dessas pessoas não saiu por ordem judicial. Saiu fugindo dos ataques xenófobos que se espalharam pelo país neste ano, num êxodo que a estatística oficial registra como repatriação.
A conta não fechou
A operação custou cerca de 292 milhões de rands, algo em torno de 18 milhões de dólares. O orçamento anual do Departamento do Interior para deportações era de 60 milhões de rands.
Gastou-se mais de cinco vezes o previsto. O transporte respondeu pela maior parte da despesa.
Quem paga pela decisão de quem
O governo sul-africano acionou o Departamento de Relações Internacionais e Cooperação, o Dirco, para pedir formalmente que Malawi, Nigéria e Etiópia reembolsem o custo de mandar seus cidadãos de volta.
A lógica do pedido merece ser lida devagar. A decisão de deportar foi da África do Sul. O orçamento subdimensionado era da África do Sul. A cobrança, porém, vai para os países de origem.
É uma inversão de responsabilidade travestida de acerto de contas. O país mais rico da região pede que três países mais pobres financiem a própria expulsão de seus filhos.
O que isso diz sobre a fronteira que a gente não discute
No Brasil, a conversa sobre migração africana quase não existe fora do noticiário de tragédia. Quando existe, trata o continente como origem de um problema, nunca como um lugar onde 89 mil vidas foram movidas em oito meses por decisão administrativa.
Amos Wilson escreveu sobre a dominação que se reproduz depois que o colonizador vai embora, quando a estrutura econômica permanece e ensina o dominado a cobrar do próprio irmão. Uma fronteira entre africanos que funciona com a mesma gramática da fronteira colonial não é soberania. É herança.
Fontes: Sunday Times, The Citizen, AllAfrica e Nyasa Times, 12 de agosto de 2026.
Consciência Afrikano-Centrada versus Nova Ordem Mundial, de Amos Wilson, trata exatamente de soberania econômica e de quem define as regras do jogo.
A PM chamou o chute de golpe legal previsto no manual
Em 20 de novembro de 2024, Marco Aurélio Cardenas Acosta, de 22 anos, estudante de medicina, morreu com um tiro no abdômen dentro do saguão de um hotel na Vila Mariana, zona sul de São Paulo.
O disparo partiu do soldado Guilherme Augusto Macedo. Segundos antes, o soldado Bruno Carvalho do Prado desferiu um chute contra o rapaz.
Dois processos, duas conclusões opostas
A própria Polícia Militar apurou a conduta dos dois.
Sobre Macedo, o relatório final do processo administrativo disciplinar classificou a ação como desnecessária e excessiva. O capitão que conduziu a apuração registrou que ele demonstrou ser refratário aos valores e deveres policiais militares e não reunia condições ético-morais de permanecer na corporação. A comissão recomendou a expulsão.
Sobre Prado, o Conselho de Disciplina recomendou o arquivamento. O argumento foi que ele não contribuiu para o disparo e que o chute seria golpe legal previsto nos manuais da corporação.
O que a instituição não fez
Os dois se tornaram réus. A Justiça negou o pedido de absolvição sumária apresentado pela defesa, e ambos vão a júri popular.
Prado seguia em liberdade, submetido a medidas cautelares fixadas pelo juízo, até 3 de agosto de 2026, quando foi preso pela Corregedoria da Polícia Militar.
Não pela morte do estudante. A decisão apontou que, enquanto cumpria aquelas medidas, ele se envolveu em episódio de ameaça e lesão corporal contra a própria esposa, em contexto de violência doméstica e familiar, e que a prisão era necessária para garantir a ordem pública. Ele está no Presídio Militar Romão Gomes, unidade que abriga apenas policiais militares.
Quem discordou
A corporação examinou esse homem e concluiu que ele não havia feito nada de errado. O chute estava no manual.
Quem discordou foi a mulher que morava com ele.
Quando a instituição se examina, ela se absolve. O que a tira dessa posição não costuma vir de dentro.
Fontes: CNN Brasil, Metrópoles, Ponte Jornalismo, Notícias ao Minuto e Folha de S.Paulo, 2024 a 2026.
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Tupac Shakur foi alvejado na noite de 7 de setembro de 1996, em Las Vegas, e morreu seis dias depois, em 13 de setembro, aos 25 anos.
Passaram-se 27 anos até que alguém fosse acusado.
Quem estava no carro
No veículo de onde partiram os disparos estavam quatro homens. Duane Davis, conhecido como Keffe D, ia no banco do passageiro da frente. No banco de trás iam Orlando Anderson, sobrinho dele, e DeAndre Smith.
A investigação nunca estabeleceu qual dos dois disparou. Perguntado se Anderson havia atirado, Davis respondeu que ele fez o que tinha de fazer. Anderson negava qualquer participação, e um integrante da mesma facção testemunhou que o autor teria sido Smith.
Anderson foi morto em um tiroteio em 1998. Smith também já morreu. Restou um.
Por que ele
Davis não responde por ter atirado. A acusação sustenta que ele obteve o revólver e o passou para o banco de trás, e que fez as ligações que levaram ao ataque.
O caso permaneceu parado durante décadas. O que o reabriu foram as declarações públicas do próprio Davis, em entrevistas e em um livro de memórias em que narra o envolvimento. A polícia de Las Vegas afirmou que esses relatos forneceram material que a investigação não tinha.
Ele foi indiciado e preso em 2023, tornando-se a primeira pessoa acusada na história do caso. Declara-se inocente. A seleção do júri começou em 10 de agosto de 2026, no Tribunal do Condado de Clark, e o julgamento deve durar cerca de um mês.
Davis é, ao mesmo tempo, o réu e a principal testemunha, porque todos os outros ocupantes do carro morreram.
Seis meses depois, o outro
Em 9 de março de 1997, Christopher Wallace, o Notorious B.I.G., foi morto a tiros em Los Angeles, na saída de uma festa da indústria da música, diante de dezenas de testemunhas.
Ninguém jamais foi acusado. O FBI chegou a abrir uma investigação e a encerrou em 2005. São quase trinta anos.
A palavra que serve de prova
Nos Estados Unidos, letras de rap foram apresentadas como prova de culpa em processos criminais com tanta frequência que a Califórnia aprovou, em setembro de 2022, uma lei restringindo a prática. A AB 2799 passou por unanimidade nas duas casas legislativas. No mesmo ano foi apresentado no Congresso o projeto federal conhecido como RAP Act.
Pesquisas empíricas mostram que o próprio rótulo de rap aumenta o viés do júri, mesmo quando as palavras são idênticas às de uma canção de outro gênero.
Quando o artista negro é o réu, a palavra dele vira confissão. Quando ele é a vítima, vira ruído de fundo, e o caso espera 27 anos até que um suspeito publique a própria versão em livro.
Fontes: PBS NewsHour, CNN, NBC News, 8 News Now, Variety e Foundation for Individual Rights and Expression, 1996 a 2026.
Violência Preta Contra Preto, de Amos Wilson, nos volumes I e II
A única linha do formulário que ninguém confere é a que move R$ 4,9 bilhões
Todo candidato preenche uma ficha de registro no Tribunal Superior Eleitoral. São dezenas de campos.
Ninguém erra o CPF. Ninguém erra o número do partido. Ninguém erra o nome de urna. Esses dados o sistema confere sozinho, e o erro aparece na hora.
Existe uma linha que ninguém confere, e é a linha da cor.
Não é cota. É dinheiro.
Nenhum partido é obrigado a lançar candidato negro. Não existe cota de candidatura.
O que existe é regra de financiamento: cada partido precisa destinar no mínimo 30% dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha às candidaturas de pessoas autodeclaradas pretas ou pardas, além de tempo proporcional de rádio e televisão. Neste ano o fundo é de R$ 4,9 bilhões, distribuídos entre 30 partidos.
É a única linha do formulário que move dinheiro. E é a única que não passa por verificação.
Na Bahia, na mesma chapa
O deputado Elmar Nascimento, do União Brasil, declarou-se branco em 2018, pardo em 2022 e aparece como preto no registro de 2026. Ele afirma que houve erro de digitação do partido no preenchimento e diz já ter pedido a correção ao TSE.
O senador Angelo Coronel, do Republicanos, declarou-se branco em 2014 e em 2018 e agora aparece como pardo. A assessoria dele fala em erro de preenchimento.
Questionado sobre o caso de Elmar, o prefeito de Salvador, Bruno Reis, usou a mesma expressão: erro de preenchimento.
Os três integram o mesmo arranjo eleitoral na Bahia. O União Brasil oficializou ACM Neto como candidato ao governo do estado e homologou Coronel e João Roma para as duas vagas ao Senado.
E ACM Neto fez o caminho inverso: era pardo em 2022 e se declara branco em 2026.
Não é um caso baiano
Comparando os registros de 2018 e 2022 no banco de dados do TSE, mais de 1.380 candidatos alteraram a autodeclaração racial. A mudança mais comum foi de branco para pardo: 547 casos.
Um levantamento independente que analisou 6.295 candidatos encontrou 1.348 alterações, uma a cada cinco.
E o número que resume a distorção: um em cada três negros eleitos em 2022 já havia se declarado branco em eleição anterior.
O que ainda não se sabe
Quantos candidatos mudaram a autodeclaração entre 2022 e 2026 é uma conta que ainda não pode ser feita. O prazo para os partidos registrarem as candidaturas termina às 19h de 15 de agosto de 2026, e mesmo depois disso a Justiça Eleitoral segue notificando, abrindo prazo de correção e julgando impugnações caso a caso.
Na Paraíba, três candidatos já foram notificados e terão de explicar as alterações.
O que se sabe é que a explicação se repete, e que ela sempre recai sobre a mesma linha.
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral, CNN Brasil, Poder360, Alma Preta, Gazeta do Povo, JOTA e Ministério Público Federal, 2022 a 2026.
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Bastou uma foto para tirar 2.174 dias da vida dele
Em novembro de 2015, um homem foi esfaqueado e teve o carro levado em Irajá, na zona norte do Rio.
A vítima ainda se recuperava no hospital quando agentes mostraram a ela a fotografia de Sílvio José da Silva Marques, o lutador conhecido como Sílvio Pantera. E disseram, falsamente, que ele já havia confessado o crime.
Nenhuma testemunha o reconheceu. Não havia outra prova. Em 2017 ele foi condenado a 16 anos de prisão.
2.174 dias
É quanto tempo Sílvio ficou preso por um crime que não cometeu. Quase seis anos.
O Superior Tribunal de Justiça considerou ilegal o reconhecimento fotográfico que sustentava a condenação, e ele deixou a prisão em 2021. Em 5 de agosto de 2026, a 7ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Rio reconheceu, por unanimidade, o direito dele a indenização do Estado.
Nesse intervalo, ele se separou da mulher e dos filhos e perdeu a carreira. Hoje trabalha como entregador e dá aula de boxe para crianças em comunidades da zona oeste.
Ele não é exceção. Ele é o padrão.
Um levantamento do Colégio Nacional dos Defensores Públicos Gerais, feito com a Defensoria Pública do Rio de Janeiro, mapeou as prisões injustas provocadas por reconhecimento fotográfico no país entre 2012 e 2020.
Foram 90 pessoas presas sem nenhuma prova além de uma foto no catálogo da delegacia. Ficaram, em média, nove meses atrás das grades. 73 dos 90 casos aconteceram no Rio de Janeiro.
E o dado que resume tudo: negros são 83% dos presos injustamente por esse método. O perfil se repete caso a caso, jovem, pobre e negro.
Sílvio ficou 2.174 dias. A média é de nove meses. Ele passou sete vezes mais tempo preso que a média de um erro que já é rotina.
Fontes: Geledés, Migalhas, Poder360, Condege e Defensoria Pública do Rio de Janeiro, 2024 a 2026.
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Para prender o pobre basta uma foto. Para prender o de terno, precisou da PF.
Nos últimos meses, a Polícia Federal prendeu ou mirou em investigações um juiz federal, um delegado da própria corporação, o presidente da Assembleia Legislativa do Rio, um deputado estadual, um ex-secretário estadual, um ex-secretário da Polícia Civil e um ex-prefeito da Baixada Fluminense que se preparava para disputar o Senado. Somam-se a eles bicheiros, um pastor, empresários e policiais militares.
Para quem acompanha segurança pública no Rio, é uma lista rara. Pela primeira vez, facções, postos de gasolina, jogo do bicho, gabinetes e togas aparecem na mesma investigação.
E há um detalhe que diz mais que a lista: não foi trabalho da polícia do Rio. Foi da Polícia Federal.
O que cada prisão custa
Não se trata de dizer que essas prisões são ruins. Investigar poder é exatamente o que deveria acontecer, e todos os citados respondem a processos, sem condenação definitiva.
A questão é outra: quanto custa alcançar cada um.
Para prender Sílvio Pantera, um lutador da zona oeste, bastou uma fotografia mostrada a uma vítima em um leito de hospital, acompanhada de uma mentira. Seis anos de prisão saíram disso, sem nenhuma outra prova.
Para chegar a um juiz, a um deputado e a um delegado foi preciso uma operação federal, com meses de investigação, escutas e cooperação entre órgãos.
O caminho barato produz erro em escala. Entre 2012 e 2020, 90 pessoas foram presas injustamente no Brasil por reconhecimento fotográfico, 73 delas no Rio, e 83% eram negras.
A polícia que mata e a polícia que investiga
A polícia do Rio é a que mais mata no país. Não é ela, porém, que chega ao andar de cima.
Amos Wilson tratava a percepção social como instrumento de poder, e não como reflexo neutro da realidade. Em Violência Preta Contra Preto, ele descreve como uma sociedade decide de antemão quem merece suspeita e quem merece o benefício da investigação, muito antes de qualquer prova ser examinada.
A diferença entre os dois casos não é a gravidade do crime. É quanto esforço o Estado considera justo gastar antes de tirar alguém de casa.
Fontes: The Intercept Brasil, Condege e Defensoria Pública do Rio de Janeiro, agosto de 2026.
Violência Preta Contra Preto, de Amos Wilson, nos volumes I e II
Ele é acusado de hipócrita por ser rico. Ela, de incompetente por ser pobre.
As declarações de bens entregues à Justiça Eleitoral colocaram dois deputados federais lado a lado nesta semana.
Nikolas Ferreira declarou R$ 36.820 em 2022. Em 2026, declarou R$ 3,89 milhões. Um crescimento de 10.488%.
Erika Hilton declarou R$ 15.975,73. Em 2022 havia declarado quase R$ 20 mil. Ela não ficou parada: encolheu cerca de 20%. A maior parte do que informou está numa conta corrente da Caixa, R$ 13.602.
O que o número dele esconde, e o que isso não significa
A maior fatia do patrimônio declarado por Nikolas é um imóvel financiado, avaliado em R$ 2,23 milhões, com saldo devedor de R$ 1,7 milhão. Declaração eleitoral não é patrimônio líquido.
E é preciso dizer com todas as letras: não há nada na declaração dele que indique irregularidade. A comparação entre duas declarações não permite concluir origem de recursos nem apontar ilícito. Quem transforma isso em acusação troca um argumento forte por um fraco.
O argumento forte é outro.
A pergunta que ninguém fez
A internet se voltou contra ela. Como alguém que recebe mais de quarenta mil por mês não consegue comprar uma casa? Que gestão é essa? Se não cuida do próprio dinheiro, como vai cuidar do público?
Erika respondeu que é impossível enriquecer na política sendo honesta, e que o salário dela sustenta a família e pessoas próximas.
Ninguém fez a pergunta inversa com a mesma energia. Por que um homem branco entra na política e consegue transformar mandato em patrimônio, e uma mulher trans negra entra e sustenta a família inteira com o salário?
Um dado ajuda a enxergar o tamanho da estrutura. O patrocínio da Parada do Orgulho de São Paulo caiu de onze marcas em 2025 para quatro em 2026, o menor número desde 2018. Os trios elétricos foram de vinte para catorze. A organização atribui a queda à retração do apoio corporativo às pautas de diversidade.
O espelho
Na mesma semana, o ator Wagner Moura foi chamado de hipócrita por defender justiça social sendo rico. No programa Conversa com Bial, ele descreveu a crítica que recebe e respondeu com uma pergunta: quanto é que você precisa ganhar para deixar de acreditar em justiça social?
Repare no espelho. Ele é acusado de hipócrita por ser rico. Ela é acusada de incompetente por ser pobre.
Se ele tem dinheiro, é contradição. Se ela não tem, é incapacidade. Ele defende quem não tem, e ouve que não tem moral para falar. Ela é quem não tem, e ouve que não tem competência para estar ali.
Em nenhum dos dois casos o argumento é sobre o que a pessoa fez. É sobre quanto ela tem. Não existe quantia certa, porque a conta nunca foi sobre dinheiro. A régua muda conforme quem está sendo medido, e pesa mais em cima de quem já carregava mais.
Fontes: TSE, Poder360, Metrópoles, Revista Fórum e Promoview, agosto de 2026.
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Chamam Mandela de o último rei filósofo. E a África do Sul expulsa africanos.
Um ensaio publicado em julho na Africa Is a Country, assinado por Sarah Setlaelo, chama Nelson Mandela de o último rei filósofo da África. O argumento é que a contribuição dele ao mundo das ideias não foi a oratória nem a teoria, e sim o pragmatismo: a ausência de purismo ideológico.
Se o pragmatismo deu tão certo, por que a África do Sul está hoje expulsando africanos?
A dívida com a vizinhança
O Congresso Nacional Africano, partido de Mandela, ficou proibido dentro do próprio país por trinta anos, de abril de 1960, depois do massacre de Sharpeville, até 2 de fevereiro de 1990.
Nesse período, quem abrigou os sul-africanos foram os vizinhos. A Zâmbia sediou o movimento no exílio, em Lusaka, de 1963 a 1994. A África do Sul livre existe, em parte, porque os países em volta bancaram.
O que acontece agora
Grupos como a Operation Dudula e o March and March promovem protestos, exigem documento de identidade de pessoas na rua e estipulam prazos informais para a saída forçada de imigrantes das comunidades. Deram 30 de junho como data limite para indocumentados deixarem o país. No dia, foram 120 protestos.
A Human Rights Watch documentou, em abril e maio de 2026, ataques de vigilantes contra estrangeiros africanos e asiáticos: pelo menos nove moçambicanos mortos, casas de ao menos 51 incendiadas e saqueadas. A organização registrou que houve pouca ou nenhuma resposta da polícia.
Desde 1º de janeiro, passaram de 40 mil as detenções de estrangeiros. O desemprego oficial está em 32,7% e chega a quase 43% quando se contam os que desistiram de procurar trabalho.
O presidente
Cyril Ramaphosa, do mesmo partido de Mandela, começou como fundador e secretário-geral do maior sindicato de mineiros do país, liderando greves contra a exploração no apartheid.
Hoje condena a xenofobia em público e afirma que aplicar lei de imigração é papel do Estado, e apenas dele. Ao mesmo tempo endurece a deportação, governa em coalizão com partidos anti-imigração e tem eleição local em novembro.
A diferença entre o governo Mandela e o de agora não é caráter. É projeto. O homem que organizou trabalhadores contra a exploração hoje preside o país que detém milhares desses trabalhadores, enquanto terceiros matam estrangeiros e a polícia olha para o lado.
Pragmatismo de quem, e para quem?
Fontes: Africa Is a Country, Human Rights Watch, Al Jazeera, Statistics South Africa e Daily Maverick, 2026.
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Lilian Ngoyi discursa no funeral de Ida Mntwana. Foto: Azola Dayile / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
Em 9 de agosto de 1956, cerca de 20 mil mulheres marcharam até os Union Buildings, em Pretória, sede do governo sul-africano. Levavam uma petição com mais de 100 mil assinaturas contra as leis de passe, que obrigavam pessoas negras a carregar documento para circular e trabalhar no próprio país.
Entregaram a petição e ficaram paradas. Trinta minutos em silêncio absoluto.
Da luta daquelas mulheres saiu a frase que virou lema na África do Sul: quando você bate numa mulher, bate numa rocha. A data é feriado nacional desde 1995. Neste domingo, faz 70 anos.
Quem estava na frente
Lilian Ngoyi e Sophia Williams-De Bruyn, as duas vindas da indústria têxtil. Helen Joseph, uma imigrante inglesa. Rahima Moosa, sul-africana de família indiana.
Ngoyi tinha sido enfermeira e costureira, e trabalhava como operadora de máquinas numa fábrica têxtil. Em 1954 virou a primeira mulher eleita para o executivo nacional do Congresso Nacional Africano. Sophia tinha 18 anos naquele dia, a mais jovem das quatro.
E a federação que organizou a marcha, criada em 1954, teve entre as fundadoras Ray Alexander Simons, uma imigrante da Letônia. Ela chegou à África do Sul em 1929, aos 15 anos, mandada para longe pela mãe por causa da perseguição a judeus e comunistas. Chegou fugindo.
Setenta anos depois
A luta contra o apartheid foi feita, sobretudo, por sul-africanos negros. Mas teve ajuda de fora, e parte dessa ajuda estava na frente daquela marcha.
O país que hoje dá prazo para estrangeiro sair foi libertado, em parte, por gente que tinha vindo de fora.
O preço
Quatro meses depois da marcha, em dezembro de 1956, Ngoyi foi presa entre os 156 acusados no julgamento de traição. Em 1963, passou 71 dias sozinha numa cela. De 1962 a 1972 viveu sob ordens de banimento, que restringiam aonde podia ir e com quem podia falar.
Fontes: South African History Online, Wikimedia Commons e Africanews, 2026.
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O djidji ayôkwê, tambor falante do povo Atchan. Foto: UNESCO
Em 1916, a administração colonial francesa confiscou em Abidjan um tambor de três metros de comprimento e 430 quilos. Ele foi enviado para a Europa e acabou no acervo do Museu do Quai Branly, em Paris.
Chama-se djidji ayôkwê. É um tambor falante do povo Atchan, e as mensagens rituais tocadas nele alcançavam mais de vinte quilômetros de distância.
Por que ele foi levado
Essa é a parte que costuma ficar de fora quando se fala em saque de arte africana.
O djidji ayôkwê avisava a população sobre as operações de trabalho forçado dos colonizadores e convocava combatentes. Não foi levado como peça de arte. Foi silenciado como meio de comunicação da resistência.
A volta, 110 anos depois
A Costa do Marfim pediu a devolução em 2018, junto com outras 148 peças levadas durante o período colonial. O parlamento francês aprovou por unanimidade uma lei permitindo a restituição.
O tambor desembarcou em Abidjan neste ano e será exposto no Museu das Civilizações da Costa do Marfim.
O que se leva junto com um objeto
Amos Wilson tratava a produção de narrativa histórica como instrumento de poder, e não como registro neutro do passado. Em A Falsificação da Consciência Afrikana, ele descreve o que acontece com um povo quando os próprios instrumentos de memória são retirados de circulação.
Saiu de Abidjan um objeto que servia para alertar uma população inteira. Voltou um objeto de museu. Entre uma coisa e outra passaram 110 anos, e o que se perdeu no caminho não foi a madeira.
Fontes: UNESCO, Africanews, Público e Istoé, 2026.
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Nasceu escravizado, virou general aos 31 e virou romance sem ninguém saber
Thomas-Alexandre Dumas, por Guillon Lethière. Domínio público, via Wikimedia Commons
Ele nasceu em 25 de março de 1762, em Jérémie, na colônia francesa de Saint-Domingue, onde hoje é o Haiti.
O pai era o marquês Alexandre Antoine Davy de la Pailleterie, nobre branco e proprietário de terras. A mãe, Marie-Cessette Dumas, era uma mulher africana escravizada. Pela condição da mãe, ele nasceu escravizado.
Em 1776 o pai o levou para a França e o matriculou nos estudos. Escravidão era ilegal em solo francês metropolitano desde 1315, então pisar na França bastava para torná-lo livre.
O sobrenome que ele escolheu
Quando entrou para o Exército, em 1786, aos 24 anos, alistou-se como soldado raso. E não usou o nome do pai nobre.
Assinou Dumas, o sobrenome da mãe escravizada.
Em 1792 era tenente-coronel da Legião Negra. Em 1793 chegou a general de brigada e, no mesmo ano, a general de divisão. Aos 31 anos comandava 53 mil soldados como general em chefe do Exército dos Alpes. É o primeiro general negro conhecido da história da França.
Lutou nos Pirineus Ocidentais, nos Alpes, no Tirol e no Egito. Numa ponte sobre o rio Eisack, segurou sozinho uma investida inimiga, feito que rendeu de Bonaparte o apelido de Horácio Cocles do Tirol.
O preço
Em 1799, voltando do Egito, o navio em que viajava aportou em Taranto, no Reino de Nápoles, território inimigo. Foi capturado e ficou preso quase dois anos.
Saiu de lá em 1801 com a saúde destruída e perda parcial da visão. Nunca se recuperou. Morreu em 26 de fevereiro de 1806, em Villers-Cotterêts, aos 43 anos, depois de ter os direitos restringidos na França que ele tinha ajudado a defender.
O filho tinha quatro anos
O menino cresceu ouvindo as histórias do pai que quase não conheceu. Chamava-se Alexandre Dumas.
Escreveu Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo, dois dos livros mais lidos do mundo, e levou para dentro deles elementos da trajetória paterna. A prisão injusta que rouba os melhores anos de um homem, no centro de Monte Cristo, não foi invenção de romancista. Foi memória de família.
O neto, Alexandre Dumas filho, também virou escritor.
O que se aprende com o apagamento
Milhões de pessoas leram Monte Cristo. Quase ninguém sabe que o general negro que inspirou parte daquilo existiu de verdade, comandou dezenas de milhares de homens e assinava com o sobrenome da mãe escravizada.
Amos Wilson tratava a produção de narrativa histórica como instrumento de poder, e não como registro neutro do que aconteceu. Em A Falsificação da Consciência Afrikana, ele descreve como um povo aprende a se ver menor quando os próprios feitos chegam até ele sem nome e sem origem.
A história do general Dumas não foi perdida. Foi guardada em outro nome.
Fontes: Mundo Negro, Britannica, BlackPast e Wikimedia Commons, 2026.
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8 de agosto de 2026InvestigativoViolência policial
No Paraná a página caiu em dias. Em São Paulo o júri absolveu.
Em 10 de julho de 2025, Igor Oliveira de Moraes Santos, de 24 anos, foi morto dentro de uma casa em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, durante uma operação policial.
A câmera corporal de um dos policiais registrou a cena. As imagens mostram Igor com as mãos na cabeça quando os tiros foram disparados.
A juíza Luciana Menezes Scorza pronunciou quatro policiais militares da Rocam, do 16º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano, para julgamento por homicídio qualificado. Manteve as qualificadoras de motivo torpe e de recurso que dificultou a defesa da vítima.
Em 30 de julho de 2026, depois de três dias de julgamento, o Tribunal do Júri absolveu os dois cabos apontados como autores dos disparos. O Ministério Público de São Paulo e os advogados da família recorreram da decisão.
Igor deixou uma filha de três anos. O 16º BPM/M é o segundo batalhão mais letal do estado, atrás apenas da Rota.
E não foi por falta de prova
Esse é o ponto que costuma escapar quando um caso desses termina em absolvição.
Na época da morte, o porta-voz da Polícia Militar, coronel Emerson Massera, declarou publicamente que a conduta dos agentes tinha sido "uma ação ilegal, não legítima, que levou à prisão". Os dois policiais foram presos em flagrante. O então secretário de Segurança Pública do governo de São Paulo, Guilherme Derrite, pediu apuração rigorosa.
A própria corporação classificou a ação como ilegal, prendeu os envolvidos, e o governo mandou apurar. O júri absolveu mesmo assim.
Agora olhe para o Paraná
Um perfil chamado Militar do Paraná, com quase 23 mil seguidores no Instagram, publicava imagens de pessoas mortas, feridas e torturadas, associando o conteúdo à Polícia Militar do estado. Os seguidores eram direcionados para um grupo fechado no Telegram, onde o material sem censura era vendido por assinatura mensal de R$ 20, cobrada por Pix.
O grupo tinha mais de cem participantes, o que dava cerca de R$ 2 mil por mês.
O deputado estadual Renato Freitas denunciou o esquema em 22 de julho. O perfil saiu do ar. O caso foi encaminhado ao Ministério Público do Paraná, e o Gaeco abriu investigação sobre a comercialização das imagens, em conjunto com a Secretaria de Segurança Pública.
Um esclarecimento necessário: a polícia identificou o responsável pela página como um homem de 22 anos que, segundo a Sesp, não é policial e não tem vínculo aparente com as forças de segurança. O que está sob investigação, em separado, são as próprias imagens de tortura atribuídas a policiais militares.
A pergunta que fica
No Paraná, um parlamentar denuncia e em poucos dias a página sai do ar, o Ministério Público é acionado e o Gaeco investiga.
Em São Paulo existe a gravação feita pela câmera do próprio policial, existe a decisão de uma juíza mandando quatro homens a júri por homicídio qualificado, e mesmo assim o júri absolve.
A diferença entre os dois casos não é a quantidade de prova. É o que cada um deles obriga a sociedade a encarar. Fechar uma página é um gesto de fácil consenso: ninguém defende publicamente a venda de vídeo de gente morrendo. Condenar policiais exige aceitar que um jovem negro rendido, com as mãos na cabeça, era uma vítima.
Amos Wilson escreveu sobre como a percepção social decide antecipadamente quem merece proteção e quem merece suspeita, muito antes de qualquer prova ser examinada. Em Violência Preta Contra Preto, ele trata dessa hierarquia silenciosa que atravessa instituições inteiras e chega até a sala do júri.
O júri viu a mesma imagem que você veria. E decidiu de outro jeito.
Fontes: Ponte Jornalismo, ICL Notícias, Metrópoles, Terra, Revista Fórum e Tribuna do Paraná, julho de 2025 a agosto de 2026.
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Maria da Penha em novembro de 2018. Cesar Itiberê, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.
A Lei 11.340 foi sancionada em 7 de agosto de 2006. Faz 20 anos hoje. É, provavelmente, a legislação brasileira mais conhecida pelo nome de uma pessoa, e a história dessa pessoa explica por que ela existe.
Ela sobreviveu duas vezes
Maria da Penha Maia Fernandes é farmacêutica bioquímica, cearense. Em 1983 sofreu duas tentativas de homicídio do próprio marido, o professor colombiano Marco Antônio Heredia Viveiros. Na primeira, levou um tiro nas costas enquanto dormia, e ele alegou que os dois tinham sido vítimas de um assalto. Ela ficou paraplégica. Depois disso, ele tentou matá-la outra vez.
Ele foi condenado em 1991 e de novo em 1996. Recorreu das duas condenações e passou 15 anos em liberdade mesmo sentenciado.
Foi essa impunidade que levou o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que em 2001 condenou o Estado brasileiro por negligência e omissão diante da violência doméstica. A lei veio cinco anos depois, sob pressão internacional. Não veio por iniciativa espontânea de ninguém.
Os números de agora
Vinte anos depois, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 e o levantamento do Geledés:
57% das vítimas de violência doméstica são mulheres negras
65% das vítimas de feminicídio são mulheres negras
E há um detalhe que muda a leitura de tudo: a violência contra mulheres brancas vem caindo, enquanto a violência contra mulheres negras continua subindo. Mesmo país, mesma lei, mesmo período, resultados opostos.
O ponto cego
O Geledés aponta onde a política falha, e o argumento é incômodo justamente por ser preciso. Maria da Penha é uma mulher branca, de classe média, escolarizada, e esse perfil virou o modelo aplicado na rede de atendimento inteira.
Vale ser explícito, porque o assunto se presta a má-fé: a crítica não é a ela. Maria da Penha é vítima, sobrevivente e militante, e a lei que leva o nome dela salvou e salva vidas. A crítica é ao desenho de uma política pública que tomou um caso como medida de todos os casos.
Os buracos que o levantamento identifica são concretos: raça está ausente da formulação das políticas; a formação das equipes técnicas não trata a dinâmica racial da violência; há subnotificação e negligência profissional no atendimento; e existem 11 Casas da Mulher Brasileira em todo o território nacional.
O que uma lei não alcança sozinha
Uma mulher negra que procura atendimento encontra uma rede desenhada para outra biografia. Ela não é recusada na porta: é atendida por um protocolo que não foi pensado para o que ela vive, por profissionais que não foram formados para enxergar a camada racial do que está acontecendo com ela.
Amos Wilson chamou de consciência falsificada o mecanismo de tomar uma imagem particular como se fosse universal. O que não cabe nela não vira exceção reconhecida e corrigida. Vira atendimento pior, com aparência de igualdade. É o argumento de A Falsificação da Consciência Afrikana.
Fontes: Geledés Instituto da Mulher Negra, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, Comissão Interamericana de Direitos Humanos e Mapa do Acolhimento.
A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson
O racista não era da torcida. Era o pai de um jogador.
Ilustração gerada por IA representando o gesto antirracista da FIFA. Nenhuma pessoa real retratada.
Campeonato Paulista Sub-15, Votoraty contra Referência, no Estádio Domênico Paolo Metidieri, em Votorantim, interior de São Paulo. Fim do primeiro tempo. Quando a arbitragem saía de campo em direção ao vestiário, um homem na arquibancada chamou o árbitro Marcos Roberto de Jesus Nunes de macaco.
Quem estava na arquibancada
Não era um torcedor anônimo no meio de uma multidão. Era o pai de um dos atletas do Votoraty.
Ele foi identificado por outros torcedores, por parte da equipe de apoio e pela própria segurança do estádio, que testemunharam a ofensa. Em seguida foi conduzido à delegacia de Votorantim.
O que o árbitro fez
No início do segundo tempo, Marcos acionou o protocolo antirracista da FIFA e abandonou a partida. Não esperou o jogo acabar para reclamar depois. Saiu do estádio e foi até a delegacia mais próxima registrar boletim de ocorrência.
O gesto que ele tinha à disposição
O sinal existe desde maio de 2024, quando foi aprovado no 74º Congresso da FIFA, em Bangcoc, pelas 211 federações filiadas. Quem sofre a ofensa cruza os braços na altura dos punhos, formando um X, e isso comunica ao árbitro, ao quarto árbitro ou ao capitão que há ataque racista em curso.
A partir daí vem um protocolo de três etapas: paralisação temporária da partida; suspensão, se o ataque continuar; e abandono definitivo, se persistir. O gesto estreou na Copa do Mundo Sub-20 feminina de 2024, na Colômbia.
Repare na idade
Sub-15 quer dizer atletas de até 15 anos. O homem estava ali para ver o próprio filho jogar. As crianças estavam em campo quando aconteceu, e viram o que veio depois: o árbitro largar o apito e ir embora.
Elas aprenderam duas coisas ao mesmo tempo naquele sábado. Que um adulto responsável por uma delas grita ofensa racial numa arquibancada de futebol infantil. E que existe um procedimento, e que dá para usar.
Por que isso é raro
O protocolo existe há anos e quase nunca chega ao fim. Quem aciona costuma pagar caro: vira o assunto do jogo, é acusado de exagero, carrega o rótulo de problemático.
Marcos foi até o fim num jogo de base. Sem transmissão, sem câmera, sem plateia para aplaudir e sem nota de clube grande. Não houve manchete internacional. Houve um boletim de ocorrência e uma partida que não terminou.
Fontes: CNN Brasil, Revista Afirmativa, Alma Preta e FIFA, agosto de 2026.
Um estudo do Instituto Vladimir Herzog pôs preço numa operação policial e, no mesmo documento, mostrou em quem ela caiu. Os dois números só significam alguma coisa juntos.
O que foi a Operação Escudo
Uma operação da Polícia Militar de São Paulo na Baixada Santista, iniciada no fim de julho de 2023, depois que o soldado da ROTA Patrick Bastos Reis foi morto.
Foram 28 mortes em 40 dias na primeira fase. A concentração é o dado que descreve a natureza da coisa: entre 27 e 31 de julho de 2023, nos dias imediatamente seguintes à morte do policial, pelo menos 12 civis morreram.
A Operação Verão veio na sequência e foi até abril de 2024. Somadas, as duas resultaram em 84 mortes, três delas de policiais. Em fevereiro de 2024 houve dois dias com sete mortes cada.
A referência que o relatório usa
São consideradas as ações policiais mais letais de São Paulo desde o massacre do Carandiru, que matou 111 pessoas em 1992. Não é comparação retórica: é a régua que o próprio estudo aplica para dimensionar o que aconteceu.
Quem morreu
82% dos mortos eram negros
98% eram homens
a média de idade era de 29 anos
O relatório fala em letalidade seletiva e aponta tortura. A violência não se espalhou pela Baixada Santista de forma difusa: concentrou-se em jovens negros das periferias.
O que os R$ 349,9 milhões incluem
Não é o orçamento da operação. É o custo estimado da primeira fase, e o cálculo soma mobilização policial, sistema de Justiça, perícia, encarceramento, perda de capital humano das vítimas e outras despesas públicas associadas.
Dito de outro jeito: é a conta que o Estado paga para produzir os próprios mortos, e ela chegou a quase 350 milhões de reais em 40 dias.
Por que os dois números precisam ficar juntos
Separados, cada um vira outra discussão. O dinheiro sozinho vira debate de eficiência orçamentária. As mortes sozinhas viram estatística de segurança pública, que o país aprendeu a ler sem se mexer.
Juntos, dizem uma coisa só, e ela não admite paráfrase confortável: gastou-se quase R$ 350 milhões numa operação em que 82 de cada 100 mortos eram negros. Três anos depois, alguém finalmente fez essa conta.
Fontes: Instituto Vladimir Herzog, Ponte Jornalismo e CNN Brasil, julho e agosto de 2026.
Consciência Afrikano-Centrada versus Nova Ordem Mundial
Foto de arquivo da seleção feminina da Nigéria em Abuja, não do elenco de 2026. David Jane, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.
Em julho de 2026 a Confederação Africana de Futebol anunciou a maior premiação da história da Copa Africana de Nações feminina. A campeã passa a levar 2 milhões de dólares, o dobro do 1 milhão que a campeã da edição anterior recebeu. A vice sobe para 750 mil, um aumento de 50 por cento. O bolo total vai de 3,475 milhões para 5,8 milhões de dólares.
É recorde. Isso é verdade, e não é pouco: dobrar a premiação de uma competição feminina em uma única edição é um movimento real.
O número que a CAF não pôs no anúncio
O campeão da AFCON masculina desta temporada leva 10 milhões de dólares.
Mesma confederação. Mesmo continente. Mesma temporada. Cinco vezes mais.
Vale desmontar o que esse número significa. O recorde histórico do lado delas equivale a um quinto do que já é rotina do lado deles. Dobrar não encosta quando o ponto de partida é esse: para a campeã feminina alcançar o que o campeão masculino recebe hoje, a CAF precisaria dobrar a premiação delas mais duas vezes seguidas, e ainda assim os homens não podem receber nenhum aumento no caminho.
E há uma segunda camada, que este portal já tratou na semana passada. Esse dinheiro vai para a federação, não para a jogadora. As atletas do Senegal receberam o bônus da Copa Africana com nove meses de atraso, e só no dia do embarque, porque avisaram que sem pagamento ninguém entraria no avião. Aumentar o repasse não resolve sozinho o que acontece depois que ele chega.
O torneio que está acontecendo agora
A edição de 2026 é disputada no Marrocos, em Rabat e Casablanca, e é a primeira com 16 seleções, contra 12 nas anteriores.
Sete times já garantiram vaga nas quartas de final: Nigéria, Marrocos, África do Sul, Malawi, Camarões, Costa do Marfim e Argélia. A oitava vaga sai nesta quinta-feira, em Gana contra Mali, às 20h GMT, em Casablanca. Gana precisa apenas do empate.
A Nigéria chega como a maior potência da competição: 10 títulos e nenhuma final perdida em toda a história do torneio. O Marrocos joga em casa depois de perder a final da edição passada para as nigerianas, de virada, tendo aberto 2 a 0. A África do Sul foi campeã em 2022. O Malawi está na primeira participação e estreou vencendo a Nigéria por 3 a 2.
Por que isso interessa a quem está no Brasil
As quatro seleções que chegarem à semifinal estão automaticamente classificadas para a Copa do Mundo de 2027, que será disputada no Brasil.
Quer dizer: as quartas de final de sábado são, na prática, eliminatória de Copa do Mundo. Quatro dessas equipes vão jogar em solo brasileiro daqui a menos de dois anos, diante de um público que hoje não sabe o nome de uma única jogadora delas.
Isso dá tempo de mudar antes do primeiro apito. Mas não muda sozinho.
Lupita Nyong'o na Berlinale de 2024. Martin Kraft, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
Toda vez que uma atriz negra é escalada para um papel que o público imaginava branco, acontece a mesma coisa. E quase sempre, quando se vai olhar o material original, descobre-se que o papel nunca foi branco coisa nenhuma.
2026: Helena de Troia
Lupita Nyong'o interpreta Helena de Troia em A Odisseia, de Christopher Nolan, que estreou em 17 de julho. Elon Musk atacou a escalação publicamente, disse que Nolan escolheu a atriz porque quer os prêmios e pôs em dúvida a integridade do diretor.
Helena vem de um mito grego contado há quase três mil anos. O poeta descreveu a beleza dela e o efeito que causava, não a cor da pele. A ideia de que existe uma aparência canônica e verificável para uma personagem mitológica da Idade do Bronze é uma invenção recente, e não é dos gregos.
2012: Rue
Amandla Stenberg tinha 13 anos quando foi atacada por interpretar Rue em Jogos Vorazes. Aqui o caso é mais simples ainda: Suzanne Collins escreveu a personagem com pele marrom escura e olhos escuros, e isso está publicado desde 2008, quatro anos antes do filme.
Ainda assim houve quem escrevesse publicamente que a morte da personagem tinha ficado menos triste depois de descobrir que a atriz era negra. O público não estava defendendo o livro. Não tinha lido o livro.
2016: Hermione
Noma Dumezweni foi escalada como Hermione Granger em Harry Potter e a Criança Amaldiçoada. J.K. Rowling nunca especificou a raça da personagem em nenhum dos sete livros, e respondeu à revolta chamando os críticos de um bando de racistas.
Vale registrar o argumento que usaram contra a atriz, porque ele mostra o tamanho do esforço: alegaram que, como Hermione fica branca ao levar um susto, ela teria que ser uma mulher branca. Foi preciso caçar uma expressão idiomática no texto para sustentar uma conclusão que já estava pronta antes.
2022: Reva
Moses Ingram publicou os prints das mensagens racistas que recebeu por interpretar Reva em Obi-Wan Kenobi. A conta oficial de Star Wars respondeu que existem mais de 20 milhões de espécies sencientes naquela galáxia e que ninguém precisa escolher ser racista. Ewan McGregor gravou um vídeo em defesa dela.
E aqui está o detalhe que resume tudo: a Lucasfilm tinha avisado Moses Ingram, antes da estreia, de que ela provavelmente sofreria assédio racista. O estúdio não foi pego de surpresa. O estúdio sabia, calculou e comunicou à atriz.
O que se repete
Em um dos casos o livro dizia que a personagem era negra. Em outro, o livro nunca disse que era branca. Em outro, o papel vem de um mito de quase três mil anos, anterior a qualquer ideia moderna de raça. Em nenhum deles a história foi alterada. Mudou quem apareceu na tela.
E deixou de ser surpresa: virou item previsível o bastante para o estúdio incluir no briefing da atriz.
A briga, então, nunca foi por fidelidade ao original. É sobre quem tem o direito de ser o padrão sem precisar justificar, e quem tem que provar que merece estar ali. Amos Wilson trata disso como consciência falsificada: quando uma imagem é imposta como universal, tudo o que escapa dela vira desvio a ser corrigido. É o argumento de A Falsificação da Consciência Afrikana.
Fontes: Variety, Slate, BBC, CBS News, HuffPost, Hollywood Reporter e Washington Post, 2012 a 2026.
A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson
Os Jogos da Commonwealth terminaram em 2 de agosto, em Glasgow. Quando as delegações se organizaram para deixar a Escócia, faltavam atletas.
A Polícia da Escócia confirmou ter recebido relatos de vários competidores não localizados e disse que apura as circunstâncias, em contato inicial com o Ministério do Interior britânico. Entre os ausentes estão quatro integrantes da equipe de boxe de Uganda e um boxeador do Paquistão, que não estava no alojamento quando os dirigentes chegaram para levar o time ao aeroporto. Parte da imprensa britânica fala em até sete atletas.
Uma decisão editorial deste portal
Os nomes foram publicados pela imprensa britânica. Não vamos repeti-los aqui.
São pessoas que, pelo que se noticia, podem estar em processo de pedir asilo. Nome de solicitante de asilo circulando é risco: para a própria pessoa, enquanto o pedido não é decidido, e para a família que ficou no país de origem. A notícia se conta inteira sem os nomes, e o que importa aqui não é quem são, é por que isso acontece toda vez.
O que se sabe e o que não se sabe
O veículo esportivo ugandense NBS Sport noticiou que um dos atletas ausentes afirmou que o grupo pretendia pedir asilo na Escócia para seguir com a carreira no boxe, citando melhores condições de treino.
Isso é o que foi noticiado, e vale marcar o limite: não houve declaração pública dos atletas, nem confirmação das autoridades britânicas sobre motivação. Qualquer coisa além disso é especulação, inclusive a mais simpática.
Não é a primeira vez, e não é coincidência
Aconteceu depois de Glasgow 2014. Aconteceu depois de Birmingham 2022. E os atletas que não voltam vêm, edição após edição, de países africanos e asiáticos.
Quando um padrão se repete em três edições seguidas, ele deixa de ser história individual e passa a ser característica do sistema. A pergunta certa não é por que aquelas pessoas ficaram. É o que existe do outro lado da passagem de volta.
Repare no nome da competição
Commonwealth. É a competição esportiva dos países que o Império Britânico colonizou. O atleta sai de Uganda, viaja para a Escócia, compete representando o país que a Inglaterra governou até 1962, e depois volta.
Durante duas semanas ele é bem-vindo, tem alojamento, credencial, transporte e cobertura de imprensa. Encerrada a cerimônia, a estrutura inteira que o trouxe se desmonta e o caminho para permanecer, treinar e trabalhar ali deixa de existir.
Pedir asilo, nesse desenho, não é fugir de uma competição. É a única porta que abre para quem já está do lado de dentro, e só enquanto está.
Fontes: Polícia da Escócia, Sky Sports, Inside the Games e NBS Sport, agosto de 2026.
Antes de ser uma das maiores atacantes do futebol africano, Barbra Banda foi boxeadora. Começou aos 14 anos, inspirada pela zambiana Catherine Phiri. Virou profissional por um motivo específico: as adversárias amadoras se recusavam a enfrentá-la. Foram seis meses de carreira, cinco lutas profissionais e cinco vitórias. Nas palavras dela: nunca perdeu uma luta, e então decidiu se concentrar em uma coisa só.
Escolheu o futebol. Tinha começado a jogar aos sete anos, em Lusaka, num clube que não tinha equipe feminina, então jogava com os meninos.
Os gols
Em 2020, no futebol chinês, fez 18 gols em 13 partidas e ganhou a Chuteira de Ouro da liga.
No ano seguinte, nos Jogos Olímpicos de Tóquio, aconteceu o que ninguém tinha feito: três gols contra a Holanda e três contra a China, em jogos seguidos. É a primeira futebolista da história olímpica a marcar hat-tricks consecutivos. Vale reparar no detalhe: a Zâmbia perdeu o primeiro jogo por 10 a 3 e empatou o segundo em 4 a 4. Ela fez seis gols em duas partidas que o time não venceu.
Julho de 2022
Em 6 de julho de 2022, a Confederação Africana de Futebol declarou Banda e mais três jogadoras da Zâmbia inelegíveis para a Copa Africana. O motivo: um exame de verificação de gênero apontou níveis de testosterona natural acima do permitido pelos critérios então vigentes.
Banda chegou a tomar medicação para reduzir o nível e, ainda assim, não passou no critério. A Human Rights Watch afirmou que os direitos dela foram violados e criticou as regras que submetem atletas a esse tipo de exame.
Cinco meses depois, em dezembro de 2022, a FIFA declarou que ela estava apta a competir. O corpo era o mesmo.
O que veio depois
Em 2024 ela se transferiu para o Orlando Pride, nos Estados Unidos, onde joga ao lado de Marta, a quem credita parte da própria evolução. Naquela temporada o clube ganhou os dois títulos da liga americana, a melhor campanha e o campeonato. Banda marcou o gol do título e foi eleita a melhor jogadora da final.
No mesmo ano foi escolhida Jogadora Africana do Ano pela CAF, Jogadora do Ano pela BBC, e entrou na seleção das onze melhores do mundo da FIFPRO, votada pelas próprias jogadoras profissionais. Nos Jogos de Paris, em 2024, fez outro hat-trick.
O corpo dela nunca foi o problema. O problema foi quem estava com a régua na mão.
Fontes: CAF, FIFA, Human Rights Watch, BBC, NWSL e Olympics.com, 2022 a 2026.
A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson
Em 28 de julho de 2026, o Malawi estreou na história da Copa Africana feminina. O adversário era a Nigéria, campeã do continente e a seleção mais bem ranqueada do torneio.
Malawi 3 x 2 Nigéria.
117 posições
A Nigéria é a 36ª do mundo, a melhor colocada entre as dezesseis seleções da competição. O Malawi é a 153ª, a pior de todas. Cento e dezessete posições separam as duas. Foi um dos maiores resultados inesperados nas quase três décadas do torneio.
O jogo
Temwa Chawinga abriu o placar aos 73 minutos. Seis minutos depois, a irmã mais velha dela, Tabitha, fez o segundo. Aos 92, a capitã nigeriana Rasheedat Ajibade descontou de pênalti. Nos acréscimos, Temwa ficou de frente para a goleira Chiamaka Nnadozie e cobriu. A Nigéria ainda diminuiu com Uchenna Kanu aos 99.
As duas irmãs fizeram os três gols do Malawi.
Quem é Temwa Chawinga
Nasceu em 20 de setembro de 1998, no distrito de Rumphi, região Norte do Malawi. Joga no Kansas City Current, nos Estados Unidos.
Em 2024 e em 2025 foi eleita a melhor jogadora da liga americana. É a primeira pessoa na história da NWSL a receber o prêmio em temporadas consecutivas.
Ganhou também a Chuteira de Ouro nos dois anos: os 20 gols de 2024 quebraram o recorde de gols numa temporada da competição, e vieram outros 15 em 2025, em 23 partidas. Em treze anos de liga, apenas uma outra jogadora levou o prêmio mais de uma vez: a australiana Sam Kerr. Temwa acumula ainda cinco prêmios de melhor do mês, o recorde da competição, e foi indicada à Bola de Ouro pela primeira vez em 2025.
Da próxima vez, você vai saber apontar.
Fontes: CAF, NWSL, Kansas City Current, Premium Times e Just Women's Sports, 2026.
A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson
As jogadoras da seleção feminina do Senegal se classificaram para a Copa Africana em outubro de 2025. Receberam os bônus em 20 de julho de 2026, na cerimônia de entrega da bandeira, poucas horas antes de embarcar para o Marrocos. Nove meses de espera.
Cada jogadora recebeu, segundo a imprensa senegalesa, mais de dois milhões de francos CFA, um valor que soma o bônus de classificação ao de participação no torneio inteiro. Já no Marrocos, a delegação ainda foi obrigada a deixar o hotel por contas não pagas.
O primeiro andar: a CAF
A Confederação Africana de Futebol organiza o torneio e distribui o dinheiro. Para a Copa Africana feminina de 2026, a CAF pagou 150 mil dólares a cada uma das dezesseis seleções, apenas pela participação. O bolo total foi de 5,8 milhões de dólares, com 2 milhões para a campeã. É um recorde: representa um aumento de 67% sobre a edição anterior.
A comparação com o masculino é o que dá a escala. A Copa Africana masculina de 2025 distribuiu 35,5 milhões de dólares, e o campeão levou 10 milhões. O campeão foi o Senegal.
O segundo andar: a federação
Aqui está o gargalo, e ele é estrutural: CAF e FIFA não pagam atleta. Pagam federação. É a federação que decide quanto desce, e quando.
A Federação Senegalesa de Futebol recebeu da FIFA cerca de 9 bilhões de francos CFA, aproximadamente 15,5 milhões de dólares, pela classificação da seleção masculina às oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. É perto de 90% do orçamento anual da entidade, estimado em 10 bilhões de francos CFA, numa tacada só.
E os homens receberam em dia? Também não. O técnico Pape Thiaw comandou a seleção na Copa do Mundo sem contrato e com cinco meses de salário atrasado. O hotel escolhido como base nos Estados Unidos ficou abaixo do padrão. Cortes de custo deixaram a delegação sem o cozinheiro original. Enquanto isso, segundo a imprensa africana, dirigentes da federação levaram famílias e comitivas pessoais aos Estados Unidos às custas da própria FSF.
Não é escassez. É captura. O dinheiro entra e para no meio do caminho.
O terceiro andar: as ligas
Este quase ninguém comenta. A maioria das jogadoras senegalesas atua na liga do próprio país, em clubes semiprofissionais. Para elas, o bônus de seleção não é um extra: com frequência é a renda. Nove meses de atraso não é humilhação, é falta de dinheiro para viver.
Os homens jogam na Inglaterra, na França, na Turquia. Para eles, o atraso é constrangimento, não sobrevivência.
E há um fluxo que corre no sentido inverso ao que se imagina. A FIFA paga aos clubes que liberam jogadores para a Copa do Mundo: o Programa de Benefícios aos Clubes de 2026 soma 355 milhões de dólares, com pelo menos 5 mil dólares por jogador por dia. No caso do Senegal, esse cheque vai principalmente para clubes europeus. A liga africana forma o jogador, exporta o jogador, e quando ele brilha no maior palco do mundo, quem recebe é o clube que comprou o produto pronto.
Até a moeda conta a história
O franco CFA foi criado em 26 de dezembro de 1945 pelo governo francês. Naquele momento, a sigla significava franc des Colonies Françaises d'Afrique: franco das Colônias Francesas da África. Depois das independências, passou a significar Comunidade Financeira Africana. Trocaram o nome; a lógica de valor atrelado permaneceu, hoje ancorada no euro.
O banco central que emite essa moeda na África Ocidental, o BCEAO, fica em Dakar. As taxas que governam a âncora são decididas em Frankfurt.
A arquitetura completa: a liga senegalesa forma, o clube europeu lucra, a FIFA e a CAF pagam a federação, a federação segura, e a jogadora recebe nove meses depois, num valor fixado numa moeda que nasceu com a palavra colônia no nome.
Fontes: CAF, FIFA, Dailysports, Journal du Sénégal, africasoccer.com e BCEAO, 2026.
A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson
A cientista da computação Nina da Hora criou um conceito para nomear uma coisa que já estava acontecendo e não tinha nome: epistemicídio computacional.
Ele descreve como sistemas técnicos, bancos de dados, algoritmos e arquivos digitais apagam e distorcem determinados corpos e modos de existir.
A definição, em uma frase
O epistemicídio computacional acontece quando a capacidade de um sistema de distinguir entre pessoas é sistematicamente pior para alguns grupos do que para outros.
Repare no que isso significa na prática. Não é o sistema errar de vez em quando. É errar mais, e sempre com os mesmos.
Um reconhecimento facial que confunde rostos negros entre si não está com defeito aleatório. Ele foi treinado num conjunto de imagens onde aqueles rostos apareciam menos, e aprendeu a resolver menos aquele contorno.
De onde vem o conceito
Nina da Hora é formada em Ciência da Computação pela PUC-Rio e mestra pelo Instituto de Computação da Unicamp, onde integrou o laboratório RECOD.ai. É fundadora do Instituto da Hora, dedicado a direitos digitais no Brasil.
O conceito dela é inspirado no trabalho da filósofa Sueli Carneiro sobre o apagamento do sujeito negro na produção de conhecimento.
Isso importa. Epistemicídio não é uma palavra nova inventada para a tecnologia. É um conceito do pensamento negro brasileiro sendo aplicado a uma máquina.
O artigo solo dela sobre o tema foi aceito na FAccT 2026, a principal conferência internacional sobre justiça, responsabilidade e transparência em inteligência artificial.
Por que isso não é assunto de nicho
Reconhecimento facial já é usado em abordagem policial, em controle de acesso, em pagamento e em fronteira.
Quando o sistema resolve pior um grupo, o erro não fica no papel: ele vira abordagem indevida, porta que não abre, pessoa confundida com outra.
A pergunta deixa de ser se a máquina é neutra. Passa a ser quem estava no conjunto de treino.
Fontes: Geledés e Jornal da Unicamp, 2026.
A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson
O Ministério Público da Bahia, pela 1ª Promotoria de Justiça de Direitos Humanos de Salvador, abriu procedimento para apurar denúncias de que a Hemoba, fundação estadual de hematologia e hemoterapia, estaria recusando doações de sangue de pessoas LGBT+.
As denúncias apareceram durante um evento de retificação coletiva de documentos, voltado ao acolhimento da população trans e travesti. Foi ali que as pessoas relataram recusas sem justificativa.
A regra já existe, e é do Supremo
Em 2020, o Supremo Tribunal Federal julgou a ADI 5543 e declarou inconstitucional qualquer barreira à doação de sangue por pessoas homossexuais.
Ou seja, não se trata de mudar uma norma. Trata-se de cumprir uma que já vale há seis anos.
O MP passa agora a fiscalizar a conduta técnica e administrativa da Hemoba.
A pergunta que a história já fez
Quem decide de quem é o sangue que serve?
Em 1940, o médico negro Charles Drew desenvolveu a técnica de conservação de plasma que criou o banco de sangue moderno. Na guerra, organizou o envio de milhares de litros para a Inglaterra.
Em 1942, as forças armadas americanas determinaram que o sangue de pessoas negras seria aceito, mas armazenado separado do sangue de brancos. Drew se demitiu em protesto. Disse que nenhum departamento do governo deveria humilhar deliberadamente seus cidadãos, que não havia base científica para a ordem, e que eles precisavam do sangue.
Ele criou o banco de sangue e foi proibido de doar para ele. A separação durou até 1948.
O que muda e o que não muda
Os critérios são diferentes. Ali era raça, aqui é orientação sexual e identidade de gênero. Não são a mesma experiência e não devem ser tratadas como se fossem.
O que se repete é a lógica: alguém decide que um corpo tem sangue de segunda, e a fila de quem precisa de transfusão fica mais curta por causa disso.
Em oito décadas, o argumento científico caiu nos dois casos. A recusa demorou mais a cair que o argumento.
Fontes: Bahia Notícias e Ministério Público da Bahia, 2026. Sobre Charles Drew, National Inventors Hall of Fame e Biblioteca do Congresso dos EUA.
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Fugiram do Tigray para o Sudão. Os dois estão em guerra.
No sábado, forças federais etíopes e a Frente Popular de Libertação do Tigray voltaram a se enfrentar perto da aldeia de Shererina, no oeste do Tigray. O combate durou até domingo, com artilharia pesada e ataques de drone.
É a escalada mais séria da região desde o fim da guerra civil, quatro anos atrás.
Para onde as pessoas correram
Centenas de etíopes atravessaram a fronteira para o Sudão nos dois dias seguintes.
O Sudão está em guerra. Entre os que chegaram havia combatentes feridos, atendidos e levados para al-Hashaba, a quinze quilômetros da fronteira, um lugar que já abriga milhares de deslocados da guerra de 2020 a 2022 entre o exército etíope e os rebeldes do Tigray.
Ou seja: gente fugindo de uma guerra para um campo formado por gente que fugiu da mesma guerra, dentro de outra guerra.
O acordo que está rachando
Os confrontos violam o acordo de paz mediado pela União Africana em 2022.
Os dois lados acusam o outro de querer reabrir o conflito. As autoridades do Tigray dizem que as forças federais lançaram uma ofensiva. O governo federal responde que as forças regionais provocaram.
Quem estiver certo, o efeito é o mesmo: um acordo de três anos foi rompido com drone e artilharia, e quem atravessou a fronteira não vai voltar tão cedo.
Por que você não viu isso
A guerra do Tigray, entre 2020 e 2022, está entre os conflitos mais letais deste século, e passou pela imprensa brasileira como nota de rodapé.
Agora ela está voltando, e a cobertura segue do mesmo tamanho.
Fontes: Al Jazeera, AFP via Addis Standard e allAfrica, 3 de agosto de 2026.
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Em carta datada de 2 de julho de 2026, o rei Mohammed VI comunicou ao presidente dos Estados Unidos a decisão de nomear a via expressa Tiznit a Dakhla como Donald J. Trump Highway.
São 1.055 quilômetros, a rodovia mais longa do continente africano. Ela liga Tiznit a Laayoune e a Dakhla, cidades no Saara Ocidental, território disputado sob controle marroquino.
O que está sendo pago
A carta é explícita sobre o motivo. O reconhecimento americano, em 2020, da soberania marroquina sobre o Saara Ocidental, segundo o rei, "permanecerá para sempre na memória dos marroquinos" e deu às relações bilaterais um impulso sem precedentes.
Ele descreve a via como eixo estratégico que une o norte e o sul do Marrocos e liga a Europa ao continente africano, e diz que ela unifica o país do mesmo modo que a liderança do presidente americano aproximou as duas nações.
Trump agradeceu em 26 de julho, na plataforma dele, dizendo que espera um dia percorrer a rodovia inteira.
O detalhe que a manchete não carrega
A rodovia atravessa justamente o território cujo status é objeto da disputa.
O Saara Ocidental é reivindicado pela Frente Polisário e pelo povo sarauí, e a maior parte da comunidade internacional não reconhece a soberania marroquina ali. Batizar a estrada que corta esse território com o nome de quem reconheceu a soberania não é homenagem apenas: é a inscrição de um reconhecimento diplomático no mapa, em asfalto.
O padrão
Um chefe de Estado africano dá o nome de um presidente estrangeiro à maior obra viária do continente, em agradecimento por um aval geopolítico.
Não é corrupção nem escândalo. É a normalidade de uma relação em que o reconhecimento vem de fora e a gratidão se materializa dentro.
Fontes: Al Jazeera, Bloomberg e Hespress, julho e agosto de 2026.
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A inteligência artificial que você não usa está na conta de luz que você paga
Mais de uma em cada dez famílias negras nos Estados Unidos está com a conta de luz atrasada. É três vezes a taxa das famílias brancas e o dobro da taxa das famílias latinas.
E a curva está subindo por um motivo que quase não aparece na conversa sobre inteligência artificial: os data centers.
Quem paga a infraestrutura
A demanda por eletricidade de data centers e de mineração de criptomoedas deve crescer 350% até 2030.
Cada novo galpão desses precisa de energia em volume industrial, e alguém tem que construir a usina que vai fornecê-la. Esse custo entra na tarifa.
Na Carolina do Sul, o Google fechou um acordo para pagar menos da metade da tarifa que as casas pagam pela mesma eletricidade.
Quem consome mais paga menos por unidade. Quem consome menos paga mais, e ainda banca a expansão da rede que atende o outro.
A promessa e a conta
A promessa oficial era de cortar o preço da eletricidade pela metade até julho de 2026.
O que aconteceu foi o contrário: as tarifas residenciais subiram 18%.
Onde isso já virou disputa
De Las Vegas ao sudoeste da Geórgia, moradores negros cansados das contas levaram a briga direto às concessionárias e aos órgãos reguladores, que eles acusam de ter montado um sistema viciado.
É uma disputa sobre quem decide a tarifa, e ela acontece em audiências públicas técnicas, com pouca cobertura e quase nenhuma plateia.
Por que isso interessa ao Brasil
O Brasil está entrando na mesma corrida. Data centers para inteligência artificial são anunciados como investimento e chegada de tecnologia.
A pergunta que os Estados Unidos já estão fazendo, e que aqui ainda não se faz, é simples: quando a conta da infraestrutura chegar, ela vem embutida na tarifa de quem?
Fonte: Capital B News, julho e agosto de 2026.
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Branco em 2018, pardo em 2026. E o dinheiro da campanha explica a diferença.
Em 30 de julho de 2026, o senador Angelo Coronel, do Republicanos da Bahia, registrou sua candidatura à reeleição no Tribunal Superior Eleitoral declarando-se pardo.
Nas eleições de 2014 e de 2018, ele havia se declarado branco.
A assessoria do senador afirma que houve erro de preenchimento e que a equipe jurídica pediu a correção. Até agora não há manifestação da Justiça Eleitoral sobre o caso.
Por que a linha do formulário importa
A autodeclaração racial no registro de candidatura não é dado estatístico. É critério de distribuição de dinheiro.
Pela Resolução 23.749/2026 do TSE, candidaturas de pessoas autodeclaradas pretas ou pardas entram no grupo de candidaturas negras para efeito de alocação do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e do tempo de propaganda no rádio e na televisão.
A regra existe porque a sub-representação de pessoas negras na política brasileira é estrutural e documentada. Ela foi construída para corrigir uma distorção histórica.
O padrão
O caso não é isolado na Bahia. Em 2022, durante a campanha ao governo do estado, ACM Neto fez ajuste semelhante na própria autodeclaração.
O ex-governador Rui Costa resumiu o fenômeno numa frase que circulou rápido: "Aqui na Bahia, virou moda: a cada eleição, os candidatos mudam a cor da pele."
O que está em jogo
Identidade racial no Brasil é assunto complexo, e existem trajetórias legítimas de pessoas que se reconhecem como negras na vida adulta. Isso é real e não deve ser tratado com deboche.
Mas quando a mudança acontece no ano da eleição, no formulário que define repasse de verba e tempo de televisão, e por parte de quem se declarou branco por duas eleições seguidas, a pergunta deixa de ser sobre identidade.
Passa a ser sobre um mecanismo criado para reparar exclusão e que pode acabar financiando quem nunca foi excluído por ele.
Cada real que vai para uma candidatura que não deveria estar naquele grupo é um real que sai de uma candidatura negra real, geralmente sem estrutura e sem palanque.
Fontes: registro no TSE, Revista Afirmativa e imprensa baiana, julho e agosto de 2026.
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A Igreja da Inglaterra voltou ao Castelo de Cape Coast para prometer 100 milhões de libras
A arcebispa de Cantuária, Sarah Mullally, visitou o Castelo de Cape Coast, em Gana, e reafirmou o compromisso da Igreja da Inglaterra com um fundo de justiça reparadora de 100 milhões de libras.
Cape Coast é uma fortaleza onde pessoas africanas escravizadas ficavam presas antes de atravessar a chamada Porta Sem Retorno, embarcadas para as Américas.
Foi a primeira viagem pastoral dela à África desde que assumiu, em março de 2026, como a primeira mulher a liderar a Comunhão Anglicana.
De onde veio o fundo
O fundo não nasceu de generosidade. Nasceu de uma auditoria.
O levantamento do patrimônio histórico da Igreja revelou ligações financeiras extensas com operações de tráfico de pessoas escravizadas, além da posse de plantações no Caribe por missionários.
Ou seja: a instituição foi verificar de onde vinha o próprio dinheiro e encontrou escravidão na origem.
Sobre a visita, Mullally disse que percorrer o castelo a fez refletir sobre os crimes cometidos pela instituição que ela lidera, e que "parte da crença cristã no arrependimento é sobre ação".
A reação
O fundo enfrenta oposição vocal. Os críticos questionam a base legal e a precisão histórica do levantamento.
Vale reparar no argumento: não se contesta que a escravidão aconteceu, nem que a Igreja lucrou com ela. Contesta-se se é o caso de pagar.
O que isso diz ao Brasil
O Brasil recebeu mais pessoas escravizadas que qualquer outro país das Américas e foi o último a abolir a escravidão, em 1888.
Nenhuma instituição brasileira de porte equivalente fez auditoria pública do próprio patrimônio para descobrir o que nele veio do trabalho escravizado.
A conversa sobre reparação no Brasil ainda trava na pergunta se é devida. Em Cape Coast, ela já está na pergunta de quanto.
Fontes: BBC, Modern Ghana e MyJoyOnline, 31 de julho de 2026.
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Em Moçambique, quem faz pergunta incômoda desaparece
Ativistas moçambicanos denunciam um cerco crescente às vozes críticas no país. A denúncia não é abstrata, e o histórico recente sustenta cada parte dela.
O jornalista que sumiu
Arlindo Chissale, que se destacou como defensor do líder opositor Venâncio Mondlane, está incomunicável desde 7 de janeiro de 2025.
Mais de um ano e meio sem notícia.
O jornal que foi queimado
A sede do Canal de Moçambique, jornal investigativo privado que apura corrupção estatal, foi incendiada por agressores não identificados.
O ataque veio depois que o jornal publicou contratos confidenciais entre o governo e empresas de exploração de gás natural liquefeito.
A estrutura por trás dos casos
Segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras, boa parte dos veículos moçambicanos é controlada, direta ou indiretamente, pelas autoridades ou por membros da Frelimo, o partido no poder.
Missões de observação eleitoral da União Europeia registraram cobertura desequilibrada nas eleições municipais de 2023 e nas gerais de 2024.
Durante manifestações, a polícia age com violência contra jornalistas que cobrem os protestos. Nas eleições de 2023, ativistas denunciaram cortes de internet, e organizações de liberdade de expressão levaram o caso ao tribunal de Maputo, que proibiu as operadoras de bloquear a rede.
Por que isso importa aqui
Moçambique é um país de língua portuguesa com mais de 30 milhões de habitantes, e o noticiário brasileiro quase não olha para lá.
O gás natural moçambicano move contratos bilionários com empresas internacionais. Quando o jornal que publica esses contratos é incendiado, o assunto deixa de ser interno.
Um jornalista desaparecido há mais de um ano em um país lusófono deveria ser notícia no Brasil. Não é.
Fontes: DW África, Repórteres Sem Fronteiras e IJNet, julho e agosto de 2026.
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A Controladoria-Geral da União apontou superfaturamento de R$ 1,3 milhão na execução do programa DNA do Brasil Talentos, que atendeu 63 municípios do Tocantins.
O programa foi lançado no governo Bolsonaro, com participação da então ministra Damares Alves. A promessa era identificar talentos esportivos entre estudantes da rede pública.
Entre os itens comprados com dinheiro público estavam redes de vôlei, de basquete e de futebol entregues a escolas que não tinham quadra.
Técnicos da CGU visitaram unidades de ensino e encontraram o material armazenado, sem uso. Não havia onde montar.
Não houve critério
A auditoria concluiu que não existiam critérios para definir quanto material cada município receberia. O caso dos apitos resume o método.
Em Colinas do Tocantins, três escolas participantes receberam dois apitos profissionais. Em Paranã, duas escolas receberam trinta.
O sobrepreço não ficou no material esportivo. A CGU identificou superfaturamento também em encomendas a gráficas, em produtos de papelaria e no serviço de desenvolvimento de um aplicativo de celular.
O uniforme prometido no projeto tinha camisa, calção, meiões, boné, garrafa e mochila-saco. Segundo a auditoria, nenhum aluno recebeu o conjunto completo.
O que sobra depois da foto
Programas assim rendem anúncio, corte de fita e imagem de governo que cuida da juventude pobre. O que chega na ponta é outra coisa.
A criança que ia ser descoberta pelo programa recebeu uma rede e nenhum lugar para pendurar.
O dinheiro desviado de um programa esportivo em escola pública não é um problema de esporte. É de que essa criança seguiu sem quadra, sem uniforme e sem aula, enquanto o valor cobrado pelo apito subia.
Fonte: The Intercept Brasil, 21 de julho de 2026, com base em auditoria da Controladoria-Geral da União.
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Sessenta mil pessoas atravessaram a fronteira de Ceuta
Nos últimos dias de julho de 2026, cerca de 60 mil pessoas atravessaram a fronteira entre o Marrocos e Ceuta, o enclave espanhol no norte da África.
Ceuta é território espanhol em solo africano. Quem chega ali não entrou na Europa por engano de geografia. Entrou porque a Europa está ali, cercada, do outro lado de uma linha desenhada no continente africano.
Até o sábado seguinte, a Espanha afirmava que praticamente todos já haviam retornado ao Marrocos.
A reação foi mais rápida que a travessia
A Itália suspendeu o acordo de livre circulação de Schengen com a Espanha. A França reforçou controles de fronteira. O prefeito de Ceuta declarou que a vida na cidade tinha sido perturbada.
O primeiro-ministro espanhol responsabilizou traficantes de pessoas pelo episódio, numa disputa diplomática delicada, já que Madri precisa equilibrar suas relações com Marrocos e Argélia.
Em poucos dias, a fronteira foi reforçada e dezenas de milhares de pessoas voltaram.
O vocabulário faz o trabalho
Repare nas palavras que circularam. Invasão. Fluxo. Influxo. Crise migratória. Todas descrevem um fenômeno da natureza, algo que acontece sozinho e precisa ser contido.
Nenhuma delas pergunta por que 60 mil pessoas decidem, no mesmo intervalo de dias, que atravessar um muro é a melhor opção disponível.
A pergunta que não entra na cobertura é o que essas pessoas estavam deixando para trás.
A Europa discute como fechar. Raramente discute o que fez, e continua fazendo, do outro lado da linha.
Fontes: BBC, 31 de julho de 2026; Africanews e Al Jazeera, 1º de agosto de 2026.
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As economistas Isadora Bousquat Árabe e Paula Carvalho Pereda analisaram 2.105 partidas de fim de semana do Campeonato Brasileiro entre 2015 e 2019 e cruzaram os resultados com boletins de ocorrência de violência doméstica em São Paulo e no Rio de Janeiro.
A pesquisa foi aceita para publicação na revista Economic Development and Cultural Change, da Universidade de Chicago.
Quando o time favorito perde um jogo que era esperado ganhar, os registros de violência doméstica sobem em média 6% nas seis horas seguintes ao apito final.
A derrota inesperada foi medida pelas odds do mercado de apostas. Não é qualquer derrota. É a que ninguém tinha contratado.
O que o dado não diz, e é o mais importante
O efeito não aparece antes do jogo. Não aparece durante. Não aparece depois das vitórias. Ele se concentra nas horas seguintes à frustração e depois se dissipa.
Isso afasta a leitura preguiçosa de que o futebol produz agressores. Não produz. O futebol não cria o agressor. Ele intensifica um ciclo de violência que já estava lá.
Quem já era violento encontra na derrota a desculpa que estava esperando.
Onde o grito some
A pesquisa encontrou uma diferença que diz muito sobre o Brasil.
Nos municípios que têm Delegacia de Defesa da Mulher, o choque da derrota aparece nos boletins de ocorrência. Onde não existe serviço especializado, ele aparece em outro canal: as ligações para o Ligue 180 sobem 28% no dia seguinte ao jogo.
A violência não é menor onde falta delegacia. Ela só não vira estatística.
E o corpo que mais atravessa esse intervalo entre o soco e o registro é o de mulher negra e periférica.
Ela mora, com mais frequência, exatamente nos municípios que não têm delegacia especializada. A invisibilidade é dupla: a do agressor que não é registrado e a da vítima que não é contada.
O que fazer com isso
A pesquisa não pede que ninguém pare de assistir futebol. Ela mostra uma janela de risco previsível, de poucas horas, com dia e horário conhecidos com antecedência.
Política pública trabalha com janela previsível. Reforço no Ligue 180 em rodada de clássico não é medida simbólica.
Tyla tirou Lagos da turnê. A conta chegou para quem não fez a dívida.
A cantora sul-africana Tyla retirou Lagos do calendário da sua turnê mundial APop, depois de uma campanha de boicote organizada por nigerianos nas redes sociais.
O motivo do boicote não foi nada que ela tenha feito. Foi a retomada dos relatos de ataques xenófobos contra estrangeiros na África do Sul, muitos deles nigerianos.
A artista pagou por uma política de Estado que não é dela.
A xenofobia é real. O alvo é que estava errado.
A revolta tem base. Os ataques na África do Sul existem, se repetem há anos e voltaram a crescer. Em julho de 2026, Graça Machel pediu publicamente que a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral quebrasse o silêncio diante dos ataques.
Quando uma das vozes mais respeitadas do continente precisa pedir que um bloco regional diga alguma coisa, o silêncio já durou tempo demais.
Mas a resposta que chegou primeiro não foi contra o Estado sul-africano, contra a polícia ou contra os políticos que fazem carreira apontando o imigrante como causa do desemprego. Foi contra uma cantora de 24 anos.
Quem ganha quando a briga é entre nós
O imigrante africano na África do Sul ocupa a mesma função que o imigrante africano na Europa: absorve a culpa por um desemprego que não criou e por serviços públicos que não desmontou.
A diferença é que na África do Sul quem aponta e quem é apontado são, quase sempre, pessoas negras e pobres.
Xenofobia não é sentimento espontâneo de pobre. É ferramenta de governo.
Ela funciona porque transforma um conflito vertical, entre quem tem e quem não tem, em conflito horizontal, entre quem não tem e quem também não tem.
Um show cancelado em Lagos não fecha um campo de refugiados, não muda uma lei migratória e não protege ninguém em Joanesburgo. Rende manchete e sensação de resposta.
A pergunta é sempre a mesma: quem estava desconfortável com esse boicote, e quem dormiu tranquilo?
Fontes: BBC e Vanguard via AllAfrica, 31 de julho de 2026; RFI África, 18 de julho de 2026.
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O mapa estava todo errado. E era o slide que reparte o dinheiro.
Departamento de Estado dos EUA, AIDS 2026, Rio de Janeiro
Em 26 de julho de 2026, na conferência AIDS 2026, no Rio de Janeiro, o Departamento de Estado dos Estados Unidos exibiu um mapa da África em que todos os países do continente apareciam no lugar errado.
A Nigéria foi parar no Saara, sem litoral, num país que tem mais de oitocentos quilômetros de costa atlântica. Moçambique, que fica no sudeste, foi deslocado para o Chifre da África. A Costa do Marfim, que fica no oeste, apareceu do outro lado do continente. Camarões entrou na lista de países e não recebeu território nenhum no mapa. Havia ainda um país sem nome.
O governo americano classificou o episódio como um erro infeliz, atribuído a um funcionário que alterou os slides às pressas.
O slide não era decorativo
O título da peça era Current APS Funding Opportunities. Não era ilustração de abertura: era o quadro que apresentava quanto dinheiro cada país receberia na segunda rodada de financiamento.
Ao lado do mapa, a lista de valores. Nigéria, até 200 milhões de dólares. Moçambique, até 180 milhões. Uganda, até 60 milhões. Costa do Marfim, até 50 milhões. Malawi, até 35 milhões por ano. Camarões, até 5,4 milhões, o menor valor da lista.
Camarões é justamente o país que aparecia na lista e não recebeu território nenhum no mapa. O país com a menor verba é o que sumiu do desenho.
A marca d'água
A agência Reuters encontrou no arquivo uma marca d'água indicando que o mapa foi provavelmente criado com ferramentas da OpenAI. A empresa afirmou estar apurando o caso.
Ou seja: a representação do continente africano, numa apresentação oficial de política de saúde, foi terceirizada para um gerador automático e ninguém conferiu o resultado antes de projetar na tela.
Por que um mapa errado não é um detalhe
Aquela apresentação não era de turismo. Era sobre HIV, numa conferência internacional, feita pelo aparato diplomático do país que por décadas foi o maior financiador de programas de saúde no continente africano.
Quem monta esse slide está, em algum grau, orientando decisões sobre onde o dinheiro entra e como.
E aconteceu no Brasil. O país com a maior população negra fora da África sediou a conferência em que o continente africano foi apresentado como um borrão de nomes trocados.
O continente como assunto genérico
O erro não é ignorância pontual de quem fez o arquivo. É o resultado de tratar um continente inteiro como um bloco só.
Ninguém entrega um mapa da Europa com Portugal no Báltico e a França sem costa. Não porque haja mais cuidado, mas porque alguém na sala perceberia na hora.
Quem não distingue os 54 países do continente também não distingue as pessoas que moram neles.
Amos Wilson chamava isso de falsificação
Em A Falsificação da Consciência Afrikana, Amos Wilson trata o apagamento como método, não como acidente.
Um povo sem geografia própria fica sem história própria. E quem não tem história própria recebe a que for oferecida.
Um mapa é a forma mais simples dessa operação. Ele diz o que existe, onde existe e o que não merece precisão.
Fontes: Reuters, Al Jazeera, NPR e BBC, 31 de julho de 2026. A foto do slide original é da Reuters e não é reproduzida aqui por não termos licença de uso.
A Falsificação da Consciência Afrikana, de Amos Wilson
A independência que só faria sentido se libertasse o continente inteiro
Gana, 6 de março de 1957
Em 6 de março de 1957, Gana se tornou o primeiro país da África subsaariana a conquistar a independência do domínio britânico.
Kwame Nkrumah subiu ao palco naquela noite e disse uma coisa que quase ninguém repete hoje: a independência de Gana não tinha sentido se não estivesse ligada à libertação total do continente africano.
Não era retórica de discurso. Era projeto político.
Nkrumah defendia uma África unificada. Não uma federação simbólica, não um bloco de cooperação. Um governo continental, com moeda própria e comando militar único. Ele entendia que dezenas de países pequenos, cada um negociando sozinho com as antigas metrópoles, continuariam colônias com outro nome.
O que aconteceu com o projeto
Em 1963 nasceu a Organização da Unidade Africana, com 32 países. Foi uma vitória e uma derrota ao mesmo tempo. Vitória porque a unidade africana virou instituição. Derrota porque venceu a corrente que queria cooperação entre Estados soberanos, não a que queria um Estado continental.
Nkrumah perdeu essa disputa. Em 1966, enquanto estava fora do país, um golpe militar o derrubou. Ele nunca voltou a governar.
Quase setenta anos depois, catorze países africanos ainda usam o franco CFA, moeda com paridade fixa ao euro e garantia do Tesouro francês. São duas zonas monetárias, a da África Ocidental e a da África Central, herdadas diretamente do período colonial.
Uma bandeira nova não muda quem controla a moeda.
Por que isso é uma questão psicológica, não só econômica
Amos Wilson dedicou boa parte de sua obra a mostrar que dominação não se sustenta apenas por força. Ela precisa que o dominado internalize a ordem como natural.
Em Consciência Afrikano-Centrada versus Nova Ordem Mundial, ele argumenta que a independência formal sem soberania econômica e sem soberania mental produz uma elite que administra a dependência em vez de rompê-la. O aparato colonial sai de cena, a estrutura permanece, e passa a ser operada por gente local.
Em A Falsificação da Consciência Afrikana, ele vai à raiz: apagar a memória de projetos africanos de autodeterminação não é efeito colateral do colonialismo. É ferramenta. Quem não sabe que existiu um projeto continental não sente falta dele.
É por isso que Nkrumah é lembrado no Brasil, quando é lembrado, como uma figura distante de manual escolar. Não como alguém que fez uma pergunta que continua sem resposta.
A pergunta é essa: independência de quem, exatamente?
Fontes: African Arguments e The Africa Report, julho e agosto de 2026.
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Terreiro não é museu. É universidade de resistência.
Julho das Pretas · 25/07/2026
Julho das Pretas não é só data de homenagem.
É reconhecimento político de que mulheres negras estão fazendo, ao mesmo tempo, o que o Estado não faz, o que a escola não ensina e o que a cultura dominante quer apagar.
Tem mulher negra à frente de terreiro em São Paulo que faz isso há décadas. Ensina o que a escola não ensina. Cura o que o sistema machuca. Organiza o que o Estado quer desmantelar. Transmite conhecimento que atravessou o Atlântico, sobreviveu à escravização, resistiu à perseguição religiosa sistemática e ainda está de pé.
E tem gente no Congresso votando para criminalizar isso enquanto você lê esse texto.
Não é exagero. É o projeto de lei que quer enquadrar religiões de matriz africana como charlatanismo. É o pastor com púlpito em horário nobre atacando candomblé. É o Estado que financia igrejas como "parceiras sociais" e ignora terreiros como "coisa de macumba".
O terreiro ensina o que a escola não ensina porque a escola foi construída para não ensinar isso. O currículo oficial é europeu. A história ensinada começa com a chegada do colonizador. O conhecimento africano não aparece, ou aparece como folclore, exotismo, curiosidade.
Amos Wilson dedicou boa parte de sua obra a essa questão. Em Despertando o Gênio Natural da Criança Preta, ele argumenta que a criança negra que não conhece sua herança cultural é uma criança psicologicamente colonizada. Não por falta de inteligência, mas por ausência de raiz. Sem referência própria, a criança aceita a referência do outro como universal.
Em A Falsificação da Consciência Afrikana, ele vai além: destruir a memória cultural africana não é consequência do colonialismo. É instrumento. A colonização precisou apagar para funcionar. E continua precisando.
Por isso o terreiro é ameaça. Não porque pratica algo errado. Porque pratica algo que funciona fora do controle do Estado, da igreja dominante e do mercado. Um lugar onde o saber não precisa de certificado europeu para ser legítimo. Onde cura não precisa de plano de saúde. Onde memória não precisa de museu.
Soberania epistêmica tem nome e endereço. E quem quer manter o controle sabe disso melhor do que a gente.
Você conhece a história dessas mulheres? Você está apoiando quem está mantendo viva a chama que querem apagar?
Leia a reportagem. Aprenda. Compartilhe. Isso é resistência que cola de verdade.
Fonte: Geledés, julho de 2026.
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Condenado por discriminação racial. Tribunal de Justiça de SP, 24/07/2026
Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo, foi condenado por discriminação racial. A pena: R$1 milhão para o Fundo Municipal de Direitos Difusos.
A decisão é real. A condenação é real.
Mas precisamos fazer a pergunta que ninguém quer fazer: isso é reparação ou é teatro?
O Shopping Pátio Higienópolis fatura centenas de milhões de reais por ano. Um milhão de reais não dói no caixa. Não muda a gestão. Não muda o treinamento dos seguranças. Não muda a cultura institucional que faz uma pessoa negra ser parada na entrada enquanto pessoa branca passa direto.
A vítima não queria R$1 milhão. Queria entrar sem ser vista como suspeita.
Queria ser cliente. Não réu.
O dinheiro vai para um fundo. Não para quem foi humilhado. Não reconstrói a dignidade de quem foi revistado na frente de outros. Não apaga o constrangimento. Não muda o próximo plantão de segurança que vai fazer a mesma coisa amanhã porque sabe que a multa, se vier, é suportável.
Amos Wilson argumenta, em A Falsificação da Consciência Afrikana, que vitórias simbólicas dentro de sistemas que não mudam sua estrutura de poder não são vitórias de fato. São válvulas de escape que aliviam pressão sem transformar nada. A justiça que pune sem reparar, que condena sem reformar, serve ao sistema, não às vítimas.
Quantos outros shoppings fazem a mesma coisa agora? Quantos calcularam que vale a pena arriscar porque, no pior dos casos, é só uma multa? A lógica é de gestão de risco, não de respeito.
Condenação sem mudança estrutural é o sistema se autovacinar. Toma uma dose pequena do antígeno, a denúncia, o processo, a pena simbólica, para ficar imune à dose que realmente mudaria algo.
Comemorar a condenação? Sim. É uma vitória. Mas saber o que ela não é? Também é necessário.
Reparação real tem outro tamanho. Inclui mudança de política interna, treinamento obrigatório, auditoria de discriminação e punição que afete o funcionamento do negócio, não uma quantia que cabe no orçamento de marketing.
Quando foi a última vez que você entrou num shopping sem ser visto como suspeito? Ou isso só acontece com a gente?
Fonte: Geledés, 25/07/2026.
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A rede chegou. A quadra nunca existiu. R$1,3 mi superfaturado.
Deixa eu te mostrar como a lógica funciona.
Menino preto conseguir bolsa em universidade federal: injustiça. Roubo da vaga de quem merecia. Privilégio inaceitável. Precisa ser processado, investigado, revertido.
Programa bolsonarista superfaturar R$1,3 milhão em redes de vôlei entregues a escolas sem quadras: erro administrativo. Deslize burocrático. Coisa que acontece. Segue em frente.
A lógica não é contraditória. Ela é cristalina.
O sistema não tem dois pesos porque é desorganizado. Tem dois pesos porque foi desenhado assim.
As mesmas pessoas que votam contra cotas raciais com discurso de meritocracia são as mesmas que constroem estruturas de transferência de verba pública para empresas de aliados. A mesma galera que diz que cota é roubo de vaga desviou dinheiro de criança pobre para entregar item inútil a escola que não tem nem o básico para usá-lo.
Redes de vôlei. Para escolas sem quadras.
Não é incompetência. É desprezo. É a mensagem de que a educação de criança pobre é linha de orçamento, não compromisso.
Amos Wilson descreve esse mecanismo com precisão em A Falsificação da Consciência Afrikana: o sistema aplica pressão máxima sobre políticas de igualdade racial enquanto protege com linguagem suave os desvios que beneficiam quem está no poder. Igualdade para o negro é ameaça à ordem. Corrupção da elite é acidente de percurso.
Então quando você ouvir que cotas são injustiça, pergunte: injustiça comparada a quê? Comparada a um sistema onde o filho de quem tem contato entra, o filho de quem tem dinheiro entra, e o filho de quem tem mérito e é preto precisa provar o dobro e mesmo assim é questionado?
A cota não cria desigualdade. Ela responde a uma desigualdade que já existe e que ninguém chama pelo nome.
Enquanto desviam dinheiro de escola pública, debatem se cota é justo. A criança preta não tem quadra, não tem livro, não tem professor suficiente, e quando chega na porta da universidade com tudo isso contra ela, o debate é se ela merece entrar.
Quem define o que é mérito nessa história? Quem nunca precisou provar o dele.
Fontes: Geledés e The Intercept Brasil, 22/07/2026.
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Benedito Ruy Barbosa morreu esta semana, aos 95 anos. Deixou 18 novelas e um retrato do Brasil rural que o país inteiro assistiu por décadas. Mas eu não vim falar do que ele contou. Eu vim falar de quem ele colocou no centro da cena, e quem ele deixou na beira.
O padrão que os dados mostram
Benedito foi o maior autor de novelas rurais da televisão brasileira. Suas obras mais ambiciosas, Os Imigrantes, Terra Nostra, O Rei do Gado, Renascer (1993), constroem épicas sobre o Brasil profundo, com elencos de dezenas de personagens e histórias que atravessam gerações.
O corpo negro aparece nessas obras. Mas quase sempre na margem. O empregado. O peão. O escravizado. O coadjuvante que dá cor ao cenário e profundidade à vida dos protagonistas, que são, sistematicamente, brancos. A camada de protagonismo, quem conduz a trama, quem o espectador acompanha semana a semana, quem vive os amores e os conflitos centrais, é branca.
Isso não é crítica ao talento de Benedito Ruy Barbosa como dramaturgo. É a constatação de um padrão que atravessa toda a televisão brasileira, e que nas mãos do autor mais influente do gênero ficou mais visível justamente porque sua obra é maior.
O caso mais violento: Sinhá Moça
Sinhá Moça, adaptada em 1986, é o caso mais revelador. Uma novela sobre a Abolição da escravatura no Brasil. Sobre o período mais diretamente ligado à experiência negra da história do país. E o protagonismo, o Barão, a Sinhá, o herói abolicionista branco que luta pela liberdade dos outros, é inteiramente branco. O negro entra como massa escravizada: presente como tema, ausente como sujeito.
A escravidão como pano de fundo para a história de amor de personagens brancos. Não é uma coincidência. É uma escolha narrativa que se repete.
Amos Wilson e a falsificação da consciência
O psicólogo e teórico pan-africanista Amos Wilson chamava isso de falsificação da consciência. A ideia é simples, e é brutal: quem controla a narrativa controla a autoimagem de um povo.
Quando o aparelho cultural mais poderoso de um país, e durante décadas, a novela foi o principal aparelho cultural do Brasil, te mostra repetidamente na posição de serviço, sempre atrás, sempre coadjuvante, ele não está entretendo. Ele está ensinando o seu lugar. Faz parecer destino o que é projeto.
A prova que foi projeto: Renascer 93 × Renascer 24
Existe uma prova de que o protagonismo branco nas novelas de Benedito nunca foi uma exigência das histórias. É o próprio Renascer.
Em 1993, Renascer estreou com José Inocêncio interpretado por Antônio Fagundes. Em 2024, a Globo fez o remake com o mesmo texto. Maria Santa é Duda Santos, mulher preta, protagonista. João Pedro é Juan Paiva, homem preto. Quase metade do elenco, negro.
A história não precisou mudar para o protagonismo negro ser possível. A branquitude de 1993 não era uma exigência da trama. Era uma escolha de quem escalava.
Representatividade não é referência
Mas aqui é preciso separar duas coisas que vivem confundidas. O pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, ensinava que representatividade e referência são categorias diferentes.
Representatividade é colocar um rosto preto dentro de uma estrutura que continua não sendo sua. A emissora te escala, te aprova e lucra. Você entra na casa do outro. Necessário? É. Suficiente? Nunca.
Referência é ter chão próprio. É produzir a sua narrativa a partir do seu mundo, sem pedir licença. Não é ser incluído na história do colonizador. É ser origem da sua própria.
Nêgo Bispo dizia: a referência não é Zumbi. É Palmares. Zumbi não existiria sem Palmares. Palmares existiria sem Zumbi. Isso é a diferença: Palmares era soberania de território e narrativa. Zumbi era o protagonista dentro dessa soberania, não uma concessão.
O Renascer de 2024 é representatividade. A Poder Afrikano é referência. Não porque uma é melhor que a outra. Mas porque confundir as duas é perder de vista o horizonte.
Masculinidade em Preto e Branco: o que a cultura nos ensina sobre ser homem negro
Patrice Lumumba, 27 de dezembro de 1960. Nationaal Archief (domínio público)
Hoje, Patrice Lumumba faria 101 anos. O homem que a Bélgica e os Estados Unidos assassinaram por sonhar um Congo livre. Não é uma metáfora. É o registro histórico.
Lumumba nasceu em 2 de julho de 1925, na aldeia de Onalua, filho de camponeses da etnia Tetela. Cresceu sob o Estado Independente do Congo, um regime pessoal do rei belga Leopoldo II que havia matado entre 5 e 10 milhões de congoleses na exploração da borracha. O Congo que Lumumba herdou já era uma cicatriz.
O homem que organizou um povo
Funcionário dos correios, sindicalista, escritor de poesia, Lumumba percorreu o país inteiro numa época em que isso era extraordinário. Em 1958, fundou o Movimento Nacional Congolês, o primeiro partido político a unir o Congo para além das divisões étnicas que o próprio colonialismo havia fabricado para manter a população fragmentada e ingovernável.
Em junho de 1960, o Congo se tornava independente. Numa cerimônia oficial, diante do próprio rei Balduíno da Bélgica, Lumumba subiu ao microfone e fez algo que ninguém esperava: denunciou, sem pedir licença, a humilhação e o racismo estrutural do regime colonial. Chamou os congoleses de "escravos" e disse que a independência não era uma concessão da Bélgica, mas uma conquista do povo.
"Nós não somos mais seus macacos."
Patrice Lumumba, discurso da independência, 30 de junho de 1960
O mundo ocidental nunca lhe perdoou isso.
Soberania sobre os recursos
Lumumba governou por apenas 12 semanas. Sua proposta central era clara: a independência política sem soberania econômica não era independência. Era decoração. Ele queria que o Congo controlasse seus próprios recursos. E o Congo tinha o que o mundo queria: cobre, cobalto, urânio, diamantes, coltan.
Empresas estrangeiras já operavam ali havia décadas. A Lever Brothers, que desde 1911 controlava concessões de óleo de palma no Congo usando trabalho forçado, e que mais tarde se tornaria a Unilever, era apenas uma delas. A Union Minière du Haut-Katanga controlava as minas de cobre e urânio. O urânio congolês havia sido usado nas bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki.
Defender que o Congo gerenciasse esses recursos foi suficiente para transformar Lumumba num alvo.
A operação de eliminação
O que os documentos mostram
Em agosto de 1960, o presidente Eisenhower autorizou pessoalmente a eliminação de Lumumba em reunião do Conselho de Segurança Nacional.
A CIA enviou veneno ao Congo. O plano era envenenamento. Não chegou a ser executado porque Lumumba foi derrubado antes.
O governo belga financiou e coordenou a secessão de Katanga, a província mais rica em minerais, para enfraquecer Lumumba.
Mobutu Sese Seko, que recebeu apoio financeiro da CIA, liderou o golpe que derrubou Lumumba em setembro de 1960.
Capturado e entregue ao governo separatista de Katanga, Lumumba foi torturado por dias. Em 17 de janeiro de 1961, foi fuzilado por um pelotão sob supervisão de um oficial belga. Tinha 35 anos.
Para apagar os rastros, seus algozes dissolveram o corpo inteiro em ácido. Por décadas, tudo que restou à família foi um único dente de ouro. Em 2022, o governo belga devolveu formalmente esse dente à família Lumumba, acompanhado de um pedido de desculpas. Sem julgamento. Sem reparação. Sem responsabilização criminal.
O que veio depois
Mobutu tomou o poder prometendo "africanizar" o Congo. Na prática, concentrou a riqueza numa pequena elite e manteve o país aberto aos mesmos interesses estrangeiros que Lumumba havia tentado romper. Governou por 32 anos com apoio explícito dos Estados Unidos, que o usaram como aliado na Guerra Fria.
Décadas depois de Lumumba, a mesma lógica se repete: o leste do Congo segue em guerra, disputado por interesses internacionais atrás de cobalto e coltan, minerais essenciais para fabricar as baterias dos celulares e carros elétricos que o mundo rico consome. Ninguém, até hoje, foi responsabilizado penalmente pelo assassinato de Patrice Lumumba.
Ele governou por 12 semanas. Pagou com a vida por ter sonhado um Congo livre. E o Congo segue pagando por esse sonho até hoje.
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